eu sempre rezo pelo meus mortos no dia dos mortos. aqui em casa, a gente acende velas e incensos e pede pra que continuem na luz e não façam atalhos. eu sempre achei que rituais definem quem nós somos: do mais complexo ao mais simples. por que não chorar por quem você perdeu? minha mãe sempre me diz isso. sempre diz que é um dia em que podemos só sentir a dor, sem se preocupar com a força. a força que continuamente nos preocupamos em manter. eu sempre achei que lidar com a ida fosse uma eterna distração: você finge que esquece aquela falta e vai no embalo de uma vida que te impede de parar. você segue, sem saber o porquê. só vai. eu sempre acabei perdendo pessoas de todos os dias, que é como que chamo aqueles que são como café toda manhã ou jornal toda noite. e perder pessoas de todo dia é como desarrumar a rotina e ter que aprender tudo de novo. quantas vezes eu tive que fazer isso? hoje é o dia em que me lembro. que deixo o choro sair sem ser no banho, que me deito e peço, não pra esquecer, mas pra lembrar ainda que passe muito tempo. porque a memória é o que faz com que as pessoas vivam além da partida. é o que mantém elas no mundo. é um gesto de amor. porque a dor da perda, por mais dolorosa que seja, ainda é sobre amor. na verdade, é um dos caminhos dele. aquele que você nunca quer cruzar, mas que eventualmente cruza. eu sempre disse que o fim é a coisa mais natural que existe. sempre acreditei que essa afirmação era um tapinha no ombro, um conselho daqueles que te permite suportar o insustentável. é acreditar que não tinha outro jeito, que foi o que aconteceu porque tinha que acontecer, porque algumas linhas de vida não foram feitas pra serem longas. essa é uma das coisas que minha mãe me diz. que linhas longas são pra quem precisa passar por algo, nem que seja a saudade de quem não pode continuar. nesse dia, especificamente nesse dia, a gente se ajoelha pra não escapar da saudade. pra se entregar a ela e sofrer. é um dia de paz, apesar de tudo. um dia de permissão. e quando eu penso nisso, nessa fé de que as coisas existem e são boas do outro lado, me sinto menos sozinha. acredito que eles estão menos sozinhos. porque eles são capazes de ouvir e de saber que foram amados. é preciso dizer que foram amados. independente do fim, independente da morte.