ACREDITAR QUE O MUNDO É UM LUGAR JUSTO PODE FAZER DE VOCÊ UMA PÉSSIMA PESSOA
-> A compaixão que você sente ou deixa de sentir por essa mulher provavelmente depende se você acredita que o mundo é um lugar justo. (Foto: Alamy. Foto e legenda reproduzidas como na coluna de Oliver Burkeman no jornal The Guardian)
“ACREDITAR QUE O MUNDO É UM LUGAR JUSTO PODE FAZER DE VOCÊ UMA PÉSSIMA PESSOA”
Essa afirmação não é minha mas concordo com ela, então a reproduzi emprestada do título de um artigo publicado no jornal britânico “The Guardian”, pelo colunista e psicólogo Oliver Burkeman, aqui o original, em inglês.
Na coluna do dia 03 de fevereiro de 2015, Oliver afirma que, quando nos deparamos com uma injustiça, tentamos aliviá-la mas, se não conseguimos, fazemos a próxima melhor coisa do ponto de vista psicológico: culpar a vítima.
A princípio essa afirmação pode parecer um tanto forte e até exagerada mas analisando algumas situações do cotidiano, facilmente comprovamos que o Sr. Oliver está correto. Um exemplo bastante recorrente é culpar vítimas de abuso sexual, como se a vítima tivesse provocado seu triste destino.
Todo o artigo do Sr. Oliver Burkeman baseia-se no estudo de um psicólogo chamado Malvin Lerner, que conduziu um estudo na década de 60 e que Burkeman referencia em sua coluna com esse link:
Traduzi abaixo o resumo e resultado do experimento, escrito por Nicholas Hune-Brown.
“A MONSTRUOSA CRUELDADE DE UM MUNDO JUSTO
É fácil querer acreditar que tudo acontece por uma razão, mas como isso afeta o modo como tratamos as pessoas que o universo puniu? (por Nicholas Hune-Brown)
Na década de 1960, um psicólogo social chamado Melvin Lerner notou algo perturbador sobre seus colegas. Os terapeutas de seu hospital – geralmente pessoas tão boas e simpáticas – pareciam não ter coração diante de alguns de seus pacientes mentalmente doentes, provocando e levando-os ao limite durante as sessões, descrevendo os vulneráveis e perturbados como indolentes manipuladores. Por que esses profissionais, geralmente tão gentis e compassivos, estavam tratando os pacientes como se, de algum modo, eles merecessem suas doenças?
Lerner começou a conduzir uma série de experimentos incomuns para descobrir o por quê. No campus da Universidade do Kansas, ele fez com que indivíduos observassem uma mulher ser submetida por uma série de testes. Quando a mulher (que parecia um indivíduo como parte do teste, quando na verdade era uma aluna de graduação atuando) errava uma questão, ela recebia uma descarga elétrica. Enquanto os indivíduos observavam, as descargas tornavam-se mais severas. Ela se contorcia de dor. Gradualmente ficava mais claro: eles estavam testemunhando uma mulher ser brutalmente torturada.
Os voluntários estavam compreensivelmente angustiados. Quando tinham a opção de mudar o experimento, a grande maioria escolhia acabar com os choques elétricos. Quando não lhes era dada essa opção, no entanto, Lerner testemunhou uma reação perturbadora. Enquanto os participantes continuavam a assistir, incapazes de alterar o destino da vítima, eles passaram a depreciar a mulher. Grupos diferentes eram informados que ela estava recebendo diferentes quantias de dinheiro para participar do experimento. Quanto mais baixo o pagamento informado, maior a antipatia dos voluntários pela mulher “torturada”. Irracionalmente, sem evidência que assim comprovasse, os observadores se convenceram de que a mulher merecia aquela punição.
Os resultados, argumentou Lerner, refletiram o resultado do que ele chama de “crença num mundo justo” – a tendência natural de enxergar o universo como um lugar essencialmente justo. Quando apresentadas a uma óbvia injustiça, tentamos resolvê-la: acabamos com o cruel experimento, curamos o paciente, libertamos o homem inocente da prisão. Quando não podemos mudar as coisas, no entanto, ao invés de abandonarmos nossa crença na retidão essencial do universo, começamos a racionalizar a injustiça.
A visão de uma mulher sofrendo sem nenhuma esperança de compensação foi simplesmente incompatível com um mundo justo; a fim de conciliar esses dois fatos, os observadores irracionalmente decidiram que ela deveria ter feito algo para justificar sua punição. Os experimentos, que Lerner expandiu ao longo das décadas seguintes, foram investigações a respeito desse impulse humano fundamental consagrado em religiões antigas, banalidades da nova era e inúmeros clichés: a crença de que as pessoas têm o que merecem, que o que vai, volta, que as galinhas inevitavelmente voltam para o poleiro.
Isso é, obviamente, uma mentira – a vida é injusta; galinhas vagam por todo lugar – e, mesmo assim, essa crença mantém-se extremamente poderosa. Desde os experimentos de Lerner, a “crença em um mundo justo” (“belief in a just world” ou BJW), foi testado contra uma variedade de atitudes e ações. Mostrou-se que as pessoas que acreditam fortemente num mundo justo estão propensas a culpar as vítimas de agressão sexual, são mais propensas a falar mal de pessoas que sofrem de doenças menos graves, tem menos compaixão por vítimas de maus tratos. Um estudo de 1975 [pdf] descobriu que BJW (crença num mundo justo) está correlacionado com inclinação ao autoritarismo, admiração a líderes políticos e desprezo pelos menos favorecidos.
Em um estudo recente, publicado no Policy Studies Jpournal, os pesquisadores descobriram que pessoas que acreditam num mundo justo são menos propensas a apoiar programas de ação afirmativa, como os que controlam raça, sexo, educação e renda.
Se você acredita que o sucesso é consequência de trabalho duro e que as pessoas têm o que merecem, você não está propenso a apoiar programas de contratação preferencial para mulheres e outras minorias.
O que é fascinante na crença do mundo justo, é o quanto ela pode parecer natural e necessária.
Como escreveu Lerner: “A crença de que o mundo é justo capacita o indivíduo a encarar seu ambiente físico e social como se fossem estáveis e organizados. Sem essa crença seria difícil o indivíduo comprometer –se com a busca de um objetivo a longo prazo ou até mesmo com o comportamento socialmente regulado da vida cotidiana.”
As pessoas acreditam num mundo justo pois é demais aceitar os caprichos do universo. A crença em um mundo fundamentalmente justo – um lugar onde é improvável que você seja assassinado a não ser que seja membro de uma gangue, é improvável que vá à falência a não ser que seja um tolo, é improvável que seja estuprada a não ser que esteja “pedindo por isso” – é um conforto.
É um modo de manter a ilusão vital que nós, os saudáveis e prósperos, não somos apenas sortudos mas, de algum modo, somos merecedores. Todos querem viver num mundo justo. Se esperamos um dia alcançá-lo, o primeiro passo é superar esse pensamento mágico que insiste que esse mundo já existe.”