Me desfaço de tudo que eu escrevi, do puro ressentimento, abdico de ações desastradas que já te custaram tanto a paz. Numa praia lotada eu volto desesperadamente a te procurar entre rostos vazios, em um amontoado de gente que é apenas figuração em mais um sonho meu. Que mundo é este que estamos, eu te pergunto?! Revela-te. Espera um pouco, eu te imploro. Senta ai e se permite viajar comigo somente por ínfimos minutos. Que memórias estão vivas por aí?
— Fecha os olhos, escuta a música
Deixa que o relampejar daquelas imagens de ontem te tomem, no mínimo te façam recordar do sentimento bom de estar ali. Do que te fazia voltar, daquilo que te fazia acreditar que era válido pegar a estrada. Respira fundo, olhos de metralhadora!
Volte a conversa na praça, para a barraca, dance nos fundos de sua casa... Ajude a pegar a lenha pro luau, tome minha regata. Não esquece de trazer os livros, precisas vir pegar teus sapatos, afinal. Já é tarde, eles estão nos esperando. Não há problemas, podes dormir aqui! Pega essa toalha e vá tirar a graxa do corpo. Não, não chores... trouxe esses dois presentes. Amarelo. Olhe para esse box, parece que está derretendo! Eu, a Gretchen? Seu umbigo! Preparei pastel, e também tenho... CATUABA. Cerveja na praça? Dedos entrelaçados no cinema. Não faz essa besteira, volta e faz do jeito certo. Vamos ali, na frente do espelho. Pega um Uber. Vâmo acordá, Arroio do Silva! Traga o cigarro. Te apresento Holden Caulfield. Queres mesmo desenhar? O filme na sala. Dois. Olha o Johnny Deep jovem... cry baby. Que horário é teu voo? Debaixo da figueira, no colchão de massagem, caminhando lado a lado pela rua. Presos no banheiro. Calma! Se eu quero ir lá fora com você? Seu Gosto. A festa de aniversário. Um círculo ao entorno do sol... da lua! No banco do instituto, na beira rio.Toma um chá. Uma cueca? Caçando cogumelos embaixo do sol. A reconciliação, os desentendimentos. Uma foto? Vídeos. Não, a gente nunca fez isso. Textos e mais textos. Sozinho.
É sempre momento de ressignificar o que foi, e eu apenas gostaria de não deixar que tudo isso se perca. Eu sei de tudo, a gente sempre faz o nosso melhor. Com este sentimento eu desato os nós, liberto as mágoas que se acumulam neste engolir profundo na garganta. Repara como a gente parece brigar consigo mesmo quando recorda. Parecemos lutar contra nós mesmos para que prevaleça aquela versão que a gente escolheu, a historinha que contamos a nós mesmos sobre um ontem tão distante. Não é louco? A realidade, no entanto, é que nos apegamos a poeira. Rastros imprecisos, nada confiáveis, apenas marcas antigas de um eu que já não mais existe. As imagens voltam, foram significativamente carregadas de emoção naquele momento, e agora parecem ganhar novas cores com o outro que já és. Mas e as coisas esquecidas? Tudo aquilo que não surge assim tão fácil... Pode ser que ainda estejam em algum lugar, que despertem com o gosto do cogumelo, ou no cheiro do macarrão ficando pronto. Outras já foram de vez. Ou talvez estejam gravadas numa memória estrangeira, no outro que estava ali do lado e que num gesto tão banal, como o de ensinar o outro a tragar um cigarro, foi capaz de fixar algo que jamais nos será revelado. Percebes? Não lidamos apenas com pessoas, mas também com capacidades distintas de serem impactadas, versões em constante aprimoramento de algo que sempre nos será um mistério. Esse que, como na canção, sempre há de pintar por aí. Mas será que nos permitimos a ele? Como explicá-lo?
Mistério. substantivo masculino: “algo que é incompreensível, que não se consegue explicar ou desvendar; enigma”.
Sigo tateando um mistério, isso tudo que segue impregnado como um cheiro que não sai. Mas não te preocupes, tudo é menos estranho do que parece. Pratico um revisitar de coisas que já são peças de museu, apenas para que não se perca o valor do que é especial. Foi, e não por isso se revela como menor. É, pois é parte significativa do que sou depois de tudo. Será, pois o que é gigante não se apaga. Mas poderia de ser muito mais leve, muito menos carregado desse sentimento que está tão distante do ocorrido. Sim, pois não pense que em consequência de tudo que acabou sendo aquilo deixou de ser menos especial. Apenas falhei no meu melhor naquele instante. Falhamos. E é neste reconhecimento de que fizemos o melhor que estava em nosso alcance, que promovo uma anistia. Perdoo as tempestades, abro mão de qualquer busca que não seja a de resgatar essa amizade capaz de brotar de cada história romântica. Não é mais tempo de guerra, de fuçar num passado dolorido por ter prazer em ser o que era. Nem é mais necessário ter esperanças do impossível. É hora apenas de ressignificar a beleza em meio a sujeira, de brotar como uma flor de lótus pro amanhã. Assim me desculpo, ao mesmo tempo que me desfaço do peso de erros que não são mais meus nem seus. Foram do ontem. Te escrevo aqui porque este é nosso lugar, eu já não consigo chegar tão perto. Queria te dirigir uma carta, mas já não saberia teu endereço. Em que número se esconde tua altiva residência? Deixa pra lá. Quando for a hora me passe as coordenadas, para que eu finalmente possa enviar uma carta registrada.
Tão natural o movimento
De se apegar à própria invenção
Já que chorou e sofreu muito
Arquitetando essa ilusão
Mas será mesmo isso preciso
Ou só um peso que te faz sofrer
Pense bem
O que você criou é o que você vai ter