“A dor se deve à resistência da consciência ante uma disposição local do corpo. — Uma dor que poderíamos considerar nitidamente e como que circunscrever tornar-se-ia sensação sem sofrimento — e talvez chegaríamos assim a conhecer diretamente alguma coisa de nosso corpo profundo —, conhecimento da ordem daquele que encontramos na música. A dor é algo muito musical, quase se pode falar dela em termos de música. Existem dores graves e agudas, andantes e furiosos, notas prolongadas, durações, e arpejos, progressões — silêncios repentinos etc.”
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“Nesse povo de seres únicos reina a lei de fazer o que ninguém jamais fez, e o que ninguém jamais fará. É a lei dos melhores (...) Eles vivem apenas para alcançar e tornar duradoura a ilusão de serem sós – pois a superioridade não passa de uma solidão situada nos limites atuais de uma espécie. Cada um deles funda sua existência na inexistência dos outros, estes de quem devem arrancar seu consentimento de que não existem... Podes perceber que não estou fazendo nada além de deduzir o que se encontra embalado dentro do que se vê. (…) Eu via em espírito o mercado, a bolsa, o bazar ocidental das trocas dos fantasmas. Estava ocupado com as maravilhas do instável, com sua espantosa duração, com a força dos paradoxos, com a resistência das coisas gastas. Tudo tornava-se figura. As lutas abstratas adquiriam a força de mascaradas. A moda e a eternidade se digladiavam. O retrógrado e o avançado disputavam entre si o ponto de onde se cai. As novidades, mesmo as novas, davam luz a consequências muito antigas. O que o silêncio havia elaborado vendia-se aos gritos... (…) Desconfio de todas as palavras, pois a menor meditação torna absurdo que nelas se confie. Cheguei, infelizmente, a comparar estas palavras, com as quais atravessamos com tanta agilidade o espaço de um pensamento, a leves tábuas lançadas por sobre um abismo, que suportam a passagem, mas não aguentam a demora. O homem em movimento rápido as usa e escapa; mas, na menor insistência, esse pouco tempo as rompe e tudo se perde nas profundezas. Aquele que se apressa entendeu; não se deve pesar: perceberíamos logo que os mais claros discursos são tecidos com termos obscuros.”
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“Isto me fez descobrir que apreciamos demais nosso próprio pensamento segundo a expressão do pensamento dos outros! A partir de então, milhares de palavras que soaram em meus ouvidos raramente me tocaram pelo que se queria fazê-las dizer; e todas aquelas que eu mesmo pronunciei para outrem, sempre senti que se distinguiam de meu pensamento — pois tornavam-se invariáveis.
Se tivesse decidido como a maioria dos homens, eu não só teria acreditado ser superior, como o teria parecido. Preferi a mim mesmo. O que chamam de homem superior é um homem que se enganou. Para admirá-lo, é preciso vie-lo — e para ser visto, é preciso que se mostre. E ele me mostra que a tola mania de seu nome o possui. Assim, todo grande homem está manchado por um erro. Todo espírito que todos consideram poderoso começa com a falta que o torna conhecido. Em troca das gorjetas do público, ele doa o tempo necessário para tornar-se perceptível, a energia dissipada em transmitir-se e em preparar a satisfação alheia. Ele chega a comparar os jogos informes da glória à alegria de sentir-se único — grande volúpia particular.
Sonhei então que as mentes mais fortes, os inventores mais sagazes, os homens que conheciam mais exatamente o pensamento deviam ser desconhecidos, avaros, homens que morrem sem confessar. Sua existência era revelada pela própria existência dos indivíduos brilhantes, um pouco menos sólidos.”
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“Uma operação tão simples oferecia-me extensões curiosas, como se eu tivesse descido no fundo do mar. Perdidas em meio ao brilho das descobertas publicadas, mas ao lado das invenções desconhecidas que o comércio, o medo, o aborrecimento, a miséria cometem todos os dias, eu pensava perceber obras-primas interiores. Divertia-me em apagar a história conhecida debaixo dos anais do anonimato. Eram, invisíveis em suas vidas límpidas, homens solitários que sabiam antes dos outros. Pareciam dobrar, triplicar, multiplicar na escuridão cada pessoa famosa — esses homens a quem não importava entregar sua sorte e seus resultados particulares. Teriam recusado, na minha opinião, a considerar a si mesmos como outra coisa além de coisas. Estas idéias me vieram durante o mês de outubro de 93, naqueles instantes de lazer em que o pensamento brinca somente de existir...Eu começava a não pensar mais nisso quando conheci Monsieur Teste. (Penso agora nos rastros que um homem deixa no pequeno espaço em que se move todo dia.) Antes de me tornar amigo de Monsieur Teste, sentia-me atraído por seu modo de ser particular. Estudei seus olhos, suas roupas, suas menores palavras surdas dirigidas ao garçom do café em que o via. Perguntava-me se ele se sentia observado. Desviava vivamente meu olhar do seu, para em seguida surpreender o dele que me seguia. Eu pegava os jornais que ele acabara de ler, recomeçava os gestos sóbrios que lhe escapavam; notava que ninguém prestava atenção nele.(…)Monsieur Teste devia ter quarenta anos. Suas palavras eram extraordinariamente rápidas e sua voz surda. Tudo nele era apagado; os olhos, as mãos. Contudo, tinha ombros militares, e seu passo era de uma regularidade que surpreendia. Quando falava, não erguia nunca um braço ou um dedo: ele matara a marionete. Não sorria, não dizia bom-dia nem boa-noite; parecia não ouvir o ‘Como vai?’.”
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“Nunca sinto minha alma sem limites. Sempre cercada, encerrada. Deus! Como é difícil de explicar! Não quero dizer cativa. Sou livre, mas estou classificada. O que temos de mais nosso, de mais precioso, é obscuro para nós mesmos, o senhor bem sabe. Parece-me que eu perderia meu ser se me conhecesse por inteiro. Pois bem, sou transparente para alguém, sou vista e prevista, tal como sou, sem mistério, sem sombra, sem recurso a meu próprio ser desconhecido — a minha própria ignorância sobre mim mesma! Sou uma mosca que se agita e que sobrevive no universo de um olhar inflexível; e existo, ora vista, ora não vista, nunca fora da visão. Sei, a todo momento, que existo numa atenção sempre maior e mais geral do que toda a minha vigilância, sempre mais rápida do que minhas idéias mais repentinas e mais velozes. E, contudo, tenho meu infinito... que eu sinto.”
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“UMA PRECE DE MONSIEUR TESTE: Senhor, eu estava no nada, infinitamente nulo e tranqüilo. Fui retirado daquele estado para ser lançado neste carnaval estranho... e fui, por vossos cuidados, dotado de tudo o que é preciso para padecer, gozar, compreender e me enganar; mas esses dons são desiguais. (…)
Se fosse diferente, se existisse um supremo em si e por si mesmo, poderíamos encontrá-lo pela reflexão ou por acaso; e, tendo encontrado, deveríamos morrer. Isto significaria que se pode morrer de certo pensamento, só porque não existe pensamento seguinte.”
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“O EU é a resposta instantânea para cada incoerência parcial — que é excitante.”