Resumo: Após ver uma curiosidade sobre a forma como os gregos pediam alguém em casamento em uma aula de História, você passa a usar maçãs como uma forma secreta de flertar com Baji e ela se torna simbólica na relação de vocês.
Gênero: Romance, capítulo único, fluffy, comédia romântica, friends to lovers.
Postado também em: Wattpad e Spirit Fanfics.
━ Como vocês já sabem, a Grécia Antiga foi o berço de vários filósofos famosos que...
Sendo, de repente, tirada do transe de foco em que estava presa desde que o professor começara a explicar o conteúdo, você desviou suas orbes do quadro e voltou-as para a carteira ao seu lado, onde Chifuyu estava sentado.
Ao perceber que tinha conseguido chamar sua atenção, o loiro lhe mostrou um sorriso brincalhão e apontou disfarçadamente para a carteira logo atrás da sua. Curiosa, você olhou por cima do ombro esquerdo, uma risada fantasma escapando de sua boca logo quando viu o que era. Baji estava recostado em sua mesa, completamente alheio à aula, ele tinha caído num sono tão profundo que até mesmo babava um pouco sobre seu caderno, era uma visão digna de foto.
Após dar uma boa olhada em seu amigo, você fitou Chifuyu novamente e compartilhou um sorriso confidente com ele, ambos claramente segurando a risada.
━ Esses gregos tinham uns costumes bem diferentes dos nossos, né? ━ Um dos alunos comentou em voz alta de súbito, atraindo o interesse de todo o restante da sala, incluindo os que não estavam prestando atenção.
O professor riu, sendo claramente um fã do assunto abordado.
━ Totalmente diferente, é fascinante estudar certos hábitos deles, como por exemplo... ━ Ele fez uma pausa, fazendo suspense e despertando ainda mais curiosidade nos alunos. ━ Vocês sabiam que na Grécia Antiga, jogar uma maçã em alguém era considerado um flerte? As pessoas faziam isso para pedir seus interesses amorosos em casamento.
Um barulho coletivo de espanto dominou a sala, que se tornou barulhenta.
━ Sem chance de que eles flertavam assim!
Erguendo as sobrancelhas em interesse, você puxou sua caneta e começou a anotar em um espaço separado do caderno essa informação. Sabia que não tinha chance nenhuma daquele detalhe cair na prova, mas quis anotar mesmo assim porque achou cativante.
Mais tarde, naquele mesmo dia, o Sol lançava um brilho laranjado sobre o mundo enquanto começava lentamente a se esconder no horizonte. O céu era um enorme quadro pintado de uma miríade de cores celestiais e belas, que se misturavam e se enroscavam numa dança harmoniosa e majestosa. Era um retrato lindo de se ver.
Você, Baji e Chifuyu andavam lado a lado, rindo e se divertindo enquanto voltavam da escola para casa, assim como faziam todos os dias.
━ Ei, mas eu entendi o assunto! ━ O moreno se defendeu, dando um sorriso orgulhoso. ━ O cateto é o lado maior do triângulo losango.
Chifuyu gargalhou ainda mais alto do que antes, segurando a barriga que já estava dolorida. Você fungou e enxugou as lágrimas enquanto se recuperava do ataque histérico de risos que acabara de ter.
━ Isso aí é a hipotenusa, Baji. E é triângulo retângulo.
━ Porcaria ━ murmurou o rapaz, estalando a língua no céu da boca.
Subitamente, um vislumbre de vermelho surgiu na sua visão periférica, distraindo-lhe da interação amistosa que ainda acontecia. Parando de andar e olhando para o lado, você procurou pela fonte daquele carmesim, encontrando-a sem demora logo atrás de um pequeno muro que adornava uma casa tradicional japonesa.
Era uma macieira, uma que tinha sido plantada e cultivada bem próxima ao muro, de modo que seu tronco se inclinava ligeiramente para a rua e seus lindos frutos brilhavam contra o delicioso banhar do sol. Ela estava cheia de maçãs, todas bem maduras e vermelhas, saborosas, de dar água na boca; seria tão fácil roubar uma apenas se esticando para alcançar...
Seus olhos distraidamente pousaram nas costas de Baji, que ainda andava e já estava um pouco distante de você. Foi quando, como um lampejo de uma ideia maravilhosa, lhe veio à mente.
Baji não sabia o que aconteceria a seguir, ele simplesmente não esperava, estava totalmente desprevenido quando inopinadamente foi acertado em cheio na nuca por algo que não era exatamente duro, mas também não era exatamente macio. Uma interjeição escapou de seus lábios e sua cabeça tombou para frente.
Massageando o local prejudicado e virando-se para trás, ele encontrou você há alguns passos de distância, rindo malandramente enquanto jogava uma maçã que segurava para o ar e a aparava em seguida repetidamente.
━ Ei! Por que diabos você... ━ Ele parou de falar quando seus olhos caíram para baixo, na maçã que jazia parada próxima aos seus pés. Erguendo uma sobrancelha em confusão, Keisuke se agachou e pegou a fruta, averiguando-a por um segundo, antes de limpá-la com a manga de seu uniforme e morder um pedaço. ━ Obrigado pela maçã.
Você parou de jogar sua fruta e franziu o cenho para a atitude dele, mas então bufou e revirou os olhos.
Chifuyu, que até então assistia em silêncio, arregalou as orbes e alternou entre olhar para o Baji, olhar para a maçã que ele comia e olhar para você. Uma centelha de entendimento incendiou suas íris esverdeadas quando ele se lembrou do que foi dito na aula de história mais cedo e a expressão de choque que surgiu em seu rosto não poderia ser mais hilária.
Colocando a mão na boca e apontando para a fruta na mão de seu amigo, o jovem exclamou:
━ Você acabou de aceitar a proposta dela!
Baji, alheio ao verdadeiro significado por trás de suas ações, fitou o amigo de maneira indiferente e deu outra mordida.
━ Mas do que é que você 'tá falando, hein?
Chifuyu olhou na sua direção como se questionasse se você tinha feito aquilo mesmo, você só deu de ombros e riu.
━ Isso que dá dormir durante a aula ━ falou para o loiro, dando uma piscadela brincalhona, como se tivesse acabado de compartilhar um segredo com ele.
Baji olhou entre os dois.
Desde então, ele não teve mais sossego.
Baji simplesmente esqueceu o que era ter paz desse dia em diante, no qual você, por algum motivo que ele desconhecia, havia aparentemente proclamado guerra contra ele e entrado decididamente no campo de batalha vestida numa armadura brilhante feita completamente de maçãs.
Em todas as oportunidades possíveis que lhe surgiam, você arranjava uma dessas benditas frutas vermelhas, sabe Deus de onde — Baji já teorizou que você carrega um exército delas na sua bolsa, o que, é óbvio, não faz sentido nenhum, mas ele tem certeza absoluta de que é o caso — e joga com força total nele, acertando em cheio sempre, e você estava com a proeza de conseguir fazer isso todos os dias.
No início, Keisuke ficou realmente confuso com sua atitude, chegando a se questionar se tinha feito algo para te irritar tanto ao ponto de te motivar a agredi-lo constantemente, mas ao observar a maneira como tanto você quanto Chifuyu sempre se espocavam de rir ao final do pequeno ataque, ele deixou a ideia de lado e passou a levar isso como uma nova brincadeira dinâmica que surgia no trio.
Até que, em algum momento entre o intervalo de dias, semanas, mais ou menos dois meses que se passaram, aquilo simplesmente se tornou uma competição entre vocês dois e Chifuyu era o juiz não proclamado da coisa toda. Sua atitude, antes considerada estranha e inesperada, começou a ser vista como normal e até mesmo esperada, uma parte divertida do cotidiano de Baji.
Ele agora reagia de maneira mais atenta aos seus ataques, algumas vezes tentando desviar (e falhando), outras vezes levantando a mão e aparando enquanto prosseguia com o que quer que estivesse fazendo sem nem mesmo desviar o olhar, outras vezes ele seria um completo idiota e tentaria pegar a maçã com a boca; mas de qualquer forma, não importava quantos dias tivessem se passado ou quantas vezes você já tivesse feito aquilo, Baji sempre aceitava e comia a sua fruta, e infelizmente, para o seu consternamento, esse detalhe fazia seu coração palpitar e se agitar no peito feito o pobre iludido que era.
Mas é claro que palpitava! Como não palpitaria quando você estava, obviamente, certamente e indubitavelmente flertando com Baji descaradamente? No início, você disse para si mesma que era apenas uma brincadeira engraçada e inocente, mas no fundo, sabia que não era; viu na ignorância do rapaz sobre o assunto, a oportunidade perfeita para se declarar sem usar palavras e sem correr o risco de ser rejeitada, porque ele não sabia que era uma declaração, ele não tinha nem ideia, aquele tolo.
E você se aproveitou desse fato para manifestar de alguma maneira os sentimentos que estavam há muito reprimidos em seu peito. Foi de uma maneira covarde, mas ainda assim foi de uma maneira. Você não aliviou a pressão de nutrir aqueles sentimentos com palavras, porém arranjou um jeito de fazer isso com maçãs, e embora soubesse que Baji não considerava o seu gesto algo romântico e que ele via como nada mais do que uma competiçãozinha boba e amistosa, você não conseguia evitar de sentir seu batimento cardíaco acelerar sempre que ele afundava os dentes na fruta, de sentir uma fagulha de esperança se acender no fundo do seu âmago que, talvez, aquilo significasse algo mais.
Porque toda vez que mordia a maçã, Baji aceitava a sua proposta de relacionamento, mas ele nunca, em nenhuma das vezes, aceitou de maneira consciente. E você, idiota como era — porque certamente só poderia ser idiota para continuar com aquilo —, prosseguia arremessando as maçãs nele, de novo e de novo, ainda na esperança de que uma hora ele perceba que não se trata só de um gesto inocente.
Baji não notava, é claro. E ainda assim, você insistia em continuar, você o cortejava todos os dias sem falta.
Era isso, você estava perdida. Não tinha mais salvação para (Nome) (Sobrenome).
━ Até quando pretende continuar fazendo isso?
Com um suspiro, suas orbes saltaram do seu caderno para o rosto de Chifuyu, que estava sentado ao seu lado nas arquibancadas do campo de educação física da escola. Alguns fios dourados e selvagens de seu cabelo festejavam no rosto do rapaz, embalados pela brisa suave da manhã que os envolvia.
Apoiando o queixo na mão, você o observou em silêncio por um momento, então desviou o olhar e fitou o verde limpo e energético do campo, antes de fitar a construção da escola de vocês como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
━ Não sei do que está falando.
Chifuyu franziu as sobrancelhas e fez uma careta típica de "você está ofendendo a minha inteligência se acha que isso vai funcionar".
━ Você sabe muito bem do que eu 'tô falando!
━ O clima de hoje está uma maravilha, hein?
Você grunhiu enquanto olhava para o céu. Não tinha como fugir de Chifuyu Matsuno; ainda mais quando ele obviamente já sabia o que até mesmo um micróbio no chão deveria saber a essa altura.
━ Não sei... ━ respondeu por fim, deixando os ombros caírem e voltando sua atenção para a atividade que antes fazia no caderno.
Chifuyu te observou por um momento, como se analisasse algo.
━ Você faz isso só para zoar com o Baji ou...?
Os olhos dele se arregalaram com a sua admissão.
━ Então você realmente está cortejando ele igual os gregos faziam!? Tipo, de maneira séria mesmo?!
Você aquiesceu com a cabeça, dando de ombros enquanto sentia uma certa pontada de vergonha te atingir.
Boquiaberto, Chifuyu apenas negou com a cabeça, precisando de um tempo para processar o fato de que todas as teorias dele estavam, de fato, certas.
━ Sabia que você não estava fazendo isso só por zoação! ━ exclamou como se tivesse acabado de acertar os números da Mega-Sena, com um sorriso que ia de uma orelha a outra e dando uma batidinha na própria coxa.
Você só bufou e resmungou algo para si mesma, alguma reclamação qualquer enquanto tentava voltar a focar na tarefa escolar que ambos haviam se juntado para fazer ali no campo.
Para a sua inquietude, Chifuyu não parecia nada interessado em voltar a se concentrar na tarefa. Bom, azar o dele, porque você já estava na última questão.
━ Mas você sabe que Baji não faz ideia do que significa o lance da maçã, né?
━ É óbvio que eu sei, ele estava mais inconsciente do que um cadáver naquela aula.
━ Então, de que adianta você todo dia se declarar para ele, se ele não sabe que é uma declaração?
Empertigou-se com aquela pergunta e hesitou por um momento, mas depois voltou a escrever, não se dando ao trabalho de olhar na direção de seu companheiro.
━ (Nome), você deveria parar de enrolar e confessar de verdade o que sente por aquele bocó, porque já 'tá mais do que na cara que os dois... ━ ele se interrompeu, piscando algumas vezes e respirando fundo enquanto passava a mão no rosto. ━ Não. Não cabe a mim falar nada.
Você o olhou de soslaio e ergueu uma sobrancelha.
━ Você poderia pelo menos explicar para ele como funciona! É injusto da sua parte deixar ele por fora disso, Baji tem o direito de saber sobre sua proposta.
━ Hm. ━ Foi tudo o que respondeu.
Juntando as mãos no próprio colo e se inclinando na sua direção, Chifuyu suspirou e abaixou a cabeça, murmurando de maneira desanimada:
━ Se continuar nesse ritmo, vocês nunca vão avançar para a próxima etapa...
O silêncio caiu sobre ambos, o som do vento, acompanhado de conversas longínquas de outros alunos e do barulho baixo da sua caneta contra o papel, foram os responsáveis por embalar a audição de vocês por um longo tempo. Até que você largou a caneta de lado e levantou o rosto.
Ele ergueu a cabeça num movimento repentino.
━ Se contar para o Baji, eu mato você.
Foi a vez do Chifuyu se empertigar.
━ Sim... ━ Uma gota d'água deslizou lentamente pela cabeça do rapaz.
Silêncio novamente... dessa vez, o que o abafou foi o som das páginas do caderno de Chifuyu sendo viradas.
━ Achou a resposta da quatro?
Você olhou para ele e depois releu a questão mencionada.
━ A resposta dessa 'tá no livro, na página 45.
Ele soltou um barulho de compreensão e abriu o livro de história que jazia esquecido ao seu lado.
━ Ah, achei vocês! ━ Uma voz se manifestou de repente, atraindo a atenção de ambos. ━ O que estão fazendo aí?
Derrubando as orbes na figura de Baji que se aproximava de onde estavam, você deu um pequeno sorriso amigável, ignorando o aumento quase instantâneo de seu ritmo cardíaco.
━ Oi, Baji. Estamos fazendo a atividade de revisão que o professor de história passou para hoje ━ Chifuyu respondeu, abrindo um sorriso animado ao ver seu melhor amigo.
━ Entendi... Então tinha atividade para entregar hoje ━ murmurou mais para si mesmo do que para vocês, parecendo não se importar muito com esse fato, mas então os olhos dele se arregalaram e algo pareceu clicar em seu cérebro. ━ Espere... atividade de revisão?! Revisão?! Tipo, revisão de prova?!
Você concordou com a cabeça, antes de elaborar:
━ Sim, a atividade em si é a revisão da prova.
━ Vai ter prova?! Quando?! ━ O desespero tomou conta do moreno, que colocou a mão na cabeça em completa agonia.
━ O quê?! Meu Deus do céu, mas isso é amanhã!
━ Ué, Baji. Você não sabia? Isso foi avisado semana retrasada... ━ Chifuyu franziu o cenho em confusão, ficando pensativo por um momento muito breve, antes de apertar os olhos de maneira desconfiada na direção do jovem. ━ Estava dormindo durante a aula de novo, não estava?
Baji fitou Chifuyu sem cerimônia alguma e, com uma expressão muito séria, admitiu:
━ Eu sempre durmo nas aulas de história.
O loiro soltou um suspiro e fez uma careta.
━ Você tem sorte de o professor não te notificar por isso.
Ignorando o comentário do amigo, Baji lamuriou-se com uma expressão aflita, apresentando uma reação semelhante ao que uma pessoa teria ao receber o pior tipo de notícia possível.
━ Cara, o que eu faço agora? Não anotei quase nada que ele passou nesse bimestre! ━ Botando uma mão na cintura e a outra na testa.
Você revirou os olhos, deixando escapar um sorriso fantasma. Não era novidade esses desesperos de Baji em situações de pré-prova, também não era novidade a falta de conteúdos no caderno dele.
━ Eu te empresto o meu caderno, se você quiser. Fiz anotações da aula e grifei as partes mais importantes enquanto revisava, você pode estudar por ele ━ sugeriu enquanto levantava o objeto e o balançava suavemente em um convite.
Os olhos do rapaz praticamente brilharam em alívio, como se você tivesse acabado de salvá-lo de uma enrascada.
━ Sério mesmo? Eu posso? ━ perguntou, embora já estivesse estendendo a mão para pegá-lo. ━ Mas e você?
━ Eu já terminei a atividade, fique à vontade ━ assegurou gentilmente.
Baji deu uma olhada breve e rápida nas anotações antes de fechar o caderno e se curvar na sua frente de maneira dramaticamente agradecida.
━ Você é um anjo enviado do céu para me socorrer, obrigado!
━ E lá vai você de novo se garantindo nas anotações da (Nome) ━ comentou Chifuyu, se divertindo com a situação.
━ É bom você me devolver esse caderno acompanhado de um dez na prova, ouviu?
Baji enrijeceu instantaneamente com o pedido.
━ Eu não posso prometer um dez, mas eu prometo um sete!
Você cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha para ele, que coçou a nuca de maneira ligeiramente nervosa e tentou de novo:
━ 'Tá bom, sete e meio então.
Sentiu vontade de negar a oferta, mas no fim você acabou apenas rindo dela e deixando para lá.
Mais tarde, naquele dia. Quando o Sol já havia saído de cena e a Lua encantava com o seu brilho resplandecente no céu, Baji se encontrava aconchegado no conforto do seu quarto, sentado na cama e com o caderno na mão.
De maneira corajosa, como se estivesse prestes a abrir o portão de um castelo infestado de monstros sedentos que estavam se preparando para pular no pescoço dele assim que surgisse a chance, Baji abriu o caderno, engolindo em seco.
━ Muito bem, vejamos o que temos aqui... ━ murmurou para si mesmo enquanto começava a ler as partes grifadas com marca-texto.
Ele permaneceu ali parado, absorto na leitura, por longos minutos, até entender mais ou menos o básico do assunto e começar a conversar mentalmente consigo mesmo numa tentativa pouco esforçada de decorar algumas informações. Durante toda essa onda de silêncio que preenchia o quarto, era possível ouvir o ruído abafado da novela que sua mãe assistia na sala.
Quando se deu por satisfeito, avançou nas anotações e as leu silenciosamente, até o momento em que suas íris bronzeadas se depararam com algo que o chocou tanto, que ele precisou reler mais uma vez em voz alta para ter certeza de que havia entendido corretamente.
━ "Na Grécia Antiga, era costume jogar uma maçã na pessoa para pedi-la em casamento"... Quê?! ━ Ele apertou os olhos, antes de afastar o caderno do rosto e fazer uma expressão chocada. ━ Fala sério, que coisa mais estranha! Por que ela anotou isso? Não acredito que uma informação besta dessas vai cair na pro... espera um momento aí.
Baji ergueu uma sobrancelha, permanecendo em um silêncio pensativo enquanto conectava as peças lentamente.
Quando a última peça se encaixou naquele quebra-cabeças, o moreno arregalou os olhos — não só arregalou, esbugalhou — e gritou, pulando para fora da cama.
Barulhos pesados e apressados de passos foram escutados fora do quarto, antes que a mãe de Baji abrisse a porta em um baque repentino e examinasse o quarto com uma expressão assustada.
O jovem a fitou, então voltou a fitar o caderno largado no colchão, as mãos na cabeça em absoluto choque.
━ Não acredita no quê?! O que aconteceu, filho?!
━ Como não notei isso?! O Chifuyu ainda me deu dicas do que 'tava rolando! ━ exclamou, tampando o rosto com as duas mãos e grunhindo.
Semicerrando os cílios, a mulher encostou a mão na borda da porta e analisou seu filho, percebendo que ele só estava tendo mais algum tipo de surto dramático da adolescência, aparentemente.
━ E eu aqui preocupada... ━ suspirou, observando-o andar em círculos pequenos enquanto murmurava coisas incoerentes em voz baixa. ━ Meu Deus, meu filho endoidou.
Na manhã seguinte, Baji foi para a escola com uma determinação inabalável e um andar que o fazia parecer que estava prestes a atravessar um rio inteiro nadando e enfrentar três jacarés e uma cobra no processo, tudo isso só com os punhos e os dentes. Ele estava tão focado no objetivo, que em seu rosto havia uma carranca profunda — responsável por ter assustado várias idosas no caminho que o compararam com um rottweiler agressivo, pronto para morder qualquer um que se aproximasse demais.
Aonde quer que passasse, as pessoas iam se afastando como se ele fosse uma gota de óleo em um recipiente cheio de água, temendo por suas vidas enquanto desviavam o olhar e suspiravam. Uma áurea de determinação intensa o rodeava de tal maneira, que quem o via, achava que ele era alguma espécie de John Wick japonês, caminhando em câmera lenta ao som de "Story Of Wick" enquanto ia rumo aos seus rivais mais odiosos para socá-los na cara.
Mal sabiam eles que Baji era só um romântico que acabara de descobrir uma informação encantadoramente inesperada e que tinha consigo apenas uma maçã, uma mochila e um sonho — e também uma preocupação maçante com a prova que era para ele ter estudado na noite anterior, mas não conseguiu porque ficou ocupado demais pensando. E, sim, ok, ele também era um delinquente, mas isso era história para outro dia.
Você, completamente alheia ao que acontecia, estava tranquilamente no telhado da escola, observando a paisagem e os alunos atrasados correndo pelo pátio. Encostada na grade, sentiu o vento acariciar seu rosto enquanto revisava mentalmente os assuntos que cairiam na prova. Estava tão absorta na tarefa que nem notou quando a porta atrás de si foi bruscamente aberta.
A última coisa que você sabe é que estava tentando lembrar o que acarretou a Guerra do Peloponeso quando, subitamente, sentiu algo acertar a sua nuca com força, te atordoando.
Virando-se para trás, você se surpreendeu ao encontrar Baji em toda a sua glória parado há poucos metros da sua figura, parecendo super concentrado, mas se surpreendeu ainda mais ao ver o que ele havia jogado na sua direção. Seu coração quase falhou no seu peito e você prendeu a respiração enquanto seus olhos se grudavam na forma avermelhada da maçã, uma quantidade extenuante de esperança florescendo no seu âmago.
Será que... ele finalmente...?
Você deu um breve e imperceptível balançar negativo de cabeça.
Não, ele provavelmente...
━ Decidiu revidar os meus ataques? ━ Terminou seu pensamento em voz alta, forçando o seu lado esperançoso a calar a boca e ficar quieto. Você pegou a fruta e a analisou por um momento, antes de começar a jogá-la de uma mão para a outra. ━ Achei até que demorou para reagir, levando em conta que você é você.
Baji deu um sorriso presunçoso e se aproximou, apoiando-se ao seu lado na grade.
━ Conseguiu estudar? ━ perguntou após um momento de puro e simples silêncio, sem olhar para ele.
━ Mais ou menos. ━ Você praticamente conseguiu ouvi-lo dando de ombros.
Você soltou um suspiro e apertou os olhos, rindo de maneira soprada.
Traduzindo 'mais ou menos' na linguagem do Baji: Dei uma lida superficial e fechei o caderno enquanto dizia de maneira orgulhosa: "Enfim, fiz o que pude" e fui comer.
━ Entendi... ━ murmurou, conhecendo bem o amigo que tinha.
Mais nenhuma palavra foi dita após essa. O vento se manifestou ao redor e assobiou levemente contra seus ouvidos, tentando quebrar o gelo que inconscientemente se formou ali, com Baji completamente e perfeitamente parado, estático, olhos fixos de maneira intensa na sua figura, sem piscar, sem desviar, como se fosse um policial avaliando um suspeito e meditando se ele é ou não o criminoso. Você era a suspeita, um passo em falso seu e o policial te descobria.
Firme na posição em que estava, você também não desistiu, permaneceu observando o pátio, não cedendo em momento nenhum ao olhar intenso de Baji e muito menos o correspondendo; estava decidida a ignorar implacavelmente aquela expressão dele de: "eu sei algo que você não sabe" e fingir que estava tudo normal, embora o ar que os envolvia insistisse em berrar o contrário. Então, era esse o jogo da vez: você olhando para frente, Baji te encarando, você sabendo que Baji estava te encarando e ignorando isso, Baji sabendo que você sabia e também ignorando isso.
Os dois, teimosos feito uma mula, não cederam na pequena guerra que se formou por longos, longos minutos, até que o moreno finalmente decidiu quebrar o silêncio e falar algo, impaciente demais para prosseguir com o jogo do você-me-olha-eu-desvio.
━ Não vai comer a maçã? ━ perguntou com uma voz arrastada, descansando a bochecha na palma da mão e apertando as pálpebras na sua direção. ━ Eu aceitei todas as suas propostas e você está me rejeitando agora? Um pouco tarde para voltar atrás, não?
Você se atrapalhou com a maçã na mão e por pouco não a deixou cair.
━ O que...? ━ Levantando a cabeça e o fitando com uma expressão similar à de alguém que acabou de ver um crocodilo dar à luz a uma capivara, você sussurrou, quase escandalizada.
Ele observou atentamente o seu rosto, como se o estudasse.
━ Que foi? ━ Erguendo uma sobrancelha, ele hesitou, coçando o queixo pensativamente. ━ Eu errei? Era ao comer que aceitava a proposta mesmo?
Você não teve reação, você simplesmente não teve reação nenhuma além de congelar no lugar e o encarar como um cervo na frente de um carro com farol ligado.
━ Por que você 'tá me olhando assim?
Seu lábio inferior tremeu, um rubor surgindo vagarosamente no seu rosto conforme a percepção caía com a força de uma fornalha sobre você.
Ele abriu um sorriso arrojado, seus caninos afiados ficando orgulhosamente à mostra.
━ Que você tem me pedido em casamento esse tempo todo? Sim, estava escrito algo sobre os gregos fazerem isso no seu caderno.
━ Ah... ━ Foi a única coisa que saiu de seus lábios enquanto você se xingava mentalmente.
Seus olhos pousaram na fruta que brilhava em um carmesim atraente e inocente. Você piscou, seu coração conseguiu a proeza de acelerar ainda mais e um calor subiu do seu pescoço até o seu rosto.
Espera, se ele sabe, então ele acabou de... Sua linha de pensamento foi interrompida bruscamente por Baji, que cruzou os braços e se inclinou para frente, ficando cara a cara com você, que sentiu a respiração dele pairar perigosamente perto da sua pele.
━ Não vai aceitar o meu pedido? ━ perguntou mais uma vez, sua voz mais baixa agora. ━ Sei que pela quantidade de vezes que fizemos isso, já deveríamos estar nos chamando de marido e mulher ou coisa assim, mas só vamos poder oficializar de verdade quando a proposta acontecer em um momento que os dois sabem o que ela é, né?
Naquele instante, se colocassem um ovo na sua bochecha e deixassem por 3 a 5 minutos, tirariam ele de lá já cozido.
Você voltou a olhar para a maçã, ela estava intocada e parecia zombar de você, te desafiando a mordê-la de verdade. O peso do seu significado pairou sobre seus ombros, ela não era mais uma mera brincadeira, para nenhum dos dois.
E, para o seu completo choque, Baji ainda estava aqui mesmo depois de ter descoberto isso, fazendo a proposta ele mesmo — para o seu segundo completo choque.
Você titubeou, mãos trêmulas e rosto queimando em constrangimento por ter sido pega no pulo do gato, mas não só por isso, seus sentimentos haviam sido expostos sem aviso prévio e de maneira inesperada, agora você não tinha esconderijo algum à sua disposição, estava vulnerável na frente do motivo de seus devaneios e suspiros apaixonados, e ele estava simplesmente ali, lhe fazendo uma pergunta, a mesma pergunta que você vinha secretamente fazendo a ele.
Aquilo era um pedido, mas não um pedido qualquer, era um que você ansiou com todas as suas forças, por isso, você reprimiu os lábios, seu coração bombeando sangue feito louco, juntou coragem e mordeu a maçã, sentindo o suco dela invadir seu paladar em uma explosão doce e suave. Você conseguia sentir Baji assistindo, olhando cada pequeno movimento do seu corpo, que praticamente queimava sob a atenção enfática dele.
Seu maxilar se mexeu sem pressa alguma enquanto você mastigava, a grandeza do significado daquele simples gesto pesando, e quando você engoliu o pedaço, as mãos de Baji saltaram na sua direção sem perder tempo.
A maçã caiu da sua mão e rolou no chão, você teria ido pegar a pobre coitada, se não fosse pelos braços malhados — e sim, essa foi a primeira coisa que você reparou — que te enjaularam no lugar.
Uma boca macia e quente cobriu a sua antes que você pudesse raciocinar e sua mente ficou em branco por um momento enquanto Baji te beijava. Quando a onda de surpresa passou, você começou a corresponder o beijo, a princípio timidamente, mas conforme o dançar de lábios se desenrolava, você ganhava mais confiança.
Em algum momento, as mãos de Baji deixaram de te abraçar e se alojaram na sua cintura. Elas permaneceram lá, firmes e quentes, como se sempre tivessem pertencido ali e você, que até então estava com os braços pairando no ar, lembrou-se da existência deles e os relaxou, apoiando suas mãos no peitoral do jovem.
Elas não só se apoiaram, elas se espalmaram, criaram vida própria, enrolaram o tecido do uniforme contra os dedos ansiosamente.
E quando ele se afastou, testa colada na sua e sorriso altivo que seria totalmente capaz de elencá-lo como Jacob Black de algum novo filme do Crepúsculo, você sentiu suas pernas bambearem.
━ Já posso pegar seu celular e trocar o nome do meu contato para "namorado mais gostosão e sexy de todos" com três corações no final ou ainda está cedo demais para isso? ━ ele falou, quebrando o encanto do beijo com uma risada gutural.
Você franziu o cenho, mas não conseguiu evitar o sorriso apaixonado que seus lábios traidores abriram para ele.
━ Idiota... ━ murmurou, sentindo o cheiro do perfume dele tomar conta de seus sentidos.
O rapaz levantou uma das mãos e tocou na sua bochecha, deslizando as costas dos dedos pela sua pele, antes de se acomodar carinhosamente lá, seu polegar traçando movimentos suaves e circulares.
━ Diga para mim ━ pediu, o sorriso se foi. Ele te olhou nos olhos, não com presunção, nem com diversão, apenas com amor, carinho e seriedade.
Você cantarolou em resposta, observando o tom bronzeado de suas íris, que pareciam brilhar no banhar da luz solar, cativante.
━ Diga em voz alta o que sempre me dizia silenciosamente quando jogava uma maçã em mim.
Você desviou o olhar, ainda corada, feito a boba apaixonada que era. Com um toque leve, Baji segurou seu queixo e o ergueu para que você voltasse a vê-lo, encorajando-a silenciosamente.
Você abriu a boca e respirou por ela, fitando-o enquanto puxava coragem do mais profundo do seu ser para deixar as palavras saírem.
Vocês ficaram parados, se olhando. O silêncio se instalou e se estendeu entre ambos.
━ Estou apaixonada por você. ━ As palavras escaparam de algum lugar escondido nas suas vísceras em um sussurro que era apenas um pouco mais alto do que o vento brando da matina.
O canto dos lábios de Baji se enrolou para cima em uma ternura que você só tinha o visto ter com gatos. Ele beijou sua testa, alcançou uma de suas mãos no peito dele e entrelaçou-as de maneira reverenciável, selando seus lábios em mais um beijo depois disso, um mais demorado, apaixonado, meigo.
━ E eu estou te amando. ━ falou assim que se afastou de você, dotado de uma calmaria que fazia parecer que aquilo era a coisa mais simples e óbvia do mundo, como se sempre tivesse sido assim.
Você soltou um suspiro para aquela declaração, seu coração praticamente aplaudindo-o. Baji jogou um braço preguiçoso no seu ombro e a puxou para si, sorridente.
━ Depois dessa história toda, a gente merecia comer uma maçã do amor ━ sugeriu, animado.
Você riu, uma risada espontânea e genuína.
Ele olhou para o seu rosto por um momento, um resquício de animação brilhando em suas orbes.
━ Ok, 'tá decidido. Vamos matar aula hoje e ir passear.
Em algum lugar dentro da escola, o professor de história travou dramaticamente no meio do corredor e colocou a mão no coração, sentindo um mau presságio.
━ O quê?! De jeito nenhum, Baji! Precisamos fazer a prova! ━ você argumentou, encarando seu agora namorado com uma expressão de reprovação.
Ele encolheu os ombros, devolvendo a sua expressão com uma traquina.
━ Só quem se arrisca merece viver o extraordinário.
Mordendo o lábio inferior enquanto se deleitava com o fato de esse completo pateta em forma de delinquente com 1,75 de altura ter se tornado seu para lidar — e também se repreendendo por estar pensando nisso enquanto ele sugeria a pior ideia possível para quem queria passar de ano sem complicações —, você balançou a cabeça em negação, um sorriso ladino nos lábios.
━ Se você continuar desse jeito, o único extraordinário que vai viver é o de reprovar.