Houve, certa vez, em uma pequena cidade rural do Rio Grande do Sul, um acontecimento relativamente peculiar, dependendo do seu referencial. Achei peculiar pois foi uma demonstração bem contundente dos traços culturais tão fortes da região sul do Brasil.
Aconteceu com um adolescente de 16 anos, Aníbal Mascarpone-Suín. Filho de família bem tradicional, foi criado sob uma fortíssima cultura de orgulho gaúcho. Seu pai era o homem mais rico da cidade e das 4 outras que com ela faziam fronteira. Detentor de incontáveis hectares de terra, maior parte deles destinados ao cultivo da erva-mate, a tradição mais importante na casa de Aníbal era o consumo do chimarrão. Cada membro da família tinha sua própria cuia e seu próprio jarro da melhor erva-mate que se podia encontrar no Rio Grande do Sul.
Mas, por mais que falasse, agisse e praticasse hábitos de forma tipicamente gaúcha, Aníbal tinha uma personalidade ligeiramente diferente da maior parte das pessoas ao seu redor. O rapaz não se conformava em seguir cegamente as tradições de seus conterrâneos. Claro, ter 16 anos sempre ajuda a ter pensamentos revolucionários e atitudes anarcopunks.
Foi uma comoção no colégio quando Aníbal apareceu com sua bombacha cortada à altura dos joelhos. A diretora mandou-o de volta para casa naquele dia. Mas isso não o impediu de insistir em sua rebeldia. No dia seguinte, foi novamente com a bombacha-bermuda, mas, dessa vez, vestindo também um chapéu cortado em forma de estrela, lembrando vagamente a coroa usada pela estátua da liberdade. Tingiu sua pala ao estilo tie-dye, com uma tintura cor-de-bergamota bem viva. Por baixo da pala estava sem camisa, vestia apenas uma cota de malha de prata à melhor moda fashionable blacksmith. Suas tradicionais botas pretas foram todas cobertas com recortes de revistas Playboy dos anos 70, formando um sapatesco mosaico da mais peluda putaria pornochanchesca. Dessa vez Aníbal foi expulso.
Muito estavam enganados seus pais quando acharam que Aníbal havia, enfim, se conformado e entrado nos eixos da tradição Farroupilha. No novo colégio o rapaz conheceu o colega conhecido como Sabiá-Por-Desventura. Ninguém, nem mesmo o próprio Sabiá-Por-Desventura, lembrava seu nome real. O garoto recebeu o apelido aos 5 anos quando, durante uma caçada de sabiás com os outros meninos do bairro, um dos projétis atirados por um estilingue ligeiramente inacurado atingiu em cheio seu olho esquerdo. Diferentemente da capacidade de visão do olho ferido, o apelido permaneceu. Logo, Sabiá-Por-Desventura e Aníbal tornaram-se melhores amigos para sempre. Verdadeiros BFFs.
Sabiá-Por-Desventura era natural do estado do Mato Grosso do Sul. Um pouco da cultura gaúcha fazia parte dele tanto quanto de Aníbal. Mas teve uma coisa que genuinamente surpreendeu nosso protagonista. Sabiá-Por-Desventura bebia chimarrão gelado. E chamava a bebida por outro nome: tereré.
“Ah, lá no Mato Grosso do Sul é assim, Aníbal”, respondeu Sabiá-Por-Desventura às indagações do amigo.
Aníbal prontamente decidiu: “bá, vou chocar minha família. A partir de hoje, só bebo tereré, daí”.
Naquela mesma noite, enquanto a família reunia-se na cozinha para o ritual de preparo do chimarrão, Aníbal entrou em ação.
Enquanto todos despejavam água quente em suas garrafas térmicas, o rapaz abriu a geladeira e pegou uma imensa jarra, cujo volume era preenchido metade por água, metade por cubos de gelo. A família, sem reação acompanhou os movimentos do rapaz. Ele preencheu dois terços de sua cuia com a erva. Com sua mão direita, assegurou-se de que a erva não cairia, inclinou o artefato e deu batidas em seu flanco para que as diferentes fases do conteúdo se separassem. Trouxe a cuia de volta à posição vertical, despejou a água gelada e, tapando a saída com o dedão, colocou a bomba dentro da água. Olhou para a família absolutamente boquiaberta e estarrecida. Trouxe a bomba à boca, deu um longo gole, e, após um sonoro “aaah” de contentamento, disse:
“Nada melhor do que uma bela guampa de tereré!”
Um sorriso sarcástico surgiu no rosto de Aníbal, ansioso pela reação da família. Alguns segundos mais se passaram antes que seu pai voltasse a si e exclamasse com todo o seu carregado sotaque riograndense:
“Pelas bombachas de Bento Gonçalves! O que tu acha que está fazendo?!”.
Tarde demais. Fortes batidas na porta chamaram a atenção de todos. Velozmente, a irmã de Aníbal atendeu a porta. Dois homens de terno e óculos escuros esperavam na soleira. Um deles puxou de dentro do paletó um reluzente distintivo com o brasão da Farroupilha. Com uma voz seca e gutural, disse:
“Bá, fomos alertados da violação do artigo 11 do Código do Gaúcho do Rio Grande do Sul, daí”.
Um silêncio seguiu-se. Então o homem continuou:
“Foi nesta casa que um tereré”, ao pronunciar essa última palavra, ambos os homens cuspiram no chão, com asco. Ele prossegui: “foi preparado?”
Seu pai tentou fazê-lo ficar calado, mas Aníbal foi mais rápido:
“Bá, sim, fui eu! Estão servidos, daí?”
O homem que esteve até então calado deu alguns passos à frente, aproximando-se de Aníbal. Colou seu nariz com o nariz do rapaz e disse, gritando:
“Ofereça-nos essa aberração novamente e você será compulsoriamente emancipado, daí, para que seja maior de idade aos olhos da lei e possa responder por corrupção ativa de cidadão riograndense!”
O primeiro homem algemou os pais de Aníbal e encaminhou toda a família ao camburão. Na delegacia especializada em crimes contra a cultura gaúcha, todos levaram choques elétricos, fortes petelecos nas orelhas e beliscões nos mamilos. O pai de Aníbal teve seu alvará de gaúcho cassado e sua licença para o plantio da erva-mate revogada. Sua mãe foi presa por manter união estável com um traidor da cultura. As terras da família foram regadas com sal e toda a erva-mate foi confiscada.
A família, já sem a mãe, que ficou na cadeia, e sem nenhum dinheiro, buscou refúgio em São Paulo. Mas o alívio não durou muito. Logo na primeira semana foram presos sob a acusação de utilizarem o português muito mais correto do que permite o artigo 25 do Código do Paulista de São Paulo.