Esta página tem sido bem menos alimentada do que eu gostaria, e isso se deve a vários motivos. Eu estou num processo de aprendizado e aperfeiçoamento constante de meus conhecimentos e práticas e nem sempre a Wyrd é benevolente conosco, testando-nos inúmeras vezes. Adiante, seguem algumas reflexões que seriam impossíveis sem os bons amigos pagãos e politeístas que tenho e com os quais converso, e os créditos desse texto também pertencem a eles.
E exatamente isso nos traz ao texto de hoje. Eu sou indubitavelmente um politeísta, e vivo na minha pele algumas dificuldades impostas por assumir essa identidade num local onde existe bem pouca tolerância para com algo não cristão. Mas o politeísmo é olhado com desdém e suspeição, nada mais óbvio, uma vez que ele foi morto há tanto tempo na Europa, e os europeus que nos colonizaram e rasgaram nossa história ao meio também apagaram as religiões nativas em sua quase totalidade.
Deuses antigamente poderosos foram totalmente esquecidos, alguns, como Seaxnēat, têm apenas singelas menções de seu nome em contextos que sugerem seu antigo poder, e as tumbas do mistério engoliram quase tudo que se sabia no passado. Algumas poucas divindades como o Óðinn nórdico, ou divindades gregas e romanas tiveram um destino um pouco menos cruel, permanecendo na memória de alguma forma ou de outra, seja em escrito, seja em imaginário popular.
Mas novos deuses foram criados. Talvez não reconhecidamente admitidos como divindades, talvez não tratados conscientemente de forma religiosa, esses novos deuses, a economia, o mercado, o dinheiro, o bem-estar, a família perfeita, a prosperidade econômica, o smartphone, a Netflix (e a lista é enorme daqui em diante), todos atraem nossa atenção e forças psicológicas, de uma forma muito similar a cultos. Rituais acontecem o tempo todo em nossa sociedade, mesmo quando não reconhecidos como tais: de trotes a calouros em universidades a formatura. Não buscamos mais o mestre das ervas e a sábia, à bruxa, mas vamos ao médico e à psicóloga. Xamãs e magos não são mais muito temidos, mas quase ninguém é capaz de falar grosso com um advogado ou policial. Muitas superstições pagãs morreram, algumas permanecem, mas a crença de que o trabalho dignifica mesmo quando humilhante, entre outras, tomaram seus lugares. Consideramos inumano matar um animal para oferecer suas partes ou energia vital a divindades, mas são poucos os que abrem os olhos para o assassinato de pessoas marginalizadas como mulheres, negros, gays e transsexuais, e dão para isso alguma importância.
Os velhos costumes, as velhas crenças foram mortos, mas de certa forma sempre renascem. Parece inato da natureza humana agir da forma que age, apenas trocando os objetos para os quais envia sentimentos similares. Os antigos cultos sempre encontram formas de renascer, adaptados à realidade em que são condicionados. O cristianismo do século I não é o cristianismo de 20 séculos depois, por mais que ele se julgue como a Verdade única. Por mais que o deus cristão seja o mais cultuado no ocidente, nem de longe ele conseguiu todos os seus objetivos, descritos em seus livros.
Nossa era é também aquela em que um ateísmo dogmático e impositivo se ergue lentamente (ou não tanto assim, em alguns momentos) contra qualquer coisa que, estranhamente, não seja similar ao cristianismo sem deus que os ateus praticam. Todos os seus costumes permanecem os mesmos (veja-se as ideias de um Auguste Comte, por exemplo), toda a visão de mundo permanece quase similar. Não há uma mudança real na forma de ver e sentir o mundo. A Natureza continua não-sagrada e sem valor. O homem continua como medida e coordenador de tudo. O intelecto é o novo deus.
Mas novas mitologias surgem, também. Diversos universos de fantasia inspirados no passado, como os de Tolkien, Lovecraft, Warcraft, Gaiman e Harry Potter. Raramente eles são tomados como verdade (ainda bem!) embora muitas vezes tragam dentro de si ensinamentos, histórias, reflexões, num formato narrativo, agradável à mente humana, mas que já não intentam ser tomados como sagrados, como uma explicação real de tudo que rodeia o humano como as culturas pagãs antigas.
E nós, assumidamente politeístas, pagãos, ou ambas as coisas, nos encontramos no meio desse caos. Por mais que essas reminiscências culturais do paganismo se remanifestem, elas não são suficientes para muitos de nós. Nós nos voltamos para os cemitérios de deuses, chamamos pelos seus nomes, e aguardamos uma resposta. Muitas vezes elas vêm em palavras, muitas vezes em coisas sutis. Às vezes o vento na pele, nas folhas de uma árvore, um animal, um objeto que cai, qualquer coisa, funciona como um sinal de resposta.
Muitas vezes não nos perguntamos o que "ser pagão" ou "cultuar um deus pagão" significa. Muitas vezes seguimos apenas o instinto e fechamos totalmente os olhos e ouvidos para a razão, onde ela não é necessariamente algo que não é bem vindo. O paganismo é uma comunidade nova, jovem e que muitas vezes não se reconhece como tal. Entre o paganismo antigo e o novo existem, no mínimo, de 500 a 2.000 de cristianismo, e nem sempre os deuses antigos parecem gostar da forma que são chamados, das funções que querem lhes dar, e da maneira que são vistos. De seres sangrentos em busca de poder, geralmente uma versão mais light e digerível ao cristianismo é comercializada. Nós muitas vezes tememos a essência daquilo que queremos cultuar e o negamos.
Lógico que não quero dizer que os deuses são maus. Na verdade, essa divisão foi algo criado pelo cristianismo. O que era mais louvado nos deuses antigos tornou-se objeto de desdém sob o cristianismo. Temos inclusive dificuldade em enxergar a sacralidade na Natureza e seus seres visíveis e não-visíveis ou em nossos ancestrais. Além disso, as entidades cultuadas em cada vertente do paganismo são únicas, individuais, bastante diferentes umas das outras. Nem todas elas são divindades da glória e poder, algumas só são voltadas para a terra e seu cuidado, outras para o trabalho, ou quem sabe, fazer um fogo para aquecer a comida.
Mas a pergunta que fica é: qual o paganismo queremos? O "paganismo tecnológico" inconsciente que é oferecido pela sociedade do consumo? O paganismo do Eu? Ou o paganismo da terra, das criaturas sagradas, dos ancestrais e dos deuses? O paganismo onde esses seres são ouvidos, são vivos, e continuam sua história, sendo revividos por seus cultuadores? Existem muitos paganismos. Não quero questionar qual é, e se há, um mais legítimo. Mas existe o paganismo que eu quero para a minha vida pessoal e o que eu não quero, assim como cada um tem direito de ter o seu (mas, sonho que se sonha junto, é realidade, vale lembrar). E eu decido ouvir os conselhos antigos. Eu acho que eles ainda têm muito a nos ensinar. Inclusive que nosso "eu" e nossa "vontade pessoal" não é assim tão poderosa como queremos que seja. Nem tudo é nosso universo mental.
Por Daniel Seaxdeor
Na Imagem: Ídolo de Borddenbjerg, encontrado na Dinamarca, e datada de cerca de 600 anos antes da nossa Era.