Por que sou feminista e, mesmo assim, quero emagrecer
Não pretendo falar sobre teoria feminista nesse post. Esse post é um conjunto de desabafos que culminaram em uma decisão.
Sempre fui um pouquinho acima do peso, mas nada de mais, nada que me incomodasse ou incomodasse a quem quer que fosse. Nunca comprei a ditadura da magreza, nunca achei que precisasse vestir menos que 40, nunca quis parecer com as modelos da passarela, nunca quis ter um thigh gap. Desde os 13 anos peso mais que sessenta quilos, para os meus 1.63 de altura, e isso nunca me incomodou.
Nos últimos dois anos, engordei 27 quilos. Cansar da rotina da academia, achar que não precisava da dieta, ir pro intercâmbio e achar que “na volta eu emagreço, sem problemas”. Uma série de motivos me levaram a alcançar os 89 quilos, em janeiro desse ano. Hoje estou com 88.
Estou escrevendo esse texto por que decidi que vou emagrecer. E sinto que preciso explicar para as pessoas por que isso é importante para mim, e por que preciso que respeitem a minha escolha. Queria dizer para todos que tiverem paciência para ler isso aqui que a minha escolha não precisa significar uma afronta ou um desrespeito a quem escolhe diferente.
E por que isso é tão necessário?
Toda vez que uma mulher feminista gorda - como eu - diz a suas outras amigas e amigos feministas que quer emagrecer, lhe respondem: “mas você está linda”, “mas você não precisa se encaixar em padrões de beleza estabelecidos pelo patriarcado”, “mas você não deveria emagrecer por causa de homem”, “mas não tem nada de errado com você, a sociedade é que está errada”. E gente, eu juro, eu sei de tudo isso. E eu sei que as intenções de vocês ao dizer essas coisas é a melhor possível. Mas nada disso têm me ajudado. E nem todas essas coisas se aplicam ao meu caso. E eu decidi emagrecer, quero emagrecer, e não quero sentir que sou menos feminista que você, ou mais errada que você, ou mais idiota que você, por causa da minha decisão.
Por que nenhum desses conselhos acima faz com que eu me sinta melhor quando eu me olho no espelho. Nem melhora a minha auto-estima. Nem faz a busca por roupas nas lojas das quais eu sempre gostei menos frustrantes quando nada me serve.
Eu não aguento mais detestar o patriarcado, a gordofobia, os padrões surreais de beleza, e ainda assim me sentir miserável em frente ao espelho. Eu não aguento mais detestar as pessoas magras por serem felizes, enquanto eu me afundo em depressão, e pizza, e mais depressão por ter comido a merda da pizza. Eu não aguento mais dar match no Tinder, e ter medo de conhecer a pessoa pessoalmente e ela desistir de mim, por que eu sou gorda. Eu não aguento mais sair para andar com vocês e sentir que tô ficando por último, por que não consigo andar rápido, por que sinto que carrego 4 sacos de arroz dentro de mim. Eu não aguento mais abrir o armário e não conseguir vestir nada do que eu vestia há 3 anos atrás. Eu não aguento mais ir numa festa e sentir que as pessoas desviam o olhar para não encarar o meu corpo, por que ele ocupa mais espaço que a maioria dos demais.
E principalmente, eu não aguento mais olhar no espelho e sentir que a pessoa que eu estou enxergando não sou eu. E eu sinto isso todos os dias. Sentir que o corpo em que você está não é o seu, e que você não sabe o que fazer com o que você se tornou, é desesperador.
Então eu escrevi esse desabafo para dizer que eu decidi emagrecer, e que não quero ouvir mais, dos meus amigos, que feminista não deve se preocupar com isso. Que eu devia parar de frescura e beber essa cerveja. Que eu devia parar de besteira e comer aquele hambúrguer. Que é uma piada eu querer levar frutinha e barrinha de cereal pra faculdade, ou beber coca zero. Que conhecendo todos os mecanismos do patriarcado, eu não deveria me sentir como eu me sinto. Por que, independentemente de você achar ou não que isso se encaixa na minha ideologia de gênero, eu não quero pesar 88kg. E não quero me sentir assim.
Se vocês são meus amigos, e querem me ver feliz, vocês vão me ajudar, e incentivar, e apoiar, ao invés de me sabotar. É o que eu peço.
Felicidade é melhor que coerência.
(Obviamente, não quero que ninguém se sinta como eu, ou decida como eu, e peço desculpas se ofendi alguém, mas enfim, essas coisas precisavam ser ditas. E eu preciso do apoio de vocês.)