#09 Waves in the Distance
A primeira coisa que ela sente assim que desce do ônibus, é o calor abafado com cheiro de maresia. E instantaneamente, aquilo a deixa alegre. Está vários graus mais quente do que estava em sua cidade natal, mas naquela única circunstância, o clima não a incomoda. Ela ajeita a alça da mala no ombro, segura o travesseiro sob o braço oposto, e agradece ao motorista no ônibus antes que as portas de fechem atrás dela.
Um sorriso brinca em seus lábios enquanto ela olha em volta. A curva da estrada de asfalto mais à frente, a pizzaria com o enorme farol branco no alto de uma subida, a pequena construção com telhado de palha e uma pá de moinho, que ela sempre chamara de “a casa dos três porquinhos”, mesmo depois que tinha idade suficiente para saber que era uma empresa de passeios marítimos. As árvores ao redor dela, os pássaros no céu azul, a estrada de terra que seguia cruzando a estrada.
Ela sentiu o coração se tornar cada vez mais leve, a cada passo que dava pela ruazinha de terra cor de laranja. As lojas eram as mesmas das quais ela se lembrava, as casas as mesmas de sempre. Uma parede repintada, um portão trocado, mas nada muito diferente. O restaurante japonês que mais se parecia um bar ainda estava aberto. Havia um novo sushi-bar do outro lado da rua. A concorrência devia estar sendo difícil, ela pensou, enquanto trocava a grande mala de ombro.
Não demorou muito para chegar ao condomínio. As casinhas todas construídas da mesma forma, com a grande porta de garagem embaixo, a sacada da sala no andar de cima, tudo de madeira escura, as paredes pintadas de branco e azul. A última porta antes de muro de tijolos vazados tinha uma pequena placa com uma frase em alemão, e foi para ela que a menina se dirigiu. Tirou do bolso da mala a chave antiga e pesada, o chaveiro bege com o antigo logotipo da ótica do avô, e abriu a porta pequena, parte da porta grande da garagem. Só pela graça, ela puxou o fio pendurado para o lado de fora do batente, que fez tocar o sino de latão. O barulho ecoou pela grande e escura casa vazia. Em sua cabeça, ela ouviu a voz da avó dizendo “Ó de casa”, e assoviando, o assovio longo e depois curto, que todos os seus tios aprenderam a imitar, quando chegavam na casa uns dos outros.
A garagem fresca, empoieirada, cheia de objetos de pesca, armários de ferro como de uma academia, o barco inflável pendurado no teto, e o bug vermelho eternamente estacionado no meio do espaço, eram quase como uma comitiva de boas vindas. Ela olhou calmamente para tudo isso, reconhecendo e absorvendo a familiaridade daquela casa, antes de abrir a portinhola e subir as escadas de madeira até o andar intermediário, onde havia uma única porta, antes da escada fazer uma curva e continuar a subir. Ela entrou pela porta aberta, e jogou a mala e o travesseiro no chão de piso vermelho, antes de abrir a janela. Puxou as cortinas brancas e verdes de gaivotas, e abriu a velha janela de madeira, deixando a luz do sol vespertino entrar. Lá embaixo, o gramado verde olhava de volta para ela, as outras casas todas com os fundos virados para o gramado, seguindo a mesma disposição da dela, formando aquele espaço interno do condomínio. Ela olhou para todos os detalhes, do piso claro do caminho perto das portas, até a ducha coletiva do outro lado do gramado, para se certificar que tudo continuava do jeito que ela se lembrava. Dentro do quarto, as duas beliches grandes, mais altas do que beliches eram hoje em dia, estavam cobertas pelas colchas listradas. Sabendo que ainda estava cedo para ser hora de insetos, ela decidiu deixar as janelas abertas por enquanto, e voltou a subir as escadas, até atingir a sala de estar.
A primeira coisa que ela fez foi puxar a grossa cortina verde da varanda, revelando as enormes portas de vidro. Experiente, ela puxou o trinco pesado do chão, e destravou o pino da viga do meio da porta, e puxou a porta da esquerda, escancarando-a. O vento entrou, suave, no aposento, e a varanda de madeira a convidou-a a sair e olhar a vista das outras casas, o estacionamento de barcos e a serra ao longe. Os varais continuavam ali, contornando a varanda por dentro, e não havia sinal de casa de marimbondos no teto. Bom sinal, ela sorriu para si mesma.
De volta dentro da casa, ela tirou os grandes plásticos que recobriam o sofá azul, o sofá cama, e a mesa alta que separava a sala da cozinha estilo americana. A velha televisão, que ainda não era nem de controle remoto, estava no suporte perto da rede de pesca cheia de conchas e medalhas do avô na parede, o que a fez lembrar do relógio. No alto do lance seguinte de escadas, o lance que levada ao quarto dos avós, e a grande geladeira vermelha, havia o relógio de timão, com a foto do avô pilotando um barco. Ela cumprimentou a foto do avô, e acertou o relógio, que nunca ficava certo por muito tempo. Pelo menos marcaria a hora que ela chegara ali.
De volta à sala, ela olhou as outras fotos da família na estante, e se dirigiu ao passarinho de madeira, que ficava pendurado nas vigas do teto, pendendo em cima da mesa. Suas asas articuladas batiam para cima e para baixo, quando se puxava a cordinha com um anel de ferro, que caía de seu corpinho amadeirado. “Voa, passarinho.”, ela disse como uma saudação, enquanto puxava a corda. Enquanto ele voava, ela bateu no sino de vento dourado, que era irmão gêmeo do sino de vento da cozinha de seus avós, na cidade. Aquele, continha uma mensagem romântica de seu avô escrita à mão, e uma história de amor no panfletinho que vinha de fábrica. O passarinho e o sino de vento, eram com quem ela conversava, quando queria falar com alguém ali. O velho telefone de disco ainda funcionava, mas ela o usaria apenas uma vez por dia, para dizer boa noite para sua mãe.
Seus olhos rodearam o resto do ambiente, procurando ainda mais uma coisa. Ele estava ali, na pesada cadeira de vime, descansando como sempre. A almofada do bambi. Ela não se conteve, pegou a almofada já sem muito recheio, e a abraçou, rodando pela sala antes de cair no sofá. O cheio de maresia, casa fechada e poeira não a incomodou, pelo contrário. Estava como sempre esteve, em sua memória.
Ela foi rapidamente até o banheiro trocar de roupa. Estava ansiosa. O espelho de parede inteira refletia seu rosto cansado pelas quase quatro horas de viagem, mas ela não se importou. Trocou a calça e a camiseta pelo biquini, e deixou os pés descalços, como ela tanto gostava. Na porta do banheiro, pelo lado de dentro, ela leu pela enésima vez o poster emoldurado que continha irônicas instruções de como utilizar um vaso sanitário, em inglês.
O sol já estava para se pôr, mas mesmo assim ela passou protetor solar no rosto e no colo, antes de pegar a canga de praia, e a sacola de pano, onde colocou o celular, um pouco de dinheiro e o colírio, para o caso da água salgada irritar suas lentes de contato. Apanhou a chave na mureta da escada, antes de descer os dois lances de degraus, e fechou a porta de madeira da garagem atrás de si.
Sem se preocupar com nada, deixou que seus pés tomassem o caminho tão conhecido pelas ruas ora de terra, ora de paralelepípedos, algumas poucas vezes de asfalto ou pedrinhas, as solas descalças já habituadas ao calor e às pinicadas das arestas de pedras que ela não conseguia evitar pisar.
A liberdade de andar por um lugar que lhe era tão familiar, lhe preencheu totalmente. Mais do que nenhum lugar do mundo, ali ela se sentia livre, se sentia ela mesma. Mais tarde, na volta, ela passaria no supermercado e compraria groselha, lasanha congelada e alguma coisa para o café da manhã do dia seguinte, para comer enquanto assistisse todas as novelas do canal aberto, e lesse um dos dois ou três livros que ela levara, até pegar no sono.
Quanto mais próxima ela estava, mais ela podia sentia a expectativa. Fez o caminho mais tradicional, o de quando ela era criança, porque aquele sempre tinha que ser o primeiro. O caminho antes deles descobrirem outros caminhos. Antes que se habituassem que não importava em qual esquina virassem ou seguissem em frente, eles acabariam mais ou menos sempre onde pretendiam.
A útima rua assomava à sua frente. Ela passou pela última esquina em que podia virar, mas seguiu em frente. Passou pelo estacionamento sempre vazio, pelas casas de quintais grandes, até que chegou ao hotel ao lado do restaurante. Ali, ela se preparou para o que vinha. Inspirou profundamente, sem parar de andar. Não conseguiu conter a risada, quando sentiu o cheio leve de água do mar. Mais alguns passos, e ela pôde ouvir. Ouvia as ondas quebrando alegremente na areia, a poucos metros de onde ela estava. Ela já podia ver, em sua mente. Só mais alguns passos. Sabia que ele a aguardava, enorme e em constante movimento. Uma onda após a outra. Já podia sentir a areia entre seus dedos, a água em seus pés descansos. Sabia o que a aguardava. E era feliz por estar ali. Entre aquelas três praias separadas apenas por alguns metros de pedra, ela estava em casa. A praia de sua infância. A praia que sempre fora dela. Que sempre estaria ali para ela. Do mesmo jeito, sempre ali. Naquele lugar, mais do que em qualquer outro, ela estava em casa. Total e completamente, em casa.