Nossa homenagem a Katherine Mansfield no dia de seu aniversário
Na imagem, o retrato de Katherine Mansfield publicado na página do Wikipedia sobre a escritora.
Em 14 de outubro de 1888, nascia Kathleen Mansfield Beauchamp, que mais tarde adotaria o nome artístico de Katherine Mansfield.
Nosso Grupo Latino-Americano de Estudos em Katherine Mansfield é formado por pessoas interessadas no legado deixado por essa importante escritora modernista. Pessoas que a pesquisam, que traduzem seus textos e que continuam acompanhando os lançamentos de livros sobre ela. Para homenageá-la, convidamos as participantes do grupo para enviarem seus depoimentos sobre sua relação com a obra de Katherine Mansfield.
Algumas de nós declaramos nosso amor abaixo, mas antes de publicarmos os depoimentos, deixamos ainda essa linda notícia: nosso e-book “Katherine Mansfield no Brasil e na Argentina”, feito a partir da chamada publicada neste blog, está sendo editado pela editora-escola Asa da Palavra, da Unicamp. Agradecemos a todas as pessoas que enviaram seus artigos e também à comissão da editora que aprovou o ebook, bem como aos que agora estão trabalhando para concretizá-lo. Avisaremos neste blog e nas nossas redes quando estiver disponível para download gratuito.
FELIZ ANIVERSÁRIO, KATHERINE MANSFIELD!
No ano de 2005, em uma disciplina de Literatura Inglesa no curso de graduação, conheci Katherine Mansfield por meio do conto “The garden party”. A sensibilidade da temática me cativou de imediato, tanto pela atitude empática da jovem quanto pela reflexão que ela faz sobre a vida ao final do texto. Desde então, pesquisar Mansfield – sua vida fora dos padrões, seu estilo de escrita suave e atmosférico, seus temas tão caros à vida da mulher – tem permitido trazer as reflexões de suas personagens à vida da mulher do século XXI. Constatar que, após mais de 100 anos de sua morte, tantas mulheres dedicam-se a ela demonstra que seu legado foi e segue forte!
- Tainah Freitas da Rosa, doutoranda em Estudos Literários, Universidade Federal de Uberlândia
Nunca tive predileção por contos; sempre preferi, na verdade, os romances. As formas breves me pareciam incompletas, insossas. Foi apenas na faculdade de Letras que me embrenhei por essas veredas, onde encontrei Katherine Mansfield. Entre tantos outros contistas, ela. Com “Bliss” percebi o quanto, na verdade, era possível contar em uma narrativa tão aparentemente reduzida. Os detalhes de uma casa e de um evento social, as personagens, as imagens, os papeis e as instituições sociais postos em xeque, um triângulo amoroso, o afeto, a crítica social e a interioridade foram elementos que não apreendi de uma só vez na primeira leitura. Li e reli o conto um tanto de vezes. Fui pesquisar técnicas das formas breves, fui ler e reler textos de outros contistas. Voltei para “Bliss” e mergulhei em mais contos de Mansfield. “Na Baía” me fez ver o quão sensível e habilidosa ela foi enquanto escritora. E assim foi, um conto atrás do outro, uma personagem atrás da outra: Laura, Miss Brill, Frau Brechenmacher, Millie, a mulher da loja, Matilda, Kezia – e a família Burnell –, Raoul Duquette, Bertha Young, Josephine e Constantia, Ma Parker, Leila, Rosemary Fell e tantas outras. Fui percebendo o quanto podia caber em tão pouco – e o quão forte a forma breve pode ser. É possível enxergar o contexto do início do século XX nos textos de Mansfield devido à forma e às técnicas que adotou (muitas delas absorvidas de Anton Tchekhov) e também às temáticas que escolheu trabalhar, como as discrepâncias sociais, o papel da mulher na sociedade, o alcance de uma guerra mundial, a vida moderna fragmentada e a infância e a vida em uma colônia britânica. É possível ver também traços de outras vertentes literárias, como o realismo e o simbolismo. Tendo escrito apenas poemas e contos, Mansfield retomou tendências dessas duas correntes para consolidar sua própria escrita no modernismo literário inglês. Assim, na história das formas breves, ela se destacou entre os maiores contistas, tendo definido um estilo reconhecido e seu.
- Ana Rivas Gagliardi, mestranda em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês, USP
Eu comecei a ler Katherine Mansfield, como a maioria das pessoas, pelos contos. Lembro de ter comprado muito novinha o livro “Cinco Contos”, da Paz e Terra, um dos menores livros que já vi na vida. Nessa primeira leitura, me chamou a atenção não apenas o protagonismo feminino, mas a caracterização das personagens femininas despida de idealizações, o que diferia do meu repertório de leitura da época. Considero excelente que Mansfield tenha circulado tanto no Brasil, em edições suntuosas (como a da coleção Mulheres Modernistas da Cosac Naify) e também populares, como essa que tive. Sem dúvida, esse micro-livro foi importante em minha formação de leitora. Hoje, continuo adorando o modo como Mansfield constrói suas personagens, seu senso de humor, o absurdo que ela detecta em certas situações da vida cotidiana. Como leitora e tradutora, tive a oportunidade de traduzir um pouco de sua poesia para a Revista Mallarmargens e também de revisar as traduções publicadas pela Editora Cabriolé.
- Júlia C. Rodrigues, doutora em Teoria e História Literária, Unicamp
Assim como a Júlia, “Cinco contos”, pequeno volume de bolso editado pela Paz e Terra nos anos 1990, foi meu primeiro contato com a obra de Katherine Mansfield. Eu o levava na bolsa para lá e para cá e relia o tempo inteiro, intrigada com o fato de que não havia informação sobre quem o traduzira. Na faculdade de Jornalismo, conheci o livro Crítica e tradução, de Ana Cristina Cesar, que contém a tradução anotada do conto “Bliss”. Foi impactante ao ponto de me tornar uma leitora/escritora obcecada pela técnica literária de Mansfield. Já mestra em Literatura, durante uma disciplina ministrada por Jorge H. Wolff, na UFSC, conheci um conto de Dalton Trevisan publicado na Revista Joaquim em 1947 - uma carta endereçada a “My darling Katherine (Mansfield)”. E assim descobri uma relação que durou mais de 70 anos e rendeu muitos contos. A pesquisa de doutorado sobre o tema me levou a querer traduzir Mansfield e também a me integrar à Katherine Mansfield Society. Com essa sociedade de pesquisadores do mundo inteiro, tenho aprendido muito sobre a potência do legado da escritora e como ela tem sido estudada em diversas vertentes, abordagens e relações. Recomendo a todas as pessoas interessadas que se tornem membros da KMS. https://katherinemansfieldsociety.org
- Katherine Funke, doutora em Literatura, UFSC.