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erindavinci:
Erin ainda não fazia ideia do que estava acontecendo, do porquê tinha correspondido aquele beijo e, principalmente, porque Matt a beijara. Ela nunca tinha dado algum sinal de que queria aquilo, e nem ele… Pelo menos, não que tivesse percebido. A agitação ainda tomava conta de seu peito, que batia ansioso, mas aquecido. Quando as mãos fortes seguraram seu rosto, se deu conta de que não sabia o que fazer além de corresponder o beijo: oscilava entre tocar os cabelos de Matt, sua nuca ou ombros, obviamente confusa sobre o que fazer em relação a tudo aquilo. Todas as suas certezas tinham sido quebradas e, agora, Gallagher não via nenhuma opção além de tentar experimentar aquela sensação boa só um pouco mais. Mesmo que fosse Matt, mesmo que fosse seu melhor amigo, mesmo que tivessem brigado há segundos atrás; ela só percebera o quanto o queria ao seu lado naquele instante.
Seus joelhos doíam, mas não podia se importar menos com a posição desconfortável, tudo que importava ou já importou estava logo a sua frente. Estar com ela era como estar junto de todas as coisas que um dia amara. Sentia o gosto do algodão doce em seus lábios e a sensação reconfortante das palmas do circo. O quente da fogueira aos domingos e do sol de manhãs serenas. Encontrava nela tudo que amava exatamente porque era ela a quem amava, com tudo reunido em um único ser. A inclinou levemente para trás apenas para esticar suas costas, precisava de ar, mas não ousaria se afastar, pois não fazia ideia do que aconteceria. Preferia simplesmente desmaiar sem oxigênio em seus pulmões.
erindavinci:
Conseguiu escutar o soco na parede no outro cômodo e estremeceu, juntando os joelhos na cama, cada vez mais assustada com a reação exagerada de Matt. Ele sempre fora mais impulsivo do que ela, mais passional, enquanto Erin preferia pensar em formas de manter a calma e não se abalar. Era difícil, porém, vê-lo tão nervoso daquele jeito, principalmente depois de escutá-lo gritar consigo e fazê-la lembrar de coisas que gostaria de esquecer. Fitou a porta por meros instantes ao ouví-lo chamar seu nome e entrar, colocando as mãos no rosto de novo em seguida, sentindo a pele molhada pelas lágrimas. Não sabia o que Matt queria ali, mas qualquer hipótese a deixava receosa. Forçou um sorriso ao ouví-lo falar, quase na altura do melhor amigo depois que o mesmo se abaixara. — Não precisa, tenho certeza que a Eden vai entender e… — Antes que pudesse completar a frase, porém, seus lábios foram ocupados: não por palavras, mas pelo próprio beijo do loiro. Gallagher deu um sobressalto, claramente surpresa e assustada com o impulso do mais alto. Algo em sua consciência dizia que deveria se afastar, mas o coração começou a bater mais forte no momento em que ele se aproximara, e Erin não quis pensar mais quando fechou os olhos e deu-o permissão de continuar.
Esperou todo tipo de reação vindo dela, menos a que se seguiu. Ela tinha permitido e retribuído, não o afastado, o repudiado, como imaginava que seria. E como imaginava. O momento idealizado em sua mente tantas vezes e estava finalmente acontecendo, infelizmente não nas melhores condições. Colocou as duas mãos no rosto da morena com delicadeza enquanto sequer ousava tentar respirar. Queria congelar ali, exatamente ali.
erindavinci:
Depois que a despedida já tinha terminado, Erin se apressou o máximo que podia para chegar em seu quarto rápido. Não queria prolongar mais nenhum segundo daquela decepção. Ao entrar no cômodo, acendeu as luzes: Rose estava deitada na cama e veio na direção da morena, que a acariciou rapidamente, mas acabou colocando as duas mãos no rosto para esconder a face e continuar chorando. Ela simplesmente não conseguia esquecer tudo o que Matt havia dito, desde sua raiva pela outra facção até a morte de seu avô, e sabia que estava sem saída: se o visse com toda aquela tristeza reunida em seu peito, se lembraria do que ele tinha dito, mas se acabasse optando pela distância, seria talvez ainda mais doloroso.
Vê-la entrando no quarto foi mais difícil do que tinha imaginado. Esperava que ela virasse e se dessem bem como sempre faziam. Não imaginava que tinha a magoado tanto, não era sua intenção. Seus nervos estavam à flor da pele, tinha arquitetado diversos planos para fugir de lá, estava trabalhando em dobro e gritar não era esperado, mas também não justificável, não quando conhecia Erin tão bem e sabia que poderia ter simplesmente conversado no lugar de assustá-la dessa maneira. Passou a mão pelos cabelos e andou de um lado para o outro. Sem chances de dormir. Socou a parede e sentiu a dor se espalhar pelo braço. Tinha que fazer alguma coisa. Bateu lentamente na porta e a abriu, a encontrando sentada em sua cama, chorando... -- Erin... -- tentou pensar em palavras, mas essas não vieram, simplesmente não sabia o que fazer. Abaixou-se e afastou suas mãos de seu rosto e sorriu -- Eu vou. Por você. Eu vou. -- porém, não esperava nem mesmo de si mesmo sua reação seguinte. Com uma das mãos em sua cabeça e num impulso inconsciente aproximou seus lábios dos dela e a beijou, sem sequer pensar nas consequências.
erindavinci:
— Está tudo bem, Matt, eu entendo… — Sussurrou entre os soluços. Não estava tudo bem, e Erin sabia bem disso. Quando Matt veio abraçá-la, não conseguiu retribuir: simplesmente se encolheu ainda mais e acabou afastando-se do melhor amigo. — Vou dizer a ela que não vai dar, a gente passa o Natal sozinho em casa… Como nos últimos anos… Não tem problema. — Gallagher sentiu o nó se formando em sua garganta e tentou enxugar as lágrimas com as costas da mão, mas novas desciam, pela incapacidade da morena em parar de chorar. — Eu… Eu vou pro meu quarto, tá? A gente se vê amanhã, Matt. — Suspirou, virando-se de costas mais uma vez. Tentou fazer com que uma orbe luminosa se formasse em suas mãos para guiá-la no escuro até seu cômodo, mas a luz simplesmente piscou algumas vezes e apagou-se. Não importava, ela iria dormir mesmo assim… Tudo o que queria era ficar sozinha.
Boa noite, formiga...
erindavinci:
Enquanto Matt falava, Erin sentia a alegria dentro de si murchar cada vez mais. O espírito natalino parecia ter ido embora e, conforme o melhor amigo gritava, a morena se encolhia, sentindo as lágrimas quentes começarem a escorrer pelas suas bochechas. Ele nunca a tratava daquela maneira e quando as palavras agressivas do loiro tomavam vida, Erin conseguia perceber que talvez ele não era a pessoa que tinha imaginado que fosse. — Sabe, Matt… Muitas pessoas morreram, sim. Muita coisa ruim aconteceu por causa da Facção 2, mas eu sempre acreditei que nós não devemos julgar um grupo de pessoas inteiro por causa de alguns que fizeram más escolhas. É esse pensamento, o seu pensamento, que causa mais separação entre os mutantes. Como podemos lutar contra nossos inimigos, se todo mundo só pensa em lutar entre si? É isso o que faz com que fiquemos cada dia a mais presos aqui. É isso o que faz com que tantos de nós morram. Existiram acontecimentos péssimos nos últimos meses, mas também existe o perdão e a amizade. E é esse perdão e amizade que eu estou disposta a oferecer aos outros e receber de volta. Se você não é capaz, tudo bem… Eu sei que sempre fui muito ingênua e que sempre acreditei demais nas pessoas. Acreditei que você conseguisse, que pudesse se sentar comigo à mesa da Eden e celebrar o Natal da forma feliz que sempre fizemos.
— Eu vou avisá-la que não vamos mais, ok? — Sussurrou, pronta para virar-se de costas e ignorando o próprio choro.
Erin, eu... eu não quis...
Desculpe, por favor, me desculpe... Eu só fico... preocupado. É muito duro, é muito peso, você sabe. Eu só não suporto a ideia de te perder, de ver alguém te machucar, te ferir. Você entende que é tudo pra mim? Simplesmente tudo. Não podemos julgar uma facção inteira, a Eden é uma ótima pessoa, mas o que eu digo é... Não sabemos que tipo de pessoas vão estar lá. E eu te amo tanto, tanto. Não quero que nada mais de ruim aconteça, mas por favor, me perdoa, eu explodi...
erindavinci:
Estou sim, ela nos convidou e eu aceitei. Qual é o problema?
O problema? O problema Erin?! Você esqueceu de tudo que aconteceu?!
Eles são da facção dois, merda! Você esqueceu do sangue, das pessoas mortas?! Assassinos! Eles mataram pessoas de bem! Pessoas que cumprimentávamos todas as porras de dias! Pra nada! Por nada! Pessoas que não fizeram nada! Você não lembra daquela carnificina? Daquela porra daquele muro?! De como vimos pessoas que gostávamos sangrar até a morte nos nossos braços?! Aqueles animais tentando nos atacar, nos matar! Te matar, Erin! Te matar!Que caralho de mal você já fez pra alguém?! Nenhum! E mesmo assim tentaram cortar sua garganta. E você vai simplesmente lá, sentar e sorrir como se nada nunca tivesse acontecido?! Fingir que tá tudo bem e que são seus amiguinhos? A vida não é a porra de um conto de fadas, merda. Eles querem rir de você, querem te ver mal. Nosso avô morreu, tudo aconteceu e você vai simplesmente... Pior: você pede a mim pra simplesmente esquecer tudo e tomar uma cidra e rir com os bostas que tentaram esmagar minha cabeça com um taco?! Você tem noção do quão idiota isso é?
erindavinci:
Sim! Ela me chamou e eu vou ajudar na preparação da ceia, disse que eu poderia levar você também. Vai ser tão lindo, Girafa!
Você não tá falando sério, tá, Erin? Não é possível que seja tão ingênua a esse ponto.
erindavinci:
Eu estou muito feliz, Girafa! Nós vamos passar o Natal na Eden! Já pensou o quão cheia aquela ceia vai estar?
Eden...? Quer dizer... Eden da Dois? Facção dois?
E então é Natal, e o que você fez? Ai, ai, vocês não amam esse clima natalino de paz pela cidade?
A única coisa que amo em tudo isso é o jeitinho que você fica feliz, porque paz...
Essa com toda certeza é a melhor líder que já tivemos. Digo isso porque ela é gostosa pra caralho, os peitos dela me fazem querer ouvir seu discurso.
Eu acho que isso não é muito legal de se dizer. De qualquer forma não acho muito legal o discurso dela, a guerra não é o caminho para a paz.
strike! | bellagher
Havia uma verdade a ser dita sobre toda a situação política da Facção 1: Erin estava cansada. Todo aquele ódio vindo da Dois, o bloqueio que impedia uma possível reconciliação e o clima de tensão das eleições atraíam energias negativas, além do susto que levara dias atrás com a invasão do governo. Por sorte, porém, ela tinha sua firme rocha ao seu lado, seu eterno refúgio: Matt. Ele sempre estivera com Gallagher e carregava o peso de não permitir que a mulher se entristecesse, além de ser, na maioria das vezes, o motivo dos risos aflorados da fotocinética. Risos esses que, agora, eram soltos enquanto Erin pedalava sua bicicleta pelas ruas bem arquitetadas do centro da cidade ao lado do melhor amigo.
— O Girafa não pega ninguém, só pega cocô de neném! — Gritou, soltando uma gargalhada em seguida enquanto se esforçava para aumentar a velocidade de seu veículo e ultrapassá-lo. Conseguiu ficar poucos centímetros na frente da bicicleta de Matt, mas o homem sempre arranjava um jeito de empatar com ela. Suas pernas já chegavam a doer, entretanto, aquele era o último detalhe que fazia diferença: só queria se divertir com Belikov. Haviam combinado de ir ao boliche e o trajeto até lá a entretinha tanto quanto o jogo em si. Distraindo-se por alguns segundos, Erin deixou de olhar o caminho para fitar Matt: os olhos azuis brilhando em alegria, o chumaço de cabelos dourados agitados pelo vento e, acima de tudo, o sorriso tão gigante quanto o dela. Matt parecia a personificação da felicidade e ela podia jurar que nunca tinha o visto tão bonito. O ar faltou em seus pulmões por algum segundo, mas Erin voltou seu foco na rua e na rapidez de sua bicicleta, ignorando o sobressalto de seu coração. — Quem chegar por último é a mulher do padre!
Assim, depois de mais alguns minutos de percurso, os dois finalmente estavam na Facção 3 frente a frente ao boliche. Como previsto, tinham empatado, o que fez com que Erin corresse até o lado de Matt depois de descer da bicicleta e segurar sua mão enquanto entravam no Alleygato Hie Bowl. — Vamos desempatar isso no boliche. Quem perder vai ter que dar banho na Rose nesse final de semana.
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Toda a agitação política borbulhava em Matt, que sempre foi muito convicto e de certa incisivo em suas visões. Não achava certo o que estavam fazendo, não era nada certo. Enquanto perdiam tempo erguendo barreiras o governo continuava os mantendo como prisioneiros naquele lugar. Contudo, seus pensamentos raivosos e preocupados não duravam muito tempo, pois o sorriso e a visão de Erin eram como um tipo de luz que o impulsionava a seguir em frente, nunca desistir. Tinha uma determinação impressionante, era verdade, mas nem mesmo metade dela seria real e válida se não tivesse a mulher ao seu lado. Seu sorriso era despreocupado assim como a gargalhada que saiu de seus lábios. -- Formigas não correm tão rápido quanto girafas, Gallagher! -- provocou, passando a mão em seus cabelos que incomodavam sua visão. Estava muito comprido, tinha que cortar em breve, mas andou tão ocupado ultimamente que a ideia nem lhe passou pela cabeça. A perna quente pelo exercício e o vento refrescante assim como a risada dela carregada pela natureza como partes de um só integrante o fazia se sentir revigorado e plenamente feliz.
Seu vestido amarelo era lindo sob o vento, assim como seu cabelo escuro contra sua pele de porcelana. Como era bela, incrível, como... a amava. Depois de tudo que tinham passado estava tentando aceitar o fato mais abertamente dentro de si. Estava apaixonada pela sua melhor amiga e companheira de vida, sua praticamente irmã. O quão errado era aquilo? Bem, em sua defesa desde o primeiro momento em que conversaram do lado de fora do circo sentiu algo em seu pequeno coração infantil. Até mesmo tão novo já era capaz de ver a luz nela. Balançou a cabeça e se esforçou para alcançá-la.
Assim que chegaram, estacionou sua bicicleta e sorriu para Erin. -- Já sabemos quem vai ganhar. -- disse erguendo a sobrancelha -- Querida, cheguei! -- fez sua melhor imitação de Fred Flintstone e segurou na mão dela entrando no local. A diferença de iluminação era clara. Olhou para os cantos à procura de Fox, mas não viu nada. Envolveu os ombros de Erin com seu braço enquanto caminhavam até a mesa. -- Nachos, baby, vou me encher até não aguentar mais! -- anunciou ao ver uma pessoa passando com uma porção. Pegou um sem qualquer inibição e colocou na boca. -- Opa, foi mal! -- gritou com a boca cheia se virando para trás. -- Muito bom! -- riu e bagunçou o cabelo de Erin com sua mão livre -- Agora é a hora que você perde feio, Formiga.
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Quando o anúncio ecoou pela cidade, Erin já estava acordada. Gostava de despertar assim que o sol começava a despontar para aproveitar o máximo o dia e a aura que os raios de luz emanavam. Numa data daquelas, porém, era impossível ficar feliz: enquanto fazia panquecas para Matt na cozinha e preparava a calda de framboesa que ele tanto gostava, escutou no aparelho de rádio e televisão de sua casa o anúncio do general e então encarou pelas janelas da cozinha o que acontecia no centro da cidade, visível do lugar onde Erin e Matt moravam, já que a residência era localizada num leve relevo. No exato instante, deixou as coisas que fazia para trás e trancou-se no quarto, escondendo-se atrás das cobertas, tremendo de medo.
Não demorou para que Matt acordasse também e irrompesse pela porta, preocupado com ela como sempre. Erin apenas sentou-se no colchão e aceitou o abraço do melhor amigo, o coração batendo com pressa dentro de seu próprio peito e as mãos desesperadamente agarrando a camiseta do loiro. — Matt, me diz que vai ficar tudo bem — pediu, sabendo que, se continuasse pensando naquilo, acabaria chorando. — Me diz que ninguém mais vai morrer, por favor.
-- Ei, ei. -- protestou com uma voz calma e protetora, erguendo levemente o queixo dela com uma das mãos enquanto a outra o apoiava no colchão meio erguido. -- Tá tudo bem. Já menti pra você? É só uma coisa rápida, você ouviu. Ninguém vai sair, ninguém vai morrer. -- sorriu abertamente e farejou o ar -- Conheço esse cheiro. -- riu e se levantou, por mais que seu sono fosse imenso. Ficou de frente para ela e pegou suas mãos, a puxando levemente enquanto se inclinava para depositar um beijo suave e longo em sua testa. -- Vamos fingir que nada aconteceu. Tem uns caras lá fora e não podemos levar Rose para passear. Só. Falando nisso, cade ela? -- olhou em volta, tentando se distrair, contudo, estava de fato apreensivo. -- Continua fazendo sua panqueca enquanto eu tento consertar a pia. De novo... -- bagunçou os cabelos dela e assoviou, chamando Rose, que surgiu de um lugar misterioso. Afagou sua cabeça enquanto ela pulava alegremente nele, que se abaixou e a deixou derubá-lo, para que o farejasse e tentasse brincar. Brincou um pouco de lutinha com ela mas logo se ergueu. -- Que calda será hoje? -- perguntou tentando parecer animado enquanto revirava uma pilha de roupas em busca de sua caixa de ferramentas. Olhou pela janela. Até mesmo o dia estava feio.
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A mão de Matt pendia metade para fora da cama enquanto seus pés se encontravam no lado oposto no qual estava quando tinha ido dormir. Os lençóis não cobriam mais o colchão e jaziam solitários no chão. Ressonava tranquilamente quando despertou num susto, saindo de seu sono bagunçado para ouvir aquele aviso. Mais que rapidamente levantou-se, ainda meio embriagado, o que o fez derrubar diversas coisas no caminho e adquirir alguns roxos das diversas batidas em móveis. Chegou ao quarto de Erin, abrindo a porta repentinamente, a encarando, com um olhar assustado e ao mesmo tempo cansado. O sono o puxava de volta para as cobertas, mas a urgência da situação era o que fazia seu corpo se mover. -- Erin, você tá bem? -- questionou ofegante, indo em direção a ela e a tomando em seus braços, apenas aí sendo capaz de respirar fundo, notando o quão preso seu ar estava. -- Não é nada demais. Vão procurar as pessoas responsáveis por... aquilo. -- balançou a cabeça e sorriu. Não precisava dizer que duvidava que de fato pegassem alguém, mas acreditava que Erin também suspeitava aquilo.
Deixou-se cair na cama, tamanho era seu sono e fechou os olhos por alguns instantes. -- Tô cansado... Não vamos poder sair de casa. Que merd... Caquinha. -- se reprimiu, pois sabia que Erin não era fã quando ele xingava daquela maneira, apesar de ser incapaz de segurar sua língua completamente.
“The day after you stole my heart, everything I touched told me it would be better shared with you.”
fire and the thud - arctic monkeys
☀️ there's blood on the streets, it's up to my knee, blood in my love in the terrible summer ☀️
Erin não sabia quanto tempo se fazia desde que tinha se perdido de Matt, mas havia conversado com várias pessoas no caminho - algumas porque esbarrara acidentalmente e outras porque, de verdade, tinha uma aptidão nata para socializar. Ninguém com quem tinha conversado, no entanto, podia se comparar ao melhor amigo: a grande concentração de pessoas chegava a deixá-la aflita sem a presença do loiro. Não que não estivesse acostumada àquela agitação: era algo característico de seu trabalho, mas a mera hipótese de que pudesse perder Matt no meio do baile a deixava aterrorizada o suficiente para procurá-lo por todos os cantos.
A busca teve que ser interrompida, contudo, quando um anúncio de discurso foi feito. Erin passou a fitar o palco, próxima da mesa de salgadinhos, enquanto enfiava umas cinco bolinhas de queijo em sua boca de uma vez só. Não concordava com aquele acordo: queria muito voltar para casa e cuidar de sua avó, mas não naquelas condições, onde seria monitorada pelo governo a cada passo diferente que desse. Além disso, achava extremamente injusta a conduta do líder de sua Facção de fazer aquele combinado sem ao menos consultar a opinião dos outros grupos. Era uma decisão que afetava todos os residentes de Bradcliff, afinal, e era errado determinar o destino de alguém enquanto tira seu livre arbítrio. Escutava cada palavra do monólogo do homem, sem bater palmas por justamente ser contra a situação toda, mas concordando com certas partes de seu discurso em relação a convivência entre humanos e mutantes. Já estava quase entediada quando, subitamente, as feições do desconhecido, mesmo por trás da máscara, tomaram um ar diferente, um ar praticamente furioso. Estava próxima o suficiente do palco para que pudesse notar e para que seu cérebro demorasse para processar os eventos que se seguiram depois do papel ser rasgado.
No momento em que vários mutantes avançaram, portando armas ou colocando seus poderes em uso, Erin observou estupefata a mudança da maré que aquele evento tomara: passara de ser uma celebração para um massacre. Tantas mortes, tantos gritos por socorro e violência a deixaram desesperada, fazendo com que levasse as mãos à boca e se encolhesse atrás de um grande arranjo florido, esperando que ninguém ali a fizesse mal. Fechava fortemente os olhos, sem impedir que as lágrimas de desespero escorressem - havia tristeza ali também. Tristeza por presenciar tantas mortes, tanta agressão, tanto ódio. O mais chocante foi quando um cadáver foi jogado perto de si, espalhando sangue ao seu redor. Teve que segurar um grito para não revelar sua posição, esperando que tudo aquilo não passasse de um pesadelo, que as batidas de seu coração se regularizassem assim que acordasse. Como num milagre, Matt foi correndo na direção da morena, que levantou-se o abraçou com força em seguida. Escondeu o rosto no peitoral do melhor amigo, chorando mais livremente nos braços dele, trêmula e prestes a desmaiar de tanto desespero. — Eu estou com tanto medo, Matt. — Foi tudo o que sussurrou, a voz embargada pelo choro e os braços cada vez mais firmes ao redor do tronco dele, esperando que se afundasse na segurança que ele a proporcionava.
Tê-la em seus braços era suficiente para acalmá-lo. Era fácil se perder em seus fios escuros como azeviche e as mãos macias e braços frágeis o apertando contra si, esquecer toda a confusão e caos, como se o mundo fosse apenas ela, o universo inteiro. Porém, tinha que acordar, lutar, o mundo não era tão belo quanto aquele rosto, ele era frio e cruel e naquele momento brilhava em vermelho. O imenso bicho, era atacado por todos os lados e eliminava qualquer um com imensa facilidade. Mas ele logo se desfez, com o tempo limitado de seu poder. Respirou fundo e abriu os olhos. Tinha que protegê-la com a sua vida. Afastou-se, com certa dificuldade e hesitação, mas o fez. – Eu odeio dizer isso… – iniciou, segurando os ombros dela, enquanto desviava o olhar.
– Mas você podia tentar me ajudar a ver se as pessoas estão vivas? Eu sei que é assustador demais, tudo que quero é sair daqui. Também estou com medo. – admitiu, fazendo um meneio com a cabeça, para tranquilizá-la e fazê-la se sentir melhor. – Mas temos que salvar essas pessoas… Elas não tem culpa, estavam apenas desesperadas. – cerrou os dentes, sentindo uma raiva percorrer seu corpo. – A culpa é desses caras que nem concordam com a ideologia da um. Estão no poder dos cargos altos só pelo dinheiro. Eles não sabem de nada, não entendem. Mas… mas… isso não dá o direito de… Argh! – socou a parede atrás de Erin com força, sentindo os dedos latejarem pela dor do impacto. Um pouco de sangue escorreu entre suas juntas.
Balançou a cabeça, afastando os pensamentos. – Vamos nos concentrar em salvar o máximo de pessoas que der, okay? – novamente segurou seu rosto em sua mão, fazendo-a se concentrar nele. – Não precisa ter medo. Não vou deixar ninguém encostar em você. Não sai muito perto de mim. Se alguém vier pra cima, usa sua luz pra cegar ele, não precisa sentir culpa. Eles querem te machucar muito muito, querem me machucar. Querem nos matar. – notou o quão assustador aquele discurso podia ser. – Mas estou do seu lado. Sempre.
☀️ there's blood on the streets, it's up to my knee, blood in my love in the terrible summer ☀️
Ria junto de um de seus amigos que acabara por identificar apenas por conta de sua máscara excêntrica que levava o apelido que Erin lhe dera consigo. Atraía diversos olhares tanto por sua estatura quanto por seus trajes. O terno tinham escolhido juntos e parcelado algumas vezes assim como o vestido... de Erin. O... vestido. Que ainda lhe causava arrepios e parecia colado em sua memória, como algo permanente que se negava a desvanecer. Fazia-se onipresente onde quer que olhasse. Comparado com todo aquele brilho das pessoas a sua volta poderiam dizer que era simples, mas ela era simplesmente uma das figuras mais belas que seus olhos já pousaram sobre. Claramente a cada dia que passava tinha o mesmo pensamento, mas a vestimenta tinha lhe dado algo ainda mais especial. Como os dias que os raios solares passavam pela janela e vinham pousar em sua delicada pele e faziam parte de um só. E era brilhante, como brilhava em sua beleza e leveza. Podia vê-la no sol e ver o sol nela, o astro inteiro em apenas um olhar e um corpo frágil, como se a galáxia inteira girasse ao seu redor dobrando-se em mil para fazer as vontades de seus suspiros.
A risada dos dois morreu assim que o discurso se iniciou. Matt era completamente contrário a aquele acordo. Sim, tudo que queria era sair de lá, encontrar a avó deles novamente e finalmente ter uma vida com a amiga, porém, aquela era a maneira errada. Privar os outros daquilo, privilegiando poucos era simplesmente errado. Aquilo causava um desconforto em sua espinha que subia por todo seu ser. Odiava aquele acordo com todas suas forças e tudo que ele representava. Por ela negaria até o último de seus princípios, até nada sobrar dele além de seu infinito amor por ela. Mas não podia simplesmente aceitar aquilo de braços abertos, vendo tantos sofrerem terrivelmente, sendo presos naquele inferno. Não iria embora, não podia. Mas faria de tudo para Erin ir, mesmo que isso significasse se separar de quem mais amava. Se aquilo era inevitável, que pelo menos conseguisse a salvar, assim ela poderia proteger sua avó de criação enquanto ele continuaria tentando sair de lá, ajudando outras pessoas a fazer o mesmo. Duvidava que Erin aceitaria seu plano de bom grado, mas tentaria ao máximo o fazer. Foi insuportável ouvir aquelas palavras, mesmo que concordasse com boa parte delas, como a coexistência pacífica com os humanos. Bateu palmas, mas suas mãos pararam no ar assim que a carnificina começou. Não podia acreditar no que seus olhos viam. Não conseguia aceitar que aquela seria a solução. O ar escapou de seus pulmões enquanto vinham na sua direção. Abaixou-se, desviando de um ataque e desferindo um soco no rosto do mutante que tinha lhe lançado um raio de seu poder, quebrando sua máscara. Ao faze-lo, entretanto, acabou perdendo o equilíbrio e um apito se iniciou. Não ouvia mais nada e ao levar a mão ao ouvido, viu o sangue rubro sair dele. Tinha sido um ataque de som. -- Merda... -- sussurrou sem ouvir a própria voz. Abaixou-se e tocou o no chão, sentindo o mundo girar, e liberou seus poderes. O chão era com certeza uma das animações que mais odiava. Porém, a mais efetiva. Não queria causar uma chacina e por sorte o chão era de mármore e não terra ou ferro. Dependendo do material, as propriedades e o tamanho mudavam. Porém, o que acontecia era que ele se desdobrava até formar uma criatura gorda, de cabeça e membros arredondados, sem rosto. Obedecia fielmente aos comandos de Matt e o protegia, por sorte.
Iniciou seu caminho a procura de Erin, enquanto o monstro afastava aqueles que tentavam o atacar. Tinha que ser rápido, não conseguiria mantê-lo por muito tempo. Com muito custo, e tendo que subir num balcão para enxergar e sendo jogado no chão por um corpo voador, finalmente identificou o vestido amarelo. Correu até lá e a viu a distância, manchada pelo sangue ao seu redor. Continuava linda, mas aterrorizada. Com força nos pés foi até ela e a abraçou com força, a protegendo em seus braços. -- Erin... Você está bem? Meu Deus... -- arrancou sua máscara de girafa e a deixou pendurada em seu pescoço pela corda e em seguida segurou o rosto delicado da mulher em suas mãos e beijou sua testa, sentindo um alívio preencher seu peito. A preocupação com ela tinha se tornado sufocante. A apertou mais em seu abraço, não querendo soltá-la de maneira alguma.
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