AMOR NÃO É INCONDICIONAL
Não quero amor incondicional, tampouco, devoto.
Amores incondicionais podem ser omissos ou mesmo provocadores de violências.
Quero amor que me faça crescer e melhorar humanamente. Por isso, não quero amores que simplesmente aceitem meus defeitos, sem os problematizar para o meu amadurecimento.
Quero poder ter colo seguro, mas, sem escamotear ou mesmo amenizar meus erros. Quando há uma omissão diante de um erro, alguém se anulou no processo. Toda relação precisa ter, ao menos, dois sujeitos ativos e com voz. “Paz sem voz, não é paz, é medo”.
Quero amor que me provoque admiração, que me ensine. Mais que isso, que consigamos mutuamente entender a beleza de sermos eternas(os) aprendizes. Uma boa mãe, por exemplo, não é a que faz tudo por um filho(a), deixando de existir como mulher, como profissional. A superproteção não nos ajuda a entender o quão difícil é a vida e nos dificulta no exercício da autonomia e da independência. Da mesma forma o controle, muitas vezes, difundido como “cuidado”.
Não amo incondicionalmente. Quero amar quem me faz bem. Não podemos alimentar um amor que violente, por exemplo, nem mesmo diante de amores considerados naturais e incontestáveis, como em relação ao pai ou mesmo à mãe. Nesse sentido, para amar verdadeiramente outra pessoa, primeiro é preciso amar a si e saber reconhecer quem te ama verdadeiramente que, certamente, não pode ser quem te oprime. Aqui, é importante desideologizar a família que, por vezes, esconde violências bárbaras, especialmente, contra crianças, mulheres, idosos(as) e LBGTs. Da mesma forma que o amor, a família deve ser uma escolha construída com base nos afetos e não uma obrigação ou uma contingência biológica.
Amor é condicional. A condição é a existência da felicidade e da liberdade mútuas, regadas com companheirismo, cumplicidade, confiança e verdade. Essa condição é radicalmente contrária à devoção mediada pelo sentimento de propriedade privada que, sob a ameaça da perda, transforma a devoção em vitimização de si, ameaças e culpabilizações dos outros(as), quando não, ódio. Diante da perda, a devoção explicita o que guarda: o sentimento de posse. Posse não é amor! Devoção não é amor!
Amores devotos sufocam, culpam e cobram quando não são correspondidos. São capazes até de escândalos públicos e chantagens emocionais. Afinal, abrir mão da sua vida em nome do outro(as), tem preço alto. Não quero cobrar e nem pagar o preço da devoção. Quero o direito de amar em liberdade, sem preço, sem cobrança. Quero poder aprender e ensinar com os amores da minha vida, a ser gente humana, sem medo, receio ou opressão. Quero a liberdade como condição do amor e o amor como condição de liberdade.
Mirla Cisne
Mossoró, 29/05/2016