ㅤ🎋 𝗧𝗛𝗘 𝗔𝗡𝗔𝗧𝗢𝗠𝗬 𝗢𝗙 𝗪𝗢𝗢𝗗𝗦; o bosque me engoliu quando ainda era cordeiro, quando minha lã reluzia sob o sol como neve recém-caída, e meus cascos não conheciam o amargor das raízes que crescem entre as pedras escuras — e então me cuspiu, ou deu-me a luz, na floresta mais densa, onde o tempo se retorce em cânticos sussurrados. Agora, ovelha sou, moldada com manchas de terra contra o musgo, um vulto que se arrasta entre os carvalhos cujos galhos se curvam sob o peso de presságios que não ousam contar: as serpentes são as minhas únicas companheiras verdadeiras. Elas deslizam sobre os meus cascos rachados, enrolam-se nas partes onde a lã caiu para sempre e línguas bifurcadas provam o sal de meu sofrimento. A maior delas — a cinzenta e quase translúcida, que se esconde no oco da árvore onde durmo — às vezes repousa a cabeça sob meu queixo, como se buscasse ouvir os batimentos do meu coração de ovelha. Quando choro, ela bebe minhas lágrimas antes que toquem o chão terroso, e me pergunto se, em algum lugar dentro dela, estou sendo preservada, transformada, enraizada em algo que nem mesmo os deuses ousam nomear. Pois minha lã tornou-se um emaranhado de espinhos e lírios, bege como marfim, com folhas secas e pedaços de casca grudados na resina em excesso. O riacho que corta a floresta reflete menos do que fragmentos — suas águas mostram apenas pedaços distorcidos, ossos e tufos de pelo que poderiam ser qualquer coisa, qualquer criatura que rasteja e chora nas profundezas, onde nem mesmo as raízes mais famintas alcançam. Bebo dele mesmo assim, a língua lambendo a superfície oleosa a metal e a coisas não tão esquecidas. E quando ergo a cabeça, lá estão os cavalos selvagens me observando da margem oposta, olhos escuros cheios de um conhecimento que nenhuma ovelha deveria compreender. Mas não sou qualquer ovelha; tenho olhos de salgueiros e sangue que inspira o fogo, e este é o meu sorriso de olá — e eles não fogem, não como fariam se eu fosse uma loba ou urso — permanecem imóveis, farejando o ar que carrega meu cheiro, minha essência diluída em algo que já não é do rebanho, mas ainda não é predador. (…) Amanhã, talvez eu finalmente tenha coragem de seguir os cavalos selvagens até o coração da floresta, onde as árvores são tão altas que nem o tempo consegue passar entre elas — somente o canto dos pássaros. Ou talvez eu continue aqui, sussurrando junto das abelhas que mergulham em lírios perfumados, conforme mastigo meus próprios tufos de lã, bebendo água parada e esperando que a serpente um dia me diga o porquê de ainda me importar em balir, quando em minha mente estou a cantar. Oh, estou a contar.
ㅤ[é primavera. a primeira luz da manhã revela os rastros de algo que se arrastou ao redor da minha árvore a noite toda. eles não são de lobo, nem de urso, nem de homem. talvez sejam meus. talvez eu já tenha começado a mudar e simplesmente não tive coragem de perceber; luz da primavera, aqueça-me em minha lã ⸺ 🍂🍃🐑].














