Quando você me ligou pela primeira vez, pensei: que voz rouca, andrógina, envolvente.
Escritos de cabeçalho de 2005.
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Quando você me ligou pela primeira vez, pensei: que voz rouca, andrógina, envolvente.
Escritos de cabeçalho de 2005.
Haruta
Ontem demorei a dormir pensando em um personagem de uma pequena novela de comédia. Não entrarei em detalhes sobre sua proveniência, em parte por isso ser bem irrelevante.
Mas esse personagem é um homem cisgênero gay, construído numa trama que envolve o contraste entre o ambiente excessivamente protetor de casa ao universo corporativo competitivo.
Tudo isso permeado pelo cinza das megalópoles.
Ele é uma criatura que trabalha duro e que costuma beber e se divertir com os amigos até altas horas após o expediente, de modo a esquecer (ou fugir) de suas responsabilidades com a família e, sobretudo, consigo próprio.
Tudo isso traz algumas consequências para seu modo de existir, do tipo:
Não sabe cuidar de sua casa;
Não sabe cozinhar;
Não sabe se preservar;
Não sabe dosar sua indulgência;
Não sabe o que quer;
Não sabe expressar o que quer;
Não sabe o que não quer;
Não sabe expressar o que não quer;
Não sabe de si.
Me identifiquei com alguns desses pontos, sabe. Sobretudo no que tange a personificação do mal-estar em lidar com a crueldade do desejo.
Durante minha angústia e minha quase-insônia, levantei da cama duas vezes:
Na primeira, bebi água, escovei os dentes, pesquisei algumas fotos do rosto dele e deitei sem nenhuma pista;
Na segunda fui até o sofá, e lá modelei à força um sentido para o vácuo.
No congelador, constrito numa vasilha de sorvete de dois litros, ficou um turbilhão.