EXPECTATIONS

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Você, uma mera garota adolescente, está andando com sua amiga pela rua.
De repente você percebe uma movimentação atrás de você. Há alguém seguindo vocês? Você apressa o passo. Você tem a sensação que o stalker também apertou o passo. Um calafrio percorre seu corpo. Está de noite, não há muitas pessoas por ali, quem é que está atrás de você?
O caminhar rápido pouco a pouco se transforma em uma corrida. Desesperada, você joga sua bolsa, talvez seja aquilo que ele queira, talvez te deixe em paz. Mas sente que ele ainda está atrás de você.
O caminho está quase todo no escuro, parece um labirinto, você sente que a qualquer momento você pode ser encurralada, pode cair em alguma armadilha, pode dar de cara com uma parede. O medo parece fazer parte de você, seu corpo inteiro está tenso, você mal raciocina, apenas foge utilizando todas suas forças para isso, suas mãos tremem, sua respiração está ofegante, suor escorre pela sua testa.
Até que de repente você parece sair do tal labirinto de cara para um incrível parque de diversões. Não é isso que você esperava. Ele é incrível, bem iluminado e você reconhece inúmeras pessoas que estão ali. Você está segura. Percebe que não sai ninguém do labirinto atrás de você. Havia realmente alguém?
Você toma uma decisão: vou voltar e pegar minha bolsa. Uma pessoa aparece do seu lado e diz “vou com você” e você acena com a cabeça.
Durante o trajeto de volta, tudo está iluminado e mal parece o mesmo lugar, é apenas um caminho, bonito até. As sombras assustadoras eram apenas pedras, os tentáculos, apenas vinhas de plantas, os barulhos sinistros, meros insetos.
Facilmente fazem o caminho inverso - nem era um labirinto no fim das contas - e sua bolsa está exatamente onde a deixou, nem machucada ela estava. Ao pegar a bolsa, vê que ela está realmente intacta com tudo que você havia deixado.
A pessoa do seu lado então vira para você.
“Pra que tanto medo?“
“O meu coração está acelerado; os pavores da morte me assaltam. Temor e tremor me dominam; o medo tomou conta de mim.” - Salmos 55:4-5
O Medo é um instinto natural.
Ele nos alerta do perigo, nos faz ficar atentos quando estamos correndo riscos. Ele, assim como a dor, é fundamental para a sobrevivência do homem, seja avisando quando algo está errado, seja avisando quando algo pode dar errado.
O problema é que às vezes, ao invés de controlarmos o medo, o medo nos controla. Algumas pessoas têm muita dificuldade de sair da zona de segurança. Por quê? Porque dentro dessa zona tudo é conhecido e o desconhecido amedronta. No conhecido há dificuldades, há problemas, há perigos, mas são coisas conhecidas. Coisas que estamos acostumados. Não significa que saibamos solucioná-las, mas ao menos sabemos lidar com elas.
Lembro-me de já ter ouvido uma vez que chamar "zona de segurança" de "zona de conforto" não era adequado, porque muitas vezes nós não estamos confortáveis ali. Muitas vezes nós estamos nos sentindo mal, muitas vezes aquele lugar não nos faz bem. Porém temos tanto medo do desconhecido que a sensação é de que sair dali será pior. Que sair de nossa zona será ainda mais desconfortável. E às vezes o que precisamos para nos sentir bem é justamente sair daquele lugar.
Mas o medo nos aprisiona. O medo do desconhecido, o medo de ser incapaz o medo de ser impotente, o medo de ser ignorante. Queremos tanto ter o controle de nossas vidas que é desesperador enfrentar algo que nem sabemos o que é.
“O medo é uma linha que separa o mundo O medo é uma casa aonde ninguém vai O medo é como um laço que se aperta em nós O medo é uma força que não me deixa andar”
O medo tira nossa liberdade. O medo tira nossas escolhas. O medo diminui nosso mundo. O medo nos diminui. O medo nos priva de sonhos, prêmios e realizações que nem sabemos que poderíamos ter. O medo devora aquilo que poderíamos ser.
E fugindo de problemas que nem sabemos que existem, nos trancamos desconfortavelmente em nossa zona de conforto.
E um dos motivos do desconforto é exatamente porque dentro de nós algo nos diz que isso não é saudável, que nós precisamos enfrentar nosso medo.
Para viver o que temos que viver; Para fazer o que temos que fazer; Para servir como temos que servir.
Não estou dizendo que será fácil, porque não será: O medo ainda estará lá.
Mas é possível conseguir coragem para enfrentá-lo quando do nosso lado temos Ele. Porque Ele é onipotente e onisciente, e para Ele não há “zona de segurança”, pois não há “zona de insegurança” quando tudo lhe é conhecido, Ele sabe tudo que vamos encontrar e estará ao nosso lado em todo o caminho.
E com Ele do nosso lado, pra que tanto medo?
❤️
Relato 1
Meu processo de descoberta foi bem lento... beeem lento. Primeiramente por que eu era uma criança meio tapada, mas também porque eu achava que era tudo muito normal.
Eu ouvia meus pais, amigos e familiares falarem de gays, piadas e comentários bem assustadores. Como eu era uma criança que não sabia o que estava acontecendo eu repetia essas coisas como se fosse a coisa mais normal do mundo. Dentre as frases mais icônicas faladas pelos meus conhecidos, eu me lembro bem dessa: "Se eu tivesse um filho gay eu matava", quem mais falava essa eram as crianças (minha idade), geralmente primos ou amigos. Diante dessa situação os pais faziam o quê?... Isso mesmo, eles riam.
Daí quando eu fui crescendo, fui percebendo que tinha alguma coisa diferente. Os garotos ficavam falando de meninas (bem objetificação mesmo, e os pais lá ouvindo, aprovando e dando playboy para os meninos de 10 anos) e eu ficava sem entender esse fogo todo deles. Daí fui percebendo que talvez tivesse algo de errado comigo e aí numa linda tarde na TV me veio uma confirmação: eu estava vendo TV e um videoclipe estava passando. Nesse vídeo tem uma cena de dois garotos se beijando, quando essa cena passou eu fiquei sem entender nada ("?"). O que eu achava estranho não era eles se beijando, eu achava estranho que eu estava me conectando com aquilo, eu não entendia por que eu tive tanta simpatia com o casal. E para resolver isso... eu ignorei tudo e fingi que nada aconteceu (resolvo isso depois). Acontece que sempre que eu via esse clipe passando na TV eu corria para ver e eu começava a relacionar que a coisa "errada" em mim podia ter algo a ver com isso. Uma coisa também que eu tirei disso foi: gays amam? Eu achava que eles eram uns pervertidos aleatórios. Quanto mais o tempo passava mais eu ia ignorando isso e reprimindo. Quando eu ia crescendo e tendo uns crushs na escola, eu ficava ainda mais confuso..., mas eu continuava ignorando tudo (“se eu não pensar sobre isso então isso não existe”).
Tudo estourou lá pelo 9º ano, nesse ano eu tive um crush muito forte que eu não conseguia reprimir. Junto a isso, a coordenadora lá do colégio passou uns vídeos sobre a comunidade LGBT. Fiquei chocado por dois fatores:
- Essas pessoas existem mesmo?!?!
- Todos os garotos da sala ficavam fazendo umas piadas meio rudes com isso.
A partir daí eu percebi que era aquilo mesmo, contudo, se eu fingisse ser hetero eu conseguiria ignorar os problemas (yaaaay). Meu primeiro e segundo ano do ensino médio foram assim. Pelo fim do primeiro ano eu já sabia que era gay mesmo, mas achava que tinha cura (sei lá). Fui até em alguns sites religiosos que te ensinavam a virar hetero (mas eram uns textos tão grandes e muitas coisas para fazer, eu fiquei com preguiça e desisti). Lá no final do segundo ano, eu já não aguentava mais e foi aí que eu conheci uma pessoa. Um garoto claramente gay (tinha todos os trejeitos). Comecei a me aproximar dele por conta de uma peça da escola. Viramos muito amigos e começamos a falar direto por mensagem de wpp.
Com o tempo, ele saiu do armário para mim e eu sai do armário para ele. Foi a primeira pessoa com que eu sai do armário e foi algo muito bom. Era estranho por que agora eu podia conversar de verdade e não fingir nada, como tirar um peso das costas. A partir daí eu me senti mais seguro e falei também com uma amiga minha. Meu medo mesmo era que uns amigos heteros meus me julgassem e aí eu até me afastei deles um pouco. Meu terceiro ano foi muito bom, aos poucos fui saindo do armário para as pessoas e a resposta foi ótima, até os meus amigos heteros responderam bem a isso. Tive que sair do armário para os meus pais também, mas isso para mim foi o de menos. Eles não lidaram bem no início, mas depois de um tempo eles aceitaram e hoje lidam muito bem. Para o resto da minha família, eu deixei as fofocas se espalharem para poupar meu tempo, até hoje eu tenho uns membros da família que eu sei que sabem, mas que não tem coragem de falar (como eu acho isso engraçado eu deixo eles lá sem saber o que fazer kkkkkkk).
A partir daí foi tudo sol e flores. O garoto que eu sai do armário hoje é meu namorado e meus amigos e família lidam bem com a situação. A época de sair do armário foi difícil, mas tudo melhorou desde então. E sobre a religiosidade, minha família não é muito religiosa, mas eu tenho amigos e primos que são. Todos lidaram bem com isso, não enxerguei a religião deles como uma barreira. Claro que eu já tive que lidar com umas pessoas que usam da religião de forma errada para incentivar a homofobia e afins, mas eu ignoro essas pessoas e sigo a vida.
A trajetória das pessoas LGBT não é fácil. O período de auto-descoberta e o início da saída do armário é um período quase sempre turbulento e com muitas dúvidas que só quem experimentou de perto entende. Para entender melhor o que elas passaram e passam, algumas pessoas enviaram relatos sobre suas experiências que serão postados aqui. Nenhum dos autores dos relatos será identificado e caso você tenha interesse de mandar o seu texto, pode entrar em contato e conversaremos para ajeitar as coisas.
É maravilhoso como Deus fez os animais, os vegetais e os seres humanos tão diferentes, com características tão diferentes e achou que tudo aquilo era bom. Achou que aquela diversidade toda era bela.
Nada foge do controle de Deus, e foi de sua vontade criar o homem e a mulher, diversos povos e etnias além de cada pessoa com sua própria personalidade e desejos.
Porém o ser humano tem dificuldade de lidar com o diferente, relacionamentos, (sejam eles românticos ou não), são formados a partir de coisas em comum entre as pessoas: uma profissão, um time de futebol, uma série, uma igreja. Em contrapartida, aversões podem surgir apenas por gostar de uma coisa oposta, por ser torcedor do time rival, por gostar de outro tipo de música, por ser de uma denominação religiosa diferente…
Infelizmente é muito comum valorizarmos mais o que nos afasta do que o que nos aproxima.
Infelizmente somos rápidos para julgar os erros e diferenças e rápidos para esquecer histórias compartilhadas e que aquela pessoa ali é tão humana quanto nós.
“Pois para Deus não há parcialidade” - Romanos 2:11
Entretanto, para nossa alegria, Deus não é assim. Deus sabe de todos os nossos defeitos e olha para todos nós da mesma maneira. Jesus andava no meio de pessoas a margem da sociedade sem problema algum, ele sempre esteve a postos para abraçar e aceitar quem precisava dele.
E lidar com os diferentes não é fácil, muitas vezes é necessário ceder, muitas outras é necessário que ele ceda. E ceder não é fácil.
Mas a gente acaba conseguindo lidar quando lembramos que no fim das contas não há separação:
"Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”
Porque na verdade isso tudo, todas essas diferenças, são só uns pequenos fiapos em um tecido muito maior do qual todos nós fazemos parte que é Jesus.
O Evangelho, por excelência, é Evangelho da inclusão. O Evangelho é porta estreita sim, é uma escolha exigente. Mas é uma porta sempre aberta. Deus nunca fecha a porta para ninguém. Por isso, talvez, seria momento de, assim como nós fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não está na hora de dar um salto na perspectiva da fé e superar os preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?
Bispo de Caicó (x)
Apesar de resmungar ao acordar dos meus segredos das minhas mentiras de ir dormir pensando no que deveria ter feito Apesar das minhas trapaças comigo mesma do meu egoísmo do meu medo da minha falta de fé Apesar da minha dificuldade de arrependimento da minha ganância da minha falta de amor da minha falta de ti Apesar dos meus fracassos diários da minha hipocrisia do meu orgulho da minha vaidade Deus permanece E olhando além do olho mágico Me vê exatamente como sou E então bate a porta Apenas esperando que eu a abra.
“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” - João 16:33
É, às vezes parece que não dá mais para lidar.
Parece que é problema demais, que é sofrimento demais, que são pessoas demais.
A vontade que me dá é de dar um Pause na vida, de parar com tudo até saber como fazer pra lidar.
Mas não fazer nada não resolve problema algum.
Aí eu lembro que se eu quero que as coisas mudem, eu tenho que ir atrás da mudança, e eu não estou sozinha nisso, Ele tá comigo.
E não que isso signifique que isso será fácil porque não será, será difícil, haverá falhas, haverá vontade de desistir. Mas a gente arranja forças para prosseguir quando sente que o destino (e o caminho traçado até lá), apesar das pedras, vale a pena.
“Pedras no caminho? Junto todas, um dia construirei um castelo”
[Alguém sabe de quem é essa imagem?]
Agindo Ele, quem impedirá?