leito
anis-estrelado, cravo e canela. eu me cerquei de tudo que pude encontrar e, com muita fé, em uma noite de lua crescente, eu fiz minhas preces. eu tinha medo de amor, tinha medo de me sentir preso no cerco de um sentimento, agora, entretanto, tenho medo de nunca alcançá-lo. então, como quem escorrega de um penhasco, me seguro em tudo o que posso para não cair no abismo. meu tempo já acabou, minha hora passou e temo que não terei muitas histórias para contar. o rio jaz escuro e sem peixes, a terra foi salgada e as árvores incendiadas. você vê o que eu vejo? não há necessidade de consultar as cartas ou de ler o que as runas dizem. eu já tenho a resposta no meu âmago. ainda que deprimente, eu vi que esse seria o meu destino há muito tempo, muito antes de eu me tornar quem eu me tornei. sou uma manifestação vã de um ser, um recipiente vazio, outrora cheio de esperança. o amor que busco já queimou e as cinzas escapam pelas minhas mãos, pelas fendas entre meus dedos. por mais que contraditório, ainda me prostrarei em frente ao meu altar perolado iluminado pela lua, buscarei na fumaça do incenso alguma resposta e me contentarei com a esperança de encontrar algo de concreto. sei que as probabilidades são baixas, mas até a mais miserável das criaturas rastejantes dos becos sujos merece um leito confortável para se deitar e não hesito em pensar que o mesmo vale para mim. se a noite tiver piedade, ela me dará um vento frio a acalentante para beijar o meu rosto e gotas de uma chuva gélida para bombardear o meu corpo de toques há muito privados de mim. assim, descansarei em quietude e conformidade.












