you can't play on broken strings ; barlow siblings
Pela primeira vez na vida de Stephen, era como se o escudo não fosse mais capaz de cumprir sua função defensiva. Como se, no lugar de livrá-lo de dores inoportunas e invasões desrespeitosas, sua mutação agora fizesse o contrário e lhe colocasse em uma espiral constante e dolorosa de martírios diários. E por mais peculiar que a nova condição fosse, por mais irracional soasse diante das aplicações de seus poderes, Barlow sabia: Era apenas uma reação desencadeada por todos os eventos daquele maldito baile.
Os dias haviam se passado desde o desastre em cadeia daquela noite, sucedido não somente pelo soco no âmago do irlandês em ter sido enganado em seu próprio jogo, e em um evento magnífico que havia auxiliado a produzir, mas pelo massacre que tomara espaço após o discurso corrompido de Shawn Jackson. O nome percorria a mente de Barlow como um pensamento doentio e recorrente, reduzindo sua costumeira calmaria a um descontrole de emoções, e fazendo-o reviver não somente a frustração suprema de ter falhado consigo naquela data, mas de ter envolvido mais pessoas naquilo. Thrisha, e até mesmo Marlie. Rostos desconhecidos e protegidos pelas máscaras… O sujeito que havia espancado no chão manchado pelo sangue sujo e vermelho. Flashbacks da cena assombravam a cabeça do homem, deixando-o enjoado e cansado. Exausto de relembrar, reviver. Reconhecer o quanto havia perdido a única coisa que prezava acerca de si mesmo, e o quanto temia não ser mais capaz de recobrar aquele controle de suas ações mais uma vez.
No meio de todo aquele redemoinho insalubre de memórias, havia um segundo motivo para sua ira: A facção que organizara o ataque. Barlow não precisava de fatos, sequer havia saído atrás de uma investigação silenciosa quando voltara para a casa, horas após falhar com todos na festa e com sua amiga ruiva. Ele sabia que eles estavam envolvidos, que aquele pensamento retrógrado e doentio havia permitido o ataque, e por mais que evitasse fazer aquela conexão, por mais que a simples menção da ideia lhe deixasse a ponto de vomitar, era impossível conter, sem a ajuda de seu escudo natural, a lembrança de que Evie estava no meio. Junto daquele covil de aberrações, unidos por um único ideal obtuso e grotesco. Que ela também, muito possivelmente, havia estado naquele baile.
A hipótese era suficiente para colocar a mente do irlandês em chamas novamente. Era incapaz de dormir, remoendo os eventos e suas suposições insanas, alimentando um ódio que havia enterrado há anos, e agora vinha à tona com mais força do que sua atual condição, atribulada e não mais imune, era capaz de aturar. Fora do apartamento e da presença de mais pessoas, Barlow vestia a máscara sociável, encarando seus hematomas como marcas de uma sobrevivência presente no discurso que distribuía, tentando confortar membros de sua facção, agora que encontravam-se à deriva de si mesmos, contudo, já sem seu escudo presente como fora em outros episódios de sua vida, arriscar-se fora de casa era algo que Stephen fazia cada vez menos. E assim, mais uma vez enfurnado no silêncio de seu apartamento, sem a presença da morena que agora vivia com ele ou de qualquer outra pessoa além de sua mente inquieta, o rapaz tentava se reconstruir.
Um pedaço de pano envolvendo uma dezena de cubos de gelo era pressionado contra sua têmpora direita, tentando conter a dor iminente que parecia vazar dali em constantes batidas contra seu crânio. Na pia onde se encontrava encostado, jazia uma cartela limpa de remédios; configurando mais um apelo desesperado contra o pesadelo daqueles estouros mentais, incapazes de se calarem desde a noite no baile. Barlow sabia que remédios enfraqueciam sua condição, que a aspirina era só mais uma arma contra sua própria defesa, mas estava tão cansado, tão exausto de falhar que sequer avaliava as ações que tomava. E para alguém que outrora na vida havia sido tão meticuloso e desconfiado em cada gesto e decisão, abster-se de tudo aquilo era apenas o último dos mais concretos sinais de sua desconstituição.
As pálpebras fechadas conferiam um certo refúgio para o moreno, e longos minutos depois de ter criado raízes diante da pia, aguardando o efeito daquele remédio, foi que finalmente despertou-se para o ambiente ao redor, e ouviu aquele ínfimo som. Prolongado, repetido em um único eco. Levou alguns segundos para entender que não era outra manifestação contrária de seu bloqueio psíquico, mas, sim, o som da campainha.
Stephen moveu-se quase que imediatamente, se arrependendo no instante seguinte em que a dor lancinante lhe acometeu outra vez. Havia sido um erro forçar seu escudo daquele modo, visto que agora era incapaz de reconstituí-lo integralmente tão depressa; assim, arriscando uma exposição direta, o irlandês escolheu caminhar até a porta. Uma das mãos ainda mantinha a compressa fria em suas têmporas, contudo, mesmo quando abriu aquela porta sem esperar nenhuma figura importante por detrás, a temperatura negativa daqueles cubos de nada poderia se equiparar a sensação gélida que percorreu o corpo do rapaz. Tão depressa quanto as palavras escaparam de seus lábios incrédulos, quase rudes em excesso, diante da presença de Southfall. “What the hell are you doing here?”