Limitou-se a observá-la, com aquele olhar que sempre carregava mais palavras do que sua boca ousava pronunciar. Era curioso — e talvez cruel — como as dores mais íntimas os uniam, trágico que fossem tão similares, que se reconhecesse até mesmo na dor. Por outro lado, Angus não poderia negar que se sentia grato por ser justamente ela a pessoa que compreendia seus anseios, que tratava suas dores como próprias, assim como ele fazia. Assentiu, mesmo que soubesse que aquele gesto continha muito mais do que um simples acordo. Era uma aceitação resignada do que o destino — ou talvez a própria família — havia costurado para os dois. “Não sei a constância é tão aceitável assim. Por vezes me parece que a constância de Hellen está atrelada a pura ausência de sentimentos. E eu esperava que pelo menos uma vez ela me surpreendesse e fizesse um movimento contrário.”, quem sabe assim, demonstraria algum resquício de humanidade, algum fio de sentimento, mesmo que fosse por si mesma. A quebra no assunto foi recebida de bom grado, como se um peso abandonasse seus ombros no instante em que o toque suave de Deirdre se fez presente sobre sua própria mão. Um sorriso largo e gentil desabrochou nos lábios do Delaunay, seus olhos permaneceram fixos as íris de outrem. “Espero que tenhamos mais do segundo, do que do primeiro.”, afinal eles mereciam isso, e ele já tinha passado uma vida inteira no primeiro, precisava de um respiro de alívio, algo de bom na sua vida e instantes como aquele, com Deirdre, era tudo que ele mais queria.
Seu sorriso quase perdeu-se numa risada divertida ao ouvir as palavras da menor. Existia alguma descrença por parte de Angus, pois ele não conhecia o lado obscuro de Deirdre, mesmo com o relato recente do primeiro amor e tudo que se sucedeu, não compreendia ela como sendo a malfeitora. “Desculpe, ainda me é difícil imaginar que poderia me fazer algum mal, pelo menos não conscientemente. E ainda assim, teria que ser algo muito grave para me afastar.”, nem mesmo Sigrid que tinha lhe ofendido em níveis inimaginais, conseguiu conquistar o desprezo do Delaunay, quem dirá Deirdre que sempre foi alguém de sua estima, por quem tinha afeito e consideração. Não, ela realmente teria que fazer algo muito grande para tirá-lo de sua vida, e ainda assim, não conseguiu evitar o impulso que percorreu seu corpo, fazendo-o encostar a testa na dela por curtos segundos. “Jamais suportaria perder você por completo.”, confessou num sussurro baixo, intimo. O toque suave de outrem veio como uma quebra de temperatura sobre a pele de Angus, sempre tão fria e gelada, parecia entrar em combustão quando Deirdre o tocava, espalhando as ondas de calor pelas extremidades, até o centro do peito que se aquecia por completo.
Absorto na sensação que lhe despertava e no momento que partilhavam, Angus sentia como se o tempo desacelerasse naquele instante, tanto que não se deu conta do tempo em que passaram em silêncio até que esse fosse quebrado por outrem. Seus olhos tornaram a se abrir, as íris bicolores encontrando as de tom âmbar da ruiva, conseguia sentir o peso em seu olhar, o quanto lamentava o ocorrido do passado e, pelos deuses, como ele queria tirar aquele peso dela. “Realmente não deveria. Não tem que ser assim.”, não era sua responsabilidade o que aconteceu, mesmo que em seu lugar, Angus agiria na mesma forma, “Nem mesmo seu irmão é responsabilidade sua. Ele já é grande o suficiente para se responsabilizar pelas coisas que faz, Deirdre, para lutar suas batalhas.”, era fácil que falasse, quando ele mesmo se colocava como escudo de suas irmãs, mas não era algo a ser comparado, não tinha comparações entre as mais novas Delaunay, com o outro Colmain. Verdade seja dita, o outro sempre seria reconhecido como um tópico sensível, consciente disso, Angus deixou que um suspiro de pesar rompesse seus lábios antes de concluir. “De qualquer modo, não acho que deva suportar tudo isso sozinha, estou aqui, sempre estive e jamais a julguei por qualquer coisa que fosse.”, uma verdade que tinha como prova os anos de amizade entre eles. Angus poderia ter tudo contra todos os outros Colmain, mas nunca contra ela.
Beijou-a com reverência e desejo, como se ela fosse tanto refúgio quanto tempestade — e ele não tivesse mais escolha a não ser naufragar nela. A mão que se encontrava em seu rosto, deslizou entre a curva do pescoço, com os dedos afundando no mar acobreado de seus cabelos, ao que aumentava a intensidade do beijo. Tinha esperado tanto tempo por aquilo, reprimido por muitos anos o desejo de tê-la que, de fato, o tinha adormecido, mas a confissão dos sentimentos recíprocos de outrem o fizera despertar novamente. O braço livre a envolveu pela cintura, colando-a na sua enquanto a reposicionava contra a mesa, apenas para que tivesse apoio. O ar já lhe faltava aos pulmões e só a ligeira ideia de ter que se afastar de Deirdre, causava dor física maior do que a falta do oxigênio. Ainda assim, a contragosto, os lábios se desprenderam dos dela, junto a um suspiro frustrado, antes que tomasse fôlego. A testa parmameceu encostada a dela, sua respiração falhava, ofegante e os olhos voltavam a procurar pelos da mais nova. “Se não puser limitações, vai ficar um pouco difícil deixá-la sair dessa sala quando precisar.”, agora a ideia do sequestro corria a sua mente, provocando um riso divertido, quase cínico em seus lábios. Lembrava-se quando ela referenciou o Deus celta para explicar seu nome, talvez não fossem tão distantes assim. Angus tinha sequestrado sua amada por posse, mas também por amor, enquanto o Delaunay apenas sentia o segundo em relação a Deirdre. No pior dos cenários, o duque colocaria um preço na cabeça de Angus para ter sua filha de volta. Já no melhor deles, os dois poderiam finalmente se ver livres de suas famílias, de todo aquele peso e responsabilidade que arrastavam com seus irmãos. Ao fim, não era uma ideia tão ruim, mas seguir divagando sobre ela era extremamente perigoso, e como se o corpo tentasse impedir isso, seus lábios voltaram a selar-se nos de outrem, de forma ainda mais desejosa que a anterior.