“Levanto às cinco da manhã, já levantei as seis, em outros tempos. Mas essa coisa de crescer, de ser do mundo, nos tira até as horas de sono. A minha mãe levanta comigo e enquanto me arrumo ela prepara o café, deixa a mesa posta e me espera sair. Amor. Da minha casa até o ponto, se eu olhar pra trás enquanto subo o morro, vejo o sol lutar contra o céu dorminhoco pra transformar o cinza em cor. E todo mundo para pra ver, é bonito demais. Os raios mais espertos escapulindo. Pouco a pouco tomando a noite, nascendo o dia. No ponto de ônibus, cada raio que brilha arranca um sorriso. O sol é o primeiro a nos desejar um dia bom, quando ilumina a manhã daqueles que já estão de pé. Amor. A rotina é quase sempre - pra não ser tão pessimista - cansativa. A manhã se arrasta tropeçando no sono. Por volta das onze, a fome começa a gritar. Estresse. O tempo todo. Se eu pudesse teria ido embora a muito. Quando é quase uma da tarde, todo mundo corre, se liberta. Os ônibus lotam outra vez, as panelas tremulam no fogão em todos os lugares da cidade. Se não calarmos a fome, é provável que se instale o caos. Mas aí, nesse corre-corre, vaivém, crianças gritando, mães apressadas, buzinas. Gente demais. Alguém te oferece um doce, uma mensagem. Tem gente vendendo livro, sorvete. Tem o moço da pilha que fica berrando o preço e ninguém para, ninguém compra. Os mendigos esticados, dormindo, doendo. Os poetas tentando divulgar o amor que eles colocaram no papel. Tem quem compre ouro, prata. Uma pastelaria. E essas pessoas sorriem. As que não param com a fome, que ficam lá, aos gritos tentando ser alguém na vida. Tentando ganhá-la, como der. Amor, sem dúvidas. Por alguém que está em casa, por um filho na barriga, marido, mãe ou pai. Amor. Voltando pra casa, vejo casais, crianças. Quem fica em casa a tarde vai ter sono. A maioria volta a trabalhar, ganhar a vida. Algumas crianças vão pra escola, outras para as babás. A chuva cai, de vez em quando e sob cada telhado da cidade dúzias de vidas exalam, se esbarram. Discutem, falam , aprendem. Em todos os cantos do mundo o silêncio é preenchido por um sopro de vida, uma respiração. Pelo barulho dos sapatos, das vozes em confusão. Amor. Depois, é noite. As famílias se encontram, se abraçam. Quem é sozinho se acalma, se ajeita. Nas ruas quem não tem casa procura calor em qualquer canto, qualquer beco. O som da água escorrendo do chuveiro vai pouco a pouco se transformando em silêncio. Alguns resistem. O sol se esconde, escurece. A noite cai. Amor. Quando o dia amanhece, eu me levanto. Recomeça. E aí, me pedem pra não falar de amor. Pra não colocar amor em cada canto do mundo, em cada esquina que dobra. E eu fico aqui me perguntando como. O mundo é puramente amor, só que ninguém vê. Que o amor move a cidade, a rotina. E eu falo de amor o tempo todo. E dizem que amar não é isso. Mas é claro que é. Se prestarmos atenção, vamos ver que amar não é escolha. É necessário. Só que aí, de vez em quando nos esbarramos com alguém que também sabe que o amor está em tudo. E isso nos encanta. Dizemos então que o amor nasceu. Mas não, ele já existia. Ele existe por baixo de cada borrão dos nossos dias.E é sortudo quem encontra. Quem descobre tanto amor em outra pessoa que resolve se entregar. Amor. Tudo é amor nesse mundo. Ou fiquei louca. E ele não acaba. Ele só se vai. Afinal nunca foi nosso. Está no mundo, entende? O mundo é feito de amor. Amar é ser parte do mundo. Quem diz que não pertence ao mundo é porque ainda não descobriu como é que faz pra se amar. Amor. Fiquei louca. Mas eu vejo amor no mundo, em tudo. E eu falo de amor o tempo todo. Desse amor que não é meu, mas que me cerca e me sente. E é disso que o mundo é feito. Amor.”