Não, eu não vendo óculos! Apenas compartilho minha visão. óp.ti.ca ou ó.ti.ca [do Grego optiké] (...) 3. Maneira de ver, de julgar, de sentir. Antes de tudo, sou um amante amador. Não me julgue com tanto rigor assim. Assim como todos nesse mundo, ainda...
18,Meu primeiro livro foi lançado! É uma coletânea com vários contos e crônicas que venho escrevendo em diversos lugares - devidamente revisados e atualizados.
Se você deseja adquirir uma cópia, eis as opções:
O e-book da Amazon, custa R$ 5,99. Para ler o e-book no celular, tablet ou computador você vai precisar instalar o aplicativo Kindle. Se você é assinante do Kindle Unlimited, pode ler de graça.
A versão do livro impresso, mais simples, está a venda pela editora Uiclap por R$ 24,55.
Outra opção do livro impresso, com orelhas, custa R$ 35,97 pelo Clube de Autores.
Independente de onde você comprar, deixe sua avaliação do livro, pois isso é muito importante para a divulgação. Você pode avaliar mesmo nos sites que não comprou, e também no Goodreads, que é uma comunidade de leitores e escritores.
E também não deixe de me mandar suas opiniões! Qual o seu conto preferido? E qual não gostou? Que tipo de conto gostaria de ler mais? Estou ansioso pra saber!
A primeira delas era linda, simpática, sempre alegre. Não era japonesa, ou de qualquer outra nacionalidade oriental, mas tinha os olhos fechadinhos, uma graça. Quis namorar com ela, mas ela gentilmente me enviou uma carta - outros tempos - dizendo que não poderia aceitar porque era muito nova. Tínhamos oito anos.
Tiveram outras. A que adorava ler e escrever, tanto quanto eu. A que cantava maravilhosamente bem. A que tinha peitos grandes. A que fez par comigo numa peça teatral que era um trabalho da escola. Mas nos anos seguintes eu sempre voltava a me apaixonar pela primeira. A primeira a gente nunca esquece não é mesmo?
Mas esqueci. Tão logo terminamos a escola e nos separamos. É o que dizem - longe dos olhos, longe do coração.
Mais tarde teve aquela que era baixinha, toda sorrisos, sua simpatia era maior do que ela mesma. Me apaixonei por ela, assim como meus dois melhores amigos. Ela disse que era só amizade. Para os três.
Teve também aquela que trabalhou comigo. Ou melhor, para mim. Eu a quis, e todos sabiam disso. Seus olhos diziam que sim, suas mãos diziam que sim, seus gestos, sua atenção, até seus abraços e seus planos para o futuro. Tudo nela me dizia sim. Sua boca também disse sim, mas a outra pessoa. No dia do meu aniversário.
Essa foi mais difícil de esquecer. Certa vez, nos encontramos. Ela me cumprimentou com um brilho nos grandes olhos, me abraçou e conversou comigo tão próxima que eu senti seu calor me tomar. Isso dificultou ainda mais. Eu me afastei o máximo possível, fingi que ela não existia, achava que nunca conseguiria. Mas eventualmente, esqueci.
Teve uma outra. Ela não era perfeita, muito pelo contrário. Mas eu adorava todos os momentos que passávamos juntos. As horas voavam, era tudo inesquecível. E ela me olhava com olhos de admiração, me sorria com sinceridade e me abraçava como se não quisesse que eu fosse embora, de modo que eu esquecia todos os seus defeitos. O maior deles era não me querer.
A cada fora, a cada término, parece mesmo que a vida vai acabar. Parece que não é possível viver sem aquela pessoa, mas é. Ele não era a sua metade porque vocês são completos. E sendo inteiros, vocês viveram muito bem juntos e vão viver muito bem separados. A dor é intensa, mas momentânea. Você vai conseguir se levantar. E se estiver difícil, eu te dou a mão.
Eu sou leve e fácil de lidar, de sorriso frouxo, não precisa muito pra tirá-lo de mim. Mas às vezes me fecho no meu mundinho, não quero ver ninguém, não quero falar com ninguém. Sorrisos me irritam, vozes me irritam.
Ontem eu usei um vestido longo e discreto, toda séria e recatada. Hoje saí com um moletom desbotado, uma blusinha rasgada e botas sujas do barro da última festa que fui, acho que já faz um mês. Amanhã talvez eu use uma mini saia, com meias pretas e um top provocante. Sim, eu sou meiga, sou louca e sou sexy nas mesmas proporções. Se você se sente ofendido ou confuso ou apaixonado, eu não me responsabilizo. Eu só quero me sentir bem comigo mesma.
Às vezes sou rasa. Gosto de uma comédia boba, daquelas que no fim do filme você nem lembra por que riu tanto. Às vezes sou profunda. Assisto um drama histórico, com camadas e mais camadas de complexidade, e passo dias digerindo e refletindo sobre cada pedacinho do filme.
Eu estou numa dieta de legumes e verduras, chás e água. Mas se você me chamar pra uma cerveja eu vou, se me oferecer um hambúrguer eu quero, se me chamar pra um churrasco eu assumo a churrasqueira. Eu sou linda e o corpo é meu, não seu. Você não tem o direito de me julgar por aquilo que eu decido fazer com ele.
Eu passo dias trancada no meu quarto, fazendo companhia pra minha solidão. Eu passo dias nas ruas, de festa em festa, de bar em bar, querendo nada mais do que estar rodeada de gente. Eu tenho meus dias de ir sozinha ao cinema, e são os mais divertidos.
Eu sou a princesa perfeita esperando numa torre para ser resgatada. Eu sou a bruxa vingativa pisando na cara dos bons costumes. Eu sou a retirante em busca de um futuro melhor para a família. Eu sou a executiva superando minhas melhores metas. Sou rock star, plebeia, namoradinha, dona de casa, puta, desportista.
Já deu pra perceber o quanto é difícil me descrever. Porque se descrever é se limitar. E eu não tenho rótulos, sou um pouco disso e um pouco daquilo. Não estou preocupada com como os outros vão me classificar. Só me importa ser o que sou: feliz!
Perdi o sono. E se tem uma coisa que eu aprendi foi que não adianta lutar contra a insônia. É uma batalha perdida – a não ser que você se drogue. Então resolvi escrever.
Se eu fosse um animal, seria de hábitos noturnos, como a coruja ou a capivara. Funciono melhor durante a noite e madrugada afora, por algum motivo alheio ao meu conhecimento. Acho que não tem motivo não, pensando melhor. A gente só nasce assim não é?
Os dias são claros demais, desconfortáveis demais, e as pessoas estão falando, andando, resolvendo, discutindo, vivendo demais, todas ao mesmo tempo. É telefone tocando, vizinho ouvindo música alta, aí passa o carro da Valeska vendendo produtos de limpeza, a pastoral do quilo toca a campainha e a vizinha da frente grita pro neto que está na Lua voltar pra casa. É muito barulho pra se concentrar no que quer que seja.
A noite não. A noite é a hora da contemplação. É quando você começa a revisar os papeis de trouxa que você fez. É a hora de aquietar e ficar em paz consigo mesmo. É à noite que bate a saudade, a ardência e urgência do amor.
Também é a hora da solidão. Mas não da solidão impraticável, sofredora, e sim aquela que traz no colo a carência. Que faz você mandar um oi pro amigo que não vê há muito tempo, e chamar pra um bar, um cinema talvez.
Com a noite vem a fragilidade. E o que a noite tem de mais frágil é justamente o silêncio. Tão fino ele é que se quebra ao menor barulho. Um grilo susssurando parece que está berrando. Uma colher caindo no chão acorda a rua toda. Um caminhão passando tem o som de uma locomotiva.
Mesmo assim, tudo volta a se silenciar. A paz reina, e somos capazes de ouvir até o nosso pensamento. E que pensamentos sujos surgem na noite. Será que outras pessoas conseguem ouvi-los? O medo é genuíno.
A escuridão da noite venda os nossos olhos. Se estamos na rua, mal conseguimos enxergar os rostos das pessoas. Elas se convertem em vultos, sem tamanho, sem forma. Suas roupas parecem uma capa escura que esconde mais do que seu corpo, mas também suas intenções, seus desejos excusos. Ele anda de cabeça baixa (pensando no que?), mãos nos bolsos (segurando o que?), passos rápidos (tentando alcançar quem?) e pelas sombras. Não é à toa que dizem que à noite todos os gatos são pardos.
Talvez ele também esteja com medo de você. Talvez ele seja só mais uma pessoa curtindo o silêncio da noite em busca de inspiração. Não estamos todos?
Trouxa. É assim que a Leila se sentia na maior parte do tempo. Quando rolava pelas redes sociais, sempre se deparava com memes fazendo piada de papel de trouxa e muita gente rindo e se identificando nos comentários. Ela também se identificava e também ria, mas só por fora. Na realidade não via graça alguma, porque não é nada legal fazer esse papel.
E era assim que se sentia agora, tentando carregar quatro sacolas pesadíssimas de um senhor que acabara de conhecer. Na verdade, nem o conhecia, estava apenas fazendo um grande favor a ele, que havia torcido o pé ao descer com as mesmas quatro sacolas do trem. Leila ficou sensibilizada com a cena do homem sentado no chão, rodeado pelas muambas e com cara de dor. Ofereceu-se pra ajudar e arrependeu-se dois minutos depois.
Enquanto tentava ignorar seus dedos doendo pelo peso dos sacos, ouvia o homem, Ivo era o nome dele, agradecendo pela sua bondade. "Estamos chegando na minha loja, falta pouco", era o que ele repetia nos últimos quinze minutos de caminhada, manquitolando logo atrás dela.
Bondade pra uns, papel de trouxa para outros. Um de seus amigos sempre dizia que toda boa ação é seguida por um castigo. Ela achava isso o cúmulo do pessimismo, mas não podia negar que tinha sentido alguns desse castigos na pele. Como na vez que se ofereceu pra ajudar a tia de uma amiga na mudança, e acabou carregando três caminhões praticamente sozinha. Sua recompensa foi um pote de arroz doce que a tal tia tinha feito e uma semana com dores na lombar. E o arroz nem era tão doce assim.
— Estamos chegando. Lá na loja meu funcionário te ajuda, viu? Ele é magrinho mas tem jeito com essas coisas.
"Ah, pronto, então eu não tenho não?" foi o que ela pensou, já meio pistola com o Seu Ivo. Começava a duvidar se ele tinha mesmo torcido o pé, pois se tivesse, talvez não conseguisse andar toda aquela distância. Deu uma olhadela pra trás e parecia que ele andava mais normal. Considerou perguntar se ele podia levar pelo menos uma das sacolas, mas desistiu. Ele com certeza voltaria a fingir o pé torcido. Não lhe agradava esse pré julgamento, mas também não conseguia evitar.
Lembrou de outra ocasião em que foi trouxa, e sentiu uma dorzinha no coração. Foi há mais de um ano, numa festa em que conseguiu um bico como garçonete. Entre as idas e vindas servindo canapés, deparou-se com um rapaz tentando arrastar um amigo bêbado pra fora do salão para enfia-lo, soube depois, no carro do pai que tinha vindo buscá-lo. Claro que Leila se ofereceu pra ajudar, pegou as pernas do fulano e com muito custo chegaram à calçada, onde o carro já estava esperando, com o pai bufando mais que o escapamento. Voltou para a festa lado a lado com o amigo após receber um obrigado sincero. Mas depois disso, não pararam mais de trocar olhares durante toda a festa. A princípio, morreu de vergonha, mas aos poucos foi se sentindo mais e mais confortável e talvez até apaixonada.
Sentiu-se besta. Apaixonar-se por um cara só porque ele estava encarando, não devia ser assim tão fácil. Mas sua colega de trabalho a incentivou a retribuir os olhares e até lançar uns sorrisos pro dito cujo e ela decidiu aceitar o conselho, por que não? O rapaz surpreendeu chamando-a para sua mesa.
Ele não estava sozinho, na mesma mesa havia um casal, ocupados demais se pegando pra prestar atenção na rechonchuda garçonete que se aproximava, tímida. Ele se apresentou, João Pedro, e perguntou seu nome.
— Leila, você pode me fazer uma gentileza? Preciso de um copo de água e uma caneta, por favor.
Gentilezas era o que ela mais fazia na vida. E não seria nada difícil fazer mais uma pra um cara como ele, simpático, educado, cheiroso e lindo. Enquanto providenciava o que ele pediu, não conseguia evitar o sorriso. E ele notou e sorriu de volta quando ela voltou. Pegou a caneta, anotou seu telefone num guardanapo de papel e entregou a ela.
— Se não tiver nada melhor pra fazer, me chama pra conversar.
Ela colocou o papel no bolso da calça, soltou um "pode deixar" e continuou a trabalhar. Sempre que passava perto da mesa do João Pedro, recebia um sorriso e seu coração dava um pulinho. Às vezes ele falava algo que a fazia rir alto. Estava fisgada e não percebeu.
A festa acabou, mas o trabalho não. Caía uma chuva fina lá fora, por isso o chão estava imundo, tiveram muito trabalho pra organizar e limpar tudo. Passava das duas da manhã quando ela saiu do salão, morta de cansaço e pensando se era muito tarde pra mandar um oi pro João ou se seria melhor deixar pra amanhã. Na calçada, mas uma surpresa. Ele estava lá, meio molhado, esperando Leila sair.
— Acho que agora podemos conversar melhor né? Pra onde você vai?
Ela disse que teria que andar um pouco até o ponto de ônibus e ele se ofereceu pra fazer companhia. Foram conversando, se conhecendo, rindo muito. Graças a Deus, o ônibus demorou quarenta minutos pra chegar, tempo suficiente pra eles tomarem coragem pra um beijo apaixonado de despedida.
Apesar de estar num ônibus barulhento e sacolejante, Leila foi flutuando pra sua casa. Pensando em tudo o que aconteceu naquela noite, na loucura que foi ficar com um completo porém lindo estranho. Nem notou que a chuva apertou. Chegou em casa ensopada, porém feliz.
Mal sabia ela que no outro dia começaria um longo período de ansiedade, tristeza e às vezes até desespero. O guardanapo com o número do João Pedro, o único jeito de reencontrá-lo naquela cidade imensa, não resistiu ao banho de chuva da noite anterior e se desmanchou no bolso da calça.
Passou meses procurando em tudo que é rede social, mas a quantidade de Joãos Pedros no mundo é inacreditável! Se lamentou, chorou, se desesperou. Mas acabou se conformando, com a ajuda dos amigos. A maioria tentava argumentar que ele queria mesmo era se aproveitar dela, tentar "pegar" alguém pra não ficar de vela. Mas ela sabia que não era isso, já que ele tinha lhe dado seu número. Que ela perdeu.
Agora estava ali, morrendo de cansaço, mais uma vez por querer fazer uma gentileza. Típico. Ela já havia se prejudicado por passar cola, cuidar dos gatos alheios, emprestar roupa, dar carona. Sempre com o mesmo fim. Pensou várias vezes em mudar, ser mais fria, mais na dela, sabe? Mas no final das contas, ela chegava à conclusão que não se deve fazer o bem esperando um retorno. Seu pagamento era sentir o coração leve por ajudar mais uma pessoa, a troco de nada. Era um fardo, muitas vezes mais pesado que as sacolas que carregava, mas era isso que fazia dela quem ela era.
Parecia que cruzaram a cidade toda, numa romaria estranha, mas chegaram a uma lojinha. Leila foi entrando sem cerimônia, não via a hora de se livrar da sua carga. Suava como uma mula que atravessou o sertão, quando ouviu o Seu Ivo pedindo para seu funcionário ajudá-la. Ela se virou e o mundo parou.
Não era necessário que Seu Ivo apresentasse os dois. João Pedro parecia mais lindo do que nunca!
É o final de meses conturbados no Brasil. Mas não podia deixar de derramar algumas palavras nesse blog há muito tempo silenciado.
Antes de qualquer coisa, é necessário deixar claro que eu, assim como todos os eleitores, quero o melhor para o Brasil. Quero paz, prosperidade, segurança, justiça, quero que esse seja o melhor lugar do mundo. Todos queremos.
Mas o que vimos nos últimos anos é que muita gente discorda de como chegar lá. Muita gente nem faz ideia de como chegar lá, e se agarra na pessoa que mostra a solução mais atraente. E manifesta isso através do voto.
Hoje isso ficou claro. A diferença de votos entre vencedor e vencido é muito pequena. Metade da população, eu estou incluído, está desolada com a possibilidade do futuro do país. As declarações do candidato vencedor fazem apologia à violência, ao cerceamento da liberdade, à eliminação dos opositores e à extinção da diversidade - diversidade essa que é o que nosso país tem de mais belo.
Com um discurso populista, ele seduziu os descontentes, os desiludidos, e revelou preconceitos e sentimentos vis escondidos no âmago de uma parcela da população. Estes, inebriados pelas palavras de ódio que soam doces aos seus ouvidos, voluntariamente iniciaram uma campanha messiânica, pintando o seu candidato de salvador da pátria.
Por outro lado, revelaram-se também os de boa vontade, de boa fé, os dispostos a lutar pelas minorias, pela justiça, por todas as formas de amor. Atraíram-se, vindos das mais diversas tribos, unidos pelo desejo de paz e justiça.
O país polarizou-se. Mas volto a dizer, ambos os grupos têm os mesmos objetivos, apenas crendo que o caminho para atingi-los seja bem diferente. Apenas um dos lados saiu vencedor.
Mas será mesmo?
Para a presidência sim, mas o cenário ficou um pouco diferente nas câmaras de deputados federais e estaduais. O povo encheu as cadeiras de mulheres, negros, pessoas de origens das classes mais baixas, militantes. Dezenas de homens e mulheres obstinados e comprometidos a fazer oposição às barbaridades que o futuro presidente e seus seguidores vomitam por aí. Eles são a promessa, ou melhor, a garantia de que a metade da população que não se vê representada no futuro presidente não se entregará sem luta.
E é por isso que resolvi vir aqui, deixar algumas palavras aos desolados, dos quais eu faço parte. Resistamos! Não estamos sozinhos. Temos uns aos outros, e temos governantes nos três poderes que nos representam. A luta contra o terror, contra o fascismo, está apenas começando.
Nos próximos quatro anos, vamos dar as mãos e fiscalizar, denunciar, gritar. Vamos ser massa de resistência contra qualquer pessoa que ameace nossa liberdade de ir, de vir, de SER. O mal não há de vencer, se permanecermos unidos.
Já está rolando nas redes sociais a frase "ninguém solta a mão de ninguém". Então eu faço o convite: quem segura minha mão e entra nessa luta comigo?
Meu nome é Yuri, tenho 32 anos e meio, e hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.
Quando eu tinha 15 anos, um professor do Senai, do qual infelizmente não lembro o nome, me deu uma lição, essa sim, inesquecível. Ele dizia que os seres humanos não são árvores, logo não tem raízes. Apesar de nunca ter colocado em prática essa lição, ela me marcou e ressoou na minha mente desde então.
Saí do Senai para entrar na "guardinha", trabalhei em uma multinacional dos 16 aos 18 anos ao mesmo tempo que estudava no Ensino Médio e no curso de administração aos sábados. Conheci pessoas maravilhosas, mas não saí do lugar. Além do mais, essa foi a última vez que me lembro de estar plenamente feliz num emprego.
Daí pra frente, minha busca por realização foi uma sucessão de erros, um verdadeiro desastre. Não vou cuspir no prato que comi, muito pelo contrário. Tenho que admitir que mesmo os piores erros serviram de aprendizado e me trouxeram onde estou hoje, me fizeram o homem que sou - por mais clichê que isso possa parecer.
Lembro que, quando entrei no meu último emprego, já com planos de fazer uma faculdade, dizia orgulhoso que sairia antes mesmo de terminar o estágio probatório. Depois dizia que não ficaria até a primeira licença prêmio. Mas os anos foram passando e eu fui ficando, levado pela inércia e o comodismo de ser um estável funcionário público. Me sentia cada vez menos motivado a acordar cedo e ir trabalhar. Passei a me sentir constantemente fracassado, sem rumo.
Foi no fim da faculdade que refleti sobre a ambiguidade de ser um funcionário com estabilidade. Se por um lado você tem emprego garantido pelo resto da vida, por outro você tem esse emprego pelo resto da vida. Estável como as árvores, presas por suas raízes no mesmo lugar, por décadas, séculos.
Acredito que só suportei tanto tempo graças aos colegas de trabalho, companheiros, divertidos, compreensivos, que me proporcionaram um ambiente de trabalho leve e agradável. Assim eu fui suportando mais um dia, mais uma semana, mais um ano, mais uma década.
A crise dos 30 chegou e todo esse sentimento resolveu transbordar. Desejos reprimidos, planos enterrados e uma gana de desenraizar e ampliar os horizontes, vieram à tona com tudo. Uma necessidade urgente de dar uma volta de 180 graus na minha vida, que foi me dando uma ansiedade que nunca tinha experimentado antes, e me fez questionar a mim mesmo se a vida que estava levando valia a pena. Alerta de spoiler: não, não valia. E começou então meu plano de dominação mundial. Tomei algumas decisões e desenhei o passo a passo que vai aos poucos levar a todas as mudanças que julgo necessárias na minha vida.
Hoje começa a primeira virada mais significativa. A ansiedade agora está misturada com o medo de que tudo não passe de mais um erro, como sempre. Mas é um risco. Um salto de fé, rumo ao desconhecido. Eu nunca saltei de Bungee Jumping, mas imagino que o sentimento deve ser parecido com o que estou experimentando agora. Uma queda livre que inunda seu corpo de adrenalina e o vento batendo forte no seu rosto e gritando liberdade na sua orelha. A diferença é que não tenho um elástico preso ao meu corpo, e talvez eu me esborrache no chão. A partir de agora, tudo pode acontecer.
Parece perigoso não é? Muito arriscado, eu admito. Mas a felicidade de ter o vento no rosto, a leveza no corpo, a liberdade e a queda rumo ao desconhecido... Será mesmo que existe preço caro demais por tudo isso?
Desde que comecei a trabalhar como motorista particular na Uber, tenho ouvido muitas e muitas histórias interessantes, de uma diversidade enorme de pessoas. Sorte a minha, já que amo dirigir e conversar. Claro que cada pessoa, por mais passageira que seja, deixa uma marca na minha própria história, uma experiência diferente.
Trabalhando madrugada adentro, o nível de estranheza dos passageiros aumenta. The night is dark and full of terrors, por isso o cagaço aumenta conforme as horas vão passando, e eu fico tenso a cada chamada no aplicativo, sem saber quem será o próximo a entrar no carro.
Numa dessas noites, já passava das duas, horário em que nada de bom acontece, segundo uma pichação na minha cidade. Eu estava dirigindo em direção a um bairro em Indaiatuba, cidade vizinha, curtindo o ar da madrugada com os vidros abertos. Quando entrei na rua de destino, um vento gelado demais entrou pela janela, me tirando do transe. Era hora de preparar o carro para a entrada do próximo passageiro, que se chamava Horácio ou Inácio, ou um desses nomes fora de moda. Fechei os vidros, liguei o ar condicionado, troquei o podcast pela minha playlist, abaixei o volume para um nível mais ambiente e comecei a esquadrinhar as calçadas desertas em busca do tal Venâncio.
Encontrei-o. Ele vestia um blazer marrom, calças largas e amassadas e uma boina daquelas meio taxista, mezzo italiana. Ao seu lado, uma mulher com um vestido igualmente florido e encardido, os cabelos recusavam-se a ficarem presos no frouxo rabo-de-cavalo. Ao parar o carro ao lado do casal, constatei que suas idades deviam variar entre 55 e 60 anos. Também na mesma calçada, bem atrás dos meus passageiros, duas garotas fumavam encostadas na parede. Elas me olharam, mas me ignoraram completamente. Continuaram conversando entre si, não se despediram dos velhos, nem os velhos deram-lhes atenção.
Recebi o casal com um animado boa noite, mas só a senhora respondeu. Tão logo eles entraram, um cheiro muito estranho tomou o carro. Eu tenho uma memória olfativa muito boa, mas tive dificuldades em lembrar de onde conhecia aquele odor. Parecia roupa velha, depois de ficar anos num baú, mas era mais forte que isso. Como sempre faço quando o passageiro tem um cheiro desagradável, aumentei um pouco o ar e virei para o meu rosto, assim o vento afastava um pouco o cheiro.
O senhor, que agora me lembro, devia se chamar Anélcio, sentou no banco da frente, colocou o cinto de segurança, e ficou segurando na mão esquerda um celular velho, muito velho, tão velho que fiquei admirado ao ver o aplicativo da Uber aberto. A mão direita ele colocou dentro do bolso da calça e não tirou mais dali. Além disso, sem brincadeira, ele passou a viagem toda olhando para o lado de fora e resmungando palavras que até hoje eu não sei o significado, mas que ecoam com perfeição na minha mente quando penso nisso.
Já a senhora, fazia comentários pontuais durante o caminho. Sobre o tempo, sobre a hora, sobre sentir falta dos filhos. Esse era um assunto que poderia render uma conversa, então investi nele. Perguntei se algo havia acontecido com os filhos, e ela disse apenas que eles não a visitavam há muito tempo.
Subitamente, com a voz um pouco mais alta, a senhora perguntou "que música bonita, nunca tinha ouvido, como se chama?". Achei estranho que ela nunca tivesse ouvido Shape Of You, considerando a frequência que era tocada em toda parte, mas deduzi que velhos só ouvem músicas velhas e respondi acrescentando também o nome do cantor. Ela não entendeu muito bem, então no próximo semáforo, abri o Spotify, ela colocou o corpo entre os bancos da frente e com os olhos apertados, tentou decorar o título para... Bom, eu não sei bem pra quê. Só sei que quando ela se aproximou, pude sentir ainda mais forte o cheiro de roupas velhas.
O destino do casal aproximava-se. Mais três minutos e aquela viagem estranha terminaria. O velho Eustáquio ainda não parara de resmungar e a senhora havia pedido para colocar Shape Of You novamente. E eu desisti de ter uma conversa com aqueles dois malucos e passei a observar onde estávamos. Havíamos passado pela rotatória perto do Hospital e entrado numa avenida, para logo em seguida virar à esquerda numa rua. Percebi pelo Waze que o destino deles era perto do cemitério. Andei mais alguns quarteirões e, para minha surpresa o destino deles ERA o cemitério.
Alguma coisa dentro de mim me colocou em alerta. Uma rápida olhada e constatei que não tinha carros estacionados, ou seja, nenhum corpo estava sendo velado. Com um sobressalto, ouvi pela primeira vez a voz do homem ao meu lado dizer com firmeza e dessa vez em bom português "Pare aqui por favor". Ainda faltavam uns 20 metros para o local onde se fazem os velórios. Naquele ponto só há uma larga calçada que serve de estacionamento, um muro de pedras com cerca de 1 metro de altura e o cemitério, desses com um gramado e flores pelo chão e lápides, sem túmulos suntuosos, mas mergulhado num breu inacreditável.
Parei o carro com a boca seca, com um toque na tela o aplicativo me mostrou o valor. O senhor finalmente tirou a mão do bolso e despejou na minha várias algumas moedas e notas amassadas. Eu conferi, o valor estava exato. Agradeci e desejei-lhes uma boa noite enquanto eles saíam do carro. Me virei para a esquerda para pegar a carteira na porta do carro. Um segundo depois ouvi a batida das duas portas sendo fechadas ao mesmo tempo e olhei instintivamente para elas.
Eu sempre fico um pouco apreensivo quando percebo que o próximo passageiro está no hospital. Pode ser uma pessoa doente, acidentada ou até enlutada. Dessa vez eram mãe e filha, ambas muito jovens. A mãe séria e cansada, carregando uma bolsa e uma mala. A filha, Francine, enrolada numa manta, entrou rindo e cumprimentando com uma voz lenta e pastosa. A mãe me pediu para parar no banco antes de seguir para o endereço indicado no aplicativo e foi conversando algumas coisas com a filha nessa primeira parte da viagem. Elas teriam algum compromisso no outro dia pela manhã, que a garota não conseguiu entender o que era, talvez pelo efeito de algum remédio, mas eu deduzi que era a consulta com um psicólogo ou psiquiatra.
Ao parar no banco, Francine pediu o celular da mãe antes de ela descer. A mãe entregou o aparelho contrariada, não sem antes recomendar que não tirasse fotos. Já longe dos ouvidos da mãe, a jovem fez uma ligação para algum amigo, para avisar que já tinha saído do hospital e exigir que ele fosse em sua casa bem cedo.
- Se eu acordar sete horas e você não estiver lá, você vai ver! – riu e continuou – Nossa, eu saí do hospital, parça, nem acredito... Alguma coisa vai acontecer amanhã cedo com minha avó... Minha mãe falou com minha avó que já, ó, vou ter que fazer alguma coisa amanhã cedo... Não sei... Não sei parça... Então eu quero que você venha hoje já... Vai acabar os bônus, vou desligar, beijo, até amanhã.
Com a voz sempre mole, despediu-se e desligou apressadamente. Acho que ela ficou com medo que a mãe chegasse e ouvisse a conversa. Como ela não chegou, Francine resolveu conversar comigo:
- Ai Jesus, eu preciso de um celular. Ai moço, você não sabe quem tem um celular pra vender?
- Hmm, pior que não sei. Você está sem?
- Tô.
- Faz tempo?
- Faz.
E queria saber mais. Queria juntar as peças desse quebra-cabeças que se formava no meu carro.
- O seu quebrou?
- Então, meu celular... Olha, eu nem lembro o que aconteceu! ... Ah, lembrei! Eu esqueci no carro do amigo do meu ex-marido.
Achei estranho ela já ter sido casada na idade que ela aparentava, mas resolvi entrar no jogo.
- Agora eu tô sem celular, cê acredita? – a música interrompeu o lento raciocínio da moça – Olha essa daí é da hora, essa musiquinha! Das antiga né?
- É das antiga – no fim, a música serviu para eu descobrir uma informação importante – Não é da sua época, acho, você tem quantos anos?
- Eu tenho 16. Eu não sei quantos anos tem essa música.
Nesse momento, a mãe da Francine voltou ao carro, e eu segui a viagem explicando que a música era da Cindy Lauper, “Girls just wanna have fun”. A mãe também denunciou a idade, dizendo que a música era do tempo da mãe dela, mas eu achei exagero.
Voltaram a conversar sobre o compromisso do dia seguinte, e a mãe resolveu revelar que era realmente à psicóloga, irritada.
- Eu queria saber porque o parceiro vai ver eu.
- Que horas? Só se for 7 horas.
- Pode ser.
Eu já estava quase certo que a garota foi internada depois de algum surto psicótico, que inclusive destruiu seu celular. Francine ia observando a cidade e resmungando que precisava ir naquele bar, na loja, na biblioteca, calculando o tempo perdido. Desconfiou de alguém parado na rua, poderia ser um assassino, nunca se sabe. Cantarolou um pedacinho da música e lembrou que já tinha ouvido em alguma festa.
Quando entramos no bairro onde ela morava, afirmou que ali sim ela conhecia todo mundo, que já saberia na hora se visse alguém estranho. Paramos. Francine desceu logo do carro e se esticou na calçada, respirando o ar fresco da noite, enquanto a mãe juntava a bagagem e me pagava.
Eu não consegui descobrir afinal porque Francine ficou internada, nem por quanto tempo, nem mesmo se falou alguma verdade. Essas peças foram ficaram todas no retrovisor, junto com Francine, finalmente livre, observando as estrelas sozinha na calçada e enrolada na manta, enquanto eu me afastava para buscar o próximo passageiro.
***
A sessão Histórias Passageiras contém histórias que presenciei durante minhas viagens. Nomes, locais e acontecimentos podem ou não ter sido alterados para preservar a confidencialidade dos envolvidos. Espero que goste! Deixe sua opinião nos comentários.
Desde que comecei a trabalhar como motorista parceiro da Uber, tenho ouvido muitas e muitas histórias interessantes, de uma diversidade enorme de pessoas. Sorte a minha, já que amo dirigir e conversar.
Claro que cada pessoa, por mais passageira que seja, deixa uma marca na minha vida, uma experiência diferente.
Foi o que aconteceu numa noite fria, quando encostei o carro em frente a uma casa para buscar o Luan, que se despedia da namorada com um beijo e um abraço. Ele entrou no carro se sentou no banco ao meu lado e deixou escapar um suspiro profundo enquanto prendia o cinto de segurança.
Fiquei intrigado e perguntei em tom descontraído se ele estava cansado. Ele me respondeu abatido que estava triste. Imediatamente troquei a música que tocava, de uma romântica para uma mais alegre. Ele disse que a música não ajudaria, e eu argumentei que ao menos não pioraria.
A voz embargada, as costas arqueadas e o semblante derrubado denunciavam uma pessoa ao mesmo tempo apaixonada e desiludida. Houve um silêncio momentâneo enquanto eu decidia se era indelicado perguntar o que aconteceu.
- O que houve, amigo?
- Eu praticamente terminei meu namoro.
- Como assim, praticamente?
- Sendo otimista, tem 87,9% de chance de eu terminar.
Achei estranho, já que tinha acabado de ver os dois se beijando. Sim, poderia ser um beijo de despedida, o que não seria menos estranho, então perguntei se houve alguma briga. Ele negou. Negou também quando perguntei se foi um acordo, e então deu maiores explicações.
- É uma coisa pessoal, que pode se tornar um problema pra ela futuramente. Na verdade não terminamos. Acontece que ela é ateia e eu sou cristão. Sei que isso não é pra ser um problema, mas eu tenho uma doutrina que acredito e ela não. E eu acho que isso pode nos afetar mais pra frente.
Mesmo sem tantas explicações, eu de repente entendi tudo. E até consegui sentir a dor que o Luan estava sentindo, de estar dividido entre suas crenças e seu amor por uma garota. Ele acrescentou, quase inaudível:
- Eu não quero ser um peso pra ninguém.
Busquei palavras, tentando desesperadamente dizer algo que pudesse ajudar.
- Olha, Luan, se vocês se amam mesmo, é importante um respeitar o outro. Sei que minha opinião não vale muito, mas eu acho que é melhor terminar assim, numa conversa sincera, do que depois de uma briga que deixasse um magoado com o outro, sem poderem sequer se verem.
- É, eu também acho isso. Até porque somos do mesmo círculo de amigos. - Luan deixou escapar outro suspiro. - Era pra eu estar aos prantos agora, mas eu tento ser mais racional. Nesse momento eu só quero chegar em casa e assistir Game of Thrones de novo.
Conversamos por uns minutos sobre a série, nossa ansiedade pela nova temporada e pelo lançamento do novo livro. Ele pediu pra parar dois quarteirões antes da sua casa. Quando chegamos ao destino dele, enquanto recebia e dava o troco, resolvi dar mais um pitaco:
- Luan, espero que dê tudo certo entre vocês, sinceramente. O que eu faria no seu lugar? Eu curtiria. Pararia de ficar pensando nesse problema e curtiria o namoro até quando desse. E se um dia esse relacionamento terminar, ninguém vai poder tirar de vocês as boas lembranças.
- É, eu não tinha pensado por esse lado. Obrigado, Yuri, boa noite.
Ele desceu do carro para enfrentar mais uma vez a noite fria. Gosto de pensar que ele aproveitou a pequena caminhada para deixar cair algumas lágrimas. Mas acho que nunca saberei. Essa é a dor e a beleza de ouvir uma história durante uma viagem de Uber.
***
A sessão Histórias Passageiras contém histórias que presenciei durante minhas viagens. Nomes, locais e acontecimentos podem ou não ter sido alterados para preservar a confidencialidade dos envolvidos. Espero que goste! Deixe sua opinião nos comentários.
Você deve estar se perguntando por que eu te dei uma mochila de presente. Parece uma coisa muito aleatória, sendo que não é uma data comemorativa e, reparando bem, nem é uma mochila tão bonita assim.
Bem, o motivo é simples. Eu tenho notado que você anda com muitas coisas nas mãos, e que você está se atrapalhando com isso. Que muitas vezes quer pegar alguma outra coisa, mas sem largar o que já está na sua mão. E que não tem conseguido fazer suas tarefas tão bem.
Por isso acredito que essa mochila será útil. Você ainda pode segurar coisas nas mãos, mas vai aprender que é muito melhor se segurar uma coisa por vez, enquanto as outras ficam bem guardadas e seguras na mochila, para quando precisar delas.
Você pode colocar quantas coisas quiser na mochila. Mas lembre-se que quanto mais você enche-la, maior será o peso nas suas costas. Às vezes parece que você vai aguentar, mas isso pode trazer problemas para a sua coluna a longo prazo. E você sabe que a coluna é o que te mantém em pé. Se você não cuidar dela, poderá desmoronar a qualquer hora.
Então lembre-se sempre que você pode tirar coisas da sua mochila, e não há nada de errado nisso. Você pode colocar alguma coisa, testar o peso por alguns dias e, se perceber que é demais, tirar em seguida. Ninguém vai te julgar por isso. É um eterno aprendizado. Aos poucos você vai pegar o jeito e encher sua mochila apenas com coisas leves.Também não tem nada de errado fazer trocas. Uma coisa pesada por duas leves, talvez.
Algumas pessoas vão te pedir pra colocar coisas delas na sua mochila. Elas farão isso porque não tem mochila, ou porque a mochila delas já está bastante cheia. Você escolhe se vai aceitar levar as coisas delas na sua mochila ou não. Se você aceitar e levar por um tempo mas acabar cansando, chame essa pessoa e devolva logo! Talvez ela não goste, mas cada um tem que saber organizar sua própria mochila.
Resumindo, a mochila é sua e você faz dela o que quiser. Não se preocupe com o que os outros vão pensar. O mais importante é você não se atrapalhar mais com tantas coisas nas mãos e nem muito peso nas costas. A mochila tem que estar em equilíbrio com o seu próprio corpo. Acho que você vai ser mais feliz assim.
A Espada de Sangue - Capítulo 2 - Uma nova família (on Wattpad) http://my.w.tt/UiNb/CZ3Xyc9bGA Um estranho surge numa vila de Elenath, sem memórias mas com incríveis habilidades de combate. Seus atos heroicos levam o povo a acreditar que ele é o herdeiro perdido da família real, brutalmente assassinada anos atrás, deixando-os à mercê de um governante cruel e sanguinário. Agora o jovem embarcará numa aventura com suas companheiras, a filha do casal que o adotou e uma aprendiz de feiticeira, para recuperar a espada de seus ancestrais e reconquistar o trono que ele não se lembra de ter perdido.
Decidi fazer uma lista com tudo o que eu assistir ou ler em 2017, e contar um pouco sobre tudo mensalmente aqui no blog. As séries, filmes e livros da lista podem merecer comentários e descrições mais longos ou mais curtos, ou até posts específicos. Tudo vai depender do quanto eu gostei.
Agora é a vez dos livros! Uma das minhas metas para 2017 é ler pelo menos dois livros por mês, e eu já comecei bem, com quatro livros dos meus dois gêneros preferidos: fantasia e ficção científica ;)
Desventuras em Série - Vol. 01 - Mau Começo
Desventuras em Série - Vol. 02 - A Sala dos Répteis
(Lemony Snicket - versões para Kindle)
Para me preparar para a série da Netflix, resolvi começar a ler os livros que a inspiraram. Eu bem que gostaria de ter lido os quatro volumes retratados na tela, mas não deu.
A leitura é gostosa e divertidíssima, além de ser muito rápido de ler. O meu Kindle sugeriu que eu pudesse ler em 2 horas e meia! Vale a pena, pra se divertir!
O Problema dos Três Corpos
(Cixin Liu - Ed. Suma das Letras)
Pura ficção científica, O Problema dos Três Corpos retrata uma conspiração que começou na China no início do século, em plena Revolução Cultural, e que reflete até os dias de hoje e além. Repleta de termos científicos que de certa forma validam os acontecimentos da história, Cixin Liu consegue tecer uma trama intrincada que aos poucos insere em nossa realidade toda uma civilização alienígena.
O Espadachim de Carvão
(Affonso Solano - versão para Kindle)
Comprei esse livro em 2016 e só agora consegui ler. Apesar de possui-lo, optei pela praticidade de ler em formato digital no meu Kindle.
O brasileiro Affonso Solano nos leva a Kurgala, um mundo fantástico onde os humanos não são a única raça racional, para acompanhar a jornada de Adapak, um semi-deus com a pele cor de carvão, que detém todo o conhecimento do seu mundo, adquirido dos livros e dos ensinamentos de seu pai, um deus, em oposição à sua completa ingenuidade, fruto de uma vida inteira privada de relações interpessoais. Resumindo, ele é um nerd, mas um nerd extremamente habilidoso no combate e no manejo de suas espadas gêmeas.
Ação, traição, viagens, piratas, perseguições, monstros e membros mutilados compõem essa fantasia de forma muito bem amarrada e ritmada, e nos surpreende com um final totalmente inesperado, apesar do Deus Ex Machina a que o autor recorre nas últimas páginas.
Decidi fazer uma lista com tudo o que eu assistir ou ler em 2017, e contar um pouco sobre tudo mensalmente aqui no blog. As séries, filmes e livros da lista podem merecer comentários e descrições mais longos ou mais curtos, ou até posts específicos. Tudo vai depender do quanto eu gostei.
No caso das séries, vou listar apenas as temporadas concluídas nesse mês. Podem ser maratonadas ou temporadas que comecei a assistir algum tempo.
Lovesick (1ª e 2ª temporadas)
(2016 - tem na Netflix)
Eu já tinha colocado essa série original da Netflix na minha lista há algum tempo, e decidi assistir nos primeiros dias do ano, de madrugada. A série é tão envolvente que me vi acabando a segunda temporada que eu nem sabia que já tinha sido lançada.
De certa forma, podemos descreve-la como a How I Met Your Mother da Inglaterra. Nela, Dylan (o loiro da foto) descobre que contraiu clamídia e precisa avisar todas as mulheres com quem transou. Ou seja, isso acaba sendo uma desculpa para a série mostrar a busca incansável do protagonista pelo amor da sua vida, assim como o Ted do HIMYM. Completando as semelhanças, temos um amor mal resolvido que vai demorar a série inteira pra se desenrolar e um melhor amigo maníaco por sexo e alérgico a relacionamentos sérios.
Dá pra rir bastante, e a trilha sonora é fantástica - mesmo que o sotaque britânico já seja uma espécie de música para os meus ouvidos.
Easy (1ª temporada)
(2016 - tem na Netflix)
Easy é uma série antológica de comédia da Netflix. Antológica significa que cada episódio ou temporada tem um história diferente, com personagens e atores diferentes, assim como Black Mirror e American Horror Story
O título é praticamente uma contradição, já que a série retrata como são complicados e delicados os relacionamentos. Não é tão bem humorada quanto Lovesick, já que tem o pé fincado na dura realidade que é lidar com o a mesmice do sexo no casamento, segredos entre casais, a descoberta da homossexualidade e por aí vai.
Desventuras em Série (1ª temporada)
(A series of unfortunate events - 2017 - tem na Netflix)
Essa série causou um pouco de polêmicas, já que é impossível não compara-la com a versão em live-action de 2004, principalmente a atuação de Neil Patrick Harris versus Jim Carrey. Alguns dizem que é difícil superar Carrey e seu overacting, enquanto outros (eu) preferem o equilíbrio teatral de Neil, irretocável em sua tarefa de interpretar um mal ator.
O mais curioso dessa série está na produção e na linguagem visual. Os elementos dos cenários não permitem identificar a época em que se passa o enredo, ora com itens vintage, ora modernos. Além disso, é um deleite observar como o cenário e colorido e organizado quando quer refletir a esperança dos irmãos Baudelaire, enquanto fica monocromático e caótico para mostrar tristeza e desesperança, além do desequilíbrio mental do Conde Olaf.
Os oito episódios abordam fielmente os quatro primeiros livros da saga, sendo dois episódios por livro. Por isso eu aconselho a assistir aos episódios de dois em dois, já que uma maratona pode ser meio enjoativa.
Dois nomes me atraíram nessa série: Douglas Adams, o autor de “O guia do mochileiro das galáxias” que também escreveu a obra que baseou a série; Max Landis, o produtor e roteirista da série, que também assina o excelente filme “Poder sem limites”.
Dirk Gently foi minha dose de ficção científica do mês, misturada com comédia e repleta de cenas non-sense e surreais. Dirk é um detetive holístico, ou seja, que acredita que o deve acontecer vai acontecer, e por isso tem um jeito muito peculiar de investigar um assassinato: ao invés de colher provas e depoimentos, ele simplesmente deixa as coisas acontecerem. Acompanhado do seu relutante assistente, a trama envolve viagens pelo espaço-tempo e tecnologias impossíveis, perseguições, tiroteios e assassinatos. Falando assim, parece uma salada absurda, mas é realmente uma excelente série que estreou na Netflix sem muito alarde, mas que vale o tempo investido.
Sherlock (4ª temporada)
(2017)
Se me fosse solicitado, eu usaria uma das palavras mais utilizadas por Sherlock ao longo da série para descrever a pior temporada até agora: “Bored”.
A quarta temporada está muito distante da caracterização fiel com que a BBC nos presenteou em 2010, e leva a dupla principal a uma trama que os personagens originais nunca teriam de enfrentar. Eu contemplei perplexo o detetive dizer e fazer coisas que sua contraparte de papel nunca faria.
Steven Moffat e Mark Gatiss parecem cansados de escrever, produzir e dirigir a melhor adaptação em live-action do detetive, e entregaram a última temporada preguiçosamente, apostando mais nas reviravoltas megalomaníacas do que num roteiro consistente e inteligente. Eles declararam que não planos de voltar a fazer mais temporadas, mas que também a série não está morta. Eu digo que, se for pra continuar assim, prefiro a despedida.
Decidi fazer uma lista com tudo o que eu assistir ou ler em 2017, e contar um pouco sobre tudo mensalmente aqui no blog. As séries, filmes e livros da lista podem merecer comentários e descrições mais longos ou mais curtos, ou até posts específicos. Tudo vai depender do quanto eu gostei.
Vamos começar pelos filmes: esse mês teve ficção científica, muitas comédias e o novo filme de Daniel Radcliffe
Um cadáver para recordar
(Swiss Army Man - 2016 - tem na Netflix)
Eu não vou mentir: depois de Harry Potter, eu assisto a todos os filmes com Daniel Radcliffe. E as escolhas que o ator tem feito não costumam me decepcionar.
Dessa vez ele interpreta o cadáver do título, que foi encontrado por Hank, um náufrago em uma ilha, prestes a se suicidar. Hank descobre que o cadáver ainda tem muitos gases no corpo, poderosos a ponto de impulsionar seu corpo pelo oceano, como uma lancha, para longe dessa ilha. Os dois então desenvolvem uma amizade estranha, que nos traz diálogos fantásticos sobre família, sexualidade e amor.
Sim, o filme é estranho mesmo, todo trabalhado no humor non sense, e é isso que atrai o interesse do espectador com apenas 10 minutos de tela. Vale a pena, chame a galera e assista!
O fantasma do futuro
(Ghost In the Shell - 1995)
É um anime de ficção científica no estilo cyberpunk que conta a história de Major, uma policial que teve quase todo o seu corpo modificado com implantes cibernéticos, restando de orgânico apenas seu cérebro e a espinha. A divisão em que ela trabalha é especializada em crimes tecnológicos e investiga um ciber-terrorista que está invadindo androides e os controlando para cometer crimes. É um filme carregado de cenas de ação, tiros e corpos dilacerados, mas o foco mesmo está nas questões filosóficas do compartilhamento da mente com as máquinas.
Me interessei em assistir esse anime devido a um vídeo que vi na CCXP, com alguns minutos do filme em live-action que está sendo produzido e que será lançado ainda em 2017, com o título em português “Vigilantes do Amanhã” e Scarlett Johansson no papel principal.
Moana - Um mar de aventuras
(Moana - 2017)
“Vendida” como a primeira princesa Disney sem interesse romântico, Moana é muito mais do que isso. Já tinha assistido a esse filme completo na CCXP, mas não poderia deixar de rever.
A animação conta a história da filha do chefe de uma tribo da Oceania, que tem a vocação (e o desejo) para explorar o mundo através do mar, mas é constantemente cerceada pelos medos do seu pai, traumatizado por um acidente com seu melhor amigo na infância. Claro que ela decide ir assim mesmo, acreditando que a lenda contada pela avó seria a única salvação para uma praga que toma a ilha em que vive.
Passageiros
(Passengers - 2017)
Mais uma ficção científica para a lista, esse filme já estava na minha mira desde o início das divulgações, no ano passado, principalmente com as piadas de Chris Pratt com a Jennifer Lawrence, como esta e esta.
Mas o filme conta a histórias de dois passageiros que se vêem acordados de um processo de animação suspensa, noventa anos antes de chegarem ao seu destino. É um filme solitário, já que eles estão numa nave gigantesca, acompanhados apenas da inteligência artificial que a move.
Por sorte os trailers escondem algumas informações importantes, deixando boas surpresas para o filme, que por sua vez nos apresenta romance, suspense e ação em doses equilibradas.
Amor & outras drogas
(Love and other drugs - 2011 - tem na Netflix)
Um belo dia resolvi voltar ao viciante mundo das comédias românticas e dei de cara com o também viciante sorriso de Anne Hathaway. Esse filme me surpreendeu.
Jake Gyllenhaal faz um tipo garanhão que começa a trabalhar como representante de vendas farmacêuticas, tentando convencer médicas a receitarem apenas seus remédios. Ele conhece a Maggie, viva pela Anne Hathaway, uma jovem com parkinson, por quem se apaixona e aí é tudo meio igual à fórmula mágica das comédias românticas. O diferencial está na convivência com a doença da moça, tratada no filme com muita naturalidade, humanização e bom humor.
Minha mãe é uma peça 2
(2016)
Uma sequência de cenas engraçadíssimas com nenhum roteiro. Fim.
Esse livro veio de uma história que tive há pouco mais de um ano e que foi amadurecendo na minha cabeça com o tempo, mas só agora consegui colocar no papel. Como é um livro de fantasia, dá um certo trabalho criar, além da história, um mundo crível (por mais que seja habitado por criaturas e artefatos mágicos), para que o enredo cative você, futuro leitor!
Antes de ler, vale deixar algumas considerações:
* “A Espada de Sangue” é um título provisório para o livro, que pode ou não ser mudado quando eu o finalizar. Achei necessário apenas para não ficar chamando de “meu livro” ou “livro do Yuri”.
* O livro está inteiramente rascunhado, mas não pronto. Os próximos capítulos serão publicados aos poucos, no mínimo um por mês.
* O primeiro capítulo será publicado no blog e no facebook, mas a partir do segundo o único lugar que ficará publicado será o Wattpad. Para ler lá, é preciso ter um cadastro, mas é de graça.
* Quando você se cadastrar no Wattpad, não se esqueça de me seguir e “curtir” os capítulos que ler. Pode também me deixar críticas e sugestões, nos comentários, nas redes sociais, pessoalmente, etc. Serão todas bem vindas!
* Se você quiser uma cópia em papel, converse comigo que eu providencio. Mas isso vai ter um pequeno custo, para cobrir a impressão e a encadernação.
Sem mais delongas, eis os links para você ler o primeiro capítulo:
> No Wattpad: http://bit.ly/aespadadesangue
> No blog: http://www.aoticadoyuri.com.br/aespadadesangue
A Capitã Lilian Tavares olhou pelas janelas de sua nave espacial, por onde entravam raios fortes de um sol distante. Fechou os olhos e tentou se lembrar de como era o crepúsculo na Terra, a hora que mais admirava quando vivia naquele planeta. Ela lembrou-se de como os raios do sol poente refletiam uma linda cor alaranjada no céu, mas não sabia dizer o quanto dessa lembrança era romanceada pela sua mente. Lembrou-se de um desses crepúsculos que assistiu sentada na areia na praia com William, seu falecido noivo. Foi a primeira vez que ele disse "um dia vou te dar o céu de presente", frase que repetia em todos os seus momentos mais românticos.
Fechou os olhos. Eram raros os momentos que se lembrava dele com tanta nitidez. Refez cada passo dado naquela praia, tentou lembrar o que comeram naquele dia, mas, mais uma vez, não sabia direito o quanto daquilo era sua mente tampando falhas da sua memória. Como sempre acontecia ao lembrar do único amor da sua vida, Lilian acabou lembrando das circunstâncias horríveis de sua morte, no lançamento de uma nave experimental. Na época, vinte anos atrás, todos pensaram que era um acidente corriqueiro, mas Lilian não descansou em suas investigações até provar que o governo do seu país estava ciente do defeito que causou a queda da nave, mas resolveu arriscar assim mesmo.
Ela então aproveitou-se de sua posição na Aeronáutica e do seu pai juiz para mover um processo contra o governo, mas perdeu vergonhosamente e, como se não bastasse, sofreu ameaças de morte caso levasse o caso adiante. Ainda em luto pela morte de William, desgostosa com tamanho da crueldade das pessoas, Lilian demitiu-se da Aeronáutica e aceitou uma vaga numa empresa privada de exploração espacial, onde deveria pilotar sozinha uma nave pelo espaço, procurando e coletando lixo espacial. Estava prestes a se aposentar, e seu plano era comprar uma casinha num lugar inóspito, onde não teria que encarar mais ninguém por mais tempo que o necessário.
Foi enquanto divagava sobre seu futuro de tranquilidade que se deu conta que seus controles recebiam o pedido de socorro de alguma nave próxima. Seu treinamento militar a fez ficar totalmente alerta e estabelecer contato com a nave em perigo rapidamente. Ouviu uma voz na transmissão cheia de cortes e reconheceu um fraco pedido de socorro. Lilian rapidamente desviou a rota de sua nave coletora de lixo espacial para tentar salvar seu colega piloto.
A nave de Lilian era enorme. Um trambolho tão grande que foi montado no espaço, com as peças levadas uma a uma por foguetes teleguiados. Se fosse montada no solo da Terra, não haveria propulsão suficientemente forte para vencer a gravidade e colocá-la no ar. Já a nave que transmitiu o pedido de socorro, era pequena. Lilian calculou que tivesse o tamanho de três ônibus terrestres, logo caberia em seu maior compartimento para lixo. Com muito cuidado, já que não queria piorar a situação da tripulação em perigo, a Capitã rebocou a navezinha para dentro da sua. Vestiu sua roupa de exploração, que a protegeria de destroços, altas temperaturas e gases e rumou para a pequena nave.
Ela estava nervosa e tremendo muito enquanto tentava abrir a porta da nave. Não sabia o que encontrar, por isso foi preparada para qualquer coisa. Acendeu a lanterna em seu capacete e entrou, aos gritos de "tem alguém aí?", na esperança de encontrar alguém vivo naquela nave que estava se desmantelando. Não teve sorte nas três primeiras pessoas que encontrou, apenas corpos dilacerados ou esmagados pela sua nave. Mas a quarta pessoa, parecia se mexer. Enquanto removia pedaços da nave do seu caminho, perguntou se ele estava bem, recebendo apenas um resmungo como resposta. Conseguiu chegar até a pessoa e, abismada, reconheceu seu rosto imediatamente. Era William, seu noivo morto há vinte anos.
Lilian tremia incontrolavelmente e raciocinava com dificuldade. Mesmo assim, com agilidade invejável, conseguiu carregar o corpo inerte daquela pessoa assustadoramente parecida com seu noivo e levar até a ala hospitalar. Cuidou de seus ferimentos, conectou-o a um sistema auxiliar de respiração e preparou uma bolsa de soro. Deu dois passos para trás e começou a observar o corpo seminu do homem à sua frente. Era exatamente igual ao William, quando se conheceram na festa dos cadetes. Ela estava relutante em procurar o único sinal que poderia confirmar sua identidade, uma tatuagem em sua nuca com os nomes de seus pais.
A pilota juntou toda a sua força de vontade, aproximou-se do soldado ferido e levantou sua cabeça cuidadosamente. "Benjamin e Marta", estavam lá os nomes, exatamente na caligrafia que seu noivo tinha. Era ele mesmo, não restava dúvidas. Lilian acabara de salvar a vida do seu noivo morto, o noivo que ela mesma viu ser resgatado dos escombros do acidente e morrer em seus braços, três horas depois no hospital. Ela saiu correndo e sentou-se pesadamente na poltrona da cabine de comando de sua nave, onde chorou de desespero. Como seria possível? Seria uma brincadeira de mal gosto de seus chefes? Não poderia ser, ela viu pessoas mortas na pequena nave.
A pequena nave! Seu rosto molhado pelas lágrimas iluminou-se com a ideia de explorar a nave resgatada em busca de respostas. Correu de volta à nave e freneticamente começou a buscar documentos, mapas, ordens, orientações, qualquer coisa. O computador da nave estava completamente destruído, mas ela conseguiu resgatar o HD, que conectou no computador da sua própria nave para explorar seu conteúdo.
Após uma hora de leitura, a Capitã Tavares jogou-se contra o encosto de sua poltrona, estupefata. Talvez tivesse encontrado mais do que respostas. Aparentemente, seu falecido noivo havia recebido a missão de encontrar um buraco de minhoca, onde deveria se lançar num módulo de transporte para um só piloto e ser levado à Terra, no ano exato da festa de cadetes em que haviam se conhecido. Seu objetivo era simplesmente provar que era possível a viagem no tempo, que poderia ser largamente utilizada pelo governo para mudar os rumos das guerras que devastaram boa parte do mundo no presente.
Parecia uma coisa louca demais para ser verdade, mas Lilian lembrava-se como William falava apaixonadamente sobre viagens no tempo, buracos de minhoca, vórtex temporais, e de como tudo isso era possível de acordo com as leis da Física. Acostumada aos paradoxos temporais que havia aprendido com o noivo, Lilian compreendeu tudo rapidamente. Que a pessoa com quem havia noivado tinha vindo do futuro numa missão militar. Entendeu também porque William falava tão pouco sobre sua família e porque ela nunca os havia conhecido. Mortificada, ela percebeu que essa viagem ao passado talvez nunca acontecesse, já que a nave de William estava incapacitada de viajar.
A menos que ela pudesse ajudar. Afinal, se William não cumprisse sua missão, eles nunca se conheceriam, e ela nunca chegaria ao espaço com sua nave coletora para salva-lo. Lilian correu pelos corredores o mais rápido que pôde, mas parou na porta fechada da enfermaria. Ela precisava pensar antes de agir, pois um mínimo descuido poderia trazer consequências imprevisíveis ao tempo. Sentou-se no chão, encostada na parede, esforçando-se para raciocinar com clareza.
Colocou um protetor da enfermaria em sua boca, pois não queria influenciar William a procurar pelo seu rosto quando chegasse ao passado. Quando entrou, encontrou-o acordado, sentado, rindo, lindo.
- Então você é minha salvadora!
- Parece que sim. Como você está?
- Estou vivo! Isso é o que importa, não é?
- Pode me dizer o que aconteceu?
William narrou à sua enfermeira como um dos tripulantes da sua nave que estava realizando uma manutenção conectou fios errados e causou uma explosão em seu interior. Eles tiveram sorte de a explosão não ter aberto um rombo no casco de sua nave, ou eles estariam todos vagando mortos pelo espaço nesse momento.
Ele tomou cuidado para não mencionar sua missão, mas Lilian revelou que, tentando ajuda-lo melhor, descobriu sobre sua missão no HD recuperado. William ficou desconcertado com isso, mas com muito custo decidiu aceitar a ajuda da mulher desconhecida.
- Confie em mim - disse Lilian - eu até já sei como posso ajudar. Temos apenas que verificar se seu módulo necessita de algum reparo. Se conseguirmos deixar ele OK para uma pequena viagem, você poderá cumprir sua missão.
- Como posso confiar em alguém que não mostra seu rosto?
- Ah, verdade. Meus sensores detectaram micro-organismos desconhecidos em você e na sua nave, por isso acho melhor não arriscar.
William aceitou e desculpa e a ajuda. Seguiram-se três horas de total entrosamento e cooperação entre os dois. Eles conversaram bastante enquanto faziam reparos no módulo de transporte e calculavam a distância e a rota para o buraco de minhoca. Lilian evitava a todo custo falar de seu passado, enquanto William evitava falar de seu futuro, sem saber que era também o passado de Lilian. O plano era colocar William dentro do módulo de transporte, para que Lilian pudesse usar o disparador de lixo compactado para lança-lo exatamente na direção do buraco de minhoca.
William pediu um tempo para velar pelos seus companheiros de navegação espacial, uma tripulação formada por ele e mais cinco soldados. Ele enviou uma comunicação ao seu Comandante para avisar os familiares dos mortos e dizer que a sua parte seria realizada com a ajuda de uma pilota catadora de lixo espacial.
Enquanto William cuidava de seus negócios e últimos preparativos para seguir viagem, Lilian foi para o lugar em que fizeram os reparos, para revisar o trabalho que haviam feito. Estava exalando felicidade, pois o destino deu de presente a ela a oportunidade de reencontrar seu único amor e de ter mais algumas horas ao seu lado, que continuava o homem maravilhoso que sempre fora, ou melhor, seria. Ela desejou que isso não acabasse.
Foi a segunda ideia mirabolante que ela teve naquele dia. Willian não entendia nada de engenharia espacial, então se ela soltasse alguns fios do motor, o módulo não funcionaria! E eles não poderiam chegar perto do buraco de minhoca com a nave coletora, pois ela era tão grande que poderia deformar o buraco de minhoca com sua própria gravidade. E ela poderia ter seu William de volta, pelo resto de sua vida. O que poderia acontecer se ele não fizesse essa viagem. Independentemente do que acontecesse, ela poderia terminar seus dias ao lado do seu amado. Qual é a decisão correta numa situação dessas? Existe um código de ética para viagens temporais?
- Um centavo pelos seus pensamentos!
William aproximou-se radiante como sempre, enquanto Lilian mexia nos fios do motor do módulo de transporte.
- Não estou pensando nada. Apenas dando os últimos toques no seu velotrol.
- Por que não me chamou para ajudar, enfermeira misteriosa? - Lilian ainda usava o protetor no rosto.
- Eu te disse como gosto de ficar sozinha, não?
- Disse. Mas eu não acreditei. Bom, estou pronto e você?
- Sim, tudo pronto aqui - ela disse enquanto parafusava a porta do compartimento do motor.
William jogou suas coisas dentro do módulo, que já estava posicionado no disparador. Olhou para a mulher que o salvou e de quem não tinha quase nenhuma informação.
- Posso ao menos saber seu nome? Se um dia tiver uma filha quero colocar seu nome nela.
Lilian sentiu-se lisonjeada, e lembrou-se de que Willian, há muitos anos, disse o nome que gostaria de nomear sua primeira filha, se um dia tivessem.
- Helen. Meu nome é Helen.
- Lindo nome. Espero que minha futura esposa goste.
Lilian gostava sim. Ele quis um abraço para se despedir, mas a pilota recusou, usando a desculpa dos micro-organismos novamente. William riu com cara de quem sabia demais.
- Você gosta de solidão. Por isso o espaço é o melhor lugar para você. Escute um conselho meu. Se um dia alguém te oferecer o céu como presente, case-se com ele.
Lilian riu, querendo chorar. Mandou que o soldado entrasse no módulo logo, pois em pouco tempo a nave estaria no ângulo e posição correta para lança-lo em direção ao buraco de minhoca. Ele obedeceu e lançou-lhe um sorriso e uma piscadela antes de fechar a porta do pequeno módulo. Lilian voltou à sua ponte de comando, sem saber direito o que sentir, ou se tinha tomado a decisão correta.
***
William não conseguia se entrosar com seus novos amigos, oficiais da Aeronáutica. Eles não conversavam nada que parecesse remotamente interessante. Desgarrou-se do grupo para caminhar por entre as pessoas, passar o tempo. Avistou do outro lado uma jovem num longo vestido branco, no jardim, observando as estrelas. Sentou-se ao seu lado e puxou assunto:
- São lindas, não é?
- Sim, demais - a jovem respondeu tímida, sem tirar os olhos do céu estrelado.
- Mas me parece um lugar muito solitário.
- Qual o problema? Algumas pessoas gostam de solidão.
- Tem razão. E quer saber? Eu devo muito a uma grande mulher que gostava muito de ficar sozinha.
A moça então virou o rosto para ver o de seu interlocutor. Ele mostrou seu lindo sorriso, estendeu a mão e disse: