A Raquel sentia falta de escrever. A Ágata sentia falta de escrever. Aí elas resolveram que pra 2014 iam voltar a escrever.
A nossa meta é...
Escrever contos de vários tamanhos de acordo com desafios durante o ano de 2014. Qualquer gênero. Um por semana.
Unlike the rest of the house, the kitchen is not dirty or taken over by wild vegetation and rats. In fact, its dark wood floor is always scrubbed clean, the walls are bare to the point of discomfort, and in this particular night the whole room smells of roses. Roses and different flowers and very special aromatic herbs measured down to milligrams. They cook and bubble away in a big black cauldron set in the fireplace with an immaculate black marble top. The cauldron also has a distinctive ferric smell, most likely caused by the deeply red liquid that served as a basis for this unusual mixture.
The only furniture in the room is a table set in front of the fireplace and an austere-looking chair set in front of the table. The only access to the outside world is a window with its curtains drawn, letting a little moonlight in. In the table there is a child, in the chair there is a man, at the window there is a crow. None of them seemed to notice each other. None of them moved.
Time was passing slowly for the man in the chair. He awaited there not blinking, barely breathing. His thoughts were flooded with images and memories that he tried to fight against. He knew he needed a clear mind to do what he was about to do, and yet he couldn’t help the images coming again and again, like a broken dam that won’t be stopped. He saw the face of his former wife. It have been years since he thought about her. But yes, it made sense now. Now that another loss was so close. He also thought the last time he did what he was about to do now, and it made him shudder. A secret talent, if talent is what you want to call it, passed down from one generation to another. He didn’t like to think about it, he hid in an abandoned house for a reason. He liked even less to do it. But he was desperate. Nervous.
For the crow, time was running faster and faster. It kept going back and forth, back and forth, to images of the girl alone, alone, alone, unhappy, talking to the plants. He saw her all day long sitting in the small yard with her porcelain doll, trying to make up new games. The crown saw her being beaten for spending an afternoon too far from home. She wasn’t allowed to talk to no one. She wasn’t allowed to get out of the garden. She was to be protected, the man said. She was loved. The man kept repeating that. The girl kept crying. The crow saw it happen, time and time again.
To the girl, time didn’t pass at all.
Finally, the man rose. The smell was right. People think it’s the time or the color or the ingredients, but really, it’s the smell. He could never forget what the right smell was. He got up and approached the girl, stroking her face lovingly. It was a bit swollen, her neck was covered to hide the cut from where he took the blood, but her clothes were her best pink-and-white dress with laces and, as a final touch, he put the porcelain doll in her arms. She looks a little like sleeping, he thought. Except that she wasn’t.
The weather stirred. Oh, well, the man thought. You can’t really change the course of life without getting yourself a storm, do you?
Outside the window, more birds gathered. They were restless. They started to peck at the glass, but the man was focused. He knew this was his only chance, as life can only be brought from the other side once. It has to be done right. It has to be done slowly. Carefully, he lifts the body of his dead child from the table and approaches the cauldron. The closer he gets to the bubbling mix, the fiercer are the birds' attacks. The man hears only his heartbeat, his blood rushing through his ears, and he doesn’t hear the first crack. The birds come in just as he is about to submerge the body, and the crow goes right to the back of his neck. This makes him drop her, and he thinks shit, I shouldn’t have dropped her, not all at once, she will come back too quick, she will come back scarred. It’s always bad when they come back scarred. But in an instant he notices that he has bigger problems in his hands, and neck, and shoulders, and face. The crow is the most vicious one, going for his eyes, which he tries to protect without very good results. He stumbles, the cauldron falls, he trips in the girl’s body, which by now is not swollen anymore, he could sense it even if he couldn’t see it. But it is useless, he fell. The storm was raging and the birds were furious. Furious for the girls they watched crying so many times, for the change in the natural state of things, for the strong sense that what was happening could not be, and this man was to blame. He fought in vain, feeling less and less as they took off his flesh, and his blood mixed with the girl’s blood spilled across the once-immaculate floor. Soon his screams were mixed with her screams as she woke up from the dark, the unimaginable dark. But she was calming down, the cut on her throat healed, her scars gone. He was calming down too, but for a different reason. A last flow of conscience went through him, and he thought, at last, “Oh girl, I love you so much”.
Her breathing was finding its rhythm again. She felt strange. She could sense things that she could not sense before, and when she opened her eyes, the world was somehow sharper, and she saw things in a way she never did before. She didn’t know that yet, but that was a common side effect. That was how witches were made. She heard the ruckus of the birds, and the crow sat on the shoulder of her bloody dress. It tilted it’s head and cawed. She listened amazed, as she could understand what it had to say. She could hear everything now. And, more than that, she could talk. He wasn’t there anymore to punish her, to keep her away forever. She was free at last. Just like her birds.
O que as pessoas não sabem é que depois de um tempo, o pó toma conta de tudo. Não digo isso no sentido metafórico, “do pó viemos” e etecétera. Digo isso no sentido de que, quando se vive perto o suficiente de um deserto – que é basicamente uma vasta extensão de poeira – você aprende desde cedo a parar de lutar contra a fina película de terra vermelha que cobre todos os seus pertences, toda a sua vida, todo o seu corpo.
Claro, nós limpamos as casas. Lavamos as roupas. Protegemos a pele da melhor forma possível. Mas ainda assim parece que tudo se esconde embaixo de mais uma camada de areia batida. É como se a vida inteira fosse vista com óculos ligeiramente embaçados, que você nunca tem a permissão de tirar.
A única que parece entender é a Baloeira. Esse é o apelido que demos a ela quando ela chegou. Chegou não, foi trazida. Um belo dia havia um balão de ar enorme passeando por cima da cidade, no dia seguinte ela entrou carregada por quatro homens numa maca improvisada com lona, depois de ter sido encontrada em meio aos destroços do seu balão um pouco além da cidade. Também vencida pela natureza. Meu marido é um dos líderes comunitários e me pediu que cuidasse dela em nossa casa, já que o médico havia dito que ela estava fisicamente bem, só desacordada. “Trate-a como um hóspede”, ele disse, “até que possamos descobrir de onde essa mulher veio”.
Eu não a suportava no começo, pelo seu grande cabelo vermelho e pela sua recusa em acordar e nos dizer quem era. Nossa comunidade é isolada, quase nunca temos alguém de fora, e o tédio me matava. Agora que eu tinha a chance de conhecer alguém, ouvir histórias, escapar nem que fosse através de outros, ela não nos dava nem um nome! Nada! Só sua boca sempre com sede e seus cabelos sempre da cor da terra que eu tanto odiava.
Os dias viraram semanas e eu, sem ter mais ninguém com quem falar sobre algo que não fosse aquela vidinha empoeirada que eu era obrigada a viver, comecei a criar histórias daquela mulher misteriosa. Criava histórias e contava para ela enquanto ela dormia. Nas minhas histórias ela era uma guerreira de terras distantes, que havia voado em seu balão para fugir de um exército de inimigos, até que uma flecha maligna rasgou seu balão e ela caiu aqui. Ou era a médica mais importante de onde vivia, e havia sido chamada para um caso difícil e inexplicável que só ela poderia resolver. E, neste exato momento, uma vida agonizava olhando para o horizonte a cada nascer e pôr do sol, perguntando-se onde estaria sua salvação.
Um dia eu estava cansada das histórias e estava apenas sentada ao lado da cama, como fazia agora em todos os momentos que eu tinha livres, e minha distração era imaginar qual seria o nome daquela mulher. Eu observava seus cabelos embaraçados pelo travesseiro, por mais que todas as manhãs eu os penteasse com um carinho que não achei que eu poderia vir a ter. Usava um pano úmido para não deixar seus lábios delicados ressecarem e observava o tranquilo sobe-desce de seu peito. Enquanto isso, falava em voz alta todos os nomes que podia pensar. Mahaila. Kamel. Narin. Jasmine. Zhara. Hadarah. Lale. Maya.
Foi ao ouvir esse nome que ela se mexeu e balbuciou algo, e meu coração quase parou de susto. Chamei de novo. Maya. Ela gemeu como quem está dormindo há muito tempo e ainda não quer acordar. Maya, eu repetia. Maya. Sussurrei gentilmente em seu ouvido: Maya. Maya. Maya.
Maya acordou. Ainda atordoada, ainda fraca. Estendeu a mão com seus dedos finos e calejados em direção ao jarro d’água, que bebeu quase inteiro quando eu o entreguei. Mas, quando achei que finalmente ia poder perguntar tudo que queria saber, descobri frustrada que ela balbuciava em um idioma que eu nunca tinha ouvido na minha vida. Aparentemente tudo que eu dizia também não significava nada para ela. Mas, ainda assim, ela estava acordada. Ela podia não ter uma história nem um passado, mas já tinha um nome. Maya.
Meu marido concordou que ela ficasse conosco até sua completa recuperação. Em alguns dias ela já andava comigo pelos jardins, e nossa comunicação era baseada em desenhos. Ela havia aprendido algumas palavras de nosso idioma, como “água” ou “fruta”, mas nada substancial ainda. E ninguém da nossa pequena cidade entendia o que ela dizia. Mas, ainda assim, as coisas estavam melhorando. Eu não conseguia deixar de notar que as saias que ela usava levantavam a poeira dos lugares onde ela passava e que seu cabelo parecia nunca perder a cor original para a cor coberta-de-pó de todas as outras coisas. Eu reparava em tudo que que ela fazia e a cada dia ela ocupava um espaço maior nos meus pensamentos.
Nós inventamos um jogo que usávamos para fazer as tardes passarem mais depressa. Uma das duas começava a desenhar uma história numa folha de papel – talvez desenhando uma pessoa, ou um animal, ou uma situação – e a outra continuava, e assim ficávamos até a luz do sol acabar. Um dia ela desenhou um balão caindo do céu. Eu desenhei uma cama com uma pessoa deitada, ao que ela acrescentou uma outra pessoa sentada ao lado da cama. Desenhei algumas flores e duas mulheres sentadas no meio do jardim, exatamente do jeito como estávamos agora. Maya puxou o papel e virou de costas, se escondendo enquanto desenhava a próxima cena. Quando se virou novamente ela me estendia o papel enquanto olhava para o chão, envergonhada. Ela havia desenhado as mesmas duas pessoas, seus rostos dois círculos que se tocavam de frente. Maya ainda não olhava para mim e, quando entendi, nem eu queria olhar para mim mesma. Uma onda de rubor subiu ao meu rosto mas, ao mesmo tempo, senti algo que passava pela minha barriga, o baixo ventre, o coração, que eu nunca havia sentido antes. Toquei a mão dela, mas ela ainda não me encarava. Segurei seu rosto com as duas mãos e ficamos assim, testa com testa, nariz com nariz, enquanto eu a olhava nos olhos e descobria tudo que precisava saber, sobre ela e sobre mim.
Foi a primeira vez que nos beijamos.
Talvez, no fim das contas, eu possa aprender a amar algo vermelho.
As palavras que repetimos muitas vezes deixam de ter significado depois de um tempo. Tornam-se sons indecodificáveis.
Tanto ele pregou tolerância sem perceber que jamais soube o que era tolerar. Até aquele momento. No meio do ódio ela agarrou-lhe a mão. Apertou os dedos nos dele. Tolerância era o apoio na diferença, pensou. Sem dizer palavra ou trocar olhar, só no respirar profundo, ela o puxou um milímetro mais para perto. E foi rocha sólida no turbilhão. Eram diametralmente opostos os dois e, ainda assim, diante do mais profundo desespero comum, estavam de mãos dadas. Para continuar vivendo. Para continuar de pé. E superar.
“Minhas verdades estão nas mentiras que eu conto
e minhas mentiras estão nas verdades que eu invento.”
- Alexander Sousa (SHIMN)
13:45, começo a ficar ansiosa. Parecendo um lêmure com os ouvidos atentos a cada ruído vindo do canto onde fica a porta, cada vez que ouço um som me viro rápida mas discreta, porque eu quero ver mas não quero que me vejam. Eu sei, você só chega as duas, mas quem sabe pode chegar mais cedo. Ou talvez um pouco mais tarde. E ainda tem a variável de você vir falar comigo quando chegar ou não. Talvez, se nós tivermos deixado um assunto importante interrompido ontem, você venha fazer algum comentário à guisa de boa tarde. Talvez você não ache o assunto assim tão importante. Afinal, nós sempre temos um assunto ou outro interrompido e que nunca lembramos de retomar. São só pedaços de conversas, nos pedaços de tempo que eu tenho você.
Meu dia é dividido em horários – nos seus horários. De 13:45 até 14:15, sua chegada. Exatamente as 17:00h, com uma margem de meia hora para mais ou para menos, é a hora em que você vem na minha mesa perguntar se eu estou com fome, se quero que você traga alguma coisa pra comer do seu lanche na rua.
- Quero, traz um beijinho.
Doce, ai. O doce que eu quero é outro, tá? Eu já vejo todo dia, tá em algum lugar da sua boca, não quer trazer mais pra perto de mim não?
Você volta me trazendo um chocolate, já sabe qual é o meu preferido. E eu começo a contagem regressiva pra nossa próxima conversa: 19:30, seu horário de saída. Eu posso sair uma hora e meia mais cedo, mas você não sabe. Eu posso pegar meu ônibus muito mais rápido se não for pelo caminho que segue até o seu ponto, mas você também não sabe. Eu quero roubar cada cinco minutos que eu tiver pra estar ao seu lado, e disso você sabe menos ainda.
O centro da cidade hoje está um caos, a fila pro seu ônibus é algo inimaginável. E você não vai conseguir pegar um lugar sentado tão cedo, já vou avisando. Quem mandou morar longe? Tem um ônibus que vai praquele lado que sai da Praça XV, quer ir tentar lá?
Pronto, roubei mais cinco minutos, mas lá também está lotado e você sugere aquele que passa lá na Presidente Vargas. Vamos indo. Eu olho um bueiro pintado com a cara do pac-man no meio da calçada, você dá risada.
- Como é que você consegue ver essas coisas?
Ah, meus olhos são grandes, tipo do lobo mau, são feitos pra ver. Que nem minha boca grande feita pra falar, só o que eu tenho de pequenininho é meu coração, que ao contrário de todo o resto, foi feito pra ser assim frágil, pra ser protegido. Mas dele eu não conto pra quase ninguém, o que todo mundo vê são só meus olhos. E com eles eu vejo cada coisa que nem te conto. Eu olho nos olhos das pessoas, olho bem fundo desse jeito, e consigo ver elas por dentro como se fosse um espelho, eu e meus olhos grandes. Consigo ver todos, menos você, garoto dos olhos de abismo. Aonde é que você se esconde?
Nós vamos passando e é claro que a Avenida também está toda parada. Ai meu Deus, como é que eu vou chegar em casa?, você pergunta. Não precisa chegar, fica aqui comigo, que eu fico andando na chuva fina com você a noite inteira, e seu ônibus nunca mais vai interromper nossas conversas, e minha casa vai ser qualquer lugar onde eu esteja contigo.
- Última tentativa. Tem um ônibus com ponto final na Praça Mauá, acho que de lá eu consigo um lugar.
Então vamos. E no caminho passamos por tantos prédios, ruas e lugares, e de cada um deles eu vou contando uma coisa, e daqui você chega pra lá, e aqui aconteceu tal coisa, e eu acho tão legal isso de terem construído a avenida com a igreja da Candelária bem no meio, você não acha? E você me olha com esses seus olhos que eu não sei decifrar, me sorri com essa boca que eu não posso beijar e me diz “Nossa, que lugar você não conhece?”
- Não conheço aonde você mora.
- Não, engraçadinha, to falando aqui do Centro.
Ah, se você me levasse a sério. Se você ouvisse o que eu falo de verdade. Ou será que ouve, e fica só fingindo que não sabe, que não viu, que não é? Porque você ri quando passamos em frente a um hotel e eu te digo que olha, é mais fácil ficar aí mesmo, que sair do Centro hoje tá difícil, ri e me olha como quem pergunta o que eu quero dizer com isso. Quero dizer isso mesmo: quero que você fique, que eu fico junto e te roubo essa noite, te roubo a manhã seguinte, e quando você reparar eu já te roubei pra mim o resto da vida. Acha que eu estou de brincadeira? Paga pra ver.
- Chegamos. Olha lá o ônibus, já tá saindo!
Você vai correndo e me deixa pra trás, meu tempo por hoje acabou. Entra no ônibus quando eu acabei de chegar no ponto, e só dá tempo de olha pelo vidro encardido enquanto o motorista fecha a porta. Eu faço cara de brava porque você nem se despediu de mim, e você balança os ombros e me joga um beijo.
São 20:15. Vou descer toda a rua de novo até poder pegar meu ônibus. Mas já começo a contar: dezessete horas e meia pra eu voltar a ser feliz.
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ps: tô roubando um pouquinho com esse conto. Ele foi escrito em 2008, pro Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro, e inclusive publicado na primeira coletânea do Clube. Mas o que vale é a intenção né?
Nunca me esquecerei de quando descobri que Paris estava construída em cima de imensos túneis repletos de ossos e da impressão que aquilo me causou. Foi no ano de 1787 e eu havia acabado de me mudar com meus pais, vinda da Itália. Papai havia sido recentemente promovido para cuidar do Consulado italiano na capital da França e eu e Mamãe estávamos animadíssimas. Como não estar? A capital do mundo, a cidade luz! Claro que isso veio com milhões de obrigações que eu não compreendia, tudo que eu sabia era que essas obrigações frequentemente tiravam meus pais de casa. Quem passava a maior parte do tempo comigo era Florence, uma alma gentil que tolerava com paciência meus arroubos de criança mimada. Que eram muitos. Todos os meus sonhos coloridos sobre Paris vinham se transformando em uma realidade bastante cinzenta para o meu gosto. As crianças eram mais cruéis do que o normal, eu ainda não tinha feito nenhum amigo e o inverno parisiense estava, francamente, me deixando deprimida. Então eu, do alto da minha insatisfação de criança de nove anos, bombardeava Florence com perguntas e pedidos de histórias.
- Mademoiselle, estou entediada! Conte-me uma história nova.
- Mas eu já contei todas as histórias que conheço, Nadine. Vá fazer algo e não seja inoportuna.
- Onde eu morava? Do lado errado do rio. Você acha que sua vidinha é muito ruim, mas não sabe o que fala. O River Gauche. Você não gostaria de lá. Por Deus, ninguém gostaria de lá. Eu pelo menos não gostava. Mas minha mãe ainda está por lá, então tenho que visitá-la de vez em quando. Sabe o que acontece lá onde eu morava?
- O que?
- Os mortos, mon petite. Os mortos invadem sua vida e fazem você não ter certeza se ainda está vivo ou não. Minha mãe morava perto do cemitério desativado. Primeiro vem o cheiro. Você não conhece o cheiro da morte e espero que nunca venha a conhecer. Ele empesteia quarteirões, invade portas e janelas trancadas e nada do que você fizer fará com que ele vá embora. O cheiro fica no seu cabelo, nas suas roupas, na sua comida. Sempre. Seu hálito apodrece porque a água também fica podre. Sabe o que aconteceu com um vizinho de minha mãe? Um dia acordou com o barulho das paredes de seu porão desmoronando. Ossos e mais ossos, vermes e terra velha, invadindo sua casa no meio da madrugada. A esposa dele teve um colapso nervoso. Começou a falar que os mortos estavam se levantando para roubar o lugar dos vivos. Não é exatamente uma vizinhança agradável.
Só então Florence percebeu minha expressão do mais puro e absoluto terror. Não sei até hoje se isso a deixou arrependida por ter contado uma história dessas a uma criança impressionável ou se, no fundo, ela estava se divertindo por finalmente ter me feito calar a boca. Qualquer que fosse o caso, ela tentou continuar num tom um pouco mais alegre:
-Ora, mas você não tem que se preocupar com isso. Primeiro porque você é será uma bela dama que nunca chegará perto do River Gauche. Segundo porque em breve a casa de minha mãe será um lugar bem mais agradável. Pois sabia que estão tirando todos os mortos do antigo cemitério?
Meus olhos arregalaram mais ainda.
- E alguém pode fazer isso???
- A polícia pode, aparentemente. Os padres também. Eles seguem toda noite em carruagens cobertas por véus negros, cantando suas rezas e músicas naquela língua que ninguém entende.
Visualizei o cortejo sinistro. Eu não contava isso para ninguém, mas morria de medo da superioridade dos padres cantando e rezando em latim. Eu me perguntava como alguém podia confiar no que eles diziam se ninguém mais entendia o que estavam falando. E você ainda era obrigado a contar todos os seus pecados a eles. Até onde eu sabia eles poderiam muito bem estar contando todos os segredos do mundo para fantasmas invisíveis. E esses fantasmas poderiam muito bem vir me punir por meus pecados durante a noite. Eu sempre tive um pouco de medo da noite.
- Mas estão levando todas essas pessoas para onde? – perguntei, por um momento com a estúpida ideia de que eles estivessem dando uma cota de ossos para cada residência parisiense e fossem tocar minha campainha a qualquer momento.
- A essa altura não são mais pessoas, são só um bando de ossos. – Florence falava como só quem cresceu lado a lado com a morte conseguia falar – Isso tudo vai ser enterrado em um outro lugar. As antigas minas, se não me engano. São como longos túneis que se espalham por baixo de toda a cidade.
Desde então essa visão nunca saiu da minha cabeça. Cheguei a perguntar a meu pai se existiam mesmo túneis abandonados embaixo de Paris, sem incluir o detalhe dos ossos e cemitérios e os pesadelos que me atormentavam desde então, e ele confirmou. Disse que ninguém sabia ao certo quantos túneis abandonados existiam e nem por onde exatamente eles passavam, sabiam apenas que eram muitos.
Os pesadelos pioraram. Eu sonhava com buracos que se abriam na rua e engoliam meus pais, com o barulho dos ossos batendo uns contra os outros. Fui me fechando cada vez mais em mim mesma conforme crescia, e os amigos que já eram poucos tornaram-se ainda mais raros. Minha mãe se preocupava com minha falta de amigos, de vida social e, principalmente, de pretendentes. A essa altura eu já estava com 17 anos e minha mãe queria ver-me casada em breve. Essa preocupação chegou aos ouvidos de uma vizinha amiga de Mamãe, que foi quem deu a sugestão:
- Madame Argent faz saraus em sua casa para jovens de boa família mostrarem seus dons artísticos, e lá há muitos bons rapazes e moças. A Madame conhece muitos jovens escritores, músicos, poetas e pintores, e penso que faria bem à Nadine a companhia de pessoas criativas de sua própria idade.
Assim, fui enviada a contragosto a um desses encontros na semana seguinte. Nada poderia ter sido mais inesperado para mim, pois assim que um dos rapazes começou a declamar seus poemas sobre o amor e a morte, era como se pela primeira vez meu coração fizesse sentido. Seu nome era Auguste, descobri mais tarde, e ele e seus amigos criavam num estilo que chamavam de romantismo. Eu nunca ouvira falar daquilo, fechada que estava em meu próprio mundo de tristeza e depressão, mas aqueles versos e poemas pareciam dizer tudo aquilo que eu mesma nunca soube que pensava. Passei a frequentar cada vez mais esses encontros e logo eu e Auguste já estávamos íntimos. Ele me dedicada poemas sobre amor além da vida e eu lhe oferecia beijos escondidos e todo o meu coração. Até que, um dia, ao nos despedirmos, ele me disse:
- Traga um casaco leve para nosso próximo encontro, eu e os rapazes estamos preparando uma surpresa.
Na semana seguinte, depois de muita ansiedade, Auguste chegou com uma carruagem em minha porta e perguntou o que eu havia dito aos meus pais.
- Nada – retruquei – Eles estão viajando em algum canto dos Alpes.
- Ótimo! – disse ele, segurando minha mão – A noite de hoje será inesquecível.
A carruagem seguiu pela escuridão até parar na porta de uma casa aparentemente normal perto da Place de la Defense. Quando entrei vi mais vários amigos já esperando, homens e mulheres animados como uma criança na véspera do aniversário. Fui cumprimentada efusivamente por minha amiga Marie.
- Nadine, que bom que chegou! Trouxe um casaco? Ótimo! Dizem que faz sempre muito frio lá embaixo.
- Como assim lá embaixo? – perguntei, enquanto todos os pesadelos da infância voltavam a me assaltar de uma vez só.
- Ora, nas minas. Ou melhor, agora estão chamando de catacumbas. Jean-Pierre subornou um trabalhador das obras de renovação e preparou um concerto especial para nós lá embaixo.
Marie estava tão empolgada que não viu meu rosto ficar pálido. Eu nunca havia contado a ninguém sobre meu medo dos túneis subterrâneos, nem mesmo a Auguste, porque considerada esse assunto esquecido. Fazia sentido que ele estivesse empolgado para ir no que estavam chamando de “o mais especial dos passeios”. Já havíamos ido visitar igrejas abandonadas com seus cemitérios decrépitos antes, mas nunca algo parecido com isso. Isso era diferente, era muito maior. Eles estavam animadíssimos. Decidi naquela hora que não estragaria o passeio de meus amigos, e consegui até me convencer de que talvez a descida ao lugar que me causara tanto pavor como criança pudesse me fazer bem, afinal, não passava de um medo infantil.
Começamos a descer quando já passava das onze da noite e todos já haviam tomado lá alguns copos de vinho. A escada era cavada na pedra, estreita, feita há muito tempo por mineradores ilegais, e descíamos em fila indiana com uma lanterna a óleo sendo carregada a cada três pessoas. No início a longa fila era animada, mas conforme o frio e a escuridão cresciam eu sentia crescer também o silêncio, e falar era como penetrar na neblina – tudo parecia se perder. Cada um tinha motivos diferentes para estar naquele lugar, na companhia daquelas pessoas, e era como se naquele momento o peso desses motivos sufocasse um pouco o coração de cada um. Eu prestava atenção em nossos passos ritmados na escada, e fora isso o único som era o gorgolejo de água corrente que as vezes ouvíamos pingar das paredes e do teto.
Quando chegamos lá embaixo o estado de espírito de meus amigos pareceu melhorar, mesmo que eu não pudesse dizer o mesmo do meu. Garrafas de vinho foram distribuídas e um dos rapazes começou a nos guiar com um mapa através de amplos túneis abandonados. O ar lá era antigo e eu tinha a sensação de que éramos os primeiros serem vivos a passar por aquele lugar em muito, muito tempo. A chama das lanternas criava sombras que bruxuleavam por corredores escuros e vazios, e eu achava nossas próprias sombras aterrorizantes.
- Ah, aqui estamos.
Paramos todos, como soldados ao receberem uma ordem, em uma grande câmara circular que tinha, em sua extremidade, uma abertura na parede que fazia as vezes de porta. Atrás da abertura era possível ver uma parede inteira de fêmures empilhados. No meio da parede, fazendo as vezes de decoração, crânios formavam uma cruz. De dentro da porta surgiu Jean-Pierre, de fraque e cartola, girando uma bengala de mogno em uma das mãos.
- Bem vindos, caros amigos e estimadas amigas! – começou ele, fazendo uma reverência exagerada e tirando a cartola. – O espetáculo os aguarda e os músicos já estão a postos com seus instrumentos. Sigam apenas as velas que indicam o caminho e, por mais que a tentação seja grande, não passeiem pelos outros túneis. Este é o império da morte – e enquanto falava fez um gesto amplo indicando uma placa com esses exatos dizerem em cima da porta – e se vocês se perderem acho que nossos colegas defuntos não serão muito úteis indicando o caminho de volta.
Fizemos o indicado e começamos a seguir o caminho iluminado por estranhas velas aromáticas, que soltavam uma fumaça que eu tinha a impressão que começava a me entorpecer. Ou talvez isso não tivesse nada a ver com a fumaça, mas sim comigo. Eu caminhava contando lentamente minha respiração e tentando não pensar que aqueles túneis todos podiam cair a qualquer momento e me deixariam soterrada com os ossos de mais cinco mil parisienses.
Chegamos a uma sala redonda, com as paredes também forradas de ossos e arranjos cranianos. Em uma das extremidades, Jean-Pierre havia organizado alguns músicos amigos nossos com seus instrumentos e roupas negras. Mais velas iluminavam parcamente o recinto. Jean-Pierre olhou em seu relógio e iniciou a noite oficialmente:
- Meia noite, caros amigos! Que la danse macabre commence!
Eles começaram com a Marcha Fúnebre. Seguiram com o Kindertotenlieder de Mahler. Quando estavam em uma peça da Symphonie Fantastique eu já não me aguentava mais. Eu não sabia se era a acústica sinistra do lugar, a iluminação fraca e irregular ou a própria traição de meu cérebro e de meu coração, mas comecei a ver vultos que se aproximavam pelos corredores laterais. À fraca fumaça das velas, os crânios pareciam me encarar, perguntando o motivo daquela exibição profana de vida num reino apenas de morte. O violino se transformava nas risadas malignas há muito esquecidas, que habitavam meus pesadelos. Meu peito ficou pesado. O pavor começou a me consumir, e tive certeza de que precisava sair dali.
Auguste viu meu estado e perguntava ao meu ouvido se eu estava bem, mas na hora eu não conseguia raciocinar mais nada. Tudo que consegui falar pra ele foi que eu estava bem, mas precisava ir embora, seguiria o caminho das velas até a escada e de volta para casa. Ele pareceu querer me impedir, mas arranquei sua mão de meu braço, peguei uma das lanternas a óleo que havíamos trazido e sai pela entrada mal iluminada. Achei que quando estivesse sozinha eu conseguiria respirar tranquilamente e me acalmar, mas minha corrida desesperada pelos corredores com o caminho das velas aconteceu porque eu tinha certeza que não estava sozinha. Cada ossada era uma acusação, cada espaço vazio que um dia havia visto a luz do sol era um pesadelo diferente esperando para acontecer.
Meu desespero foi minha ruína. Foi fácil navegar pelos ossos iluminados, mas quando voltei aos túneis antigos das minas ilegais eu não conseguia mais diferenciar direita de esquerda, andar para frente de voltar para trás. O pensamento de esperar pelo concerto macabro de meus amigos sozinha era insuportável e voltar para onde eles estavam também não era uma opção. Então andei. E andei. E eu jurava que estava reconhecendo os corredores pelos quais passamos, mas as escadas não chegavam nunca, em seu lugar apenas mais e mais túneis, mais e mais escuridão. Minha lanterna foi se apagando e passei a andar sentindo o caminho com as mãos nas paredes, guiada pelo barulho da água corrente que eu tinha certeza de ter ouvido na nossa descida. Mas aqui em baixo tudo é eco e nada é real. Não sei quando ou o que aconteceu, sei apenas que continuei a andar porque meu medo de parar é muito grande. Eu ando e não me canso, mas também ando e nunca chego, meus olhos nunca se acostumaram com a escuridão. Uma vez só vi resquícios de luz, onze anos depois de ter me perdido, no local onde uma equipe de restauração encontrou meu corpo, mas quando tentei segui-los os sons de tantas vozes depois de tanto tempo me confundiram, ou virei em alguma esquina errada, e nunca mais vi ninguém. Ouço vozes, as vezes, e me convenço de que são de pessoas vivas que vieram me buscar. Auguste me encontrou depois de tanto tempo. Meus pais sentiram minha falta e criaram uma força-tarefa para me buscar. Meus amigos não foram embora sem mim. Tento seguir as vozes e grito o nome de pessoas conhecidas, mas parece que nada dura. Nada adianta. Então continuo a andar nessa noite eterna. Não posso parar. As pessoas dizem que coisas estranhas e malignas vagueiam perdidas por esses corredores. Tive sorte até hoje, mas não posso arriscar me encontrar com um desses fantasmas.
A igreja era antiga, daqueles lugares que você sente a antiguidade na pele. No ambiente. As portas se fecham e lá dentro até o ar de repente fica velho.
Não era uma igreja lá muito rica em adornos ou vitrais, apesar de toda a sua idade, e possuía apenas uma longa nave com um altar simples ao fundo. Mas a riqueza da igreja e o orgulho do padre e dos párocos era o órgão. Um de verdade, daqueles imensos, cujo som aos domingos ecoava para muito além da pesada porta de madeira. O velho órgão era, também, o único amor sincero de Dona Evangelina.
Dona Evangelina estava num meio termo onde era chamada de senhora pelos jovens e recém-casados e de mocinha pela ala de velhinhas realmente velhas, de onde vinham os rostos mais frequentes de todas as missas. Havia acabado de completar 41, solteira, sem filhos, sem gatos. Uma irmã distante, os pais há muito falecidos. Não foi freira, mas poderia ter sido. Foi professora de ciências sociais por toda a vida, trabalhando com crianças até a quarta série, mas nunca foi uma professora excepcional. Todos os alunos acabavam esquecendo o nome dela.
Mas quem a ouvia tocar nunca esquecia. Assim como ela não esquecia a primeira vez que ouviu o velho dinossauro, como o instrumento era apelidado. Fazia quase vinte anos. Ela, aos 23, pensava em se matar quando o então namorado de beijinho-no-portão-e-sofá-com-a-vó-do-lado terminou tudo com ela e declarou que estava apaixonado por outra moça e que iria se casar. Ela costumava ser levada pela mãe, desde criança, na ameaçadora igreja gótica perto de sua casa, mas naquele dia andou tanto sem rumo que acabou indo parar numa parte desconhecida da cidade. Quando viu a igrejinha simples, pensou em entrar para pedir perdão a deus por antecedência pelo pecado que estava decidida a cometer. Achava que a humilhação seria demais. Que a dor seria insuportável. Que nunca ia se recuperar. Entrou na igreja já com a morte ao seu lado, mas chegando lá dentro deu de cara com o órgão.
Não sabia que existia outro órgão na cidade. O único que tinha notícia era o que ficava no Conservatório que frequentava. E nem de perto era tão fabuloso como aquele Era lindíssimo o instrumento. Velhíssimo, também. Naquele primeiro dia Dona Evangelina fez pela primeira vez o caminho que faria quase todos os dias dos anos seguintes: uma breve reverência ao altar, o sinal-da-cruz, o corredor lateral da igrejinha, a escada-caracol em frente à sacristia e o mezanino onde o órgão ficava. Seus tubos estavam embaçados, lhe faltavam teclas e alguns pedais estavam bambos. Passou delicadamente a mão pelo painel, como se lhe fizesse carinho.
“É lindo, não é?” Uma voz rouquinha falou atrás de Dona Evangelina. Quando ela olhou para trás, era um frei. “Uma pena que esteja estragado. O último organista que passou por esta paróquia morreu há muitos anos.”
“Não está estragado.” Disse Dona Evangelina, voltando o olhar para o órgão. “Só precisa de cuidados. Veja só.” Ela sentou-se no banquinho instável, na almofadinha rota. Os pedais não colaboravam mas, quando se sentiu segura, tocou um pouco de uma peça litúrgica que aprendeu no Conservatório. Não saiu excelente, como poderia ter sido, mas pelo menos não era barulho. Ainda saía música daquele órgão.
“Ora, veja...” Riu-se o frei, a barriga grande balançava com a risada. “Se tu levantas o dinheiro necessário, consertamos o órgão e tu ficas sendo nossa organista.”
Dona Evangelina sorriu ao lembrar do frei Antônio. Ao fazer aquela proposta, à guisa de brincadeira, ele salvara a vida dela. Dona Evangelina lembrou-se de ter chorado um pouquinho, de ter pedido a bênção ao frei e de ter saído da igreja em passos muito apressados. Durante o caminho de volta para casa, atirou no rio a pistola que roubara do pai, e pensou em quantas maneiras seriam possíveis de angariar dinheiro para consertar o órgão da paróquia.
E Dona Evangelina fez de um tudo. Fez rifa, fez bolinhos, vendeu bordados, armou barraquinha em quermesse, pediu aos endinheirados da cidade, fez passeios com seus alunos para que eles conhecessem o órgão e pudessem ajudar na campanha. Durante meses ficou conhecida como a beatinha maluca que pedia dinheiro a toda a gente. E conseguiu o dinheiro. E ela e frei Antônio consertaram o órgão. E na Missa de Natal, todos da cidade a ouviram tocar e se emocionaram muito. E Dona Evangelina tornou-se organista da paróquia, sem nunca ter cobrado uma moedinha só em troca. De beatinha tornou-se carola. De carola, tornou-se rata de sacristia. E de rata de sacristia tornou-se a mais respeitada das paroquianas, uma mulher de caridade.
Certo dia foi chamada para tocar um réquiem. Vestiu-se sobriamente, como pedia a ocasião. Dona Evangelina, solteira, sem filhos, sem gatos e distante dos irmãos sentou-se no banquinho do órgão e pôs-se a tocar quando o cortejo entrou. Durante o serviço, tocou mais algumas músicas que dessem algum alento a todos os presentes. Ao término, quando todos se foram, Dona Evangelina desceu para a sacristia para perguntar ao padre para saber se ainda precisariam dela.
“A senhora é a organista? Eu gostaria de agrad--- Evinha?” O homem que estava sentado na cadeira estava envelhecido e abatido, mas ela o reconheceria em qualquer lugar. “O que está fazendo aqui?” O namorado da juventude, aquele que a abandonara, estava bem ali na sua frente, chapéu na mão, com uma cara de quem não dormia desde o mês anterior.
“Eu sou a organista da paróquia, João.” Dona Evangelina sentiu o suor descendo por suas costas, a tensão enrijecendo a nuca. “Você dizia...?”
“O padre disse que a organista desceria para a sacristia, eu fiquei pra esperar. Quis agradecer, foi muito bonito...Digo, triste....Mas lindo...Nunca soube....”
“Bem, obrigada. Eu sinto muito. Era alguém da sua família?” Dona Evangelina quis sair dali o mais rápido possível, mas a cordialidade não permitia. “Eu sinto muito.”
“Era minha esposa. Quase vinte anos...” João levantou-se, abaixando a cabeça para não permitir que Dona Evangelina o visse chorar. Apertava nas mãos o chapéu como se estivesse batendo um vento muito forte. Compôs-se e ergueu o rosto. “Bem, eu devo ir. Ainda é preciso ir ao cemitério, sabe...? Olha, Evinha...Bom ver que está bem, com saúde.”
“Sinto pelas circunstâncias, João. Até mais ver.” O pobre homem abriu a porta para que Dona Evangelina saísse. Em passinhos rápidos, ela deixou a igreja e virou a esquina. Parou. Espiou João tomar o caminho do cemitério e se distanciar. Voltou para a igreja. Entrou correndo, pela nave central, os saltos batendo no chão de mármore. Passou por trás do altar, derrubou um castiçal, subiu as escadas de dois em dois degraus.
Parou na frente do órgão. Sentou-se no banquinho e riu. Riu borbotões de gargalhadas. A risada alta, clara e viva enchia a igreja. Chorava. Deitou a testa no painel do órgão e as lágrimas pingavam no chão. Tornaram-se profusas. Soluçou. Riu. Chorou. Abraçou o teclado do órgão, um abraço apertado que se dá ao amigo mais valioso. Agradeceu. A deus, ao velho dinossauro, aos santos e anjos, dirigiu uma prece especial para a Virgem e uma outra para a alma do velho frei Antônio – que deus o tivesse em boa graça. Agradeceu por ter tido vida o suficiente para viver até aquele dia, pra ver João uma última vez e não sentir nada de ruim por ele, nada que se parecesse com o ódio venenoso que lhe preenchia os pensamentos há tantos anos.
Pecebeu que sentia, enfim, verdadeira compaixão e o alívio era incomparável. Sentia que não tinha mais vontade de morrer e apoiar-se todos os dias na música que fazia, na caridade que oferecia viciosamente, na solidão que fora companheira amarga e não permitia nada que não fosse compensação infértil para uma infelicidade que arraigou-se na garganta por tantos anos.
Sentia a liberdade, enfim, e que a vida seria longa. Agora sim ela poderia viver em paz.
Vazio, o circo é um dos lugares mais tristes e lúgubres do mundo. Depois que todos se vão, as luzes se apagam, o terreiro é varrido, o picadeiro alisado e todos os artistas tiram a maquiagem. Não é uma ironia que o circo só seja a maravilha que é quando está cheio de gente. A alegria está nas pessoas. Sem ninguém, mais parece um buraco no céu.
E lá se passaram anos. Coquinho era menino quando saiu de casa pra morar na estrada. Coquinho era miudinho, raquítico, magrelo, orelhudo e sem graça quando entrou no carroção da Cigana Zuleika pra viajar. Foi Coquinho desde o início. Menina Deolinda lhe deu o apelido quando viu a cabeça redondinha do garoto. Virou seu nome de palhaço quando viram que ele não dava pra trapezista, que trapezista medroso não vale de nada na vida.
Amou Menina Deolinda no instante que a viu. Foi como um pé-de-vento fresco na cara, cheiro de chuva na terra quente, chá de flor de laranjeira. Era filha da Cigana Zuleika, dormiram abraçados na primeira noite que ele entrou pro circo. Chorou de saudade da mãe, Menina Deolinda o abraçou e disse “Chora não, o circo volta e ela vai te ver artista.” Choramingou mais um pouquinho e dormiu. A garotinha não pôde soltá-lo e dormiu junto. Apaixonou-se ali, muito embora não soubesse o que era isso que sentia ainda.
Ouviu os passinhos dela chegando no picadeiro. Reconheceria o som daqueles pezinhos de bailarina em qualquer lugar do mundo. Pezinhos que balançavam no ar quando ela se pendurava pelo cabelo, que andavam tranquilamente pela corda bamba como se fosse uma rua de tijolinhos, que dançavam e pulavam entre um número e outro. Seu estômago embrulhou. Vinha tentando evitar Menina Deolinda nos últimos tempos, sem saber muito bem porquê. Talvez por ela claramente não ser mais tão menina assim, enquanto ele ainda se sentia um garotinho de cabeça grande. Pobre palhacinho de cabeça dura. Se ele percebesse algo além da própria dor, ia ver que a Menina-Não-Tão-Menina Deolinda parecia sempre achar onde ele estava sozinho, que sua vista sempre o perseguia, assim de rabo de olho, e que ela ficava espiando por trás do picadeiro sempre que ele estava lá fazendo suas palhaçadas, até a Cigana Zuleika a enxotar mandando que cuidasse logo da maquiagem, que sua vez estava chegando já já.
Mas ele não tinha coragem de notar. E ela não tinha coragem de contar. Os dois, cada um em seu impasse, viam o mundo como um dilema sem solução. Menina Deolinda resolvia brincar, pra ver se espantava esse não-sei-que que se apossava dela toda vez que via Coquinho:
- Ê Coquinho, tá aí em cima esperando ficar maduro?
Ele deu a língua, como faziam quando crianças, e balançou as perninhas magras no ar. Pernas de vareta, de subir na perna de pau. Não as pernas e braços fortes de um trapezista.
- Escuta, vim te avisar. Sabe pronde a gente vai depois daqui? Lá pra tua cidade.
- Ai, não.
Coquinho afundou ainda mais em si mesmo. Virou com habilidade de quem faz isso sempre e começou a descer do trapézio. Pelas escadas.
- Ué, não é bom não? Tu vai rever sua mãe e tudo mais. Imagina?
- Eu vou, mas eu não prometi pra ela que voltava trapezista? Que voltava corajoso, voando no céu que nem passarinho? Tu mesma disse que eu voltava pra ela me ver artista. Agora como é que eu volto pra ela me ver palhaço?
- Ah, e palhaço agora não é artista também não? – Menina Deolinda falava olhando pra cima, botando as mãos nas ancas e quebrando a cintura assim pro ladinho. Coquinho sabia que ela só fazia isso quando estava brava.
- É... mas é menos artista que trapezista, né? – Ele já estava pela metade da escada a essa hora, e tentava não olhar pra Menina Deolinda porque tinha vergonha de tudo. Vergonha de quem tinha se tornado, de não saber o que fazer da vida, de não sentir que era homem suficiente pra merecer ela – É menos artista que malabarista ou que andar na corda bamba. É menos artista e eu só prestei pra isso. Artista que tem medo de cair, onde é que já se viu.
- Deixa de ser besta, e tu acha que trapezista não tem medo de cair?
- Ué, não. Se tivesse medo, como é que ele se joga lá do alto todo dia? Precisa ser corajoso.
Coquinho terminou de descer a longa escada e já estava de frente pra Menina Deolinda, mas ainda não tinha coragem de olhar muito pros olhos dela. Ele sentia que toda vez que olhava nos olhos dela ele se perdia um pouquinho. Eram uns olhos negros e sem fim, assim que nem o céu da meia noite, aquele pretume que parece que não vai acabar nunca. Eram uns olhos de abismo.
Mas aí, no meio de toda a confusão fazendo tempestade dentro dele, Menina Deolinda começou a rir do lado de fora e a confusão toda ficou só maior.
- Cê é tão besta, Coquinho. Não percebe não? É claro que o trapezista tem medo. Eu tenho medo quando tô lá em cima. Se tu não tivesse medo, ia ser é maluco. Ser corajoso não tem nada que ver com não ter medo.
- Então tem a ver com que?
Ele estava sinceramente perdido, sem saber o que fazer ou o que pensar. Menina Deolinda não parecia ajudar. Ela que agora olhava pra baixo, ficou toda vermelhinha, igual uma acerola. Ela respirou fundo, prendeu a respiração e decidiu. Se era pra mostrar o que era coragem, a hora era aquela e nenhuma outra.
- Tem a ver com isso aqui, ó.
E rapidinho, antes de perder a força de vontade, deu um beijinho estalado bem na boca cheia de dúvidas de Coquinho. Ficou ainda mais vermelha e saiu correndo, seus passinhos de bailarina ecoando na cabeça dele. O coração batendo rápido, um tatibitati que não tinha fim. E ele entendeu o que ela quis dizer sobre a coragem. E que talvez ele nunca fosse ser o maior trapezista do mundo, mas tudo bem. Aqui no chão ainda haviam muitos abismos nos quais mergulhar.
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(e um bônus:)
it's an old story, really:
there's a boy - you think you know
how the rest of this goes.
he has sea-storm eyes and
the bones under the skin of his wrist
are the most graceful you've
ever seen.
you'd like to plan flowers at
the juncture of his neck
and shoulder and set
stars into every vertebrae of
his spine.
the story goes: your eyes meet,
your hearts jump, true love.
every second sinking
into the way your hands finds his.
disambiguation.
love rises, crets, plateaus.
a steady burning ache.
he denies it, the way
scared boys rend to.
finds excuses to be away
from the way you make
him feel.
love is not for everyone.
there's a certain kind of courage
in allowing yourself to gall.
O próximo desafio foi sugerido pela Pollyanna, amiga e DJ e leitora da biografia da Tina Fey:
Um conto a 4 mãos. No caso, dois. A Raquel começa um conto que a Ágata vai ter que terminar, e vice-versa. Ninguém pode discutir os contros enquanto eles tiverem sendo escritos. Tema livre.
"Sim, eu estarei aqui." Ela fechou os olhinhos baços quando ele assegurou que estaria ali quando ela acordasse. Dormiu, enfim. Cedeu ao cansaço.
Ele envolveu a mão magrinha dela nas suas grandes e desajeitadas mãos de gigante. Poderia dormir se quisesse, os remédios que deram a ela não a deixariam acordar por quase um dia inteiro. Se ela acordasse. Estava há um mês na UTI daquele hospital, e entre as visitas escutava todos os tipos de conversa desanimadora que um homem pode ouvir. Ouviu uma técnica reclamar que um determinado paciente estava ali há anos e ninguém ia visitá-lo. Em uma baia toda enfeitada de fitas e balões, um DVD em eterna repetição transmitia a uma paciente em coma, uma menina bem jovem, os desejos de amigos e família pra que ela acordasse logo. Uma enfermeira disse que viu uma mulher morrer depois de tomar uma dose bem fraca de sedativo, acreditava ter morrido de desistência. De toalha jogada.
Desejava que o mesmo acontecesse agora, uma morte sem sofrimento para alguém que já não tinha esperança. Alguém que só perdurava. Um eco perene do que havia um dia sido, uma mancha, um fraco sinal de radar, um passar de brisa depois do furacão.
O barulhinho baixo e ritmado dos monitores de batimento por todo o salão, um em cada baia, era o que os embalava naquele lugar. O tempo que passou ali lhe fazia imaginar os mais diversos quadros surreais. Agora pensava que estavam todos à margem do rio, esperando o barqueiro passar. Quais seriam os óbulos que ele tomaria de cada uma daquelas pessoas? O que ele diria? Como seria o julgamento? Quem teria o coração mais pesado que a pena? O cansaço permitia que se misturassem as mitologias.
Roçou a barba no rosto dela com cuidado pra não arranhar. Ela cheirava a hospital, mas um dia tinha sido perfumada de baunilha, de dama-da-noite, de pão, de caramelo, de lavanda, de praia, de arroz recém-preparado, de toalhinha de crochê, de lencinho de seda, de vinho temperado, das azaleias que cresciam no jardim e da figueira que tinha no fundo do quintal. Lembrava dos figos que estouravam na boca e ela dizia que ia estragar o apetite do jantar. Ele se lembrava de tudo isso.
Ela não se lembrava de mais nada. A dor fez com que ela esquecesse. O esquecimento lhe fazia sentir dor. A dor lhe obrigava a tomar os remédios. Ela só se lembrava dele, pois só ele estaria lá quando ela acordasse. Todos os outros irmãos tinham esquecido dela, ou agiam como se já estivesse morta. Mas ele lembrava de tudo pelos dois.
A morte demoraria a chegar e ele estava tão cansado.
***
Amar você é
coisa de minutos…
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
- Em que espelho ficou perdida a minha face? Passo dias me perguntando. Na verdade, não sei mais se são dias, meses, anos. Não tenho nenhuma noção do tempo. Sei quem sou, mas as feições que tive também estão perdidas. Aqui. Do lado errado da realidade.
Nunca percebi realmente quantos espelhos me cercavam. Cresci ao redor deles e eles eram, para mim, tão naturais quanto as fontes do jardim que sempre estiveram ali. Talvez, de fato, eu apreciasse minha imagem um pouco mais que os outros. Não lembro do meu rosto, mas lembro que era belo. E eu, naturalmente, queria mundos de beleza ao meu redor. Acho que isso poderia ser um problema maior se eu fosse um plebeu, agora que parei para pensar no assunto. Agora que tenho tanto tempo para pensar em tantos assuntos. Mas não era difícil para mim. Uma vez mandei construir em meu palácio um salão com mil espelhos.
Nada mais natural, portanto, que meu desejo de estar cercado por pessoas tão bonitas quanto as coisas que eu possuía. Minha corte era escolhida a dedo. Especialmente meu harém, com minhas esposas e concubinas. Elas eram trazidas de todos os cantos do meu reino e de outros, sempre as mais belas. Eventualmente um homem mais pobre tirava a sorte grande com uma filha excepcionalmente encantadora e vinha tentar ganhar favores. Ganhava, na maioria das vezes. O que posso fazer? Tenho um coração mole.
Infelizmente a beleza humana é um pouco mais difícil de manter do que a beleza de objetos de arte puros. A forma humana, veja você, é impura e se corrompe pelo abuso, pela idade. As mulheres do harém tentavam esconder isso de mim e para isso criavam os métodos mais criativos para prolongarem sua beleza e juventude. Havia uma velha, a única coisa decrépita em todo o palácio, que era mantida escondida em um canto do harém e que eu fazia com que se vestisse completamente coberta quando eu estava por perto. Ela cuidava desses tratamentos e era por isso que eu a tolerava. Ela tinha alguns truques na manga. Tratamentos com abelhas para manter os lábios atraentes, esfoliações com a dura areia do deserto para manter a pele firme. Sanguessugas. Picadas. Ovos crus. Algumas novatas reclamavam no início, mas não demorava para que entendessem que nenhuma beleza vem de graça, exceto talvez a minha. E se fossem viver no meu castelo, comer da minha comida e vestir das minhas roupas, haveriam de ser belas.
- Ela é bela, disse, a mais bela que você já viu. Mas ainda é um pouco voluntariosa, acha que tem direito a ter vontades. Coisa de jovens, mas garanto que ela aprenderá logo e que vossa magnificência não se arrependerá.
Quando mandei que a garota entrasse em meu salão, ela teve que vir com as mãos atadas nas costas. Os guardas falaram que ela teve um surto de violência na antessala e tentou arranhar e morder a face de um dos guardas.
- Nos deu um pouco de trabalho, senhor, mas não danificamos nada.
Minha guarda pessoal havia aperfeiçoado técnicas de luta que atingiam áreas efetivas e não deixam marcas, especialmente para esse tipo de situação.
Ela era ainda mais bela do que a descrição do pai. Desci de meu trono e andei lentamente a sua volta. Fiz os guardas cortarem o vestido simples que ela usava para poder fazer um exame completo, e ela era realmente perfeita. Geralmente nesse ponto as mulheres se encolhiam, ficavam tímidas. Não ela. O pai disse que ela tinha recém completado catorze anos, minha idade preferida para incluir novas mulheres no harém, mas ela se portava, num silêncio desafiador, com a dignidade de uma rainha de cinquenta. Não fossem as mãos atadas nas costas. Não fossem, também, os olhos violentos de leoa.
Aceitei a oferta do pai e dei a ele o dinheiro e os títulos de terra que ele desejava. Não achei que o espírito desafiador fosse me dar algum problema. Já tinha lidado com tipos assim antes. Elas sempre acabam se acostumando.
Mandei ordens para que a velha a preparasse para aquela noite. Ordenei que nada fosse poupado, queria as melhores roupas, os melhores adornos. Não me decepcionei quando ela chegou. Perguntei se ela já estava se adaptando melhor. Perguntei se ela havia gostado dos quartos do harém. Se estava satisfeita com a comida do jantar. Não obtive respostas para nenhuma dessas perguntas. Bom, eu estava tentando ser civilizado, se ela não ia colaborar o problema não era meu. Mandei que ela se despisse e ela, lentamente, levou as mãos ao longo palito de metal enfeitado que prendia seus vastos cabelos no alto da cabeça. Enquanto eu observava seus cabelos caírem com perfeição e emoldurarem seu rosto, ela focava no pedaço de metal em sua mão. Olhei para os seus olhos e vi que eles estavam fixos nos meus, e foi então que percebi meu erro. Tarde demais.
Ela voou para cima de mim. Nunca antes havia testemunhado tanta agilidade e tanto ódio juntos. Ainda consegui pensar que a raiva fazia com que ela franzisse a testa de um jeito horroroso, e que teria que usar um dos tratamentos da velha para paralisar parte da sua face para que aquilo não evoluísse para algum tipo de marca permanente na pele. Foi a última coisa que pensei antes do meu cérebro não ser capaz de assimilar mais nada por causa da dor. A face do ódio foi a última coisa que vi antes dela conseguir furar meus olhos com a vareta de metal, enquanto as unhas da outra mão arranhavam meu rosto e tiravam pedaços de carne viva das minhas bochechas.
Os guardas invadiram o quarto e interviram rápido, mas o estrago maior já estava feito. A demoniazinha foi jogada numa cela minúscula e suja, mas se matou antes da manhã seguinte chegar. Portanto, em seu lugar, mandei executar o restante da família. Pai, mãe, um irmão mais novo. Mas nem ouvir seus gritos durante a execução pública por chibatadas me trouxe prazer. A dor havia passado, mas meu rosto ficara irremediavelmente marcado e eu já não podia mais enxergar. Estava desesperado, e no alto do meu desespero nenhum dos meus médicos podia me ajudar. O último deles teve a audácia de falar que eu não precisava de um médico, mas de um feiticeiro. Foi jogado nas celas por isso, mas admito que a ideia ficou na minha cabeça. E quando mais outro e outro dia se passaram, e a solução para o meu problema parecia continuar inexistente, mandei meu conselheiro ordenar a vinda de um feiticeiro. Não me importava onde ele ia conseguir um, mas eu queria um ao meu dispor agora. Era minha última chance.
Qual não foi minha surpresa quando, apenas uma hora depois, ouvi uma batida a porta e a voz de uma mulher me dirigir a palavra:
- Vossa magnificência, como posso servi-lo?
A voz não me era de todo estranha, mas não conseguia exatamente encaixá-la com um rosto. Perguntei se era o feiticeiro que havia mandado buscar.
- Feiticeira, meu amado senhor. Vim ajuda-lo em seu tormento.
Eu devia ter pensado mais. Ter perguntado onde estava meu conselheiro, que não estava acompanhando-a. Mas, como disse, estava desesperado. E o desespero enlouquece um pouco as pessoas. Perguntei a ela o que ela precisava.
- Meu senhor, já está tudo pronto. Tomei a liberdade de finalizar o preparo enquanto estava a caminho. Na verdade, senhor, comecei a prepara-lo quando ouvi de seu trágico acidente, pois achei que poderia vir a precisar de minha humilde ajuda. O preparo que trago irá trazer de volta toda a beleza e vigor originalmente seus, e talvez até mais. Você começará a sentir os efeitos e a volta de sua visão um pouco depois de ter tomado o frasco inteiro.
Dizendo isso, ela colocou um frasco em minhas mãos. O vidro continha um líquido frio e um arrepio mais frio ainda passou pela minha espinha. Antes que perdesse o pouco ânimo que ainda me restava, engoli o líquido o mais rápido possível. Hoje em dia penso que, se estivesse em condições normais, eu teria desconfiado. Ela poderia estar me dando veneno, afinal de contas. As vezes penso em como teria tido sorte, se ela tivesse me dado veneno.
Numa coisa ela não mentiu, assim que engoli as últimas gotas pude sentir minha visão voltando. Quando isso aconteceu, qual não foi minha surpresa ao perceber que quem estava na minha frente era, na verdade, a velha decrépita. Ela começou a rir, provavelmente do choque estampado em meu rosto. Gritei, chamando-a de bruxa, enquanto esperava os guardas invadirem o quarto e tirarem-na dali.
- Não perca seu fôlego, eles não virão! Seus guardas estão todos mortos. Seu palácio está todo morto. Tomamos o cuidado de envenenar tudo, menos os nossos suprimentos, os suprimentos do harém. Ah, sim, nossa poção já estava pronta há tanto, tanto tempo! Bruxa, é do que você me chama? Todas as mulheres são bruxas. Bruxas não passam de fadas velhas, quando sua beleza já não serve de mais nada. Estão todos mortos, mas seu destino não é morrer. Não seríamos tão bondosas, vossa alteza.
Senti dores e, chocado, olhei para minhas mãos e vi que elas começavam a se deformar. Virei para encarar o espelho de meu cômodo pessoal – que ocupavam uma parede inteira – e assisti, lentamente, enquanto meu rosto, meu corpo, meus cabelos, tudo, todas as partes de mim se expandiam e contorciam e deformavam. Mais que isso, eu percebi que minha imagem ia ficando borrada e translúcida. Pisquei os olhos e, quando abri, percebi que não estava mais no mesmo lugar de antes. Em vez disso, estava no lado contrário do cômodo, olhando diretamente para a velha. Mas ela não era mais uma velha. Era uma mulher jovem, que emanava força e que era terrivelmente assustadora. Atrás dela, comecei a ver todas as outras mulheres do harém entrarem pela porta, e todas sorriam com sorrisos maléficos. Algumas riam. Essas risadas me assombram até hoje. A velha finalmente disse o que seriam as últimas palavras que eu ouvi dirigidas a mim:
- Não é daí que você tanto gosta? Pois é aí que vai ficar. Só tome cuidado, as coisas do seu lado são um pouquinho diferentes das coisas do lado de cá.
Elas viraram as costas e saíram, vitoriosas. Eu não demorei pra descobrir do que ela falava. Você vê, nós achamos que os espelhos refletem coisas, mas isso não é bem a verdade. Seria mais correto dizer que eles absorvem coisas. A escuridão, principalmente. E tudo que vem com ela. Coisas perdidas. Cidades de fumaça. Eu nunca imaginaria um mundo tão vasto do outro lado dos espelhos, muito menos a quantidade de horrores que um mundo desses pode conter. Por trás das luzes e festas, a podridão aqui é o padrão. Eu busco incessantemente por um espaço claro e aberto, mas só me vejo em cubículos escuros. Do lado de cá, rostos vazios flutuam no nada no meio da escuridão. Procuro incessantemente por um rosto que seja conhecido, pelo rosto que seja o meu. Algo me diz que, se eu conseguisse encontrar meu próprio rosto, conseguiria dar um jeito de fugir desse inferno. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma coisa me diz que isso nunca vai acontecer. Não pelo resto da eternidade.
*****
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
Estou parada na areia da praia semi deserta e o primeiro sinal é um trovão distante, apesar do céu ainda estar relativamente aberto em um dos lados. Mas mesmo sem as nuvens cinza aparecendo aos poucos, tudo aponta para a força bruta da chuva que deve começar a cair em breve. O ar pesado. O cheiro forte do mar.
Bom, eu penso. Dramático.
Geralmente odeio dramas, e essa era uma das coisas que você gostava em mim. Mas exatamente por isso o drama de hoje me agrada. Hoje ele vai ser necessário. Hoje ele vai ser merecido.
Hoje eu jogo fora o que me sobrou de você.
Acabou sendo um processo mais natural do que eu achei que ia ser, esse de te esquecer. Menos demorado do que eu pensava, até porque eu pensava que isso nunca ia acontecer. Mas acho que no fim é o que a gente sempre pensa. Nunca vou esquecer, nunca vou superar. E aí esquece e supera. Antes eu me imaginava tendo aventuras prazerosas que não iam dar em nada com homens e mulheres lindos e sexys. Imaginava ter sempre uma desculpa na manga para a falta de qualquer plano a longo prazo. Imaginava como seria, para variar, ser a pessoa que ama menos.
Mas a vida foi acontecendo e, se antes eu chorava uma vez por semana, depois comecei a reparar que tinha passado dias inteiros sem pensar em você. Era raro no começo e passou a ficar cada vez mais comum. Quando tudo desmoronou eu decidi que ia viver por você, mas me vi cada vez vivendo por mim. Mudei de casa, de amigos, de cabelo (do cabelo comprido do qual você gostava tanto). A essa altura do campeonato, só uma coisa sobrava da qual eu me recusava a desapegar. O colar. O maldito colar.
Você nunca entendeu muito de joias, e eu também não ligava pro assunto. Nunca tive hábito. Mas minha surpresa naquele Natal, o último que passamos realmente juntos, não foi só pela escolha do presente. Foi porque, quando estávamos sozinhos e você tirou do bolso uma caixinha de joias, minha mente correu para milhões de outras cenas mais ou menos iguais a essa vistas em filmes, lidas em livros, comentadas na internet. Metade de mim entrou em pânico. Eu nunca tinha parado pra pensar nisso, não sabia nem se queria isso. Quando você abriu a caixa e mostrou o colar mais lindo e delicado de ouro branco e diamante, a outra metade de mim gritava ainda mais alto que eu sabia, sim, o que eu queria.
Acho que te odiei mais por ter me dado essa ideia do que por tudo que aconteceu depois. Te odiei, mas não tirei o colar.
Não tirei até agora. Enquanto as gotas começam a cair, pesadas, eu me lembro da mensagem sua que recebi dois dias atrás. Inofensiva, desejando um feliz Natal, duas linhas no máximo. Mas foi o suficiente pro meu estômago abrir um buraco e meu coração perder o ritmo. Eu estava indo tão bem. Não podia deixar aquilo começar de novo. Começar, continuar, nunca sei bem.
Pra isso vou ter que me livrar de cada resto de você. E o colar também vai. Ele e minhas ideias estúpidas de vida inteira juntos, dois filhos e um gato. Um passo na água fria, dois, até as ondas baterem na minha cintura. Busco o fecho e quebro o último elo que ainda nos deixa juntos. Afundo as mãos e o mar vai te levando. Não sei para onde e não quero saber, desde que seja para longe de mim. Volto pra beirada de costas, olhos fixos nas ondas, sem ousar me virar.
E é isso. Acabou. Quando soar meia noite e os fogos tiverem estourado no céu, milhões de pessoas que entendem ou não o que estão fazendo jogarão flores no mar pra tentar agradar uma deusa que não sabem se existe. Eu dispenso as flores. Já ofereci tudo que tinha em mim.
O relógio apitou meia-noite e o faroleiro sorriu. Solitário, achou que merecia descer, ir até a beira d'água. Tudo estava tranquilo, o lume do farol rodava sem problemas, a noite estava clara e o céu cheio de estrelas. O perigo dalgum barco se perder, afundar, bater no banco de recife era muito pequeno. Era Ano Novo e ele estava sozinho naquela ilhota pedregosa. O máximo que podia acontecer era um tatuí lhe entrar no ouvido se ele dormisse bêbado por ali.
Esfregou as mãos e catou uma moringa escondida atrás de uma tábua do painel de controle do farol. Tirou o copinho de barro que serve de tampa e deu uma fungadinha na cachaça que estava escondida lá dentro. Riu-se e desceu a escada caracol depressinha, depressinha. A escória estalou quando pisou as botinas no pátio. Respirou fundo e sentiu o ar leve, sem o cheiro de óleo diesel que era constante na sala de máquinas do farol. Uma caminhada rápida o levou para a beira da praia. Ali, ele tirou as botas, sentou-se nas pedrinhas e ficou bebericando sua caninha sossegadamente.
O mar era uma companhia inquieta; para qualquer lado que olhasse, lá estava ele, murmurando, esbravejando, indo e voltando. Não compreendia como se podia sentir paz olhando para ele, imenso e fundo, escondendo todos os segredos que a terra não poderia conter.
O faroleiro contou ao mar todos os seus segredos. A preta que o abandonou, a casa que perdeu, a fome que passou. O caminho todinho, comprido e salgado, que fora obrigado a percorrer antes que se jogasse debaixo do primeiro carreto que passasse, do primeiro bar que abrisse, da primeira puta que o recebesse. Quando tomou o trabalho de vigia e faroleiro, o encarregado avisou que tinha quem enlouquecesse na ilhota. Camaradas que voltavam para o continente com os nervos em frangalhos pela solidão, pelo vazio, pelo tédio.
Esta solidão foi o canto da sereia. Não suportava mais estar rodeado de gente, ouvindo suas vozes e sentindo seus olhares. Era cansativo demais ter de depender da solidariedade de quem quer que fosse. Pensava que mesmo as pessoas bem intencionadas poderiam ser irritantes e ele não poderia retribuir a bondade dos amigos com azedume, não seria correto. Precisava juntar seus próprios caquinhos e só depois voltar ao continente. E aí então, só então, voltar a viver.
“Sabe, eu me perguntava quando é que este pensamento ia passar por essa sua cabeça cheia de marafo, meu filho.” A mulher sussurrou alegremente no ouvido do faroleiro e ele arremessou o copinho da moringa na direção de onde estava a assombração, que vibrou quando o objeto a atravessou. A gargalhada que seguiu fez a espinha do faroleiro gelar de medo.
“Dionde foi que a sióra saiu, miassióra?” Ele se arrastava pelas pedrinhas, arranhando as mãos e as pernas, tremendo, sem conseguir se levantar. “Não tem barquinho, não tem canoa, não tem jangada e eu não tô bêbo assim pra tá vendo as coisa doutro mundo, miassióra.”
“Mas eu não sou de outro mundo. Eu sou bem deste mundo aqui que você está vendo.” A aparição meneou a cabeça e as conchinhas do cabelo de cachos muito pequenininhos fizeram um barulho suave. “O marafo só tirou os antolhos que não te deixavam ver. É bom só pra isso, essa cabeça é muito bem fechada. Eu sempre estive aqui.”
O faroleiro esfregou os olhos. Ela continuava lá. Estava nua, a não ser pelas conchinhas que usava como enfeite pelo corpo inteiro. Era negra que nem o jacarandá do catre que ele dormia e brilhava dourada e azul, mesmo que ele não soubesse de onde vinha a tal luz.
“A sióra faz favor de ir dizendo quê que a sióra quer do caboclo, aqui. E a sióra pode ir simbora depois disso.” Ele fazia o sinal da cruz como um desesperado. Nunca era tarde demais pra lembrar do aprendido no catecismo. E nunca era cedo pra aprender que não era bem assim que funcionava.
“De vocezinho?” A fantasma apontou bem no peito dele e o dedo que encostou ali parecia bem real. “Quero nada de você, não.” Ela tinha o sorrisinho sacana de quem sabe de tudo no mundo e se diverte com a ingenuidade de quem não sabe de nada.
“A sióra pode dizer o seu nome? Cadiquê se eu vou desencarná, eu mereço saber o nome da assombração que há de me levar pro inferno.” Batia um vento gelado do mar que só piorava mais a sensação de suadouro e pavor que ele sentia.
“Eu não sou assombração. Eu não vou levar ninguém para um lugar que não existe. E você pode sim saber o meu nome, apesar do senhor saber muito bem e me conhecer desde menininho.” Com o nariz bem perto do rosto do faroleiro, ela parecia sólida, mas ele podia ver através dela o muro azul do prédio do farol. “Sou Janaína. A Senhora da Calunga Maior. A toda-mãe. E eu vim te acudir.”
“Oxexexe...xexexe...A sióra perdoa eu ter mandado a sióra ir embora, perdoa que eu confundo com assombração, perdoa tudo que falei, a sióra perdoa, faz favor, esse caboclo ignorante.” O faroleiro gaguejou e esticou a angústia nas sílabas. A garganta seca pediu mais um gole da cachaça e ele obedeceu o impulso do corpo.
“Não me importo com isso não.” Janaína se empetigou e as conchinhas retiniram. “Me importo com filho meu perdido no limbo em terra. Isso incomoda qualquer mãe. Ainda mais filho teimoso que fala, fala, fala, passa mais de mês falando no meu ouvido, pede sinal e não faz esforço pra ouvir resposta.”
“A sióra mainha está falando é de minha pessoa, se pode saber?” Ele tentou seu melhor para falar do jeito mais polido que podia. Ela sorriu pela tentativa.
“É de sua pessoa sim que eu falo, filho.” Janaína passou uma mão pela cabeça do faroleiro e ele a sentiu gelada e úmida, cheirava a alga. “E dessa cabeça aqui que me foi oferecida quando você nasceu. Não venho muito pra secura acudir filho fugido, vocês sempre voltam, mas você está enfiado tempo demais neste atoleiro e não faz menção de sair, menino.”
O faroleiro então compreendeu o que ela dizia. Reclamara por dias e noites das dores sofridas, das desilusões passadas, das pedras de pensamento que acumulou amarradas nas pernas. Resmungou de não ter mais a liberdade que lhe conferia a enxada que era sua, a roça que dava pouco, mas dava o seu. Chorava a traição que a preta lhe jogou no meio da cara – antes fosse um par de chifres. E, ora, só tinha o mar para lhe ouvir. Quem mais ia ouvir suas cuspidelas azedas? E não era isso que tanto quis? Ruminar a tristeza sem que o aborrecessem? Refletiu um pouco e seus pensamentos foram interrompidos pelos movimentos dela.
“Então? Vamos? Bebe este gole e vem comigo.” De pé a Senhora da Calunga Maior parecia tão grande e corpulenta quanto seu reino. Densa, cheia de curvas e dobras, seus movimentos eram fluidos e mansos, como as marolinhas delicadas e leves que tocam os pés de banhistas na areia da beira. O faroleiro obedeceu. Bebeu um grande gole de cachaça e se pôs de pé. “E vais pro mar assim, todo encapotado?”
“Perdão?” Ele então percebeu que ela queria que ele tirasse a roupa. Protestou, envergonhado. “Mas a roupa, mainha? Eu vô vestido memo.”
“Meu filho...Olhe só.” Ela puxou a manga do casaco dele, debochada. “Quem nunca viu, não sabe o que é. Quem já viu, não há de se admirar. E o corpo veio primeiro, a roupa depois. Eu já sei de muito mais que tá escondido aí embaixo desses panos, então te avia.” Mais envergonhado do pito do que da nudez, ele tirou a roupa. O frio mordeu a pele, mas não podia fazer muito mais do que tremer.
“A gente toda faz oferenda pra sióra no dia de Ano Novo, eu nem florzinha tive pra dar na água. Cadiquê a mãe veio me prestar acuda?” Nuzinho do tampo da cabeça até a sola do pé, o faroleiro caminhou atrás de Janaína quando ela foi, não exatamente andando, para o mar.
“É muito bonita a festa, eu gosto muito. Dá gosto de ver a gente toda cheia de esperança e gratidão batendo na porta de minha casa. Tanto filho fiel, filho desgarrado, filho que renega...Tantos com o coração tão cheio...” A voz rouca de Janaína casava com o rilhar da água na areia, e ele precisava prestar atenção no que ela dizia. O ar vibrou quando ela atingiu a água, enfim. As ondas lhe subiram pelas pernas, a espuma coroou-lhe a cabeça, o sal lhe prateou a pele inteira. “Quando eu senti um cutuquinho de esperança vindo do teu coração seco...Quis ver se você me abria o caminho pra eu te puxar de volta.”
Quando o faroleiro deu por si, estava com o mar pelo peito, mal dava pé no banco de areia, encostando só a ponta do dedo do pé no chão. Janaína virou então o rosto pra ele, agora coberto por uma cortina de maresia fina, pôs as mãos em sua cabeça e o afogou. Trouxe de volta para a superfície. Afundou-lhe outra vez, ergueu-lhe outra vez. E outras tantas ela fez assim sem que ele lutasse, sem que ele buscasse viver. A Senhora teve raiva, puxou o faroleiro pelos cabelos, e a ira trovejou no céu, sacudiu o mar, abriu a boca do vento.
“Luta! Luta!, senão eu te solto e as tuas correntes vão te carregar pro fundo e eu não vou te puxar de volta!” Janaína lhe estapeou, lhe sacudiu, jogou para o céu e jogou de volta para o mar. Engolido, surrado, cansado e derrotado, o faroleiro sentiu a água salgada lhe invadir os pulmões, fazer arder os olhos e as narinas, a areia cortando a boca e a maré revolta lhe entortando os membros todos.
Lembrou da mãe rendeira, velhinha, dos irmãos que deixou perdidos no continente, da filha que deixou nas mãos de uma tia meio cega que precisava de auxílio. Lembrou de como era bom comer do prato, de como era boa a jabuticaba colhida do pé, do peixe que se vendia na vila. Lembrou das mulheres que amara, da desgraçada que vendeu tudo o que ele tinha em troca de perfume e vestidos, e da outra que deixara esperando no cais, iludida achando que ele voltaria pra ela. Lembrou que podia ter casa e lavoura de novo, trabalho e honra, amor e contentamento. Lembrou enfim que a vida não era tão imunda quanto tinha se acostumado a acreditar.
Mas a água já lhe estourava no peito, oprimia-lhe as costas e não permitia que sacudisse os pés e as mãos para agarrar a beira d’água. Choraria se pudesse chorar, gritaria se pudesse gritar. Lutaria se pudesse lutar, se tivesse se dado conta da importância que tinha o tempo e as coisas que se podia fazer com ele. Passara tempo demais de luto e sentindo uma venenosa autopiedade. Mas agora, já era tarde. Ela queria que ele lutasse, mas ele não era capaz. Fugira tanto do mundo que acabou fugindo de si mesmo. Procurava luz pra seguir, mas só mergulhava mais e mais na escuridão de Janaína.
“TÁ VIVO O ÔME, SEU ZÉ. CORRE!”
O moleque gritava de um jeito estridente que o atordoou ainda de olhos fechados. Cuspiu o mar inteiro no convés da barquinha que o tinha resgatado. Zonzo e enjoado, abriu os olhos ardidos pra ver que o dia já ia raiando. A pele estalava conforme ia secando e a boca abria em cortes doloridos. Ao redor, uma confusão de folhas e restos de pétalas. Ouviu a correria de gente que se aproximava e o hálito podre do marinheiro que se ajoelhou ao lado do faroleiro o fez acreditar que não tinha morrido.
“Cê deu foi uma sorte do cão, visse? Tava boiando, já meio cinza, quando nóis te viu. Tiramo do mar pra enterrar decente cas bença do padre, que não é justo deixar o peixe comer um defunto.” O marinheiro cuspia enquanto falava, a boca quase completamente banguela.
“Onde que tamo?” Sentiu a garganta sangrar, mas estava feliz de ter conseguido perguntar.
“Cê tá no Justiça da Rainha, tamo indo pra Ilhéus. Como que tu te afogou?” O marinheiro o ajudou a se sentar.
“Eu sei não. Eu sou o guarda do farol da ilhinha perto do banco d’areia. Eu acho que foi cachaça que me virou a cabeça.”
“Tu teve foi sorte de Janaína não ter te reclamado. É Ano Bom, ela sempre carrega um. Ainda dá tempo de voltar pro buraco, cachaceiro, se quiser, eu te jogo.” Só naquele momento ele tinha visto a pretinha sentada na proa do barco. O volume dos cabelos, a pele que brilhava no sol nascente, o sorriso de deboche, o vestido branco e as guias de conchinha no pescoço.
“Cala a boca, Santinha! Parece uma assombração essa menina, um fantasma.” O velho atirou um peixe meio podre na garota, que desviou e entrou na cabine rindo alto que nem uma trombeta.
“Me leva pra Ilhéus, faz favor, seu Zé. Faz favor, por caridade.” Pro buraco ou pro farol, ele não voltaria nunca mais.