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Janaina Medeiros

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@itineranthos
Moann (2022)
processo.
se engana quem pensa que poema é espelho
d'água, vidro ou ferro bem polido
poema é um pouco de conteúdo muito
é projetor sem anteparo faz-se no ar e cada um vê como quer/não quer
poema é quadro branco pintado em parte
eu, poeta pinto aqui
e tu, pinta ali
me pinta na sua cabeça e eu, a ti, na minha
teléfono
aquele telefone vazio de chamadas, de tons, de toques, de jingles
deixa um vazio que fala muito deixa os sons de fora as cigarras, os carros, as araras o batucar dos ponteiros do relógio da cozinha
o vazio das conversas que já chamei de minha
como eu odeio esse vazio
re-remorso
Envergonham-me os velhos escritos envergonham-me os tropeços ainda frescos sob a testa e os já passados, em sépia.
Envergonham-me os tweets os de um passado pouco longe mas muito vividos um viver intenso onde o amar e o chorar fazem ciranda com o pensar
Envergonho-me das chagas, das lanhadas dadas ao deus-dará que dei com a minha língua, chicote do meu corpo
Envergonho-me de alguns beijos os que não dei, os que não devia e ainda os que não podia; em cada um, repertório para crises e em cada uma, um eu que erra às vezes
Acontece que hoje em dia, às vezes é quase sempre porque as certezas são acidentes que se repetem
Uma vergonha sólida, tão sólida que fiz de coberta e tentei dormir; não consegui
Fiz de chapéu e me vi com ele feio, amargo, estranho
Então, fiz de papel e até que me serviu
Com ele, escrevo rasos versos procurando com minha vergonha outra razão pra me envergonhar.
silva/selva
Sou sertanejo Em denso e grosso matagal, véu negro de folhas que assim se faz no cair do dia
odre vazio, caminho andarilho por via em abstrato definido as costelas de adão coçando-me a fronte, distraindo os cansados sentidos
Machete em punho Corto as trilhas a muito e pouco feitas por quem já veio as pegadas minhas apegam-se às daqueles que já passaram
tomo em meu torso o que foi o bandeirante sanguinário em silêncio na mata, procurando riquezas roubadas, para também roubá-las, e fazê-las finalmente o meu finalmente que fará desta trilha leve pesar.
solstício
Vou transformar a solidão da sua perda
em amor pela vida
do veneno em solo que foi a sua rejeição
farei brotar girassóis
e pirilampos sob as flores anuciarão o verão
da minha nova vida
longe de ti, mas mais perto do mundo
amnésia seletiva
Esqueci Os dias da seara de minha infância Quando eu, ainda novilho Deleitava-me de raios de sol e do pasto fresco
Esqueço Quase todos os dias a razão de viver que me fez levantar da cama Os cheiros que me lembram das pessoas que já passaram
Esquecerei De pedir a minha mãe que guarde os cadernos que usei Das fotos nos momentos certos Os trechos de livros e pessoas que quero pra mim
Só não esqueço dessa tua imagem O quadro mais lindo que fiz de você na cabeça Com as flores e os perfumes que me fazem lembrar do que já foi nós
No meu hoje, tu és o passado Mas não importa o que tiver passado Sempre estarás ali, no hoje
Não vale a pena dizer Essas doces palavras Que me ocorrem agora Se tapados estão teus ouvidos
leve hiato
parei de tentar entender o que tu sente
mas não vou parar de sentir por você o que não entendo
ab.
Quem é ela? Que adentra meus sonhos e perturba minha paz
Quem é ela? A quem devo tanto desconforto, tanta infortúnio?
Quem é ela? Com quem não tenho dívida mas ainda assim quero pagar-lhe com minha vida?
Quem é ela? Com quem pouco falei mas ela, com pouco, tirou-me muito
Será que é ela? Será ela a Ela? Ou será que já foi a Ela?
Aquela que me extirpará da inércia que de mim irá tirar o poeta e tornar ator pronto a bailar nas peças e atos dos quais farei minha vida
Que de mim, garoto, fará homem consciente de toda injustiça do mundo e pronto a dar meu peito por isso
Pois se a amarei como tudo no mundo, também lutarei para que todos possam amar e serem amados como sou
Não sei se é ela Ela nem me conhece Acho que ela não existe
Se ela está em algum lugar, deve estar dentro de mim Eu só preciso deixá-la voar
Talvez um dia, tal qual ave de rapina Ela permita que eu a veja, e eu perceba, Que todo esse amor que eu tenho para ela
Já está dentro de mim.
Sessão
É quebra cabeça
Desmonto-me no chão da consciência
Vejo o que sou vejo quem fui vejo o porvir
Remonto-me no no choro de quem fala tudo o que não se deve falar
Exposto, vejo tudo que me faz este ser em frangalhos Vejo os retalhos e lembro-me de cada quadro
das memórias que me fizeram este ser este poeta sem causa
E no final do processo a reescultura que fiz de mim é a mesma
é um espelho fora de si que reflete ecos ecos daquilo que me faz único
encerra-se o processo, e com ele volto à consciência de que mudei tanto quanto precisava
se antes era pouco agora sou bem menos, sou menor, sou enxuto
mas sou pleno e leve ao pensar que dentro de mim reina uma efêmera paz
toca o sino fecho a porta
e sigo sozinho
neste ciclo eternamente quinzenal
Sonhos.
Eu sonhei que tu estavas sonhando
Resta-me entender Se no sonho eu dormia Ou desejava
mais um momento sem só um momento de nós um momento com dó
Do que eu me tornei quando perdi você
Recebi vários seguidores recentemente. Quero dizer que sou grato de todo o meu coração por vocês terem escolhido me acompanharem com a minha arte. Lhes desejo um lindo dia, e reafirmo aqui minha vontade de me expressar e de compartilhar cada pedaço com vocês.
Os textos mais bonitos foram escritos por pessoas com corações partidos.
Planteador (via inteirato)
Tudo que eu já escrevi aqui, escrevi sofrendo
potência
não dá mais eu preciso de um médico de um analista de um amigo de um ombro de um colo de ajuda de um livro de alguém de um beijo de um amor de umas fotos, uns poemas
não sei de nada
mas sei que preciso tirar isso de dentro de mim
esse ímpeto
de palavrar tudo que vejo fazer do átomo, verso do éter, estrofe do vácuo, rima
mas sem métrica porque viver não é soneto é verso livre, de sanidade
porque vocês não entendem e sequer empatizam
mas quem sou eu para lhes acusar? e quem sou eu? e quem são vocês na minha vida?
desculpa, essas perguntas me surgem do nada
acho que tô me complicando de mais e me entendendo de menos depois de tantos anos sofrendo sozinho