Sangrenta
Vermelho.
Era vermelho. Um vermelho tão intenso. De um tipo que nunca tinha visto antes. Aquele ferimento era novo, estranho. Geralmente os arranhões só ardiam, queimavam. Era até suportável se eu ignorasse. Porém, aquele brilhava, não podendo ser ignorado. Ele pedia atenção, cuidados. Os ferimentos antigos sumiam depois de alguns dias, restando apenas uma fina cicatriz como lembrete. Um registro dos meus anos de crescimento, marcas que eram a minha história. Quem eu era.
Cuidei do novo ferimento. Os dias passaram e ele continuava igual. Uma ferida aberta e vermelha. Todos os dias uma bandagem era colocada e no final do dia era tirada. Por mais que o sangramento parasse, algum tempo depois ele voltava à sair, quente e ardente. Era insuportável! Aquele era o tipo de ferimento que nunca sarava. Nunca deixava cicatrizes. Não tinha conhecimento deles. Era do tipo que se adquiria depois de uma luta intensa. Uma briga pesada. Sentimentos desesperados. Emoções que intensamente marcavam a alma.
Aquele tipo de ferimento era difícil de superar sozinha, era muito demorado, e o processo tão doloroso quanto. Eu não queria, mas não tive escolha. Como poderia saber? E a culpa nem foi minha! Foram os falcões! Eles pegavam tudo, não devolviam nada. Agora eu viveria para sempre sangrando. Procurar ajuda não era simples. Quem diria que brincar com minha alma, rir de uma lagarta e colocar uma farpa no meu coração iria deixar sangue escorrendo de dentro para fora?
Eu sangrei durante muitos anos. Hoje o fluxo é mais leve, entretanto o jorro continua. Certas marcas parecem nunca nos deixar. Eu não sou forte para gritar por ajuda e nem sobreviver ao processo. Então morro de uma vez ou morro aos poucos? É difícil a resposta. Mas sei que em nenhuma delas o sangue para. Uma alma machucada, sangrenta. Um vermelho que nunca some. Sempre presente.













