Talvez você ainda goste dele, mas quem admite algo assim? Ele falou a alguns amigos que quase te ligou semana passada, mas contou só depois daqueles vários copos de cerveja. Você até passou pela frente da casa dele ainda ontem, mas não parou, não buzinou, não esperou. Ele acha que te viu na rua, parecia muito você, “era o jeitinho igual de andar”, ele disse, mas até hoje não sabe se era ou não. Você quis muito, quis até mais do que deveria, mas naquela altura dos dias preferiu nem contar mais. Ele sentiu, até chorou num sábado desses depois que todos amigos foram embora do apartamento, mas nunca contou para ninguém. Você diz que tem um casinho ou outro por aí, que “até tem gente legal pra se conhecer”, mas agora a prioridade são os seus sonhos, a sua vida em particular. Ele segue jogando com os amigos nas quintas, querendo pizza nas sextas, mas mudou o cabelo desde que a irmã disse que ele precisava ter um ar mais descontraído. Você experimentou ir ao cinema sozinha pela primeira vez na semana passada e poucas vezes gostou tanto da solidão como naquele momento. Mesmo assim, ainda compra pipoca para dois. Ele pensou em viajar no próximo ano, ganhar novos ares, viver experiências novas, mas lembrou que esse foi um sonho que sonharam juntos. É como se você tivesse comprado uma passagem só de ida para Nova Iorque e ele para Tóquio, ainda que os dois preferissem Roma. Mas não souberam, nunca souberam.