Taxa de desemprego no Brasil recua a 6,8% no 2º tri de 2014, mostra Pnad Contínua
Por Felipe Pontes
RIO DE JANEIRO (Reuters) - O Brasil registrou taxa média de desemprego de 6,8 por cento no segundo trimestre de 2014, mostrou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira.
A taxa ficou abaixo da vista nos três primeiros meses de 2014, quando havia ficado em 7,1 por cento, mostrando o mesmo movimento, embora menos intenso, de queda sazonal registrado na passagem do primeiro para o segundo trimestres de 2013, quando a taxa passou de 8,0 para 7,4 por cento.
"No início do ano há uma entrada de trabalhadores grande na desocupação, você tem um número grande de pessoas perdendo o emprego. A tendência é, no semestre seguinte, o mercado de trabalho estando favorável, esse número se apresentar inferior", disse o coordenador do Departamento de Trabalho e Renda do IBGE, Cimar Azevedo.
"Essa queda de agora é uma queda favorável... mostra que o mercado ainda está favorável, mas numa intensidade menor", acrescentou Azevedo, que destacou como exemplo de vigor no mercado de trabalho brasileiro a criação de 1,8 milhão de postos de trabalho com carteira assinada entre o segundo trimestre de 2013 e o mesmo período de 2014, de acordo com a pesquisa.
Pelas regiões, a taxa mais alta de desocupação no segundo trimestre ocorreu no Nordeste, com 8,8 por cento, enquanto a menor foi registrada no Sul, com 4,1 por cento. A taxa na região Norte foi de 7,2 por cento, no Sudeste ficou em 6,9 por cento e no Centro-Oeste em 5,6 por cento.
Azevedo destacou também a questão de género como elemento determinante na redução da taxa de desocupação. "Parte expressiva da queda na desocupação foi provocada pela inserção das mulheres", afirmou.
A taxa média de desemprego entre as mulheres caiu para 8,2 por cento, ante 8,7 por cento no trimestre anterior, enquanto entre os homens ela passou a 5,8 por cento, ante 5,9 por cento.
O nível de ocupação nacional no período foi de 56,9 por cento, pouco acima dos 56,7 por cento do primeiro trimestre, mas no mesmo patamar de um ano atrás.
No segundo trimestre, a população ocupada alcançou 92,052 milhões de pessoas, sendo 70,2 por cento de empregados, 4,1 por cento de empregadores, 22,9 por cento de pessoas que trabalham por conta própria e 2,9 por cento de trabalhadores familiares auxiliares.
Já o número de desocupados chegou a 6,767 milhões de pessoas.
Apesar de ainda robusto, o mercado de trabalho vem perdendo força em meio ao cenário de inflação e juros elevados.
No semestre passado, o país entrou em recessão técnica e a inflação acumulada em 12 meses continua acima do teto da meta --de 4,5 por cento, com margem de dois pontos percentuais para mais ou menos.
A Pnad Contínua tem maior abrangência nacional que a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) e tem divulgação trimestral. A ideia é que substitua a PME, que leva em consideração dados apurados em apenas seis regiões metropolitanas do país.
O dado mais recente da PME mostra que a taxa de desemprego no Brasil recuou a 4,9 por cento em setembro, mínima para esses meses, devido à menor procura por vagas.
Pelos dados do Caged, do Ministério do Trabalho, no acumulado do ano até setembro, a geração de emprego com carteira assinada somou 730.124 vagas, quase 30 por cento a menos do que a abertura de 1,038 milhão de vagas em igual período de 2013, em dados não ajustados.
A divulgação dos dados sobre o desemprego referentes ao terceiro trimestre de 2014 da Pnad Contínua, que foi adiada diversas vezes este ano em decorrência de uma greve no IBGE, está prevista para dezembro.
No início de janeiro, o IBGE prevê divulgar dados mais completos da Pnad Contínua trimestral, incluindo informações sobre renda e o detalhamento por unidades da Federação, e trabalha com a possibilidade de tornar a pesquisa mensal a partir de fevereiro.
IPCA acelera alta a 0,51% em novembro com carnes e gasolina, e continua acima do teto da meta
Por Felipe Pontes e Camila Moreira
RIO DE JANEIRO/SÃO PAULO (Reuters) - A inflação oficial brasileira acelerou em novembro a 0,51 por cento, pressionada por alimentos e gasolina, permanecendo acima do teto da meta em 12 meses e mantendo a nova equipe econômica sob pressão para que torne a política fiscal mais rigorosa e controle a alta dos preços.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 6,56 por cento em 12 meses até novembro, um pouco abaixo dos 6,59 por cento de outubro, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira. Em outubro, o IPCA havia avançado 0,42 por cento na base mensal.
A meta de inflação do governo é de 4,5 por cento, com tolerância de dois pontos percentuais para mais ou menos. Analistas consultados pela Reuters, no entanto, acreditam que o IPCA encerrará este sem estourar a meta, apesar de ficar próximo do teto.
"Acho bem difícil estourar", afirmou a economista da Tendências Consultoria Alessandra Ribeiro, para quem o IPCA deve acelerar a 0,68 por cento em dezembro, fechando o ano com alta acumulada de 6,3 por cento.
Segundo contas do próprio IBGE, para encerrar o ano exatamente no topo da meta, o IPCA de dezembro teria subir 0,86 por cento. E, para repetir os 5,91 por cento de 2013, neste mês teria de subir 0,30 por cento.
Os resultados de novembro ficaram um pouco abaixo da expectativa em pesquisa da Reuters, de alta de 0,54 por cento sobre o mês anterior e de 6,59 por cento em 12 meses.
CARNES E GASOLINA
Segundo o IBGE, o maior impacto sobre o IPCA de novembro veio do grupo Alimentação e Bebidas, cujo avanço dos preços acelerou a 0,77 por cento, após 0,46 por cento em outubro. Com isso, o grupo foi o que registrou o maior peso no mês, de 0,19 ponto percentual, devido principalmente à alta de 3,46 por cento no preço das carnes.
"Os alimentos têm pressionado, não só por conta da seca, como também pelo aumento das exportações, especialmente da carne (para a Rússia)", destacou a economista do IBGE Eulina Nunes dos Santos.
Os preços administrados subiram 0,72 por cento em novembro, contra avanço mensal de 0,38 por cento no mês anterior. No acumulado em 12 meses, os administrados registram inflação de 5,83 por cento.
A gasolina foi o segundo item individual de maior impacto no IPCA do mês, com alta de 1,99 por cento, levando o grupo Transportes a registrar inflação de 0,43 por cento em novembro, contra 0,39 por cento em outubro.
No início do mês passado, a Petrobras anunciou reajuste nos preços da gasolina e do diesel.
Outra fonte de pressão sobre a inflação são os serviços, cuja alta acelerou a 0,46 por cento em novembro, contra 0,43 por cento no mês anterior. Em 12 meses, esses preços acumularam alta de 8,28 por cento no mês passado, abaixo dos 8,48 por cento vistos em outubro.
Para o economista da Rosenberg & Associados Leonardo França Costa, a pressão dos preços administrados continuarão pesando no próximo ano, mantendo a inflação em 12 meses em torno dos 6,5 por cento.
"Os preços livres vão continuar desacelerando, especialmente em serviço, por conta da economia", disse ele, projetando o IPCA em 6,5 por cento ao final do próximo ano.
Diante da inflação pressionada, o Banco Central intensificou o ritmo de aperto monetário nesta semana e elevou a taxa básica Selic em 0,50 ponto percentual, a 11,75 por cento ao ano. A autoridade monetária tem destacado as pressões dos preços administrados e do câmbio sobre a inflação.
Mas, embora o BC tenha indicado que pode reduzir a intensidade da alta em breve, o movimento reforçou as sinalizações dadas pela nova equipe econômica --com Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa no Planejamento e Alexandre Tombini mantido no BC-- de maior rigor fiscal e combate à inflação.
(Reportagem adicional de Jeb Blout, no Rio de Janeiro)
RIO DE JANEIRO (Reuters) - A presidente Dilma Rousseff, que tenta a reeleição pelo PT, disse nesta quinta-feira, pouco depois de pesquisas a mostrarem liderando a corrida presidencial, que vem observando um movimento de "virada" nas ruas do Brasil.
"Eu acredito que está havendo uma espécie de virada, acho que há uma virada visível mas ruas", disse Dilma a jornalistas no Rio de Janeiro ao ser perguntada sobre as pesquisas Ibope e Datafolha que, pela primeira vez desde o início do segundo turno, a colocam à frente do candidato do PSDB, Aécio Neves, fora da margem de erro.
A presidente citou eventos de campanha em Recife e em Duque de Caxias (RJ) nesta semana como exemplo dessa "virada" que tem detectado nas ruas do país.
A três dias do segundo turno da eleição presidencial, Dilma abriu vantagem sobre Aécio e saiu do empate técnico com o tucano, beneficiada por uma melhora na avaliação de seu governo e por um aumento na rejeição ao senador mineiro, mostraram novas pesquisas Datafolha e Ibope.
Dilma comemorou ainda os dados sobre o mercado de trabalho divulgados nesta manhã pelo IBGE, afirmando que o Brasil vai na contra mão do mundo.
"Essa é a menor taxa de desemprego de setembro, o que então mostra uma consistente queda do desemprego", disse Dilma. "Não é isso que ocorre no resto do mundo. Eu acredito que o Brasil seja um dos países que tenha a menor taxa de desemprego entra as economias do G20 e as demais também."
A presidente citou também o aumento da renda média registrado pela PME, alegando que as maiores conquistas de seu governo foram a criação de empregos, o aumento de salários e a ampliação de direitos trabalhistas para classes antes desprotegidas, citando como exemplo legislações que favorecem as empregadas domésticas e os taxistas.
"O mundo também, neste mesmo período, reduziu e cortou direitos trabalhistas, moderadamente. O Brasil, ao contrário, ele ampliou direitos nesse período", afirmou.
SEM CRIAR FANTASMAS
Ao ser questionada sobre o acirramento dos ânimos na reta final da corrida presidencial, inclusive com episódios de confrontos físicos entre eleitores petistas e tucanos, Dilma respondeu não crer que esse tipo de problema ocorra no Brasil.
Para ela, é normal um clima mais quente na reta final das eleições, desde que a rivalidade se mantenha no campo das ideias. Ela fez um apelo para que eventuais atos violentos não recebessem a importância maior do que realmente representam e pediu calma aos eleitores.
"Em todas as eleições você tem um clima que fica mais quente. Acho que a gente não pode chegar agora e tentar criar também, porque isso faz parte do acirramento dos ânimos, tentar criar um fantasma disso tudo. Eu acho que não tem esse clima no Brasil", disse a presidente.
Marina Silva diz que Brasil não precisa de um "gerente"
Por Felipe Pontes
RECIFE (Reuters) - A candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, voltou ao Recife uma semana após o funeral do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para realizar o seu primeiro ato de campanha desde que passou a encabeçar a chapa do partido, e criticou a visão de que o Brasil precisa de um “gerente” no comando do executivo.
“No Brasil, se criou essa história de que é preciso ter um gerente... O Itamar (Franco) não era um gerente, era um homem com visão estratégica. O Fernando Henrique (Cardoso) é um acadêmico, não era um gerente, mas era um homem com visão estratégica. O Lula (Luiz Inácio Lula da Silva), um operário, não era um gerente, mas um homem com visão estratégica”, disse a ex-senadora.
“Quando se tem visão estratégica, se sabe reunir equipes, a gente consegue os melhores gerentes. Quando não se tem, não se consegue gerenciar nem a si mesmo”, acrescentou Marina, que caminhou por quase duas horas ao lado do candidato a vice, Beto Albuquerque, pelas ladeiras de um bairro pobre na Zona Norte do Recife.
Em comício ao final da caminhada, Marina criticou alianças de campanha entre aliados que aparentam juntar “água com óleo”, mas ao ser questionada sobre como pretende garantir a governabilidade, caso eleita, não descartou aliança com membros de nenhum partido.
“Não critico fazer alianças, eu critico fazer as alianças inadequadas. Se nós fizermos um movimento na sociedade brasileira, Marina e Beto, de vitória, pode ter certeza que o PMDB do Pedro Simon não vai nos faltar. O PMDB de Jarbas (Vasconcelos) não vai nos faltar. O PT de (Eduardo) Suplicy não vai nos faltar”, disse a candidata. “E mesmo que estejamos em palanques diferentes. Se não for o Suplicy, for o José Serra (PSDB), eu tenho certeza que ele não vai nos faltar”, acrescentou.
O material de campanha utilizado no ato não continha referência à Marina como candidata à Presidência, enquanto o rosto de Eduardo Campos estava estampado em posteres e adesivos espalhados pelas casas. Um carro de som anunciava “Eduardo presente, Marina presidente” à frente do grupo, que seguiu rodeado por centenas de militantes do PSB e acompanhado por um boneco gigante da candidata.
Marina, que era candidata a vice-presidente, tomou a liderança da chapa do PSB após a morte trágica de Campos no dia 13, em acidente aéreo na cidade de Santos (SP).
FATOR PREVIDENCIÁRIO
Durante o comício, o candidato à vice-presidência defendeu o fim do fator previdenciário.
“Os nossos adversários são aqueles que não deixam acabar com o fator previdenciário e obrigam o trabalhador que contribuiu com cinco salários, com dois salários mínimos, se aposentar depois, para o resto da vida, com um salário mínimo. Nós vamos mudar isso”, disse Albuquerque, no palanque ao lado de Marina Silva.
O fim do fator previdenciário, instituído durante o segundo mandato do governo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para evitar aposentadorias precoces e desafogar as contas da Previdência Social, é uma antiga reivindicação dos movimentos sindicai
Os candidatos do PSB não deram detalhes sobre como seria viabilizado o eventual fim do fator previdenciário.
ENTREVISTA-Pelé diz que Felipão tem dificuldade para acertar ataque brasileiro
Por Felipe Pontes
RIO DE JANEIRO (Reuters) - Um dia depois do empate sem gols da seleção brasileira com o México, Pelé disse que o técnico Luiz Felipe Scolari ainda não conseguiu arrumar a equipe do meio-campo para frente por causa do pouco tempo de preparação para a Copa do Mundo em casa.
"Nosso treinador, o Felipão, ele tem dificuldade de acertar o ataque. Desde os jogos amistosos que temos essa dificuldade... A defesa está muito mais organizada que o ataque", afirmou Pelé em entrevista à Reuters nesta quarta-feira, após um evento no qual conversou com crianças de uma escolinha de futebol sobre a importância de uma boa nutrição, no Rio de Janeiro.
"A gente tem algumas dificuldades ainda para acertar também o meio-de-campo", acrescentou o ex-jogador, ao comentar o empate em 0 x 0 do Brasil com o México no estádio Castelão, em Fortaleza, na terça, pela segunda rodada do Grupo A do Mundial.
A seleção brasileira se reuniu para iniciar a preparação para a Copa no dia 26 de maio, menos de 20 dias antes da estreia, em 12 de junho, quando a equipe venceu a Croácia por 3 x 1, de virada, após ter grandes dificuldades na partida.
"Eu acho que o tempo de treinamento é o mais importante e o Felipe não teve tempo para treinar essa equipe, isso dificulta bastante", disse Pelé, tricampeão mundial com o Brasil, em 1958, 1962 e 1970.
Diante do desempenho ainda apagado do atacante Fred na Copa do Mundo, Pelé afirmou que não considera imprescindível a presença de um camisa 9 à frente do time, citando o exemplo da Copa de 1970, quando os pilares da equipe vestiam a camisa 10 em seus respectivos clubes e a seleção não tinha um centroavante claro.
"Eu me lembro que em 1970, muitos jornalistas e entendidos de futebol diziam 'como que esse time vai poder jogar bem, o Pelé é número 10 no Santos, o Gerson no Botafogo, o Rivelino número 10 no Corinthians, o Tostão no Cruzeiro, como é que vai jogar, não tem um centroavante?', e foi a melhor seleção que o Brasil já teve", afirmou.
DEFESA DE OCHOA
Pelé fez questão de enaltecer a atuação do goleiro mexicano Guillermo Ochoa, eleito o melhor jogador da partida pela segunda rodada do Grupo A do Mundial, cuja bela defesa em um cabeceio de Neymar no primeiro tempo foi amplamente comparada com a defesa de uma cabeçada de Pelé feita na Copa de 1970 pelo goleiro da Inglaterra Gordon Banks, até hoje uma das melhores de todos os tempos.
"Foi uma excelente defesa, tomara que realmente aconteça o que aconteceu comigo, porque o Banks fez a defesa e o Brasil foi campeão do mundo, vamos ver agora que o Neymar fez aquela jogada e a defesa foi maravilhosa”, disse Pelé, que elogiou o desempenho da seleção.
"Acho que foi bem, podia ter feito dois gols. Mas tiveram umas duas ou três boas defesas de ataques que poderiam ter definido o jogo.”
"Desde as Olimpíadas que o México vem dando trabalho ao Brasil, e esse jogo foi o jogo que o Brasil teve mais oportunidades e infelizmente não deu certo”, acrescentou.
Pelé disse estar aliviado com o clima de confraternização na primeira fase da Copa do Mundo, explicando que suas declarações feitas em junho do ano passado sobre protestos, em que pediu aos brasileiros para esquecerem as manifestações e torcerem pela seleção brasileira, foram mal interpretadas.
"Muita gente não entendeu no começo, quando eu disse que os protestos são uma coisa que a gente entende, que é certo você exigir, mas que você não pode misturar a corrupção na política com o futebol, porque o nosso futebol só nos trouxe alegria, só nos enalteceu", declarou.
"Agora a gente vendo essa confraternização, você vê todos os jogos sempre cheios, graças a Deus não teve nenhum grande conflito nessa primeira fase, isso deixa a gente bem mais tranquilo."
(Com reportagem adicional de Stephen Eisenhammer e Reuters TV)
Trip Tips: Partying to the many rhythms of Brazil's Recife
By Felipe Pontes
(Reuters) - If music and partying are what you have in mind for a trip to Brazil, you might want to sidestep traditional hotspots like Rio de Janeiro and Salvador and head to Recife instead.
This often-overlooked metropolis of 3.6 million people on Brazil's northeastern coast is home to some of the country's most popular Carnival celebrations and other street festivals. It also boasts one of the most vibrant music scenes in Brazil.
But don't expect the smooth sounds of bossa nova and samba, the musical genres most identified with Brazil. This is the land of frenetic, body-to-body dance music that will make you sweat.
Located where the Capibaribe and Beberibe rivers meet the Atlantic Ocean, Recife is a city of endless waterways and bridges Some call it the "Brazilian Venice."
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One of Brazil's oldest cities, Recife boomed as the world's leading sugar producer in the early 17th Century. Colorful vestiges of that era are still on display in the city's historic districts, giving it a colonial charm among modern skyscrapers.
Soccer fans coming to Recife for the World Cup in June will miss Carnival, but will still get a good taste of the city's love affair with street parties. Recife will host five World Cup games:Ivory Coast vs Japan; Italy vs Costa Rica; Croatia vs Mexico; USA vs Germany; and a Round of 16 match.
Here are tips for getting the most out of a trip to Recife from Reuters, whose 2,600 journalists in all parts of the world offer visitors the best local insights.
JUNE FESTIVALS
Luckily for soccer fans, the World Cup will take place at the same time as what Brazilians call "Festas Juninas" - literally, June Festivals - nationwide festivities celebrating the Catholic saints of John the Baptist, Anthony and Peter.
The festivals also celebrate rural life in Brazil, with men decked out in plaid shirts and straw hats while women don country dresses and pigtails. In between fireworks displays and folk dancing, taste some "pamonha" and "canjica," seasonal corn-based treats made for the festivals.
Don't miss the chance to try your luck at "arrasta pé," the cheek-to-cheek, foot-dragging way of dancing forró, the fast-paced and catchy musical genre from northeastern Brazil played with an accordion, a triangle and a zabumba drum.
The festivities are spread out all over the city, but head to Arsenal and São Pedro squares for the biggest attractions.
MUSIC MUSEUMS
While downtown, you can learn more about forró and other local rhythms such as baião, xote and xaxado at Cais do Sertão, a sparkling new gallery dedicated to the late Luiz Gonzaga, one of the most influential Brazilian musicians of the 20th Century. (www.caisdosertao.com.br)
For more on Recife's rich musical history, visit the Paço do Frevo about two blocks away. It's a shrine to the upbeat orchestral musical style and accompanying acrobatic dances known as frevo, mainstays in the city's Carnival celebrations. (www.pacodofrevo.org.br)
Both museums are just a stone's throw from Rio Branco square, also known as Marca Zero, where a giant compass marks the city's ground zero. From there, take in the view of the harbor, whose entrance is graced with ceramic sculptures by one of Recife's best-known artists, Francisco Brennand.
For more of Brennand's work, visit his family's old brick and tile factory on the city's western outskirts. It houses a remarkable collection of ceramic sculptures, surrounded by a nature reserve. (www.brennand.com.br)
MANGUE TOWN
As a coastal metropolis in the tropics, much of Recife is built around mangrove swamps. That muddy landscape, known as "mangue" in Portuguese, inspired a cultural movement in the 1990s that thrust Recife's music scene onto the national stage.
The "Mangue Beat" movement fused electronic beats and other sounds with maracatu, a local drum rhythm, revolutionizing Brazilian pop music.
At www.sonsdepernambuco.com.br you can sample some of the vibrant local sounds that have come in Mangue's wake. Or you can witness them yourself at street parties such as "Som na Rural," a spontaneous set of live concerts performed from the back of an old Ford truck.
For a glimpse of what's up-and-coming in Recife's music scene, check out the festival organized by a group of independent producers at Estúdio Base on Rua da Aurora, on June 15, 22 and 29. Golarrolê is another party producing crew hugely popular with locals.
Another good venue for live music is Estelita, which also plans to screen World Cup matches for fans who were not lucky enough to score tickets.
WORLD HERITAGE IN OLINDA
No trip to Recife is complete without a visit to its sister city Olinda, a neighboring colonial gem that was declared a World Heritage Site in 1982. One of Brazil's most festive tourist destinations, Olinda always has something afoot on its hilly, cobblestone streets.
Spend the day exploring Olinda's historic churches and many art studios, nibbling on street food like tapioca along the way. For a stunning view of Recife, climb the steep Ladeira da Misericórdia, or Mercy Slope.
A great place to start an evening in Olinda is Bodega de Véio, where locals gather to sip cold beer and munch on tapas-style finger foods called "acepipes." From there, head over to Casa do Cachorro Preto, an art gallery that stages live music and DJ shows at night.
If you plan to spend the night in Olinda, stay at the plush Hotel Sete Colinas. (www.hotel7colinas.com.br)
If you're looking for a good way to unwind after all that music, Boa Viagem beach back in Recife beckons.
Just don't let the warning signs against shark attacks scare you away. There are plenty of natural pools protected by the coral reefs that give Recife its name. You can swim there without running the risk of becoming shark bait.
Proximidade da Copa superaquece mercado de hospedagens alternativas
Por Felipe Pontes
RIO DE JANEIRO, 3 Fev (Reuters) - Festas, exposições, passeios, samba e feijoadas esperam o torcedor que se hospedar durante a Copa do Mundo no Vizu do Galo, um "cama e café" próximo ao elevador que dá acesso à favela do Cantagalo, comunidade encravada entre os icônicos bairros cariocas de Copacabana e Ipanema, onde a moradora e empreendedora Deise Franklin está atenta às oportunidades trazidas pelo torneio.
"Meu querido, se eu vendi 500 camisas canarinho lá embaixo quando a Copa era lá do outro lado do mundo, você acha que quando (a Copa) é aqui, eu não vou me arrumar?", disse Deise, tendo como pano de fundo uma paisagem única do Rio de Janeiro.
Ladeira um pouco mais abaixo, na "Casa da Teteca", uma diária em um quarto com ar-condicionado, Internet e café da manhã custa 70 reais durante a alta temporada, entre dezembro e o Carnaval. Na Copa, as moradoras calculam pedir 150 o pernoite.
Em torno de 2,4 milhões de viajantes brasileiros e estrangeiros vão precisar de hospedagem durante o torneio, de acordo com o Ministério do Turismo, enquanto a oferta de leitos em hotéis nas 12 cidades-sede não ultrapassa os 570 mil, segundo estudos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o governo em 2012.
A quatro meses do Mundial, a conta que não fecha provoca um forte aquecimento no mercado dos meios de hospedagem ditos alternativos, como os "bed and breakfast", albergues e aluguéis por temporada.
"O movimento é impressionante. Mesmo com antecedência, 60 por cento das reservas já foram feitas. A procura é algo que eu nunca vi antes. Você pode juntar réveillon, Carnaval e Rio+20 e mesmo assim é uma demanda ainda maior", afirmou Sven dos Santos, diretor da Agência-Heidelberg, especializada em aluguéis por temporada na zona sul do Rio de Janeiro.
Com 150 imóveis em sua carteira, ele ainda pretende captar mais 50 apartamentos para alugar entre junho e julho. "Se tivesse 1 mil, alugaria todos", disse o alemão Santos. A diária mais barata durante a Copa custa o triplo do que no Carnaval, e não sai por menos do que 600 reais, enquanto a opção mais sofisticada do portfólio da empresa sai por 4.500 reais o dia.
ALUGAR A PRÓPRIA CASA
Na comunidade de Pavão-Pavãozinho, vizinha à do Cantagalo, o professor de marketing da Fundação Getúlio Vargas Daniel de Plá trabalha junto com a presidente da Associação de Moradores, Alzira Amaral, na conclusão de um cadastro de moradores que queiram ceder um quarto em casa para receber torcedores, a 95 reais a diária. Para isso, os ocupantes do cômodo optam por dormir na casa de parentes.
Mesma ideia teve o professor Faber Pagonato, 31 anos, que durante o período da Copa vai morar com a mãe para alugar a sua casa em uma vila a menos de 1 km do Maracanã. "Para valer a pena, penso em ganhar no mínimo três vezes o valor de um aluguel mensal (de longo prazo), que ronda os 3 mil reais", avalia.
No serviço norte-americano AirBnB, que abriu um escritório no Brasil em abril de 2012 para melhor aproveitar o calendário de grandes eventos, qualquer pessoa pode ofertar um quarto ou a própria casa pela Internet, o que tem se revelado um grande negócio para o período da Copa do Mundo.
"A gente viu um crescimento da demanda (solicitações de reserva) de 600 por cento durante a Copa das Confederações, em comparação com o ano anterior. Esperamos um crescimento de no mínimo quatro dígitos (na Copa)", disse o diretor do AirBnB no Brasil, Christian Gessner.
Com a média de preço da diária rondando os 400 reais no AirBnB para junho e julho de 2014, o Rio de Janeiro é o destino mais buscado na ferramenta, com um aumento de 2.000 por cento da demanda ante o mesmo período de 2013.
SEMPRE MENOS QUE HOTEL
Outra opção para quem busca pagar menos, os albergues estão cobrando em média 300 reais por pessoa, por noite, em um quarto privativo. Em um dormitório coletivo, a média é de 150 reais a diária, de acordo com a Federação Brasileira dos Albergues da Juventude, filiada à rede Hostelling International, que contabiliza 6.800 leitos em mais de 90 albergues no Brasil.
"De 2012 para cá, a nossa rede credenciou mais de 20 hostels (albergues), principalmente nas cidades-sede, pensando já na Copa do Mundo. O mercado de hostels em geral tem crescido de forma intensa nesses últimos dois anos devido aos eventos que serão sediados no Brasil", disse o diretor da HI no Brasil, Stephan Leuenberger.
A demanda aquecida não é o único fator a favorecer a cobrança de preços mais altos nos albergues. Em geral mais baratos que os hotéis, os meios de hospedagem alternativos aproveitam a margem aberta pela rede hoteleira, cuja média nacional de cobrança durante os dias dos jogos está em 734 reais, segundo dados atualizados levantados a pedido da Reuters pelo Trivago, site especializado que compara preços em mais de 200 sites de reserva de todo o mundo.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Enrico Fermi, disse acreditar que a liberação, na última sexta-feira, de até 50 por cento das reservas em hotéis que estavam bloqueadas por contrato e não conseguiram ser vendidas pela Match Services AG, operadora de turismo oficial da Fifa, deve aliviar a pressão sobre os preços.
"Acho que sim... É sinal que você está tendo menos procura pelo que foi ofertado", disse Fermi, referindo-se aos preços cobrados pela Match por meio do site hotels.fifa.com.
ABUSO NOS ARREDORES DOS ESTÁDIOS
A vice-presidente da ABIH do Rio de Janeiro, Sonia Chami, disse não temer a concorrência com os meios de hospedagem alternativos. Segundo ela, trata-se de um setor muito exposto a abusos, como se observa nas cobranças de aluguel ao redor dos estádios da Copa do Mundo.
"Não acredito que isso seja um problema, pelos altos valores que estão sendo cobrados. Tem muita especulação de preços em locação e aluguel", disse ela durante evento organizado pela Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça para debater o abuso de preços durante a Copa.
No bairro paulista de Itaquera, onde fica o novo estádio do Corinthians que vai receber a abertura do torneio em 12 de junho, desde o início deste ano se multiplicam os imóveis ofertados por mais de 100 mil reais pelo mês de duração da Copa.
Na esteira desses anúncios, o corretor de seguros Alfredo Alves também decidiu desocupar no início da semana passada o apartamento onde morava, com dois quartos e um banheiro, e o ofereceu a 125 mil reais por 31 dias, incluindo serviços como faxineira, tradutor e motorista.
"Vou ser bem sincero, eu particularmente não pagaria", assume Alves, de 40 anos, por telefone. "Mas pelas pesquisas que fiz pode sair até barato para quem precisar trabalhar ali", disse ele, que espera alugar o apartamento, em frente à nova arena, para alguma equipe que vá trabalhar na cobertura da Copa do Mundo.
ANÁLISE-Insatisfação que gerou protestos no Rio e SP vai além do preço da tarifa
Por Eduardo Simões e Felipe Pontes
SÃO PAULO/RIO DE JANEIRO, 14 Jun (Reuters) - A insatisfação que levou milhares às ruas em São Paulo e Rio de Janeiro nos últimos dias, em manifestações que resultaram em inúmeros atos de violência, vai além do descontentamento com a elevação na tarifa do transporte público.
E no momento em que o Brasil está sob os holofotes às vésperas de receber grandes eventos internacionais, o movimento ganha corpo e se espalha por outras capitais do país.
A abertura de canais de diálogo entre autoridades e manifestantes para evitar uma escalada dos confrontos é necessária, na visão de analistas. Mas a inexistência de uma liderança clara nas ruas, apesar de os protestos terem sido convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL), complica a negociação.
Desde a semana passada manifestantes, em sua maioria jovens e estudantes, têm protestado contra o aumento de 20 centavos nas tarifas do transporte público no Rio e em São Paulo --foi para 3,20 reais na capital paulista e para 2,95 reais na capital fluminense.
Autoridades descartam rever o preço e argumentam que o reajuste, inicialmente previsto para janeiro, foi postergado para junho e veio abaixo da inflação.
Nas duas cidades, e também em Porto Alegre, os protestos acabaram em confronto com a polícia, e ônibus e espaços públicos foram depredados. No caso de São Paulo, órgãos de defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos expressaram preocupação com a atuação da polícia, detenção de jornalistas, e a escalada dos conflitos.
Para a professora Angela Randolpho Paiva, do Departamento Ciências Sociais da PUC-RJ, o movimento emana de uma insatisfação difusa de estudantes.
"É um grupo de estudantes, inclusive estudantes de classe média que estão na rua num momento de uma catarse mesmo. Quer dizer, os 20 centavos foram estopim para muita insatisfação com o que está acontecendo e tomara que usem essa energia para outros protestos", disse a professora.
Ela aponta como possível força motriz dos protestos os elevados gastos governamentais com a organização dos grandes eventos esportivos no país. "Eu diria que tem uma insatisfação quando você vê que esses eventos têm prioridade número um na gestão pública. Todo dinheiro é gasto nisso", disse.
Nesta sexta-feira, um grupo protestou na Avenida Paulista, a principal de São Paulo, contra o uso de recursos públicos na organização da Copa do Mundo de 2014. Manifestação semelhante foi realizada em Brasília. O tema Copa também esteve na palavra de ordem dos manifestantes, na quinta-feira, que afirmavam que, se tarifa não fosse reduzida, parariam a cidade e impediriam a realização do evento.
Com o início da Copa das Confederações no sábado, e a um ano do Mundial, a Fifa também se manifestou sobre os distúrbios e disse estar "monitorando a situação".
Na avaliação do coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho, a falta de uma liderança dos manifestantes complica uma eventual negociação com a polícia para que as manifestações não se tornem violentas.
"Tudo que não tem CNPJ, pela experiência nossa, vai dar problema. Quando a gente fala CNPJ, a gente quer dizer entidade constituída, amadurecida, com responsáveis definidos", disse.
PODER DAS REDES SOCIAIS
Embora os especialistas ouvidos pela Reuters descartem uma "Primavera Brasileira", numa analogia com os protestos de rua que derrubaram regimes totalitários em países árabes, eles veem uma semelhança até então ainda não detectada no Brasil: a força das redes sociais, o veículo usado para convocar os protestos.
"Uma coisa é certa, o poder das redes sociais. Isso não pode ser desprezado em hipótese nenhuma. Essa questão da passagem é muito inesperado ter tomado essa proporção", disse Paiva, da PUC-RJ.
Os especialistas concordam que o momento é de diálogo entre as autoridades e os manifestantes, até mesmo para evitar um afastamento entre a população e as forças de segurança.
"A questão é que vai acirrando os ânimos e aquele sujeito que vai lá só protestar vai criando um ódio do policial. E o policial vai se vendo como diferente daqueles manifestantes e aquilo é de onde ele vem. Isso é ruim para a sociedade", disse Guaracy Mingardi, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Por Marcio Debellian e Felipe Pontes
Foto de Tomás Rangel
“Me cansei do cansaço / de não buscar o meu mais sincero / porque dói demais”. Estes são os primeiros versos de “Religar”, a canção que dá nome ao disco de Leo Cavalcanti, e anunciam a entrega com que o artista apresenta o seu trabalho de estreia.
As 14 canções reunidas neste álbum revelam um mergulho sincero nos seus próprios questionamentos, a busca por autoconhecimento e a descoberta de um mundo que não pode ser racionalizado. A estética aqui é a do afeto – é hora de “tirar da mente e por no coração”. Leo se apresenta com a coragem de um sonâmbulo que simplesmente vai, convicto de que o caminho mais rico é rumo ao mistério.
“Tudo o que as letras dizem, parece que eu vivi o contrário. “Medo de olhar para si”, a canção que fecha o disco, fala disso. Eu tive muito medo de olhar para mim”, conta Leo, em um passeio de carro pelo Rio de Janeiro, rumo ao Mirante do Rato Molhado, em Santa Teresa, cenário onde cantou algumas canções de seu novo disco com exclusividade para o SaraivaConteúdo.
Lançado no finalzinho de 2010, o disco traz o resultado do amadurecimento de canções surgidas paulatinamente ao longo dos últimos cinco anos, maturadas de forma solitária. O processo de concepção musical teve início no estúdio do pai, o compositor Péricles Cavalcanti.
“A solidão, a coisa do estúdio caseiro, de começar a gravar sozinho, a pensar no arranjo, e ter essa gana mesmo de participar de todos os processos do disco, acabou gerando mesmo uma coisa individual. Sinto que o disco é justamente essa passagem, do interno pro externo, do individual pro coletivo”, afirma Leo.
Dar ouvidos às canções depois de prontas, encadeadas em um disco, foi mais uma etapa deste ciclo. “Acabei reaprendendo com as músicas. Isso é muito legal, ver que a canção tem uma vida própria, ela não me pertence, sabe? Ela brota de mim, mas eu aprendo com ela”, avalia o compositor.
Após o período sozinho, foram mais nove meses em estúdio junto com Décio 7 e Cris Scabello. Este tempo foi necessário para esculpir os múltiplos níveis de sonoridade, compostos por até seis camadas de vozes que se unem a instrumentos tão diversos quanto guitarras, violinos, castanholas, trompetes, bandolins, violoncelos, alaúdes e beatbox.
O resultado veio com personalidade, capaz de destacá-lo na efervescente cena paulistana. A revistaManuscrita, por exemplo, numa metódica e criteriosa seleção dos cem melhores álbuns nacionais de 2010, alçou o disco de Leo Cavalcanti ao topo da lista, acima de outras novidades badaladas como Karina Buhr, Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz. Aliás, os dois últimos fazem participações no disco de Leo. Tulipa canta lindamente em “Sem (des)esperar” e Jeneci toca piano na faixa “Acaso”.
Sobre o cenário musical atual e seus colegas de geração, Leo enxerga passos originais em muito do que está chegando ao público: “Está havendo um momento em que não se quer reproduzir o que foi feito, e isso está bem presente nas intenções mesmo. Cada um tem o seu lance e é isso que faz ficar genuíno e cool de verdade, muito de verdade. Eu vejo muita sinceridade nesse momento e me parece que esse é o material principal para fazer música”, finaliza.
Quanto ao que vem pela frente em sua carreira, melhor não fazer muitos prognósticos. O autor dos versos “Mas agora eu sei / que o acaso é meu rei” segue sincero e se entrega ao grande mistério.
> Assista à entrevista exclusiva de Leo Cavalcanti ao SaraivaConteúdo
Motor propulsor do foguete, chuva que germina, ideólogo, avant la lettre, profeta. Nos depoimentos dos amigos de Jorge Mautner que estiveram no Circo Voador para homenageá-lo pelo seu aniversário de 70 anos, no último dia 17 de janeiro, é que comprovamos sua importância como agitador de mentes criativas. Não basta ter talento se não há um propósito e na peculiar coerência de seu discurso, repleto de citações a José Bonifácio, Walt Whitman e Benedito Valadares, Mautner serve de norte magnético, canalizando para objetivos civilizatórios a energia criativa dos tropicalistas, dos poetas marginais e das companhias de teatro da periferia.
“O Jorge tem sido fundamental, porque ele é um processador entusiasmado dessas coisas, dessas interpretações, leituras profundas sobre o significado da política, da arte, da filosofia, da literatura, da ciência”, diz Gilberto Gil. “E eu fiquei embevecido com essa inteligência”, avisa Jards Macalé. Uma força que alçou os amigos a um sucesso capaz de atrair multidões, gente que trabalha no dia seguinte e lotou o Circo Voador em plena segunda-feira. “A gente estimula isso, nosso objetivo é estimular estes novos degenerados, dessa geração de vocês”, completa Macalé.
Filho do Holocausto – esse o título de um de seus livros e também do documentário sobre sua vida, preparado pelo jornalista Pedro Bial e com previsão de lançamento para esse semestre –, Jorge Mautner nasceu no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1941, no seio de uma família judia austríaca refugiada no Brasil. Aprendeu música com o padrasto violinista e já em 62, publicou Deus da Chuva e da Morte, o primeiro livro. De 1963 até o dia do golpe de 64, Mautner manteve uma coluna diária no jornal Última Hora, o que o levou ao exílio em Londres, onde conheceu Caetano, Gil e companhia. Lá produziu o filme Demiurgo, no qual já resume o que hoje é conhecida como Teoria do Kaos. No primeiro disco gravado, Para iluminar a cidade, de 1972, aparecia o sucesso Maracatu atômico, composta com a inseparável parceria de Nelson Jacobina. A partir daí vieram os discos Bomba de Estrelas (de 1981 relançado pela Warner em 1995), Pedra bruta (1992), Revirão, produzido por Berna e Kassin (1997), sem falar na poesia e prosa em constate produção que garantiram o culto à sua personalidade solar e a reverência dos colegas.
A princípio podem parecer confusas aos não iniciados, mas aqueles que recebem de boa vontade as palavras de Mautner não podem deixar de notar sua lucidez, seja para pausar e lembrar que em meio à festa o Rio de Janeiro se encontrava atingido por uma tragédia – que vitimou um dos parceiros dele e Nelson Jacobina, o pianista Mario Jansen -, seja para explicar o que é a amálgama brasileira ou o Kaos com K.
O que significa esse dia, estes 70 anos para você? Acabamos de ver a passagem de som, teus amigos, a Orquestra Imperial, com quem já toca há bastante tempo...
Jorge Mautner. De um lado, é uma homenagem ao meu aniversário, né? Mas é a junção de vários estilos, várias épocas, idades, gerações, vários ritmos. Representa a amálgama que somos – eu sempre falo –, do José Bonifácio de Andrade, ele disse isso em 1823. E num momento em que o Brasil tem importância total para a sobrevivência da espécie. Aqui nós temos que civilizar o mundo para não ter ódio um dos outros, aqui árabes e judeus às vezes são sócios juntos. Mas não é só por isso, é pela extrema criatividade que esse Brasil é o mais original de todos, é um continente.
Meu coração está pulando, estou até contendo a emoção, porque emoção demais você embaralha... [risos] E é uma coisa muito impressionante ter esses amigos reunidos, essa garotada. E o que me dá mais felicidade é ver o Brasil avançando na democracia, nos direitos humanos e a liderança das mulheres, nossa presidente Dilma e a ministra da Cultura, artista também, Ana de Hollanda. Aqui não tem partido, só não pode ser nazista, tem reunião de todo tipo de ideologia. E ocorre numa época triste, por causa das enchentes. Tenho que falar disso, perdemos um amigo, meu e do Nelson Jacobina, com quem fizemos um disco, Mario Jansen, que faleceu. E todo mundo tem uma pessoa amiga, e mesmo que não tenha, se identifica. Mas temos a obrigação de fazer essa festa, porque esse é o Brasil, [é preciso] dar a volta por cima.
Uma coisa latente no depoimento dos seus amigos é a sua capacidade de irrigar, irradiar com suas ideias e pensamentos, que foi muito importante para eles lá no momento em que você se conheceram, no fim dos anos 1960, em Londres...
Mautner. Aí a informação é interatividade, essa palavra já existia. Então um influencia o outro. Eu sou filho do Holocausto. Nasci aqui um mês depois que meus pais chegaram, a família por parte de pai e mãe toda vitimada. A minha felicidade é total e esse meu modo de ficar fazendo a cabeça é porque sou ideólogo, acho que a arte tem que transformar a sociedade, só que não é uma visão dogmática. É uma visão aberta e a liberdade do indivíduo, de expressão são sagradas. Tudo isso é história e ela é sempre uma surpresa. Já dizia Benedito Valadares, “na prática, a teoria é outra”. Então temos que se amoldar à prática.
E acho que o Brasil está na frente, dando aulas ao mundo. E cito na música que fiz com Gilberto Gil, “Outros viram”, vários que prenunciaram este Brasil. Mas o principal, por ser o maior poeta ufanista dos Estados Unidos, Walt Whitman, depois de elogiar os Estados Unidos e sua democracia, disse: “No entanto, o vértice da suprema humanidade será o Brasil”. Ele já tinha sacado isso, ele e muitos outros, Stefan Zweig, Maiakovski, Kierkegaard. Muita gente, até os índios tupis guaranis, vieram aqui, 150 anos antes da chegada dos portugueses, à procura da terra sem males. Também eles. E nossos índios, nossos ancestrais são proto ou pré-civilização hindu. Proto ou pré de todo o taoísmo que vai surgir. E a famosa preguiça era já a visão que iria nascer do taoísmo, o wu wei, a ação da não ação.
E onde entra o Kaos?
Mautner. Olha, não é caos com “c”, mas Kaos com “k”. A realidade é o caos. O que a natureza? Laboratório de hecatombes, zoologia do triunfo do mais forte, uma visão social de repartir tudo, e isso é reinterpretado a todo instante. E o Kaos já é a tentativa de controle para que todo esse caos se dirija para o bem, para o engrandecimento humano, ainda mais hoje em dia, quando estamos no limiar do ser humano novo, sem doenças, através da ciência, da longevidade indefinida. Mas o mais importante é amor, por isso repito que São Paulo disse: “Mesmo quando não houver mais nem fé nem esperança, o amor continuará a resplandecer no Universo”.
A crônica, como o futebol, não foi criada no Brasil, mas é aqui que ela se desenvolveu melhor. Isso quem diz é o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, organizador, entre outras coisas, da criteriosa coletânea Boa Companhia – Crônicas (Companhia das Letras, 2005). Antonio Prata o cita e vai além com as analogias, comparando o gênero à modalidade futebol de salão, onde é preciso fazer dribles em um espaço curto e chutar reto no gol, quer dizer, ir direto ao ponto. Ele continua: “Os dois esportes se desenvolveram na várzea, o futebol na várzea dos rios e a crônica na várzea da literatura, que é nesse lugar meio obscuro entre o jornalismo e a literatura..."
Típica conversa de meio intelectual, meio de esquerda, estilo de ser personificado em Antonio Prata. Um dia estudante de cinema, filosofia e ciências sociais – sem nunca concluir nenhum dos cursos -, há dois meses o jovem escritor e roteirista lançou mais uma coletânea de crônicas, dessa vez selecionadas entre as publicadas desde 2004 no jornal Estado de S. Paulo. Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34, 2010) veio sacramentar o que todo mundo já desconfiava. Eis alguém apto a assumir a responsabilidade por algo que desde o século XIX descontrai a imprensa brasileira: o exercício de achar surpresa em coisas aparentemente singelas e óbvias do dia a dia.
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Sejam sobre tomates, meias, a barriga do Ronaldo, os comentários sobre o clima, a assinatura de um escrivão de cartório, ou, simplesmente, a própria morte - a maior obviedade de todas -, os textos de Antonio Prata chegam a lembrar a mesma espécie de feeling que encontramos em alguns mestres nessa arte sutil, como Rubem Braga, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo, Paulo Mendes Campos, Sergio Porto e... Mario Prata.
“Primeiro eu achava que meu pai era dono de uma fábrica de chocolates”, recorda Antonio, nascido em 1977, filho de Mario, esse sim completamente de esquerda, jovem escritor em época ideologicamente mais polarizada do que a atual. Ainda criança, Pratinha, como é chamado pelos amigos, ouvia os pais conversarem sobre uma certa Fábrica de Chocolates e ficava ressentido por Prata pai não lhe presentear com o cacau doce com a freqüência que julgava justa. Mal sabia ele que os adultos falavam de uma dentre as mais de uma dezena de peças escritas por Mario, logo uma cujo tema é a tortura. “Só mais tarde fui entender que ele era escritor. Via ele trabalhando, datilografando à máquina e tal”, conta Antonio. “Muita gente acha que a literatura é uma espécie de desvio. As pessoas perguntam ‘quando você decidiu ser escritor?’ quase como se eu tivesse que sair do armário, e na minha casa esse armário já estava aberto e todo mundo já estava dentro dele ali, ou fora dele, enfim”, arremata o assunto.
Foi aos dezenove anos que Antonio Prata encontrou numa livraria o escritor Fernando Bonassi – roterista de programas infantis cultuados da TV Cultura, como Castelo Rá-Tim-Bum e O Mundo da Lua, e autor de dezenas de livros – e disse que tinha uns textos prontos e coisa e tal. Bonassi estranhou logo o jovem ainda não ter publicado um livro – “manda pra uma editora, eles publicam qualquer merda que a gente mandar. Não vende nada, mas publicar é fácil”, aconselhou o mais velho e experiente. Do episódio Antonio extraiu a gana para iniciar a carreira com o bem recebido livro de contos Douglas e outras histórias (Azougue, 2001). Depois vieram As pernas da tia Corália (Objetiva, 2003) e O inferno atrás da pia (Objetiva, 2004).
Pão com queijo da maioria dos que desejam viver da escrita em terras tupiniquins, as crônicas começaram numa revista da MTV e logo surgiu o convite para escrever para a revista Capricho, onde permaneceu até 2008 e cativou toda uma geração de fãs adolescentes. As melhores crônicas desse período podem ser encontradas nas coletâneas sugestivamente entituladas Estive pensando... (Marco Zero, 2003) e Adulterado (Moderna, 2009).
Por sua vez, o título de
Meio intelectual, meio de esquerda
(Editora 34, 2010) é extraído da primeira frase do grande
hit
de Antonio Prata:
Bar ruim é lindo, bicho
, único texto no livro publicado primeiramente na internet, no site
Blônicas,
e logo espalhado como fogo em palha entre os que vestiram a carapuça. Trata-se de uma crônica que já passou ao imaginário coletivo, mas não se sabe se essa terá sido a motivação para que a recém-lança da coletânea tenha sido incluída entre os dez livros brasileiros fundamentais da década, na lista composta em dezembro pela revista
Bravo!
.
Prata demonstra lucidez em ser considerado “o melhor cronista de sua geração”: “Num país que tem uma classe média grande, a Espanha, Inglaterra ou Estados Unidos, um aut or vender 50 mil exemplares diz alguma coisa. No Brasil, como ninguém vende nada, quem vende a crítica não gosta, pinçar quem é bom, quem é importante, acaba na mão de jornalistas e de críticos que escolhem esse ou esse. Fica uma geléia ali e só daqui a u m tempo vamos saber quem é importante”, frisa ele.
Enquanto esse tempo não chega, Antonio Prata segue os trabalhos, seja adaptando um dos textos teatrais do pai – Purgatório (1984) – para o cinema, lapidando o primeiro ro mance, encomenda da coleção Amores Expressos da Companhia das Letras, ou prosseguindo com as crônicas, que a partir deste mês de janeiro passam a sair na Folha de São Paulo, no oportuno caderno Cotidiano, sempre às quartas-feiras.
Sem os trens de pouso, uma das “fortalezas voadoras” - o bombardeiro B17 - é obrigada a realizar um pouso forçado, de barriga, na base aérea norte americana de Chelveston, Inglaterra. Em prontidão, Robert Capa prepara sua Contax e, após o socorro ao resto da tripulação mutilada, captura o rosto em close do piloto que sai da aeronave, aparentemente ileso, a não ser por um ligeiro corte na testa. “Eram essas as fotos que você estava esperando, fotógrafo?”, condena o jovem oficial. Robert Capa, grande mito do fotojornalismo mundial, também teve que lidar com o dilema primordial do métier.
“A pior coisa é sentir que como fotógrafo eu me beneficio da tragédia alheia”, escreveu certa vez James Nachtwey, um dos correspondentes de guerra mais destacados da atualidade. Retratado no documentário War Photographer (2001), Nachtwey possui a personalidade amarga e séria facilmente atribuída a esses profissionais, testemunhas oculares das piores cenas de sofrimento humano. Já Capa, o homem, encontrava no humor a melhor forma de lidar com suas lembranças, transcritas por ele no texto memorial Ligeiramente fora de foco, relato sobre a experiência na II Guerra Mundial antes inédito no Brasil, recém-lançado pela editora Cosac Naify.
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Ao sair da Hungria aos 18 anos de idade, Capa acalentava o sonho romântico de ser escritor e repórter, o que de fato foi, antes de a fotografia entrar em sua vida. E ninguém melhor para nos revelar seu incrível carisma como contador de histórias nato do que seu irmão, Cornell Capa, autor do prefácio da nova edição de Ligeiramente fora de foco. Tanto que, recém-saído da guerra, Robert Capa levou seu charme aos bastidores de Hollywood e teve um caso com a grande estrela do cinema Ingrid Bergman, inspirando assim a trama do clássico filme Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Antes mesmo de estar perto de terminar a redação de suas memórias, o fotógrafo já as havia vendido a um editor nova-iorquino.
Lançado em julho de 1947, o livro recebeu excelentes resenhas e foi um sucesso entre os leitores, muito devido à irreverência do tom coloquial de Capa, em grande medida explicado pelo fato de boa parte do texto ter sido ditada. Isso nos permite perfeitamente imaginar estar ouvindo da boca do próprio autor, numa mesa de restaurante qualquer, o relato do que parece ser uma grande anedota, emoldurada por uma excitante história de amor. Ele “escrevera seu livro não para ser tomado como um documento histórico, mas sim para servir, com poucas alterações, de base para um roteiro de cinema interessante”, descreve Richard Whelan, autor da introdução da nova edição e amigo pessoal, editor e biógrafo de Capa.
Mas a auto-ironia expressa já no título – uma avaliação honesta de uma das fotos mais célebres de Capa, a dos paraquedistas americanos saltando sobre a Sicília na invasão aliada de 1943, para ele ligeiramente fora de foco – não é suficiente para nos fazer esquecer de que o assunto principal da narrativa é o maior conflito armado da História. Morto em 1954 ao pisar em uma mina terrestre na Indochina, Capa levou até o fim a máxima criada por ele mesmo e adotada por sucessivas gerações de fotojornalistas: “se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente”. Fosse na Inglaterra, no norte da África ou no sul da Itália, armado apenas com seu equipamento, sua preocupação constante foi sempre “chegar rapidamente ao cenário de guerra”, junto com o front, e por isso foi o único fotógrafo a por os pés na costa da França, dentre os quatro escolhidos para desembarcar na Normandia do dia D.
Como não poderia deixar de ser, Ligeiramente fora de foco é não só uma narrativa verbal, como também visual. Sincronizadas na cronologia da história estão um número farto de imagens editadas pelo própria Capa. Mas ao contrário da maioria das fotografias de guerra, o mestre do fotojornalismo transparece nos quadros não a crueza de corpos esfacelados e sim um grande otimismo diante das situações mais desesperadoras, seja no balde que serve de mesa para a sagrada hora do chá em um abrigo anti-bomba inglês ou no homem com uma pá e um balde diante das gigantescas ruínas do prédio central dos correios, em Nápoles. Um reforço do mesmo otimismo e presença de espírito com que Capa narra as situações mais absurdas de sua vida, a começar por ter conseguido se credenciar como correspondente de guerra no Exército dos Estados Unidos, mesmo sendo húngaro, nacionalidade inimiga dos aliados.
O apartamento em São Conrado, bairro de classe alta do Rio de Janeiro, não fica virado para o mar, mas de fundos, com vista privilegiada para a favela da Rocinha; solícito, Luiz Eduardo Soares atende em casa. Emendou uma entrevista atrás da outra. De uma sobre assuntos gerais, em especial o futebol, dada a um colega blogueiro da Polícia Federal, embarcou praticamente sem interrupção na conversa com o SaraivaConteúdo, dessa vez sobre a sua trajetória política e literária. Pioneiro no estudo das políticas de segurança pública no Brasil, o antropólogo escreveu seis livros, entre eles o best-seller Elite da Tropa (Nova Fronteira) e, o mais recente, Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira) - ambos como co-autor.
Desde 1974, a ocupação principal de Soares é a pesquisa e o ensino em ciências sociais. Lecionou antropologia na Unicamp no início dos anos 1980 e durante 15 anos foi professor de ciência política no respeitado Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Hoje coordena a especialização em segurança pública da Universidade Estácio de Sá e dá aulas na pós-graduação em direitos humanos e ciências sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mas na sala de estar forrada de livros, há quase nada de bibliografia teórica. A grande maioria dos títulos é de ficção, um vasto acervo de literatura nacional e estrangeira.
Uma das prateleiras, inclusive, é dedicada aos romances gráficos, as histórias contadas em quadrinhos. “O primeiro artigo que eu publiquei nos anos setenta foi sobre a linguagem em quadrinhos - na época isso estava ligado a poema-processo, aos concretos, havia um interesse na valorização de novas linguagens”, diz ele, que teve sua primeira formação na área de letras e prepara para o início de 2011 o próximo livro, uma não-ficção sobre a trajetória de um famoso traficante internacional de drogas. O respectivo graphic novel, desenhado pelo artista gráfico Marcus Wagner, sai no segundo semestre do ano que vem.
O segundo artigo publicado por Soares, ainda em 1974, foi sobre a criação de Asdrúbal trouxe o trombone, importante grupo de teatro de vanguarda do qual fez parte. Fica evidente assim um traço característico de sua competência como intelectual: ao mesmo tempo em que procura se envolver na linha de frente de um pensamento prático-político realmente efetivo, se empenha com a mesma desenvoltura no campo da cultura e da arte.
Já comprovada por crítica e público a capacidade dos discursos tanto do livro (Elite da Tropa) quanto do filme (Tropa de Elite) em despertar discussões para além do mero entretenimento, Soares nos expõe um projeto consciente de militância em um plano simbólico, de intenção artística e política. Desde o início ele se dispôs a construir uma tetralogia da violência urbana, dedicada a matizar os estereótipos dos diferentes personagens envolvidos nesse cenário. Através de testemunhos numa linguagem narrativa, a ideia é que um público vasto seja capaz de compreender e vivenciar uma empatia com os dramas humanos descritos ali.
“Veja que curioso, do ponto de vista de vários filósofos, psicólogos e estudiosos do fenômeno da ética, o que constitui a moralidade como campo é a capacidade de deslocamento imaginário para a posição do outro”, ensina Soares. Essa estratégia discursiva é o principal ponto de contato entre as obras audiovisual e escrita, já que em termos de conteúdo, apesar de o Capitão Nascimento (Wagner Moura) ilustrar a capa do livro, os dois trazem tramas independentes.
Elite da Tropa 2 (Nova Fronteira) tem como narrador um ex-delegado da Delegacia de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil, a Draco. Condenado por um acidente a permanecer em uma cadeira de rodas, ele encontra alívio para sua imobilização em escrever os casos de violência operados pela milícia no Rio de Janeiro. Engana-se quem se precipita em classificar o livro apenas como uma espécie pulp fiction de ação. Por meio até de uma perfil no Twitter, o narrador denuncia o lado podre das polícias.
Funcionando como um catalisador, Soares mobilizou uma série de personalidades um tanto diferentes em prol da realização de seu projeto estético-político. Começou em 2005 com Cabeça de Porco (Objetiva), escrito em co-autoria com MV Bill e Celso de Athayde, cujas visitas a comunidades pobres de diferentes metrópoles brasileiras, entrevistando jovens cooptados pela vida criminosa, resultaram também no chocante documentário Falcão – meninos do tráfico (disponível na íntegra no YouTube). Partiu então para explorar o ponto de vista do policial, lançando em 2006, ao lado dos policiais militares André Batista e Rodrigo Pimentel, o primeiro Elite da Tropa (Nova Fronteira). A seguir, explorou o universo do judiciário em Espírito Santo (Objetiva), escrito em parceria com o juiz e ex-secretário de segurança capixaba Rodney Rocha Miranda em 2009. E saiu agora a pouco o Elite da Tropa 2, em que retoma a perspectiva dos agentes de segurança em situações ficcionais largamente inspiradas em acontecimentos verdadeiros.
Quando um chamado ‘bonde’ de traficantes fortemente armados, que retornavam de uma festa no Vidigal para a Rocinha, acabou se confrontando com a polícia nas ruas de São Conrado em plena manhã de sábado de 21 de agosto deste ano, resultando na invasão do hotel Intercontinental, Luiz Eduardo Soares foi o homem que relatou o que acontecia, praticamente em frente ao condomínio onde mora, no calor da hora, ao vivo pela rádio CBN. O episódio serve para ilustrar a posição de referência do antropólogo quando se fala em violência urbana. Nos trechos da entrevista ao SaraivaConteúdo transcritos abaixo ele conta sobre o surgimento dos dois Elite da Tropa e nos dá uma aula sobre as verdadeiras intenções de sua obra literária.
Como você acabou se dedicando mais a literatura?
Luiz Eduardo Soares. Eu sou professor universitário há 35 anos na área de antropologia e ciência política. Mas eu me formei em literatura na graduação, então sempre mantive um interesse grande e uma proximidade com amigos dessa área, com a produção, e sempre acompanhei a crítica literária. Isso sempre esteve presente. Em 1996 eu escrevi um romance, chamado Experimento de Avelar (Relume Dumara). Depois, nos anos 2000, eu comecei a ter a oportunidade de experimentar a combinação da minha formação acadêmica com esse interesse por outras linguagens, e acho que isso que foi importante para mim. Eu me aproximei do tema segurança pública e violência nos anos oitenta, porque era já um tema muito importante no Rio e havia não muita gente envolvida nisso. Isso como pesquisador, estudioso, escrevendo sobre o assunto e etc., o que acabou me levando para o governo, primeiro como consultor, depois até assumindo responsabilidade de gestão. Um caminho mais ou menos natural.
Quando eu tive a oportunidade de mergulhar na prática da gestão e atuar por dentro dos bastidores, e como tive a vida inteira o olhar de pesquisador, de observador, assim como o interesse em escrever usando outras linguagens além da acadêmica, houve essa confluência. Eu tomei a minha experiência nos governos, assim como tomava antes as pesquisas, como base para a elaboração de trabalhos e aí começam esses textos que me aproximam de outras linguagens.
Como você conheceu os colaboradores de Elite da Tropa 2?
Soares. Os primeiros que eu conheci foramo Rodrigo Pimentel e o Cláudio Ferraz. Quando eu estava no governo em 1999, convidei o Cláudio para dirigir a reforma da perícia e nos tornamos ali amigos. O Pimentel se tornou um personagem público através do documentário Notícias de uma guerra particular (João Moreira Salles, 1999). Ele se destacava ali e o que ele disse deu nome ao filme e abriu perspectiva de um certo tipo de entendimento. Ele é um sujeito muito inteligente e muito corajoso. E depois que falou com o João, nunca parou de falar e colecionava punições. Ele não queria ir muito longe na carreira porque não estava disposto a negociar sua liberdade e não aceitava a censura. Por isso, volta e meia era preso. Quando fui para o governo em 1999 ele deu uma entrevista de página inteira ao Jornal do Brasil me criticando e criticando a política de segurança pública. Quando eu li, pensei “puxa, esse rapaz é sensacional”. Porque o problema não é concordar ou discordar. O problema é discutir com inteligência, mostrar interesse por aquilo e ser capaz de dialogar. Isso é extraordinário. Se todos os policiais fizessem esse esforço de reflexão e crítica, estaríamos num outro mundo. Isso á maravilhoso. Ele foi preso. Naquela mesma noite falei com o comandante geral da PM que eu queria que ele não só fosse libertado como viesse trabalhar comigo, eu ia convidá-lo. Entre a cela e coordenadoria, ele topou e nos tornamos amigos.
Como surgiu a ideia de escrever o Elite da Tropa?
Soares. Surgiu em 2002, no projeto da tetralogia. O primeiro seria fazer o mergulho com Celso [de Athayde] e [MV] Bill, o Cabeça de Porco (Nova Fronteira), e o segundo no universo da polícia, do BOPE e tal. Lançamos o Cabeça em 2005 e tive que começar logo o outro. Liguei para o Pimentel e falei “vamos fazer?”, e ele sugeriu o Batista também. Eu conhecia o Batista de fato desde 2002. Ele já era do BOPE e trabalhava na segurança pessoal do secretário [de segurança]. O encontrei várias vezes, uma pessoa simpática, tinha ótimas informações e tive uma boa impressão sobre ele. E o Pimentel falou “chama o Batista também, porque está querendo nos ajudar no filme que o Padilha está querendo fazer, não um documentário como pensou de início, mas uma ficção com base documental sobre a policia. O Padilha está chamando o Batista também porque ele tem uma história pessoal incrível”, e tal. Fomos almoçar com o Zé [Padilha] e ele já estava trabalhando na primeira versão do roteiro e já tinha o nome Tropa de Elite, aí eu falei do meu projeto e disse “bom, vamos fazer, as fontes podem ser as mesmas, isso pode ficar interessante e o nome vai ser Elite da Tropa, vamos citar, vamos fazer dessa maneira, mas com autonomia”. O projeto que eu apresentei à editora Objetiva em 2002 previa justamente isso, outro livro comigo e mais duas pessoas, envolvidas no universo em questão, como autores. Então nasceu assim, desse projeto de 2002 e dessa relação antiga com o Pimentel, como contei.
E como se deu esse processo de criação coletivo?
Soares. Em nenhum caso eu analisaria os outros dois, ou agiria como um intelectual que estuda o relato dos outros dois, não seria essa a relação. No Cabeça de Porco, por exemplo, cada um de nós assina seus próprios capítulos e eu não analiso nenhum deles, nós dialogamos, trocamos ideias mesmo, é um livro composto, um mosaico. No Elite da Tropa, a mesma coisa, eu escreveria todo o livro, mas faríamos esse mergulho numa perspectiva narrativa e as histórias viriam de nós três, de fato as nossas vivências. E ali é muito claro, as vivências, depoimentos, coleta de depoimentos dos dois [Batista e Pimentel] estão lá na primeira parte. A minha história, o meu depoimento ficcionalizado, está na segunda parte, mesmo que eu escrevesse todo o livro, porque ali a metodologia teve que ser diferente.
Então desde sempre a ideia foi fazer livros de ficção?
Soares. Não, nossa ideia era contar a verdade, a realidade daquilo que havíamos vivido, porque nós achávamos que a população de uma forma geral não tem a menor ideia do que acontece realmente. E nisso a arte cumpre papel crucial. Segundo o filósofo já falecido Richard Rorty, meu mestre no pós-doutorado que fiz nos Estados Unidos e dono da citação na epígrafe de Elite da Tropa 2, nós precisamos hoje não mais de tratados filosóficos, como no século XVIII, para demonstrar a superioridade da paz em relação à guerra. Nós precisamos de jornalismo, reportagem, etnografia, romance, literatura, cinema e documentário, precisamos, em suma, das narrativas. Porque é preciso relatar experiências de tal modo que a empatia possa ser vivenciada. Isso é muito mais forte do ponto de vista da efetividade do que o puro esforço reflexivo racional. Se você der a alguém um tratado filosófico kantiano mostrando a superioridade da paz perpétua, você pode eventualmente persuadir dois ou três. Da persuasão à emoção, que conduz à prática, há intervalos e brechas e hesitações, e dificilmente você irá além do universo dos filósofos, das pessoas capazes de decodificar aquela linguagem particular. Mas se você apresentar uma narrativa tendo um indivíduo como referência – seja lá qual for o tema, um tsunami, a peste bubônica, a pena de morte –, a capacidade que o texto terá de chegar à prática do outro, passando pela sua persuasão e suas emoções, conduzindo-o a uma nova ética, uma nova ação, serão muito maiores, as chances serão muito maiores de você ser muito mais efetivo.
Se você conta uma história de vida individual, gerando condições, pela narrativa, de trazer o leitor para as emoções vivenciadas pelo locutor, pelo narrador, pelo personagem, aí você abre uma outra ponte existencial, psicológica, simbólica extraordinariamente mais forte. Eu acredito nisso. Não falo isso para subestimar o trabalho acadêmico, que é insubstituível, evidentemente, mas para justificar a necessidade de uma abordagem que amplie, que crie, que trabalhe com outras linguagens e perspectivas.
Uma menina vestida com a camisola fina a imprimir na alma o "disco argêntio do plenilúnio observado da janela no oitão branco, batido do luar, da velha casa da fazenda". A imagem não é inventada por outro. Primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, foi com essas palavras que Rachel de Queiroz descreveu sua primeira "intoxicação poética", no discurso de posse da cadeira número cinco em 1977. Ainda em Quixadá (CE), onde passou a maior parte da juventude, a adolescente se afogava nos versos parnasianos do maranhense Raimundo Correia (um dos fundadores da ABL).
Nascida em 17 de novembro de 1910 numa família bastante apegada à leitura, sabemos agora, à beira do centenário de seu nascimento, que a Rachel de Queiroz imortalizada pela prosa dos romances e crônicas, na verdade começou sua produção literária em verso. Guardião de seu acervo, com mais de 5 mil itens, o Instituto Moreira Salles prepara a publicação de dez poemas inéditos da escritora, produzidos em meados de 1928, ainda antes da estréia de O quinze (1930), e agora reunidos no volume Mandacaru.
Já emancipada dos primeiros sonhos de menina, a segunda paixão poética da jovem Rachel, ela mesmo declarava, foi Manuel Bandeira, o que dá uma pista do que encontramos em Mandacaru. Os poemas não são avulsos, foram concebidos em conjunto, e “Rachel escreveu o prefácio endereçado aos modernistas do Sudeste”, explica Elvia Bezerra, responsável pelo análise dos versos. Na apresentação, a escritora cearense anunciava seu prodígio esforço literário como um “balbucio do Nordeste” em contribuição, mesmo que tardiamente, ao projeto de Brasil dos modernistas. Isto é, nada de arrebatamentos juvenis ou anseios de moça. “Apesar do ambiente simbolista que permeava o Ceará da época, ela já estava em busca de seu estilo enxuto natural e delineava ali os temas que viria a desenvolver em O quinze, como a seca e o êxodo”, continua Bezerra. Segundo a pesquisadora, reside aí o valor documental que por si só justifica a publicação da obra, renegada por Rachel de Queiroz até o fim.
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Mandacaru será lançado em 17 de novembro, na sede do Rio de Janeiro do IMS. O volume trará os fac-símiles dos poemas e também do primeiro texto publicado por Rachel de Queiroz na imprensa brasileira, no caso, no jornal O Ceará. No mesmo dia, às 16h, será exibido o filme O cangaceiro, de 1954, dirigido por Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz; às 19h, a ensaísta e professora Heloisa Buarque de Hollanda realizará uma conferência sobre a obra da autora; às 20h, será aberta a exposição Rachel de Queiroz centenária.
Apesar do alerta nas escolas desde cedo, corriqueiramente esquecemos que proveito se pode tirar do conhecimento da História. Em tempos de memória caduca e anacrônica, o historiador Peter Burke é voz ativa em nos chamar a atenção. “É freqüente encontrar em seus textos uma ponte entre nosso tumultuado presente e os modos e costumes do passado”, escreveu o sociólogo brasileiro José de Souza Martins na orelha de O historiador como colunista (Civilização Brasileira, 2009), último livro inédito de Burke a ser lançado no Brasil, composto pelos artigos quinzenais que o historiador publica no jornal Folha de S. Paulo há 12 anos.
Entre 1993 e 1994, Martins foi colega de Burke na University of Cambridge, onde o historiador inglês é professor emérito de história cultural. Peter Burke é hoje referência viva da Nova História, terceira fase da iconoclasta Escola de Annales. Sua linha de estudo privilegia a vida cotidiana e o percurso das ideias, as chamadas mentalidades, em detrimento à mera enumeração de acontecimentos político-militares. Credita-se a essa escola historiográfica, e a suas sumidades, como Fernand Braudel e Jacques Le Goff, o valor que hoje se reconhece nos objetos, na iconografia, no audiovisual e no relato oral como documentos tão importantes e reveladores do passado quanto os registros escritos.
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Casado com a brasileira Maria Lucia Pallares-Burke, também historiadora, Peter Burke possui um relação próxima com o Brasil desde 1986, quando foi convidado a dar aulas na Universidade de São Paulo. Prolífico escritor, é autor de 28 livros traduzidos em cerca de 30 línguas – alguns já bibliografia básica em cursos de graduação em História no país, como Uma história social da mídia (Jorga Zahar, 1994) e Cultura popular na idade moderna, recentemente republicado em edição de bolso pela Companhia das Letras. Ele esteve na última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 4 e 8 de agosto desse ano.
Junto com a esposa, Burke é responsável por divulgar a obra de Gilberto Freyre, homenageado da Flip desse ano, em meio ao mundo anglófono. Mas sua participação na Flip teve outra natureza. Ele integrou, ao lado de Robert Darnton, historiador do livro e diretor da biblioteca da Universidade de Harvard, a mesa sobre o assunto que mais agita o mercado editorial: o destino do livro na era digital. “As pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho”, diz Burke na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo que você confere abaixo.
No final de Fabricação do rei (Jorge Zahar, 2009. 2. ed.), você fala sobre quando os agentes publicitários começaram a desenvolver a imagem dos politícos, como Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Nos dias de hoje, na era digital, com a internet, e até no contexto brasileiro, com a Dilma pegando carona na imagem de Lula, como você vê esse processo de fabricação de políticos e líderes?
Peter Burke. Não tenho certeza se isso está mudando com a digitalização. Eu acho que a partir da era da câmera de televisão os políticos já estão em cena quase o tempo todo. Até quando eles pensam que estão fora do palco, estão encenando, porque tem havido esses famosos incidentes nos últimos dez anos em que gravadores estão ligados e [George W.] Bush, ou algum outro, pensa que estão desligados e começam a falar o que realmente pensam e é tudo captado. Bem, com e-mails é o mesmo problema. Você escreve e-mails achando que são confidenciais e no dia seguinte os vê publicados num jornal.
Já por muitos anos os políticos tiveram que conviver com essa ideia de que suas vidas privadas são públicas. Talvez as técnicas modernas estejam tornando ainda mais fácil invadir a vida privada do que antes, mas há uma longa tradição em invadir a privacidade.
O que me interessou no caso de Luiz XIV foi que algumas dessas coisas já existiam no lado da propaganda. Já havia um comitê oficialmente estabelecido para cuidar da imagem do rei nas diferentes mídias daquele tempo, como tapeçarias, moedas e medalhas, gravuras. Enfim, eles olhavam para isso tudo e decidiam, isso vai dar ao rei uma boa imagem ou não? Devemos permitir que isso aconteça ou não? Bom, por outro lado, há todo um underground de imagens do rei, das quais o rei não se importava, que ele não podia impedir, as quais circulavam privadamente. Então, tudo isso já estava em cena no século XVII.
Nessa época, essa fabricação da imagem se deu mais através da arte, certo? Através de esculturas, quadros etc.?
Burke. Ah, sim. Do lado oficial havia essas estátuas de Luis XIV erguidas em todas as cidades principais do reino. Em contrapartida, às vezes, à noite, pessoas escreviam grafites desrespeitosos nos pedestais e então, em Paris, foram colocadas barreiras ao redor [das estátuas]. Isso mostra que havia tanta gente querendo escrever coisas desrespeitosas que eles tiveram de cercar as estátuas.
Falando um pouco em relação ao conhecimento e às crianças que vão à escola hoje. Às vezes era necessário decorar muitas informações, mas agora se tem ferramentas como o Google, no qual se pode simplesmente buscar esses dados instantaneamente. Como você vê a educação combinando esses processos para as novas gerações?
Burke. Bom, como a maioria das mudanças, há um lado positivo e um lado negativo disso. O lado positivo é o que você mencionou. Não é preciso mais fazer a criança saber a data de batalhas de cor. Se por alguma razão for realmente necessário saber a data de uma batalha, eles clicam na Wikipédia, ou algo assim, e acham instantaneamente.
Mas eu ficaria bem desapontado se o ato de aprender coisas de cor desaparecesse por completo. Particularmente, a poesia. E isso ficou bem claro na Flip, porque lá estava Edson Nery da Fonseca que sabia de cor um poema de Gilberto Freire e sem nenhum pedaço de papel ele o recitou com grande paixão. Eu ainda posso recitar poemas de memória, não porque fui feito para aprendê-los, mas os li com tanta frequência para mim mesmo que acabei decorando-os. É um grande prazer poder recitar um poema e não precisar olhar em um livro ou na internet ou algo assim.
Tenho um pouco de medo pelas crianças de hoje, que nasceram em um mundo onde a internet já estava lá. Será que elas vão perder essa arte? Não há razão para que elas tenham que perder. Nós podemos dispor as escolas para que aprendam esse tipo de coisa. E, de fato, há mais tempo para isso, porque elas já não estão aprendendo mais as datas. Mas elas ainda tem que decorar a tabuada. [risos] Eu não acho que todas as vezes que você queira saber quanto é 14 vezes sete se tenha que ir ao Google para descobrir. Ainda há um papel para o bom aprendizado oral à moda antiga, mesmo que um espaço menor, agora, graças a esses novos meios de comunicação.
Sobre o copyright. Nós vimos uma grande mudança na indústria da música e a indústria do livro tem muito a aprender com o exemplo. Agora temos os e-books ganhando espaço. Diante das mudanças na indústria cultural e baseado na experiência da música, em que as grandes gravadoras perdem espaço e as pessoas estão parando de comprar CDs e DVDs, você acha que os livros também deixarão de ser vendidos? As pessoas poderão não comprar mais livros?
Burke. Isso é difícil de dizer. É mais fácil perceber o que tem acontecido com os jornais, pois está ocorrendo mais rápido e porque eu acho que ler um jornal on-line é uma atividade bem mais fácil do que ler um livro on-line. Porque nós já aprendemos a ler jornais pulando rapidamente de uma manchete para a outra, quer dizer, é o que eu chamaria escanear em vez de ler. E então isso quer dizer que as vendas de jornais em papel caem e, ainda pior, os anunciantes não se interessam mais em anunciar num jornal que não vende cópias o bastante. Mas algo interessante aconteceu na Inglaterra quando esse russo bilionário, [Alexander] Lebedev, comprou o jornal Evening Standard, que perdia dinheiro, e decidiu torná-lo gratuito. Assim que isso aconteceu, o número de leitores, é claro, subiu, o que significa que os anunciantes voltaram. Então agora ele lucra. Quer dizer, dar de graça traz lucro e vender traz prejuízo [risos].
Eu não acho que isso acontecerá, na mesma escala, com o livro. Suponho que haverá dois preços para os livros agora. O mais barato on-line, mas as pessoas que ainda querem tocar o papel e cheirar o livro, e daí em diante, terão que estar preparadas para pagar mais. Será um tipo de sistema de dois níveis para os livros eu acho.
E o quanto mais longo o livro, o menos confortável é, claro, lê-lo no Kindle ou algo assim. Eu estava falando ontem a noite: como você vai ler Guerra e paz [de Tolstói]? É não só um esforço para os olhos, é um esforço para os braços e eu não acho que a nova tecnologia é boa para livros longos. Assim eu temo que talvez no futuro as pessoas possam não escrever mais livros longos, que elas decidam escrever somente livros curtos, ou que tenham a diminuição do livro. Ok, eu não tenho nada contra o livro curto. Eu escrevo livros curtos, leio livros curtos. Mas eu ficaria muito triste se livros antigos fossem curtos e se as crianças de hoje fossem privadas de alguns livros longos do passado que são maravilhosos, como Tolstói. Mais uma vez, e isso é um lugar comum em história, há um lado bom e um lado ruim eu acho que em qualquer tipo de mudança que se possa imaginar. O que é bom para uns, é ruim para outros. O que é bom de alguma maneira, é ruim de outra. Nós temos apenas que conviver com isso.
Há algum livro que você tenha escrito e possa dizer que é seu preferido, ou isso é muito difícil?
Burke. Para mim é muito difícil. O que apanho no mundo externo é que as pessoas acham que meu melhor livro é Cultura popular na idade moderna (Companhia das Letras), que em alguns aspectos é bom, mas o escrevi quando tinha 39 anos e eu gostaria de pensar que melhorei desde então, mas ninguém concorda, talvez porque aquele foi o livro certo na hora certa sobre o assunto certo. Eu gosto de pensar agora que eu tenho explorado alguns tópicos que o público, até outros historiadores, ainda não apanharam. Eu estou esperando que o que escrevi sobre a história da linguagem será um tema de maior interesse em dez ou 15 anos do que é agora. Eu gostaria de pensar que isso é porque eu sou um pioneiro. Mas é claro que as pessoas podem ter opiniões bem erradas sobre si mesmas. Estou estudando Gilberto Freyre, alguém com todos esses talentos, mas nem sempre ele avaliou bem qual o seu pior ou melhor trabalho. Então, se ele não pode fazê-lo, eu certamente não posso.
Qual o tema que hoje em dia o fascina mais? O que tem te motivado?
Burke. O que estou escrevendo agora, e portanto tem puxado todo o resto para segundo plano, é o segundo volume da História do Conhecimento. Escrevi o primeiro que vai de Gutemberg a Diderot e agora eu achei um bom título para o período entre a Enciclopédia e a Wikipédia. Talvez eu não tivesse ousado fazer isso há dez anos. De qualquer forma, quando estava ensinando em tempo integral, era suposto ensinar os séculos XVI e XVII. Mas agora que me aposentei, não tenho período, posso escrever sobre absolutamente o que quiser. Eu comecei a pensar: como chegamos até onde estamos hoje desde os tempos de Diderot? Bem, a única maneira de descobrir é fazer a pesquisa, porque não há livro que conta essa história. Às vezes você quer ler um livro e esse livro não existe, então você acaba escrevendo o livro que gostaria de ler e esperava que alguém tivesse escrito. É bem excitante. Quer dizer, é perigoso para mim, porque eu nunca trabalhei nos séculos XIX e XX dessa maneira. Quando você vem trabalhando 14 anos em um período, começa a temer ficar banal e acabar repetindo a si mesmo. Bem, se eu não tiver nenhuma nova ideia, pelo menos vou escrever sobre um século totalmente novo e esperar que isso me renove.
O novo não me choca mais
Nada de novo sob o sol
O que existe é o mesmo ovo de sempre
Chocando o mesmo novo
Muito prazer
Prezadíssimos ouvintes
Pra chegar até aqui tive que ficar na fila
Agüentar tranco na esquina e por cima lotação
Noite e aqui tô eu novo de novo
Com vinte e quatro costelas
O jogo baixo, guitarras, violão e percussão e vozes
Ligadas numas tomadas elétricas e pulmão
[…]
Isso deu repercussão. Uma ampla cobertura na mídia tem dado destaque ao que alguns já consideram como o lançamento do ano: a Caixa Preta - toda a discografia de Itamar Assumpção reunida em uma única embalagem. Nada de novo sob o sol?, perguntariam os fãs do Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavel. Sim, coisa nova há. Além dos 10 discos deixados pelo artista, foram gravados mais dois só de inéditas, um pela Isca de Polícia, outro pela Orquídeas do Brasil, as duas bandas formadas pelo próprio Itamar e que o acompanharam ao longo da carreira.
Muitos gastaram tempo em rotular Itamar Assumpção como maldito da MPB. Totalmente à revelia, ele se manteve sempre ao largo das grandes gravadoras. Isso aconteceu muito menos pela falta de reconhecimento do que pela convicção em se manter entrincheirado na independência total. Uma atitude corajosa, “louvável, fundamental. A sua obra vem com este peso. A postura de uma vida inteira”, diz Anelis Assumpção, cantora e filha do compositor. Uma obra que, como escreveu Arrigo Barnabé, no songbook Pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (Ediouro, 2006), foi deixada como uma oferenda.
Itamar pensou nisso antes. Consciente de sua doença terminal, que o matou em 2003, concebeu, ele próprio, a Caixa Preta.
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Logo se deu conta de que, devido à reutilização do que na época ainda eram fitas magnéticas, muitas masters (gravação original, de melhor qualidade, base para os discos) acabaram perdidas. A solução encontrada por ele? Regravar, nota por nota, seus primeiros álbuns. Para isso, chegou a entrar em contato com a violoncelista Clara Bastos para que se encarregasse da transcrição em partituras. O absurdo, em princípio, seria reduzir a sonoridade marcada pelo improviso, e repleta de camadas sobrepostas, a uma notação musical. A tarefa foi concluída postumamente e chegou em dois volumes, num misto de songbook e biografia. Acompanharam as letras as linhas de baixo e as melodias em forma simplificada, sem os detalhes dos arranjos, sempre diferentes a cada apresentação de Itamar e companhia.
“Fui praticamente contratado para improvisar”, chega a confessar o guitarrista e jornalista Luiz Chagas, integrante da Isca de Polícia desde sua criação. “Nos primeiros discos o Itamar tinha tudo na cabeça, cada nota, cada silêncio. Depois ele nos deu mais liberdade e chegava só com a letra e a melodia prontas e nos deixava à vontade para criar os arranjos em conjunto”, esclarece.
Foram assim, a partir de gravações de letra e melodia, voz e violão, feitas por Itamar antes da morte, que se conceberam os discos de músicas inéditas. “A dificuldade foi caçar tudo o que ele tinha deixado registrado em alguns estúdios”, revela Anelis. “A facilidade é que esses estúdios são de pessoas próximas e amigas que se colocaram a disposição para que isso acontecesse”, diz ela, que junto com a irmã e também cantora, Serena, e a mãe, Elizena, se encarregaram de unir e pré-selecionar todo o material. O primeiro passo foi converter os diferentes formatos antigos, como DAT e cassete, em um único compatível. A etapa seguinte ficou a cargo de Beto Villares e Paulo Lepetit, que fecharam o repertório e produziram respectivamente Pretobrás II – Maldito Vírgula e Pretobrás III – Devia Ser Proibido, concluindo assim a trilogia deixada em aberto pelo compositor com o álbum Pretobrás (1998).
Shows
Itamar Assumpção gravou a maior parte do primeiro disco Beleléu, leuléu, eu (1980) sozinho, revezando-se entre baixo, percussão, guitarra e vocal. Ele escalou mais alguns parceiros para completar o som no estúdio, mas a reunião da banda Isca de Polícia se deu mesmo somente depois, em decorrência da necessidade de se apresentar em palco. De distribuição precária, a maneira privilegiada de se fruir um disco do Itamar foi através de seus shows, que exigiam grande cumplicidade da platéia em torno da teatralidade de Nego Dito, alter-ego criado por Itamar, centro gravitacional das letras das canções, compostas como uma peça acusatória do marginal que se defende em público.
Feito metade por músicas de diversos autores, metade por composições do próprio Itamar, o disco As próprias custas sA (1982), por exemplo, possui canções como “Amanticida” e “Denúncia dos Santos Silva Beleléu”, esse o nome da mulher do desgraçado Nego Dito. Apresentado como um programa radiofônico chamado “Mais lenha nesse inferno”, o disco foi gravado de uma só vez, ao vivo, na sala Guiomar Novaes, da Funarte, em São Paulo, no dia das primeiras eleições gerais após a ditadura militar (uma segunda-feira). Registrado na íntegra e armazenado no arquivo da Funarte, já se especula, segundo Luiz Chagas, um possível DVD da apresentação. “A ideia é sempre fazer mais”, diz o jornalista.
Tido como líder da famigerada Vanguarda Paulista, aquartelada no teatro Lira Paulistana, na Vila Madalena, Itamar foi o mais paulistano dos paranaenses. Nasceu próximo a Londrina, um pólo teatral brasileiro já nos anos 1960. Lá, ocorreu o episódio recontado inúmeras vezes por ele mesmo. Aos 23 anos Itamar foi preso enquanto esperava um ônibus, acusado injustamente de ter roubado o gravador emprestado que carregava. Passou cinco dias na cadeia apinhada de negros como ele. A experiência foi uma espécie de epifânia, que aliada ao envolvimento juvenil no teatro e ao ritmo do atabaque que tocava no terreiro onde seu pai foi pai-de-santo, marcaria suas composições, mesmo
que ele não assumisse assim. Quanto à abordagem de Itamar, Paulo Leminski escreveu no texto que acompanhava o disco
Intercontinetal! Quem diria! Era só o que faltava!
(Continental, 1998 - rara excessão a sair por uma gravadora):
Marginalidade de músico, sobretudo de músico de vanguarda, de uma vanguarda onde a extrema criatividade nunca esteve afastada da mais ampla e funda capacidade de comunicação, uma vanguarda popular
.
Com o lançamento da Caixa Preta – na verdade cor de abóbora, como nos aviões – ficou mais simples adquirir os cultuados álbuns de Itamar. Nem por isso a força teatral emanada pelas músicas deixam de receber o impulso das apresentações ao vivo. Durante o mês de outubro, numa seqüência de 12 shows, cada um dos albuns é apresentado na íntegra. Sobem ao palco do Sesc Pompéia para homenagear Itamar Assumpção além das filhas e da irmã, a atriz e cantora Denise Assumpção, artistas como Lenine, Bnegão, Elke Maravilha, Alzira Espíndola, Tetê Espíndola, Mariella Santiago, Chico César, Karina Buhr, Jards Macalé, Zezé Mota, Andréia Dias, Arnaldo Antunes, Kiko Danucci, Elza Soares, Zélia Duncan e Naná Vasconcelos, entre outros.
É impressionante o número de pessoas, gente da música ou não, mobilizados por Itamar Assumpção e seu “manancial criativo”, como diagnosticou Luiz Tatit, professor de lingüística da USP e guitarrista do Grupo Rumo, que analisou a obra do Itamar disco a disco. Em um mundo cada vez mais descentralizado, onde circuitos alternativos de troca de informação, como a internet, proporcionam que a música independente tome conta dos espaços e mude a indústria cultural em si, a obra de Itamar Assumpção parece atingir o auge de seu alcance e reconhecimento.
Sartoris, de William Faulkner, é lançado no Brasil
Uma dualidade interessante marca a obra de William Faulkner, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1950. Ao mesmo tempo em que é o autor norte americano com mais freqüência alçado ao nível de originalidade e universalidade de modernistas europeus como James Joyce e Thomas Mann, seus livros são o orgulho do patrimônio cultural do idiossincrático Mississipi, Estados Unidos. O escritor soube como ninguém filtrar a realidade social - em especial as tensões raciais suscitadas pela escravidão - de seu estado natal. E o fez através de um universo ficcional próprio, o condado de Yoknapatawpha, cenário de 14 dos 20 romances que escreveu.
“Me interessei por Faulkner pelo poder de sua linguagem, mais do que por ser mississipiano como eu”, diz o senhor Noel Polk, da Universidade Estadual do Mississipi. “Ele foi tudo, menos um sulista”, comenta. Atual portador do bastão de maior especialista dos estudos faulknerianos, o professor esteve no Brasil para debater o lançamento da primeira tradução brasileira de Sartoris (Cosac Naify), terceiro romance escrito por Faulkner, traduzido por Cláudio Marcondes. Enquanto é tido por historiadores como autor de uma representação precisa do sul dos EUA na primeira metade do século XX, “Faulkner expressa o indizível”, nos intriga o senhor Polk. “Ele lida com a maneira como a informação é revelada”, explica.
Uma pintura cubista é uma imagem recorrente para descrever a prosa de Faulkner, que não fazia concessões aos leitores e chegava a declarar, como na famosa entrevista disponível na Paris Review, estar muito ocupado escrevendo para se importar com o público. Feita de redundâncias, sua escrita sobrepõe pontos de vista de diferentes personagens, sujeitos a motivações diversas. “Faulkner entendia que a estória se realiza dentro das pessoas, através de memórias, e que contá-la é contá-la de uma posição específica”, diz Polk. Talvez por isso os acontecimentos repetidos, a pontuação incomum, as pequenas tragédias cotidianas - que quase sem querer expressam o peso da passagem do tempo sobre a vida dos presentes - e a própria temporalidade entrecortada de obras-primas como Absolom! Absolom! e O som e a fúria (Cosac Naify) tenham sido tão pouco compreendidas pelos editores do século passado.
Apesar do rigor fora do comum em avaliar o próprio trabalho – “não se incomode em ser melhor do que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor do que si mesmo” –, Faulkner nunca fez grande estardalhaço pelas modificações intrusivas que os editores faziam em seus livros. “Ele as aceitava. Primeiro por pretender extrair sustento de sua escrita, depois talvez por compreender ser natural ao mercado editorial querer vender versões mais consumíveis”, diz o professor Polk, homem responsável por restabelecer os textos originais dos 20 romances de Faulkner de acordo com os manuscritos deixados pelo autor. Foram cerca de 30 anos de exaustivo trabalho de “desedição” em prol de recuperar o poder inovador de sua prosa.
A mesma sensação de justiça ao autor pode ter agora o leitor brasileiro, a partir da iniciativa da Cosac Naify em reeditar a obra completa de Faulkner. O recém-lançado Sartoris (Cosac Naify) é emblemático nesse sentido e também considerado por Polk como uma boa porta de entrada aos leigos em Faulkner. Trata-se na verdade de uma fração de um livro mais longo, nunca publicado, Flags in the dust, recusado por uma dezena de publishers, até que um o aceitou sob a condição de redução no tamanho. Originalmente composto pela trajetória de duas famílias, a solução encontrada foi a exclusão de uma delas, os Benbows, ficando apenas os Sartoris.
Lançado pela primeira vez em 1929, o mais realista e menos experimental dos livros de Faulkner - de acordo com Polk - conta a história dessa emblemática família do Mississipi que, após viver a glória no sistema escravocrata, enfrenta as transformações das primeiras décadas do século XX. Uma sucessão de perdas resume a família Sartoris a um pequeno núcleo: tia Jenny, o avô Bayard Velho e o neto Bayard Novo. Todos vivem sob o estigma de dois fantasmas do passado: o Coronel Sartoris, pai de Bayard Velho, e John, irmão gêmeo de Bayard. Em Sartoris é a primeira vez que Faulkner apresenta ao leitor o condado de Yoknapatawpha, um mundo considerado por ele próprio como “apócrifo”, fruto de sua imaginação, mas ao mesmo tempo portador de existência própria. Sartoris (Cosac Naify) é assim considerado um livro chave, de transição na obra do autor.
Faulkner no Brasil
Homem de intelectualidade generosa, Faulkner esteve rapidamente no Brasil em 1954. Veio incumbido pelo departamento de relações exteriores dos EUA da missão de arrefecer ânimos e praticar a política da boa vizinhança. A classe letrada brasileira andava revoltada com episódios como o veto ao visto norte-americano de Erico Verissimo. Passando por um período de profunda depressão e alcoolismo, Faulkner pouco esforço fez para comparecer ao lendário I Congresso Internacional de Escritores – no qual também estava escalado o poeta americano Robert Frost, além de autores de outras nacionalidades, como Miguel Torga. A única atividade a qual Faulkner fez questão de participar foi uma conversa com cerca de cem novos escritores brasileiros. As circunstâncias da visita foram ficcionadas por Antônio Dutra no premiado livro Dias de Faulkner (Imprensa Oficial).