A VIDA ATE PARECE UMA FARSA: tensao em programa de tv gospel
em 2001 surgiu o convite pra uma entrevista rápida, ao vivo, numa rádio cristã em são paulo, ligada a uma igreja famosa, que teve durante bastante tempo uma sede num antigo cinema na aclimação, zona sul da cidade, e que no início dos anos 90 respondeu por uma espécie de 'renascimento' da música cristã jovem, de pegada mais pop. à época, a gente tinha umas três músicas gravadas postadas em um site antigo, uma fita cassete com algumas ideias e nenhum outro registro. mas alguns contatos foram suficientes pra botar a gente na rádio.
a entrevista na rádio proporcionou algo que a gente não esperava: a participação em um programa de tv da mesma igreja. o programa era exibido ao vivo toda tarde e era naquele formato 'matéria prima/programa livre', consagrado (embora não criado) pelo serginho groismann. o convite era pra participar de uma gravação de um programa a ser exibido durante as férias, quando a atração não entraria ao vivo.
ninguém na emissora conhecia a gente, a não ser o produtor da rádio, que nos fez o convite pra primeira entrevista, e por estar ligado também à tv, arrumou essa participação. como desconhecidos, o tratamento não começou dos melhores - era gente demais pedindo pressa na montagem do palco. montamos o equipamento, inicia aquele processo chato de bate na caixa, pisa no bumbo, toca o baixo, passa a guitarra e a voz, sempre com alguém fungando no cangote, olhando no relógio e franzindo a testa.
alguém da ok pra gente passar uma música e, enquanto o público entrava, o diretor do programa reclamou do volume. pediu pra que a gente abaixasse os amplificadores porque o som estava estourando.
reduzimos de leve e retomamos a tentativa de passar o som. o cara interrompeu novamente pedindo pra baixar ainda mais. "ok, sem problemas". mais alguns segundos tentando passar uma música e o sujeito surge de novo, de cara feia, dizendo que daquele jeito não daria pra continuar. e o público, já no estúdio, assistia ao embate tenso.
a gente baixou discretamente o volume e retomou a passagem. pisando duro, o diretor voltou à carga e pediu agora pra reduzir a distorção, porque o som estava rachando na mesa.
tentando manter a serenidade e já arrependido de ter aceitado o convite, disse: "vocês que chamaram a gente pra tocar, não foi a gente que pediu. quem chamou, sabia que o som era assim. não tem como tirar a distorção. se não der pra tocar, a gente desliga tudo e vai embora, sem problema". surge então o produtor da rádio de algum canto, tenta intermediar a questão, diz alguma coisa pro diretor do programa, que responde alguma coisa ininteligível pra ele, vira as costas e volta pra mesa de som. "vamo lá, moçada, vai dar certo, só segura uns 5 minutos que a gente já vai começar", diz pra gente o produtor da rádio, fingindo otimismo.
vem uma mensagem do além chamando pela apresentadora, que surge com cara de enfado, fichas de papelão na mão. atrás dela, o convidado, que iria conversar com a plateia. o combinado era tocar três músicas, uma em cada bloco.
quando começou a gravação, a apresentadora fez as apresentações de praxe pra câmera, falou do convidado e anunciou a gente. e então a gente tocou a primeira música. quando a música acabou, do além de novo veio a voz do diretor dizendo que o som tava estourando, que não sabia se daria pra arrumar depois na edição. a apresentadora resmungou alguma coisa sobre ele acertar isso depois, senão a gravação não terminaria nunca, e começa a conversa com a plateia, a câmera e o convidado.
fim do primeiro bloco, uma pausa rápida, por ser gravado, não precisava esperar o intervalo. retomado o que seria o segundo bloco, a apresentadora deu a deixa pra gente, que tocou a segunda música. assim que a gente começou a tocar, a apresentadora fez uma careta e saiu do estúdio. voltou assim que a gente parou, retomou a condução do programa e finalizou o segundo bloco.
ela chamou o início do terceiro bloco e decidiu nos fazer umas perguntas: desde quando a banda existia, que tipo de som era aquele, qual mensagem a gente queria passar e a agenda de shows. por sorte, havia um agendado pra dali a alguns dias, mas eu não lembro o que a gente respondeu nas demais perguntas. ela avisou que a gente encerraria o programa, retomou a conversa com o convidado e a plateia e no fim, anunciou a gente pra encerrar.
antes de a gente começar, a voz do diretor suriu novamente. ele pediu pra gente maneirar porque era a última e ele não sabia se ia conseguir salvar as duas anteriores. a apresentadora fez outra cara de nojo, falou alguma coisa com alguém da plateia, que pareceu ser da produção, virou as costas e se mandou. olhei pro franklin, aumentei o volume do amplificador, ele pisou no distorcedor que usava pro baixo e a gente começou a última música - se não me engano, uma versão acelerada pra "dias eternos", do primeiro ep, de 2002. o fim da música foi um emaranhado de microfonia, seguido de caretas vindas de alguns integrantes da equipe da tv, mas um cabo men elogiou o som. uns garotos na plateia vieram falar com a gente, um deles com a camiseta do nevermind. e foi isso.
dias depois, falei com o produtor da rádio, o que arrumou essa gravação do programa pra gente. perguntei se tinha sido um problema pra ele o que aconteceu na gravação e ele disse algo como "imagina, não esquenta. só que o programa não vai pro ar".






