Guaíra é uma cidade no interior do Paraná que faz fronteira com o Paraguai. É a cidade onde a Dani mora, uma das melhores amigas do Marcos, e que me ajudou um montão com as aquarelinhas (Dani linda!). Fomos para lá duas vezes em 2015, e devo confessar que é uma cidade bastante encantadora, com todos os seus temas históricos e aquele charme de cidade do interior, cultivando suas tradições sem muito esforço.
Uma das coisas que mais me chamam à atenção é o fato de que Guaíra tinha a maior cachoeira do mundo antes da construção da Itaipu.
Imagens das Sete Quedas.
Fonte.
Pois é. Era algo parecido como as Cataratas do Iguazú, e quando a Usina foi construída, essa paisagem ficou submersa em água. Os moradores todos comentam o assunto, vimos fotos até na sorveteria. É de cortar o coração. Por isso galera, vai aproveitar os Parques Nacionais e a natureza desse mundo antes que tudo seja... submergido.
Em um dos dias em que estávamos lá, nos juntamos com um grupo de cinéfilos e assistimos "O Escafandro e a Borboleta". Eu já tinha visto o filme e a parte mais interessante dessa visita foi o teatro em si, que tem uma estrutura bem interessante com uma porta gigante que abre para a natureza no palco.
Também fomos de carro para o Paraguai, saindo de Guaíra tem uma ponte enorme que conecta os dois países, passando por cima do rio Paraná. Aliás, o rio Paraná banha uma parte da cidade, onde algumas pessoas vão para pescar e coisas do gênero.
Os dias em Guaíra foram de descanso e tranquilidade. Eu tinha acabado de sair de São Paulo e ainda estavamos planejando nossa descida para Ushuaia. Passei boa parte dos dias pintando, e à noite cozinhavamos para a Dani.
Ambas as vezes que fomos para lá, quem nos deu carona foi a própria Dani, já que os pais dela moram em Cascavel (cidade do Marcos) e ela passa alguns fins de semana por lá. Mas as duas vezes que fomos, voltamos de carona. Na primeira vez, pegamos carona com um caminhão que deixou a gente 10 km de Cascavel numa curva no meio do nada. Pensamos um pouco sobre: continuar caronando nesse lugar onde os carros passam a 1000 km por hora ou seguimos caminhando?
Era aquela hora do sol à pino e resolvemos ir caminhando. O Paraná é um estado cheio de plantação de soja, e nessa caminhada passamos por um momento onde um fazendeiro estava jogando veneno nas plantas de soja. Tivemos que protejer nossos rostos porque era bem forte.
Uma plantação de soja toda bonitinha e envenenada
Essa e mais umas duas ou três experiências que eu tive na estrada mesmo me fazem pensar muito antes de comer e entender a nossa neura atual sobre orgânicos e comida natural. É diferente você ler um texto no Google de você presenciar o envenenamento acontecendo. Enfim, caminhamos como camelos e chegando na cidade a primeira coisa que fizemos foi tomar uma água de côco delícia.
Já a segunda vez, tivemos uma sorte tremenda de pegar um caminhão que deixou a gente na cidade. No vídeozinho abaixo tem alguns fragmentos desses dias e da caronagem.
De Guaíra, levo a lembrança do Paraná quente e de chão vermelho. Dos horizontes e das ruas cheias de frutinhas. Das pracinhas bonitinhas, do clima da cidade de interior, onde ainda tem crianças brincando na rua. Mas obviamente, o príncipal é a Dani, essa mocinha meio mexicana que leva a gente para conhecer a cidade e a conhece tão bem, sempre fazendo comentários interessantes e válidos, se empolga com nossas comidinhas e é sempre meiga. Obrigada por tudo Dani ♥
“O dia do meu aniversário” ou “A carona com o Christian” ou “O meu conto de fadas preferido”.
(Queria fazer um parênteses enorme aqui e dizer que desisto da dinâmica anterior desse blog. É bem díficil manter o blog dia-a-dia com as andanças, e decidi escrever de acordo com as memórias que dançam comigo quando me deparo com um computador - já que o meu pifou [R.I.P.])
11 de janeiro de 2016. Estávamos caronando freneticamente desde a Patagônia chilena até o Brasil porque tínhamos que chegar rápido para o Marcos dar aula e eu fazer a entrevista com a Costa. No dia anterior, perto das 16h30, pegamos carona com um cara chamado Christian.
O Christian parou bem onde a gente estava para deixar uma velhinha pra quem ele tinha dado carona também. Ela pulou do carro, nós subimos. Contou que era o aniversário dele (vai vendo!), e que na noite anterior tinha dormido pouco por razões de ~festa~, mas que estava ali a trabalho e tinha que chegar em Puerto Montt no dia seguinte, o dia do meu aniversário. Iria parar em uma cidade ali perto chamada Puerto Cisnes e que a empresa paga uma cabana para ele ficar, sendo assim poderíamos dormir lá na cabana também e seguir viagem com ele. Óbvio que fomos. Puerto Montt fica a mais de 500 km de onde estávamos era uma bela e grande mão na roda.
O caminho até Puerto Cisnes é maravilhoso. Uma cidadezinha espremida entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, no meio da Patagônia. Imaginem vocês que a Carretera Austral, estrada que dá acesso aos caminhos díficeis da patagônia chilena, foi contruída por Pinochet. Antes disso, tudo ali era quase inacessível. O lugar é bem único e se manteve bastante autêntico.
Eu não podia acreditar direito, porque era tudo muito legal. Por ser aniversário do Christian, prometemos cozinhar. Ficamos em uma cabana de frente para o mar, eu fiz uma pasta com frango assado, tomamos vinho, conversamos e comemoramos o dia. Ele ia passar o aniversário dele longe da família, à trabalho, em uma cabana alugada em uma cidade bem bem fria. Mas estávamos lá para cozinhar, conversar e animar uma noite que era dele. Nesse dia, realmente senti que era de igual para igual, e não que o Chris estava fazendo um favor para nós dois. Uma atmosfera mágica se instalou naquela cabaninha em Puerto Cisnes. Fazia só quatro horas que nos conhecíamos e ninguém realmente se importava com esse fato.
Dormimos. No dia seguinte, o Chris acordou sem pressa, tomamos café e tudo. Fui surpreendida com uma ligação de um amigo, que conseguiu me ligar para me dar parabéns. Saímos, e o Chris deixou eu escolher a trilha sonora. Uma parte do caminho fomos ouvindo uma coletânea de Jazz e a outra parte a trilha sonora do Pulp Fiction. Fazia uma retrospectiva mental da situação toda e não podia imaginar como aquilo podia melhorar. Era sem dúvidas o aniversário mais diferente da minha vida.
Quando chegamos em Chaitén, perto das 15h30, deveríamos pegar uma balsa, e pelo mar chegar ao nosso destino, Puerto Montt. Mas quando chegamos lá, a última balsa já tinha saído. Agora só no dia seguinte. O Chris ficou mal e eu sem saber o que fazer. Ele disse que dessa vez, não poderia arcar com uma cabana pra gente também, porque ele ia ter que pagar com o próprio dinheiro. Eu já conhecia a cidade, porque tinha passado por ali no ano anterior. Inclusive, no ano anterior, tinha prometido voltar para acampar no Parque Pumallín.
Opa, pera.
Hum...
Sugeri acampar para o Marcos. O Chris disse que levava a gente até o Parque. Fomos.
Eu estava bem feliz. Bem mesmo. Tão feliz, que quando caminhávamos até o camping do parque e os guarda-parques pararam para dar carona pra gente, meu cumprimento foi:
"Oi, eu sou a Isabela e hoje é meu aniversário :D"
Os chilenos são bem fanfarrões também. Depois dos dois quilômetros de carona que ganhamos parque adentro, um deles me chamou de canto e disse: vem pagar depois das 18h30 que dá pra fazer um desconto. Eles eram tão legais que buscaram o Marcos que tinha parado pra ir no banheiro e nos deixaram bem na entradinha do camping.
Aproveitaram para dar carona para dois australianos que tinham acabado de chegar também. Nos juntamos à eles e fizemos um piquenique improvisado com pão negro australiano e uma pasta feita de mel, porém salgada, chamada Vegemite que eles costumam comer por lá. O vulcão de Chaitén soltava fumacinha, e eu achava assustador e encantador ao mesmo tempo.
Quando deu a hora de irmos pagar, deixamos tudo fora da barraca de qualquer jeito e fomos em direção à cabana dos guarda-parques. Passamos por vários motorhomes incríveis, inclusive um que era decorado como o carro do Scooby-Doo. Viajantes tem bom senso de humor.
Conseguimos pagar metade do preço. Alegria! O guarda-parques em questão insistiu que deveríamos fazer uma trilha curtinha que tinha logo ali do lado de fora da cabana. A trilha era guiada com um papel, que eu tinha que devolver depois e ia contando os tipos de plantas e árvores que tinha por ali.
Um lagartinho no dia do aniversário :)
O sol daquela parte do sul do mundo tem uma luz bem peculiar em janeiro. E no momento da trilha, ele estava se pondo de uma maneira muito elegante, entre árvores milenares e plantas tão antigas como os dinossauros.
Encontramos frutinhas de calafate. No ano passado, quando estive por ali, me contaram que quem come calafate, volta para a Patagônia. Acontece que o Marcos começou a comer um montão, e colher, e encher a mão de calafatinhos. E eu fiquei: "Menino, não faz isso não! Vamos levar bronca! Não pode!". Saímos da trilha e as duas crianças estavam com a boca toda roxa de ficar comento frutinhas silvestres.
No momento que fui entregar o papel da trilha de volta pro guarda-parques, disse pro Marcos me esperar do lado de fora e entrei na cabana escondendo minha cara entre as mãos e me esforçando muito para não sorrir: "Bacana a trilha, brigada, beijo!" e fui saindo, com medo que eles percebessem que tínhamos comido metade dos calafates da floresta.
Saí correndo, vitoriosa por passar despercebida, viramos a curvinha da cabana, ufa! Eis que uma voz chama a gente, e nos viramos. Meleca, nos descobriram. Vamos ser presos. Vão expulsar a gente.
Só que não!
Uma moça que até então eu não tinha visto pelo parque disse que tinha escutado que era meu aniversário e perguntou se não queríamos tomar um chá. Não é incrível?
Mais que óbvio, aceitamos. O Marcos já perguntou: "Erm, eu peguei essas frutinhas de calafate, tem problema?" "Claro que não!", ela riu de volta, tentanto entender qual seria o problema de comer calafatinhos.
Entramos na cabana dos guarda-parques e bem, estava tonta de tanta surpresa em um dia só. A cabana deles era muito legal. Tinha um lindo espaço, era bem quentinho, tudo de madeira, aconchegante.
E aí eles começaram a contar a história deles (Não lembro os nomes, então vai ser Maria e João, tá?). O João trabalhava ali desde os 21 anos, ou seja fazia 7 anos. É natural de Chaitén, e não troca por nada. A Maria é de Santiago, e alguns anos atrás, veio com a família visitar o Parque Pumallín. Ela se distraiu um momento, se separou da família, começou a divagar sobre questões existenciais (Quem somos, para onde vamos, etc) e começou a chorar. O João a encontrou nesse momento e desde então se apaixonaram e estão os dois morando naquela cabaninha e trabalhando no Parque.
De longe, o melhor conto de fadas da minha vida.
Enquanto conversávamos os quatro frenéticamente sobre a vida, a natureza, viagens e tudo o mais, percebi que o João não saía da cozinha. O tal chá não tinha sido posto ainda. Algum tempo depois, percebi que ele estava cozinhando um kuchen (tipo uma torta doce bem comum no sul do Chile) de banana. Poxa, o Universo tava mesmo querendo me ver feliz nesse dia!
Sei que o tal chá terminou já eram mais de 23h. E bom, um Parque Nacional não costuma ter energia elétrica. Saímos da cabana e tinhamos um lindo breu para conseguir encontrar nossa humilde barraca de 2m x 3m em algum lugar no meio daquela natureza toda. Ainda tinha algo de bateria no celular, que deu para iluminar o caminho pelo menos.
Essa caminhada silenciosa, no escuro, no fim do dia. Coube tantos pensamentos dentro desse momento. Minha vida era tão legal e divertida como a do Harry Potter. Os meus cenários eram de tirar o fôlego como os do Hobbit. Minha história era mais interessante do que qualquer novela da Globo, nem Anos Incríveis era tão legal. Meus personagens de ficção da infância eram fichinha perto do que eu estava vivendo. Afinal, eles eram ficção. Eu não. Eu estava bem, bem onde queria estar. E nada no universo tem o mesmo gosto.
E esse foi meu aniversário. Quando chegamos no camping, nossos amigos australianos tinham guardado nossas coisas na barraca, já que tinhamos demorado. O vulcão devia estar soltando fumaça ainda, mas era normal mesmo, tinha tirado a dúvida. No dia seguinte, o Christian pegou a gente no parque, cruzamos o caminho de balsa, chegamos no nosso destino. Era terça-feira.
Nos primeiros meses que comecei a participar do processo seletivo para trabalhar no cruzeiro, fiquei bastante desnorteada. Até então, me imaginava passando longas temporadas na Patagônia, vendo as estações mudarem de maneira formidável como já tinha visto uma vez. Até então só sabia que em julho de 2016 deveria estar no Perú. Mas... como sempre conto, tomar um mate na casa de um amigo pode mudar radicalmente as coisas.
Em setembro de 2015, eu não tinha pretensão nenhuma de conhecer o Brasil. Não tinha uma rota, não tinha lido artigos na wikipédia, não sabia quais eram os parques que eu iria visitar. O Brasil era tão exótico para mim como era para um gringo - e capaz até que um gringo soubesse mais.
Santa Catarina era um estado tão fora do eixo dos meus planos. Quando eu morava em São Paulo, tudo parecia longe e caro demais. Por isso nem dava muita bola - para não passar vontade. Mas parece que quando embarcamos na maré da viagem, as coisas acontecem meio sem querer e de repente estamos em um lugar onde não planejamos muito bem estar. E é só se deixar levar...
Eu e o Marcos saímos da casa dele em Cascavel em uma sexta bem cedinho. O pai dele nos deixou em uma PRF na BR277, o sol nascia e antes mesmo de ele se erguer completamente, já estávamos em uma carona que durou o dia todo. Era um caminhoneiro catarinense. Lembro que ele fazia umas piadas bem grosseiras e machistas e olhava para mim para ver se eu achava graça. Achava graça mesmo era da situação e não podia evitar rir também. Chegamos a uma Curitiba anoitecendo. Descemos em um trevo, e resolvemos arriscar caronar à noite. Pegamos um ônibus até a PRF da BR376 e antes de respirarmos três vezes, parou um carro de um moço bem jovem que estava começando seu negócio de wraps caseiros e estava até planejando ir ao México para se especializar. Ele nos deixou em uma PRF de Joinville. Contamos até dez e parou um carro que nos levou até a rodoviária de Florianópolis. Essa última carona era com um skatista que foi ouvindo Cypress Hill no talo e eu não conseguia conversar com os meninos na frente. Foi tão fluído que eu já pressenti que Florianópolis me preparava boas experiências.
Aqui devo pausar para explicar algo. Desde que conheci o Carmona em janeiro de 2015, quando ele foi para Buenos Aires, participo de um grupo de caroneiros que até então não era muito ativa por estar na Argentina. Desde que pisei em terras tupiniquins, porém, conheci quase todo mundo :-) Sabe, nós brasileiros somos bastante sociáveis. Rapidamente formamos grupinhos e fazemos amigos que acompanham nosso caminho. Não temos muito rodeio, rapidinho todo mundo vira brother, mano, mana, parceiro, truta, primo. E acho isso o máximo.
E chegando na rodoviária de Floripa, a Nane do grupo foi buscar a gente na rodoviária e nos levou até a casa da Pips que também é do grupo. No dia seguinte, o Carmona também se juntou e comemoramos o aniversário do Marcos com várias histórias caroneiras e os doces inesquecíveis da Nane.
Floripa estava em dias cinzas quando cheguei e devo confessar que achei de grande charme. Gosto de dias cinzas na mesma proporção que gosto de dias ensolarados. No Cacupé saí para caminhar um dia e dei uma volta por um quarteirão que não era bem um quarteirão, me perdi, tentei voltar pela praia, tive que "invadir" praias privadas, subir pedras insubíveis e finalmente me achei. Foi divertido.
Os dias na casa tranquila da Pips foram de preguiça e descanso. Várias vezes choveu, muitas vezes cozinhamos maravilhas vegetarianas e eu fui criando um carinho bem grande pela Pips, seus cachorrinhos e aqueles dias chuvosos.
Um desses dias, eu e o Marcos fomos fazer a trilha da Lagoinha do Leste, chegando em uma praia que só é acessível por essa trilha.
O Marcos apareceu com dois amigos adolescentes que nos acompanharam por todo o trajeto até o fim do dia. A trilha começa na Praia dos Matadeiros, é um pouco longa e precisa de um dia inteiro para percorrer tudo, mas como é de se esperar, maravilhosa.
Tenho certeza que nós quatro tivemos um dia bastante agradável, e na hora da volta fomos por uma outra trilha onde saímos na Praia do Pântano do Sul.
Um outro dia, fomos visitar uma casa onde ele morou no Canto da Lagoa, e lá daquele tal canto apreciamos uma bela vista da Lagoa da Conceição.
Passei uns dias na casa do Edu, que eu conheci em Bariloche - e as rotações do mundo fazem a gente se reencontrar -, que mora muito perto mesmo da praia do Campeche. No primeiro dia almoçamos em um restaurante vegetariano do jeito que eu gosto: escondido e com comida boa e barata! Botamos a conversa em dia. Como o Edu trabalha todo o dia, passei um tempo com a cachorrinha dele, Morcega.
Não sei o que que a Morcega tem, mas é uma das cachorrinhas mais legais que já conheci. Fomos na praia do Campeche juntas e caminhamos até a Praia Joaquina, onde ficamos vendo um pessoal aprendendo surf. Na volta, corremos atrás de pássaros, nadamos no mar e passamos um longo tempo em uma duna de areia só observando o movimento hipinótico do mar.
A video posted by Isabela Kayo (@isakayo) on Oct 23, 2015 at 1:59pm PDT
Em Floripa, as pessoas pegam carona no meio da cidade. E eu comprovei por mim mesma que era assim mesmo. Saí da casa do Edu e voltei para a Pips e foi com três caronas. A primeira delas, que foi bem no centrão da cidade, foi com uns meninos que tocavam samba em um barzinho. Foi dentro dessa carona que tive a certeza de que Floripa era um lugar adorável para morar. Uma cidade que é capital, é ilha, tem praia, tem lagoa, tem trilha, é bastante artística, as travessas se chamam Servidão, é fria quando é pra ser fria e é quente quando é para ser quente. E ainda dá para pegar carona dentro da cidade.
Quando saímos da cidade, íamos de ônibus até a rodovia para ir até Curitiba. Uma moça que estava no ponto de ônibus resolveu pagar nossas passagens. Fomos conversando, e ela é uma fotógrafa como vocês podem ver aqui. Como não amar essa cidade?
Já fazem quase nove meses que passei por lá e é difícil lembrar de cada textura, mas estou certa de que a cidade fez questão de pedir um "volte em um momento menos apressado". Tá nos novos maleáveis planos.
Eu estava tentando ligar para o Fê desde as terras argentinas, mas sem sucesso. Acontece que o Fê tem um pequeno conflito com redes sociais, telefones e meios de comunicação em geral. Mas imaginava um abraço e já voltava para o telefone. Não saíria de Foz sem pelo menos um mísero abraço.
Cansados, porém contentes, eu e o Marcos atravessamos a fronteira de Foz já era quase meia noite. O que fazer? Pedir carona? Cruzar a pé? Pegar um ônibus? Fizemos as três coisas. Começamos a pedir para os carros para nos levarem, mas óbvio, ninguém quer dar carona em uma fronteira, ainda mais naquela hora. Resolvemos ir caminhando. Eu estava empolgada com a idéia de passar caminhando na ponte que tinha passado em 2012 quando fui pela primeira vez para a Argentina. Metade da ponte é pintada com as cores do Brasil e a outra metade com as cores da Argentina. Mas antes de chegar na ponte, um taxista parou e resolveu levar a gente. Subimos no carro e eu não acreditava, mesmo depois de tanto tempo de ocorrências similares, em como as pessoas podem ser legais quando você tem uma mochila nas costas. O taxista deixou a gente na cidade e pegamos um ônibus até a cidade. Fomos para um hostel. Tomamos uma cerveja. Brasileira. Conhecemos uns gringos do hostel e logo fomos dormir.
Café brasileiro. Simples, mas tem bolo e café :D
Arroz!Feijão!Batata e macarrão!
Quando amanheci estava afoita. Queria comer comida brasileira. Ver meu amigo. Visitar as Cataratas. Tudo ao mesmo tempo. O Marcos continuava capotado, então fui explorar sozinha o que podia ser feito. Café brasileiro. Banana brasileira. Português na rua. Aquele calor úmido que só um país tropical tem. Essa primeira sensação de estar de novo em um terreno conhecido. Tão boa. Consigo comunicação com o Fê. Berramos por telefone: "EU TÔ EM FOOOOZ!" "COMO ASSIM VOCÊ TÁ EM FOZ??" "TÔ NO HOSTEL X" "TOU INDO AÍ!"
Açaí com cupuaçu e granola :D
Corri para a rua e fiquei andando de um lado para o outro esperando ele aparecer em qualquer esquina. O Fê é um amigão. Tipo irmão. Já moramos juntos em São Bernardo e em Buenos Aires. Ele participou de todas as etapas chaves da minha vida. Nossa amizade começou com uma carta: " oi, você parece legal, vamos ser amigos." E ali estavamos dez anos depois se abraçando em Foz do Iguaçu.
O Marcos também encontrou casualmente na rua uma menina que morou com ele em Floripa. Eu sou uma pessoa bem cética, até. Custo muito em acreditar em algumas coisas. Mas esses tipos de acontecimento me assombram. Me fazem vibrar. Me fazem lembrar como somos pequenos e ao instante, improváveis. E quando a gente viaja e deixa o improvável acontecer, a quântica reina de maneira majestosa.
Fiquei dez dias em Foz do Iguaçú. Conheci as Cataratas Brasileiras e as Cataratas Argentinas. Fui conhecer a Itaipu do lado do Paraguay. Fui na Ciudad del Este fazer compras e quase tive um ataque de pânico.
Ciudad del Este as 17h30.
Tomei cerveja no posto com os amigos universitários do Fê. Fiz rodinha de violão cantando Cássia Eller e tomando caipirinha na rep do Fê. Visitei a UNILA. Cada um desses dias merece uma postagem. Cada um desses dias me levantou questionamentos diferentes: Será que eu não devia tentar uma faculdade de novo? Será que o que eu estou fazendo é certo? Será que os anos vão continuar passando e eu vou sempre terminar em uma rodinha de violão com o Fê tomando caipirinha de Velho Barreiro e cantando Cássia Eller?
No dia em que fomos na Itaipú, ele fez um comentário pertinente: Não sei se acho incrível ou assustador. Parece que aquela região geográfica foi eleita para imponências naturais e humanas. Por um lado, as Cataratas são de tirar o fôlego, de onde raios sai tanta água? Do outro, ver toda aquela força natural sendo usada naqueles geradores gigantescos, e todas as consequências disso, como eu descobriria mais tarde em Guaíra. É materia para quebrar a cabeça por semanas. A tríplice fronteira é um dos lugares mais questionadores que já passei. E se você vai com seu amigo que mais manja de história, a coisa fica realmente densa. Quando a gente madura como viajante, deixamos de lado todo o falso glamour de "olha só como eu conheço muitos lugares legais" e começamos a olhar para os lugares como reflexo do que somos. Como seres humanos mesmo.
O dia em que fomos na Itaipú, estava contando fervorosamente uma história de Couchsurfing para o Fê e vi que um menino encarava a gente sem pudor. Uma hora que descemos do ônibus, puxei conversa com o menino. Era um viajante ciclista colombiano. Tinha ido até Buenos Aires pedalando desde Bogotá. Estava voltando. Estava mais perdido que agulha em palheiro, não tinha para onde ir, não sabia o que fazer. Chamei o Fê de cantinho e disse pra ele convidar o Edu para ir para a rep. O Edu não hesitou em aceitar, e horas depois ele chegou na casa do meu amigo com sua bicicleta, trocamos muitas figurinhas em espanhol, português, portunhol. Viagens, músicas, pessoas. Fizemos um amigo. Resgatamos um irmão perdido, e eu fiquei muito contente mesmo que o Edu apareceu aquele dia e, de alguma forma, pudemos ajudar. Mas eu queria que esse sentimento de irmandade existisse em mim não só porque eu viajo. Penso que, se eu e o Fê fossemos turistas e o Edu estivesse bisbilhotando nossa conversa, eu nem teria dado bola. Imagina então ajudar aquele menino de olhos esbugalhados. Porque a gente aprende desde pequeno a não falar com estranhos. Porque é perigoso. Porque reina o cada um na sua, porque nas américas fomos separados pela barreira do idioma onde todo mundo fala inglês, mas não falamos a língua dos nossos vizinhos. Porque a gente viaja para relaxar dos nossos trabalhos cansados, e não para descobrir o universo que não é o nosso. Tiramos fotos de tudo e não vemos nada. Tá tudo ao contrário. Mas foi o Edu que fez todos os meus questionamentos de estar fazendo a coisa certa calarem. Percebi que essa escolha de vida me fez mesmo mais humana, e que disso sai consequências que, ao meu ver, são minha forma de revolução. Ir contra tudo o que me foi imposto, não ter um trabalho, não terminar uma faculdade porque sim, não ignorar um menino cansado que se identifica com as minhas histórias e que está ao meu alcance ajudar. Eu fui embora da casa do Fê e o Edu continuou lá, ficou mais uma semana. Eu demorei seis meses inteiros para escrever esse texto, e lembrando de Foz do Iguaçu, lembro do abraço do Fê e dos amigos que ele me apresentou. Lembro do açaí que dividimos no centro. Lembro da tríplice fronteira e do amigo que ganhamos quando visitamos a Itaipú. O Caos da Ciudad del Este e toda a maquiagem colocada nas Cataratas. E do shawarma vegetariano mais gostoso que já comi na vida. Essas coisas não estão em nenhum pacote da CVC. Mesmo que espere minha aposentadoria para finalmente poder viajar, o que aprendi em Foz me fez calcular meus próximos passos e mudar a perpectiva de escolhas. Não dá para esperar eu chegar aos 60 para finalmente virar um ser humano, não dá.
Lá e de volta outra vez - chegando em terras brasileiras
"Você tá me conhecendo da maneira mais sincera que alguém pode me conhecer" - falei para o Marcos, quando estávamos entrando em alguma cidade vizinha de Santa Fé. Já faziam mais de 36 horas que estávamos na estrada, e eu me sentia pegajosa de poeira e cansaço. Era verdade, ali estava eu, exposta da minha maneira mais crua, desprovida de armaduras, maquiagens e roupas limpas.
Chapati com mel artesanal de San Marcos ♥
Saímos de San Marcos Sierras uma manhã de sábado, preparei chapatis - O pão árabe mochileiro, como um amigo argentino me apresentou: consiste em farinha de trigo integral, água, sal e fermento. É leve de carregar, fácil de fazer e não estraga ;), nos despedimos do nosso host Germán, das meninas artesãs e seus filhos, que foram correndo ficar no portão como os cachorrinhos fazem quando o dono vai sair.
Coisas que vemos pela estrada.
As caronas para sair de San Marcos foram fáceis, divertidas e curtas. Um senhor em uma caminhoneta, onde fomos na parte de trás. Um músico que queria construir um cajón. Uma moça que gostava de viajar e cozinhar. Um cordobês que amava o lugar em que nasceu. Um mochileiro que viajou por um ano no México e seu amigo fotógrafo, que não falava nada. Uma van sinistra cheia de paraguaios tímidos e trabalhadores que nos deixou na entrada de Córdoba. Daí pegamos um ônibus local para sair da cidade e um outro para chegar na ruta 19 - a que fizemos do começo ao fim.
Chegamos na cidade de Monte Cristo eram quase 18h, mas era cedo para parar. O Marcos com suas plaquinhas pré-fabricadas, tinha uma que dizia "Hacia Brasil". Vamos lá, né!
Vários carros passaram e não pararam, fizeram piadinhas com a plaquinha e sinais bizarros que nunca chegamos a entender. E o carro mais improvável parou, um senhor e seu filho em um carro que já estava pra lá de Bagdá e nos deixou na cidade viizinha, Río Primero, onde resolvemos dormir em uma construção abandonada na beira da estrada depois de mais de uma hora tentando carona pela noite, sem sucesso.
Dormir em construção abandonada: ✓
Na manhã seguinte, levantamos cedo e partimos para o mesmo ponto da estrada onde estivemos na noite anterior. Depois de uns vinte minutos, parou uma caminhonete e outra logo em seguida. Eu fiquei meio confusa achando que duas pessoas estavam muito dispostas a nos dar carona naquele domingo pela manhã, mas na verdade eles estavam juntos, voltando de um casamento. Entramos em um dos carros e o motorista desse se chamava Martín. Era a irmã dele que tinha casado. Não sei direito por quê, mas ele me passava a impressão de um cacique que estava ali responsável por aqueles meninos adormecidos de tanta festa. Me passou segurança, e nós, seres da estrada, confiamos bastante nos nossos sentimentos de segurança. Chegando na cidade vizinha, o Martín nos convidou para tomar café, e lá fomos nós.
Entre paranauês de piadinhas com mulheres e fernets das nove da manhã daqueles que não querem que a festa termine, uma coisa bem singular acontece. O Marcos sai para ir ao banheiro, e o Martín rapidamente se dirige a mim e pergunta:
- Você viu aquele filme, Na Natureza Selvagem?
- Óbvio que sim. Li o livro também. O moço me inspirou bastante.
- Então, no filme, o garoto sai e percebe que precisa de desfazer do ódio que tem pelos pais, na verdade a viagem dele é um processo para perdoar os pais, tanto que na hora que ele percebe isso quer voltar, mas já é tarde. Você não está fazendo isso, está?
FLAP na minha cara.
- Não, não. Eu gosto da vida da estrada mesmo.
Mas a verdade é que eu gostaria de ter respondido:
- Olha só, Martín. Eu não tenho uma boa relação mesmo com meus familiares, porém não acho que eles precisem de perdão porque nunca houve erros. Somos todos diferentes, somos todos humanos. Viajar para mim não é uma fuga, mas sim um encontro. É calar as vozes que sempre me sufocaram dizendo o que devo ou não fazer, e dar lugar para escutar a mim mesma e as minhas vontades. A gente passa a vida inteira se enganando e distraindo nossa vontade verdadeira, e de coração, acredito que a partir do momento que passar a respeitar a mim mesma, tudo se resolve, os caminhos se abrem, os problemas deixam de existir. Não é tão fácil assim como parece, falando assim, mas é o que eu penso e sinto.
Rapidamente o Marcos voltou do banheiro e a conversa ficou suspensa no ar, e senti uma empatia enorme pelo Martín que, mesmo bêbado e cansado, conseguiu olhar lá no fundo da minha alma. Por que raios ele não perguntou isso para o Marcos? Coisas da estrada. Parece até aquelas fábulas do Esopo versão mochileira.
Depois do café, voltamos para a estrada e meia hora depois, outro deles resolveu levar a gente mais adiante na estrada. Daí tudo fluiu: uma outra carona em um carro com um casal nos levou por uns 200 km, e um outro senhor que era comprador de cavalos nos deixou na entrada de Santa Fé. Cruzamos a cidade grande de ônibus, voltando para a estrada e para o dedão umas duas horas antes do anoitecer. A paisagem pamposa se exibia para nossos olhos, e começamos a ver caminhões com placas brasileiras. Conseguimos carona com um casal que nos pediu informação - cancheros de la ruta - e o céu era mais ou menos esse:
Aproveitamos o resquício de luz para continuar caronando, mas nem bem chegamos na estrada e uma mulher com seus dois filhos parou e disse que nos deixaria em um posto onde conseguiriamos carona fácil, pois tinham muitos caminhoneiros brasileiros. Era uma professora de ensino médio que disse que só estava levando a gente porque admira muito quem tem a coragem de sair mochilando. E nós admiramos muito quem abre a porta do seu carro com seus filhos dentro, sendo vulnerável para desconhecidos. Porque é algo que nós dois andavamos discutindo no caminho: por que algumas pessoas não param? Parecemos ameaçadores, eu com esse 1,60m de brutalidade e o Marcos com seu sorriso violento permanente? Algumas pessoas simplesmente não vêem. Passam por nós e dão voz para os notícias de tevê, para aquelas experiências horríveis que aconteceram em 1930 naquela região. E é assim com a vida.
Falta humanidade, porque estamos todos endurecidos com nossas armaduras que nos protegem de nós mesmos. Como pode, seres humanos viverem com tanto medo de se relacionar com sua própria espécie? Não é que o mundo é bonito e cheio de borboletas estilo Bob Esponja, mas é uma questão de parar e ver, de analisar, meu amigo, olha bem pra gente. Somos mochileiros querendo ir de um lugar A a um lugar B, nada mais. Felizmente tem sempre uma professora de ensino médio que olha e vê.
Enfim, chegamos no posto de gasolina e fizemos algo que não gostamos muito de fazer: abordar motoristas. Conversamos com alguns caminhoneiros, e um deles resolveu nos levar. Depois de um vaivém de decisões, fomos com ele por mais 300 km durante aquela noite, chegando na província de Entre Ríos depois das 23h. Armamos a barraca, e eu pelo menos, dormi como um bebê. Na manhã seguinte, bem cedinho, já estavamos na estrada novamente com nosso amigo gaúcho que ia deixar a gente com o irmão dele, que estava indo para Foz e nos levaria até a fronteira.
Daí foi muita moleza. Foi o dia inteiro de estrada com esses dois caminhoneiros irmãos, compartilhando agora o chimarrão e conversando em português. Chegamos em Foz do Iguaçú ás 23h, minha cabeça meio zonza de não acreditar que já estava, novamente, entregue para terras brasileiras, e ainda bem ali, no meio da mata atlântica onde as Cataratas e o meu querido amigo Fê me esperavam - ainda que o Fê nem soubesse que o acaso tinha me mandado pra lá.
I Encontro de Cinema de Camburi 🎥 #photooftheday #cinema #brazil #camburi
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 7 de Nov de 2015 a la(s) 8:51 PST
Já está testado e confirmado por mim: cafés e mates casuais mudam a rumo das coisas. Desde que cheguei em São Bernardo, tenho optado por convidar meus amigos dos velhos tempos a virem aqui em casa e tomar um café, comer uma das minhas receitas veganas e ter uma conversa intimista. Talvez seja a idade, mas mesas de bares regadas a cerveja barata e quinze pessoas já não me interessam tanto. Pois bem, o primeiro deles, que insistiu em me ver, foi o Well.
Cheguei em São Bernardo em uma quarta-feira, desde Curitiba. Um caminhoneiro muito tranquilo me deixou a um quilômetro na casa da minha mãe, e eu caminhei pela Álvaro Guimarães com sentimentos tão dúbios que me sentia duas pessoas em um mesmo corpo. Nem bem vinte e quatro horas depois, eu caí no choro sem saber direito por quê, e foram quase duas horas me debulhando em lágrimas sem explicação aparente. Na verdade, eu sabia: depois de toda a mobilidade que sofri, chegar a um lugar que chamo de cidade natal e ver tudo estancado exatamente como você deixou não é para qualquer coração. Eu precisava me aliviar de alguma maneira, e depois dessas duas horas, foi como se tivesse entrado em um túnel do tempo e meus últimos quatro anos foram uma vida a parte. Deu até medo de acordar de repente e ter vinte e um anos ainda.
Pois bem, diante desse contexto, o Well apareceu aqui em casa em uma tarde, conversamos o que se tinha pra conversar, e ele mencionou o Encontro de Cinema que estava organizando em Camburi, no litoral norte de São Paulo. "Se precisar de ajuda... "
O Well estudou comigo na Escola Livre de Cinema e várias vezes trabalhamos juntos. Ele é meu braço direito em tudo que respeita ao meu lado cinematográfico, é pra ele que eu corro quando tenho uma ideia-mirabolante-para-um-curta-metragem-muito-louco, ao qual ele tem o dom de sempre dar atenção. Um lado meio propositalmente empoeirado durante o ano - agora, vida- sabático que eu venho praticando.
Mas comos os cafés intimistas nas cozinhas mais secretas geram os frutos mais bacanas, uma semana depois desse encontro, peguei a mochila e fomos para a praia aventurar-se no mundo do cinema. A DGT filmes, produtora a qual o Well pertence, organizou o encontro tão intimista como os tais cafés. Em uma varanda cheia de verde, pássaros e chuva, nos reunimos por dois dias inteiros com doze realizadores de diferentes origens: os do cinema de guerrilha e os das produções clássicas.
Naquela egrégora cinematográfica, minha conclusão já no meio do encontro era certeira: ninguém sai ileso daqui. Alguma transformação, talvez pequena para alguns, talvez enorme para outros, vai existir. E se supõe que essa era a idéia dos organizadores, colocando ângulos tão diferentes da arte do movimento em uma roda onde todos os presentes não perdiam a chance de ser encarado.
No último dia, depois das exibições dos últimos filmes, a certeza: uma das realizadoras agradecendo a movida da DGT e comentando da oportunidade de levar o filme para tal lugar. Uma outra comenta que o encontro abriu a cabeça. Os moradores de Camburi, empolgados com a iniciativa e sugerindo resgates da cultura local em forma de linguagem cinematográfica. Eu, filmando o encontro, vendo tudo pelo visor da câmera, como foi dito no encontro: a energia sempre fica impressa.
No último dia, um domingo, aproveitamos a cessão da chuva e fomos dar uma volta na praia. E que praia bonita a de Camburi! Já andei muito pelo litoral norte de São Paulo, mas ele nunca deixa de me surpreender. Mesmo depois das montanhas andinas e das paisagens patagônicas, e ainda mais depois disso.
Concluindo, meu lado cinematográfico foi pego de surpresa, sacudido, lavado e polido. Saí dali com varias ideias piscando e fazendo escândalo dentro de mim. Provavelmente, em algumas semanas, vou cutucar o Well com alguma ideia-mirabolante-para um-curta-metragem-muito-louco. E provavelmente ele vai dar atenção, porque ele é dessas pessoas sensíveis o suficiente para planejar, buscar recursos e fazer de uma ideia um encontro, um filme ou um texto como esse ecoar nos lugares mais remotos dos litorais mais bonitos de qualquer lugar do mundo.
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 8 de Nov de 2015 a la(s) 11:09 PST
Caroneiro que encontra caroneira vai caronar. Escolhi San Marcos Sierras, uma dessas cidades que as pessoas me olhavam e diziam "Você tem que ir pra San Marcos Sierras!!!!" e eu já tinha conseguido um Couchsurfing pra quando a gente chegasse. O que não sabiamos era que a estrada de San Marcos era cheia de cidades e isso fez a gente levar todo o dia para chegar.
Mas estavamos tranquilos, desfrutando do caminho e conversando sobre todas as coisas que a gente tem pra conversar. A quantidade de coincidências que rondam nossa atmosfera me diverte muito e uma delas envolve o Marcos já ter ficado em uma mesma casa colaborativa no Rio de Janeiro que uma das pessoas que nos deu a carona. Rolou até parada para sorvete no fim da tarde.
Estavamos à uma cidade de San Marcos quando anoiteceu. Resolvemos pegar um ônibus, já que o trajeto era curto, e assim já dormiamos na casa do nosso CS sem precisar acampar (devia estar uns 10 graus? Não é a temperatura mais agradável para dormir em uma barraca), assim que depois do espetáculo diário do céu passar por laranja, vermelho e rosado, subimos em um ônibus em direção a San Marcos.
Desse bus tivemos que pegar um outro já de linha local que nos deixaria no centro da cidade, porém, a casa do nosso CS não era no centro. Peguei as indicações pra chegar na casa do Germán e o Marcos perguntou para o motorista se passavamos perto. Sim, passava. Ufa, economizamos de caminhar 3 km com as mochilas. Descemos “na rua onde ficava a horta orgânica do Gomes” e logo que descemos do bus, o Marcos perguntou para uma menina de olhos grandes que estava passando na rua se ela conhecia a “La Serenata”.
Acompanhamos ela até o mercadinho e a vida dela é assim: ela estudou cinema em Buenos Aires (será a vida me trolando?) e depois de viajar por um tempo, parou um tempo em San Marcos. Cuidava de casas de férias para seus donos enquanto eles estavam fora (acontece muito isso em cidades como San Marcos e Bolsón), se apaixonou por uma menina que deixou ela para ficar com um menino, terminou engravidando, e depois voltou com ela. Resumindo, ela tinha um babe, que tinha duas mães, um pai, e seis avós. Contou tudo isso pra gente com naturalidade e um sorriso no rosto, e isso já me fez apaixonar por San Marcos como estava previsto. A leveza da menina de olhos grandes, além do convite para ficarmos na casa dela caso não encontrassemos nosso couch, essas pequenas faíscas de luz que encontramos no caminho, é isso que me faz seguir viajando. Encontrar seres humanos de verdade, que estão aí, na tentativa e erro, e que sorriem de maneira tão sincera e abrem o coração sem nenhum receio de se expor enchem o coração de uma maneira que só se pode sentir às dez da noite em uma cidade desconhecida e estando totalmente vulnerável a qualquer acaso.
Seguimos caminho, uma estrada de terra sem luz nos levaria até a casa de Germán. Encontramos com duas meninas na estrada que também estavam ficando no mesmo lugar que a gente estava indo e elas confirmaram que estavamos no caminho certo. Uma carona noturna no lado de trás de uma caminhonete nos deixou na porta do “La Serenata”.
Fomos entrando, nos perdemos em uma pseudo-floresta e guiados por som de tambores encontramos a casa.
O nosso host era alto e cisudo, personagem per-fei-to para um conto do Edgar Allan Poe. Nos mostrou o quarto onde dormiríamos, que provavelmente é o ateliê dele, pois no quarto tinham quadros, estantes e nada mais. Ah, e obviamente eu fiquei assombrada com as pinturas surreais do Germán.
Cozinhamos lentilhas com acelga colhida da horta do Germán enquanto conversavamos com ele. Nos contou que viajava como a gente, que fez WWOOF alguns anos atrás e que isso lhe abriu muito cabeça -opa, já vi esse filme antes -, então resolveu parar em San Marcos para cuidar dos seus projetos pessoais (como pintar e dançar tango), e que não era possível dedicar-se tanto na vida itinerante.
Eu e o Marcos estávamos cheios de admiração. O Germán dava aulas de inglês para ganhar algumas moedas e assim levava a vida: a horta, um hectar de terra, arte, energia, ritmo. Parece que fomos parar no lugar certo.
Nossa estadia no La Serena foi curta e prazeroza. Nos três dias que ficamos lá, ajudamos o Germán a tirar pedras da entrada da casa e movê-las para a horta (Biodestrução, como disse o Marcos) e construir um caminho de pedras por lá. Era meio pesado e ficamos vermelhos como pimentões de suor e esforço e o coração cheio daquela satisfação que dá trabalhar para construir algo para alguém,um trabalho que não é para enriquecer alguém monetariamente. Saber que se voltarmos em cinco anos no La Serenata, vamos encontrar nossas pegadas no caminho da horta.
Conhecemos o centro da cidade que parece que foi tirado de um filme faroeste, passado pela mão de um diretor de arte hippie e colocado ali entre as montanhas para ser destino de mochileiro.
♥
Me pergunto quantas cidades levam o nome de um Cacique na praça principal.
Enquanto o meu companheiro de viagem cuidava de uns compromissos pessoais, subi o Cerro de La Cruz de uma maneira bem aleatória: vi o topo de uma montanha com uma cruz. Pensei hum, esse lugar deve ser acessível (afinal, alguém colocou aquela cruz ali!). Olhei pra montanha, ela olhou para mim, pensei que não levaria muito tempo para alcançar seu topo. E fui.
Encontrei a trilha, e em menos de 30 minutos estava observando a cidade desde o topo. Enquanto fotografava loucamente, apareceu um outro ser que era de Mendoza, era arqueólogo (que profissão tão supimpa) e estava ali meio perdido, como eu. Conversamos uns quinze minutos e nunca mais nos vimos.
Bem lá no fundo, uma ponte que dá acesso à cidade.
Em um dos dias, simplesmente ficamos na La Serenata.
somos ótimos cozinheiros, conclui depois dessa torta.
Trabalhamos pela manhã, cozinhamos sem pressa e compartilhamos com as outras pessoas da casa, eu desenhei pela tarde enquanto o Marcos tirava um cochilo. Porque depois de tanto tempo conhecendo lugares, você percebe que ficar exatamente onde você está já é suficiente. O desespero por conhecer tudo cessa, e você deixa espaço para a fluidez tomar conta das suas tarefas.
É maravilhoso alcançar esse estado. Essa viagem foi parte Marcos, parte San Marcos, parte despedida da tão querida Argentina, que foi minha casa por quase quatro anos. Não sei se é a vida, se é o crescimento chegando aos poucos, mas o deleite estava aí, em cada folha de árvore e em cada respiração e inspiração. E diante desse contexto, fomos embora em perfeita sintonia, como eu sabia que seria, como eu trabalhei para ser. Deixei minhas sementes por essas terras e levo comigo um pouco de cada lugar, um pouco de cada pessoa que conheci. É por essas experiências que tenho certeza que é disso que se nutre a vida, que esse é o caminho certo, pelo menos para mim. Uma viagem é muito mais sobre si que sobre lugares. Quando você se abre para o mundo externo, acontece uma abertura do lado interno também, e ninguém te avisa antes que vai ser assim. E uma vez feito, não tem volta atrás, a expansão vem naturalmente e a magia toda acontece. Como a gente termina esse texto então? Cheia de gratidão, como eu quase sempre termino os textos!
Por forças maiores, tive que mudar os planos e ir para São Paulo. É a terceira vez que estou com a mochila pronts para ir em direção a Ushuaia e alguma coisa acontece e me impede de ir. Fim do mundo, agora só vou quando você me chamar. Algo me diz que ainda não é nosso momento.
Domingo, 27 de setembro - Caronando de Bariloche a Santa Isabel
Acordei com ressaca de despedida. Devo ter dormido umas 3 ou 4 horas. Dormir nunca foi para mim. Uma leve lembrança de cerveja artesanal na boca. Termino de arrumar minha mochila, e depois das clássicas panquecas da Yoly e abraços difíceis de dar, vou para a estrada com o coração apertado.
Pego um ônibus para sair da cidade. Do lago Nahuel Huapi, nasce um arco-íris com as montanhas nevadas de fundo. Bariloche, um cartão postal até o último segundo. Saio da cidade com uma memória em cada uma de suas esquinas. Tenho um desejo dúbio de querer que algo me traga de volta para essas terras.
A sorte caroneira patagônica continua comigo. Mal começo a pedir carona, pára um caminhão carregado de sal, para os cavalos dos campos. Entre conversas curtas sobre a beleza daquelas montanhas e os governos brasileiro, argentino e chileno, meus dois últimos companheiros da província de Río Negro me deixam a 60 km, em um posto YPF, já na região de Neuquén.
Preciso cruzar uma ponte para começar a pedir carona de novo, mas ali vem um outro caminhão. Levanto o dedo pelas dúvidas, e o caminhão para no final da ponte. Sou obrigada a apressar o passo e o meu joelho range com o peso das mochilas. Alcanço o caminhão quase sem fôlego, e descubro que o motorista está indo para Mendoza. Até a noite passada pensava em passar em Mendoza, mas ao acordar hoje pensei que seria melhor ir direto para Córdoba e ganhar tempo, onde me encontraria com o Marcos. Analizamos o mapa e ele diz que me pode deixar em Santa Isabel, em La Pampa. Nada mal, viajo 700 km com o José. Compartilhamos muitos (muitos!) mates e conversamos sobre todas as coisas que duas pessoas tímidas e que nunca mais vão se ver na vida conversam. Conforme vamos avançando percebo que minha sorte é bem maior do que eu poderia medir.
Viajo quase 11 horas com um ser humano tranquilo, divertido e com bom gosto musical. Teve até por do sol ao som de Rolling Stones. No último quilômetro, ele para o caminhão no trevo que fica antes do posto de gasolina, pega o mapa e começa a analisá-lo minuciosamente. Eu percebo que ele quer que eu continue viajando com ele até Godoy Cruz, mas não eram mais meus planos ir para Mendoza e recuso da melhor forma possível. Ele sugere dormir no posto também, e meio que com receio respondo secamente que não é conveniente para ele. Ele me deixa lá, e eu me despeço meio chateada pela minha atitude e sem entender direito as intenções dele. Da próxima vez, tentarei responder: se a sua intenção for a de companhia, estou sempre disposta a acompanhar. Penso que se fosse um homem no meu lugar, provavelmente teria acontecido uma noite compartilhada e uma troca maior, mas como sou mulher e tenho que estar sempre com um pé atrás e outro na frente, acabo agindo contra coisas que acredito. Descanso como um bebê protegida da chuva pela minha barraca.
Segunda, 28 de setembro - Caronando de Santa Isabel a Córdoba
Acordo cedo e compro um café no posto. Como os chapatis que fiz para viajar observando o movimento da estrada RN 35. Sem pressa, limpo a barraca do barro da chuva, converso um pouco com os trabalhadores do posto, essa gente que sempre me chama de corajosa e eu cada vez mais me convenço que esse adjetivo é pouco adequado. A coragem está ligada ao impulso de se jogar em terrenos desconhecidos, e já sinto que ir para estrada não tem esse significado para mim. Já foi, um dia, um ato de coragem, e agora é um hábito que sei mais ou menos como será o começo, meio e fim. Se for assim, levantar da cama para cumprir suas horas de 9x5 também é um ato de coragem.
Saio do posto brigando com um cachorro que insiste em me seguir, e um caminhoneiro que estava no posto também para um pouco mais na minha frente. Passo por ele, ele me olha, eu olho pra ele, mas ninguém fala nada. Por ele não falar nada, eu volto atrás e pergunto pra onde ele está indo. Pro sul, ele me responde. Ah, acabo de vir de lá. Estou indo pra Córdoba. Ele me olha com uma cara de espanto, pega o mapa e me diz que eu devia ir pra Mendoza pra ir pra Córdoba. Não senhor, quero ir pela 35 e 36, essas estradas mendocinas eu já conheço. Ele tenta me convencer de que eu estou errada, mas eu acabo convencendo ele que o meu plano é melhor. Ele admite que sim, e me leva até Victorica. Ele foi todo o caminho intercalando nossas conversas com conselhos para uma boa moça que deve se cuidar, e eu digo pra ele que não vai acontecer nada e que logo estaria em Córdoba. Porque senhor, do mesmo jeito que você quer me proteger, as outras pessoas que me levam também querem o mesmo. Me deixa em uma rotatória meio desconfiado de que eu vou ficar horas plantada ali. Eu vou para a estrada que me levaria até Winfreda. Quase nenhum carro passando, aproveito para comer umas uvas passas e espero cerca de vinte minutos até um carro parar. Uma mulher comemorando o fato de eu estar ali me leva até Winfreda. Uma professora da região, que não gosta de viajar sozinha. Conversamos sobre feminismo, vegetarianismo, o mundo e Paulo Freire. Uma das caronas mais legais da minha história, ao som de Charly Garcia e admiração mútua. Muito obrigada Cecília, por essa uma hora e meia de certeza que eu ando pelas estradas certas.
Ela me deixa no posto onde a mudo da 35 para a 36 e agora é uma reta até Córdoba, ainda que tenha 600 km pela frente. Paro na saída do posto, e um senhor em uma van puxa assunto comigo. Ficamos conversando aos gritos enquanto vários carros passam em velocidade alta me ignorando, mas a conversa tá interessante. Depois de uns vinte minutos percebo que enquanto continuar conversando com o cara, ninguém vai parar, me despeço dele e pego a mochila para caminhar um pouco mais pra frente. Mas aí para um carro, um jornaleiro que está distribuindo jornais pela região e pode me levar para a próxima cidade. Ele me conta que antes pedia carona para trabalhar como carteiro, e que sempre que vê alguém pára. Ele me diz muitas vezes que eu devo conhecer as Cataratas de Iguaçú, mas eu digo pra ele que não vai ser dessa vez. Que irônia, mal sabia eu que uma semana depois era exatamente onde eu iria estar. Ele entra na próxima cidade e me deixa na estrada. Caminho um pouco, encontro um lugar mais ou menos bom para continuar pedindo carona, mas depois de uns vinte e cinco minutos, ele mesmo para de novo para mim. Já distribuiu jornais nessa cidade e está indo para a próxima e pode me levar por mais uns quilômetros.
No próximo ponto, me deparo com a primeira placa indicando Córdoba e comemoro a proximidade ao destino. Não espero nada até parar um pai e um filho que estão indo até Realicó: a cidade onde pedi minha primeira carona em janeiro. Vou tomando mate com eles e conversando sobre como funcionam as faculdades públicas no Brasil. Eles me deixam na saída da cidade onde tudo começou e eu sou tomada por um sentimento de "caralho, parece que foi em outra vida que passei por aqui". Levantar o dedão aqui a primeira vez foi cheio de medo e insegurança e agora é como se fosse uma dança que eu já sei os passos de cor. Um caminhoneiro me leva depois de três minutos de espera, e vamos conversando sobre as plantações de soja, milho e trigo e seus agrotóxicos. Surpreendentemente, o senhor é dos meus e diz que essas sementes são qualquer outra coisa que soja, milho e trigo. Me mostra umas bolsas de plástico enormes que se espalham pelas plantações e me conta que essas bolsas conservam as sementes por anos infinitos. Exponho pra ele que sempre tenho culpa quando como comida industrializada porque sei que de alguma forma estou comendo alguma injustiça - ou pelos latifundiários, ou pelas pessoas que antes viviam naqueles terrenos e foram expulsas, ou pelos agrotóxicos ou por tantas outras êne razões que estão aí e a gente não faz nada por comodismo. Chocado, o senhor me olha com compreensão e ficamos naquele impasse do "e como a gente faz então?"
Dessa vez demora um pouquinho pra alguém me levar, mas a conversa anterior me deixou bastante coisa pra pensar e foi perdida em pensamentos que parou uma caminhonete com um senhor cordobês que me deixa uns bons quilômetros pra frente. Escutar o adorado sotaque cordobês já me deixou bastante feliz, e ele me deixou em um lugar péssimo, no meio de umas reformas e em um lugar sem nenhuma sombra. A minha calça térmica de quem tinha saído de regiões a 10 graus de temperatura me incomodava horrores baixo a temperatura cordobesa de 30 graus. Um caminhonetinha para para minha salvação e uns caras que comentam que já tinham me visto duas vezes na estrada param. Comentaram entre eles que se me vissem uma terceira vez me levariam. Eram dois saltenhos que vinham dirigindo desde o sul, e vamos conversando sobre os filmes do Darín eoutra vez, surge o tema das plantações. A conversa fica realmente interessante e eu fico muito empolgada com o desenrolar dessas caronas de hoje, e as 18h45, a 60 km de Río Cuarto, o carro quebra. Meus conhecimentos de mecânica são nulos senão negativos e eu me sinto péssima de não ter como ajudar. Eles me dizem para continuar pedindo carona e eu vou me sentindo horrível por abandonar a nave. O sol estava na altura dos meus olhos e logo menos iria escurecer. Se não fosse assim, teria ficado as horas que fossem necessárias e ajudaria nem que fosse com apoio moral ou cebando mate.
Mas a por do sol me deixa realmente preocupada, porque estou em um lugar com nada e coisa alguma, não tem nem onde acampar. Dez minutos dura essa preocupação, até que um senhor chamado Walter para o carro, com uma ovelhinha adorável na parte de trás. Confesso para ele que estava preocupada pela luz e ele me diz que mora em um campo, a 10 km dali, que mora sozinho e se eu quiser posso dormir lá e amanhã ele me leva até a estrada para continuar. Outra vez, o impasse. Adoraria ter aceitado, ele me passou muita confiança, parecia um senhor adorável para conversar, mas o passo atrás agiu mais forte e eu desci em um outro cruzamento. Ele foi para casa e eu segui na estrada. Já não tinha sol, mas ainda estava semi-claro. Felizmente, o primeiro carro que passa me leva. Outro senhor adorável que está indo para Río Cuarto. Ufa. Dentro do carro dele, concluo que entre dormir na cidade e pegar um ônibus que me leve até Córdoba me convém mais a segunda opção, e o senhor diz que me vai desviar do caminho dele e me deixar na rodoviária.
Eram quase 22h quando peguei um ônibus em direção a Córdoba, meu primeiro ônibus de viagem em 10 meses de viagem e a certeza de que pegar ônibus é muito mais tediante que pegar carona, e chego na cidade uma da manhã, esgotada. Mas taí cheguei. Desde Río Cuarto tinha mandado umas mensagens para amigos pedindo indicações de lugares pra dormir em Córdoba e vou parar em um hostel muito Macanudo onde a única coisa que consigo fazer é tomar um banho frio e me jogar na cama.
Terça, 29 de setembro - Esperando o Marcos chegar e caminhando por Córdoba.
24 de agosto foi o dia que comecei a conversar com o Marcos e desse dia em diante percebemos ter uma vibração sintonizada. Esses encontros acontecem poucas vezes na vida, eu já sabia. O tempo todo estou com pessoas ao redor, conheço muitas pessoas fascinantes viajando, mas são poucas as que vibram na mesma frequencia que eu. Um outro caroneiro que saiu dos grupos de Whats e Facebook. A transparência do Marcos desde o ínicio me ganhou rapidamente e lá estavamos, um pouco mais de um mês depois, combinando de se encontrar em um "x" qualquer do mapa. Ele estava no Brasil e buscamos um meio ponto para ele me encontrar e depois seguiriamos juntos para o Brasil. Coisa de viajante, onde a distância é algo tão maleável que nos diverte. Ele viria caronando desde Cascavel e poderia chegar a qualquer momento.
Aproveito o dia de espera para conhecer os museus cordobeses e descansar um pouco da poeira da estrada. Ele chega tarde, bem tarde, depois de umas caronas meio complicadas e no calor cordobês comemoramos a chegada com cervejas. De repente várias pessoas no hostel estão conversando com a gente e eu adoro, adoro a situação. A prenseça do Marcos é radiante e a empatia dele traz todo mundo pra perto. Alguém que não vive dentro de si e que está olhando sempre ao redor definiria uma das primeiras impressões que eu tive dele.
como me despedir apropriadamente depois da nossa vivência de cinco meses inteiros? Você me pegou de surpresa. Cheguei sem saber nada sobre você, e agora aqui estou, com um mapa mental quase perfeito da sua geografia, andando pela cidade com cara melancólica de despedida. Não tinha planos, muito menos de ficar tanto tempo, não tinha expectativas.
E no entanto, agora me pego na situação de te deixar e ao mesmo tempo que me deixa apreensiva, me deixa aliviada. Porque assim foi com você: uma montanha russa cheia de contradições e contrastes. Foi aqui que eu fiz as caminhadas mais longas e foi aqui onde passei mais dias dentro de casa. Foi onde eu mais conheci gente e criei raízes e onde me senti mais solitária.
Um dia de abril em Madryn, onde a internet era díficil, comecei a enviar mensagens aleatórias para workaways e o objetivo era simples: o primeiro que me respondesse, pegaria minha mochila e partiria. Não tinha como checar as respostas desde onde estava e foi na própria estrada que meu destino foi traçado.
As vezes me pego calculando uma equação das possibilidades que existem de experimentar a vida: as variáveis de acontecimentos, as tangências dos acasos, as probabilidades da sorte. Em questão de segundos minha cabeça dá um nó e eu percebo que essas coisas são incalculáveis, ou pelo menos, não existe razão aparente para queimar neurônios com isso. É parte da magia se deixar levar.
Cheguei e os dias eram laranja e amarelo, meus olhos pouco acostumados com as cores do outono vibravam. Lembro quando fui ao Otto, logo nos primeiros dias, e de rir sozinha no cume de uma de suas montanhas mais simples. Mal sabia eu, aquele dia, que chegaríamos a tal ponto de intimidade.
Me dava medo me envolver outra vez com uma cidade. Sabia que, por mais que eu me focasse, os sintomas voltariam. Sim, foi questão de pouco tempo para eu começar a achar que devia cortar o cabelo, para começar a me incomodar com minhas roupas completamente rotas, voltar a consumir como uma cidade demanda, ainda que de maneira bem controlada. E perceber que isso não é tão mal assim como eu taxava: fui descobrindo que, mais importante que ser radical é encontrar o caminho do meio. Manter a consciência de cada ato e fazer o que se tem vontade sem dor. Aquela voz rouca ecoando na cabeça: “Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei.“
Fiquei no workaway que me serviu como uma luva para o que eu precisava: um trabalho noturno que não me exigia muito. Noites em claro escrevendo, pesquisando, planejando. Com os hosts mais tranquilos que provavelmente Bariloche teve a chance de ter, e que como bônus, eram cozinheiros fantásticos que elevaram meus conceitos de cozinha a outro nível. Em Bariloche, comi.
Foi na beira do Nahuel Huapi e no alto do Catedral que eu me dei conta de que estava no meu caminho certo. De repente me encontro dialogando com o mundo a um nível nunca antes experimentado, mesmo levando anos de ceticismo nas esquinas do meu cérebro. Foi na famosa estrada 40 e na adorável cidade de El Bolsón que eu percebi que estou aprendendo uma nova língua, uma nova maneira de me comunicar com o mundo.
Foram nos sábados de buddhismo que me deixei levar por pequenos momentos de epifânia e compreendi uma grande parte do que se trata tudo isso. Em Bariloche, rezei.
Também foi pelas esquinas da Mitre e no triângulo das bermudas dos seus bares que eu me apaixonei, uma, duas, três, quatro vezes.
Foi pelas ruas de terra de Bustillos e Pioneiros que eu cheguei à conclusão de que andar por aí com um coração fechado era uma decisão baseada em traumas e que eu não precisava ser tão dura comigo mesma, ou com os outros. Estar no presente é a decisão mais sábia. E foi na rua Júlio Cortázar que amei.
Bariloche foi reconectar com meu mundo de livros, música e cinema. Bariloche foi caminhar morros acima e morros abaixo saltitando Erlend Øye e descobrir nos seus últimos dias um álbum incrível do Sufjan Stevens.
Foram tardes de ler diários de viagem no meu lugar preferido na beira do lago e de redescobrir Sebastião Salgado, Wim Wenders e Linklater.
Foi aqui também que conheci um montão de viajantes e gente que busca trabalho onde tem temporada, e troquei informações que certamente selarão meus passos futuros (se já não estão selados!). Esses trotamundos que falam de Ásia e África, que compartilham a paixão patagônica e que vão de passagem pelas nossas vidas dizendo que talvez a gente se encontre em algum outro ponto geográfico do mundo.
Se viajar é se encontrar ou fugir eu não sei. Mas as transformações que percebo em mim só poderiam acontecer exatamente entre maio e setembro, entre jornadas duplas de trabalho, entre ter que lidar com minha insegurança e ego com o peito aberto, tão aberto que até se sente.
Se eu comparo quem eu era e quem eu sou agora, abro um sorriso de canto de boca e percebo uma evolução que não estava prevista. Como sempre e mais uma vez, gracias universo! E obrigada querida Bariloche, por ter sido exatamente como foi.
p.s.: Aqui separei algumas foto-coincidências de alguns dos tantos dias que acreditei estar no lugar certo e na hora certa, esses dias que nossos diálogos foram um pouco além do meu entendimento:
(se você, leitor, quiser saber um pouco mais sobre a ida no Frey, tem um post
O CIESA é um projeto de horta orgânica baseada no sistema de agricultura BIOINTENSIVA que existe desde 1994 em El Bolsón. Quando eu subi até o Refúgio Frey conheci o Gaetano, outro viajante sem muito rumo como eu. Um dia enquanto pedia carona no Bolsón, foi levado por Fernando Pia, o criador do CIESA, e deixando-se levar pelo acaso, foi voluntariar na horta do Fernando. O Gaeta está lá há quase dois meses, e assim que me liberaram do outro trabalho, escrevi ao Fernando perguntando se eu poderia passar uns dias lá para conhecer o projeto.
Escolhi a dedo os dias que saberia que ia ter sol e depois de três caronas, sendo uma delas com um caminhão que levava combustível (as chances que os carregadores de combustível te levem são mínimas!) e outra com um senhor que trabalhou com cinema, cheguei na rua do CIESA e me deparei com isso:
Fui entrando e já me encontrei com Emi, um dos voluntários, meditando embaixo de uma árvore. Gaeta, o que me trouxe até a horta, estava tocando violão na janela. Já me apaixonei pelo lugar instantaneamente. Mal cheguei e já me deram comida e almoçamos junto com a Maca, outra voluntária-viajante.
Ela tinha preparado uma salada com as verduras da horta, e aquele sabor de "orgânicas recém colhidas" explodiu na minha boca, fiquei como uma criança feliz perguntando o nome das folhas para eles e eram todas folhas que eu nunca tinha escutado falar, com nomes muito divertidos: acelga arco-íris, alface orelha do diabo e flecha dourada, espinafre vermelho de montanha. Parecem nomes tirados de um livro do Tolkien.
Se bem que, agora pensando, o lugar é tão mágico como para ter saído de dentro da imaginação de alguém do tipo. Me apaixonei particularmente pela Indian Mustard, uma folha gigante com um sabor muito forte a mostarda.
Depois fui conhecer a horta, enquanto o Gaeta me explicava como funciona o trabalho voluntário: são de 4 a 5 horas de trabalho por dia, fins de semana livres. Somos responsáveis pela manutenção da casa que ele cede:
O Fernando tem um livro publicado onde ele explica com detalhes como manter uma horta biointensiva e os voluntários, podem colocar em prática toda a teoria do livro :)
Plantar as sementes desenhando um hexagono, tudo milimetricamente calculado para tirar todo o proveito da terra e evitar desperdícios de água, compost e fertilizante. Nada de maquinarias, nada de combustível, tudo na base de energia limpa. Bem sistemático, planejado e organizado. Conheci as camas, os hibernáculos e os vários vegetais que nunca tinha visto na vida que existem no CIESA.
Estava ansiosa para colocar a mão na terra, mas no meu primeiro dia de trabalho fui preparar as saladas que são vendidas para os supermecados locais com o Gaeta. Esse é uma das magias do Bolsón. Um dia fazendo compras, passamos em três dietéticas diferentes. É notável que a alimentação natural está ganhando por aqui.
Tive outros dois dias de trabalho lá, minha estadia foi curta. Nos outros dois dias plantei cenoura, rabanete e rúcula. Passei mudas de alface para as camas de terra. Limpei ervas daninhas (um trabalho eterno em qualquer plantação).
Mãe, eu que plantei!
mudas de cebola :)
O trabalho não é fácil, fisicamente falando. Posições complicadas, é inverno e o tempo estava frio, no meu último dia fomos interrompidos todo o tempo por pequenas chuvas. Mas, sabe como é: trabalhar com a terra e com as mãos, deixar cair uma semente e imaginar que daqui a alguns meses algum voluntário da Bélgica pode estar comendo uma cenoura que eu plantei, assim como eu estava comendo uma alface plantada por algum voluntário holandês alguns meses antes.
Nos cinco dias que estive lá minha alimentação foi vegetariana e um dia, resolvi acompanhar o Gaeta no crudivegan. A verdade é que estando ali é fácil, com tanta variedade de folhas mais as frutas e sementes que compravamos na cidade. Aproveitei a onda e estou continuando aqui em Bariloche sem a carne pelo menos :)
brotinhos de alfalfa
torta maravilinda preparada pela Cris feita com farinha integral, acelga arco-íris e semente de girasol. Gracias Cris (:
A permacultura é um assunto que me interessa muito. Busco me envolver em projetos que querem apresentar uma maneira alternativa de vida, ao invés de só reclamar e esperar soluções que estão fora do nosso alcance. Estou cada vez mais convicta que se todo mundo faz um pouco, como formiguinhas, lentamente o mundo vai tomando outra forma. Aquela velha história de seja a mudança que você quer ver no mundo. Ou não aponte os defeitos, dê o exemplo. E por aí vai. É isso o que estou tentando fazer, é disso que se trata essa viagem.
Sementes ♥
Na casa dos voluntários tem vários livros sobre sustentabilidade e confesso que minha vontade de aumentar minha estadia no CIESA aumentou exponenciamente quando corri meus olhos pelos títulos. Não tive tempo pra ler, mas em um dos livros me deparei com esse gráfico, e quase gritei Eureka:
Detalhe para a parte de educação que menciona Steiner que escrevi sobre não faz muito.
Foi díficil me despedir do CIESA, fui embora quando estava começando a pegar o ritmo, mas levo comigo uma pequena sementinha de como é estar em um projeto biosustentável, já que estava cheia de curiosidade.
Gracias Fernando Pia y Nati por recibirme. Gracias a Gaeta por el encuentro casual que tuve cuando me dijiste que estaba trabajando en el CIESA. Gracias Cris, Maca, Facu y Emi por los días compartidos ♥
Notas sobre uma escolha - o blog da Manu Franco e família
Ano passado, enquanto trabalhava, encontrei com o blog da Manu. Não sei bem como chegou até mim, mas aquele dia devorei todos os textos e me arrepiei com todas as fotos.
(foto: Notas sobre uma escolha)
A Manu deixou a cidade grande e foi viver na Chapada Diamantina, com a família, tratando de viver uma vida sustentável e íntegra, mais próxima dos filhos. Hoje resolvi ir ver as atualizações que perdi nos últimos meses, e me encontrei com o seguinte texto:
“Esse tal de universo, que é maior do que eu sei, inclusive em sua generosidade comigo, tem me trazido momentos de muita clareza e entendimento nos últimos meses. Sinto como se, a partir de um determinado ponto na linha do meu tempo, um grande portal mágico tivesse se aberto em meu peito e me levado para um lugar de conexões e beleza que meu vocabulário mequetrefe não dá conta de codificar. Por um momento entrei na pira de explicar tudo, de questionar, de buscar entender que chave tinha mudado tudo na minha percepção, que diabos tinha ligado a tomada da minha conexão com o universo inteiro. Bati a cabeça na parede e caí pra dentro do peito, onde as coisas estavam bem claras e resolvidas.
Tudo muito simples e, quanto mais simples, mais encanto. A cortina de névoa que cobria tudo evaporou e a clareza me atropelou deixando a vida mais cheia de verdade e gratidão ainda. Nós somos o universo, eu sou o universo que vibra amor puro e verdadeiro, eu e você somos um o reflexo do outro, nós somos uma unidade dentro da força maior, a natureza que vejo aqui fora é espelho da minha aqui dentro e vice-versa, a consciência da transformação é universal e coletiva, viajar pra dentro é uma constância que me tira do lugar comum e me empurra pro movimento, quanto mais eu descubro sobre mim mais eu entendo e me dôo pro outro, a vida é agora e merece ser compartilhada, esse despertar coletivo de uma unidade transformadora me dá vontade de chorar de emoção, a força desse despertar pode carregar um mundo nas costas e ainda sorrir nas subidas em 90 graus, eu me nego bravamente a ignorar os mais sutis sinais e conexões que o universo decida me trazer, sejam eles bons ou ruins, queira ou não minha capacidade de aceitação sobre as coisas.”
(foto: Notas sobre uma escolha)
Manu, seu vocabulário não é de maneira alguma mequetrefe. Suas palavras são o mais próximo que já cheguei a ler sobre esse sentimento tão díficil de descrever que é se permitir.
Eu recomendo o blog para os viajantes, para os curiosos, para os inquietos, para os duvidosos, para os que querem transcender. Uma das coisas mais bonitas que a internet já me proporcionou. E recomendo ler de forma temporal, comece pelo primeiro post que é esse aqui.
Em maio, quando fui para o Bolsón, um dos senhores que me levou enquanto pedia carona estava indo para a reunião de pais do filho em uma Escola Waldorf. Foi uma carona rápida e eu não pude fazer 2000 perguntas para ele sobre que se tratava, mas vê-la de fora me causou muita simpatia e mais que nada, curiosidade.
Algumas semanas depois disso, comecei a frequentar encontros sobre meditação vipassana em Bariloche que coincidentemente eram na Escola Waldorf daqui. Essas sincronias já fazem parte da minha vida, mas bem, vamos direto ao ponto.
Googleei, perguntei algumas coisas para o Matías que dava as conversas sobre meditação (os filhos dele estudam na escola), mas não conseguia criar uma opinião sobre o tema ainda. Queria poder visitar um dia para ver mais de perto. Pensei em usar a desculpa do blog, mas não foi necessário, porque agora que voltei a ter tempo, eles abriram as portas da escola para explicar para as pessoas como a escola funciona (já disse que não vou falar dessas sincronias).
A metodologia Waldorf existe desde 1919 quando o austríaco Rudolph Steiner percebeu que a função da escola não é só a de transmitir conhecimento, mas também de formação de seres humanos.
Copiei da wiki:
“A pedagogia procura integrar de maneira holística o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico dos alunos. O objetivo é desenvolver indivíduos livres, integrados, socialmente competentes e moralmente responsáveis. As escolas e professores possuem grande autonomia para determinar o currículo, metodologia e governança.
Existem atualmente mais de 1000 Escolas Waldorf no mundo e cerca de 2000 jardins de infância, localizados em mais de 60 países, sendo assim um dos maiores movimentos educacionais independentes do mundo.
Criada em 1919 em Estugarda, na Alemanha, tem como base o conceito de que o desenvolvimento de cada ser humano é diferente. Assim, o ensino deve levar em conta as diferentes características de cada indivíduo. Um mesmo assunto que se pretende ensinar é abordado várias vezes durante o ciclo escolar, mas nunca da mesma maneira, e sempre respeitando a capacidade de compreensão de cada um. Fundamentalmente, esta pedagogia tem, como objetivo, desenvolver a personalidade de forma equilibrada e integrada, estimulando o florescimento na criança e no jovem de: clareza do raciocínio; equilíbrio emocional; e iniciativa de ação. “
Quando eu visitei a escola La Semilla, passei quase 4 horas lá dentro, junto com mães e pais de crianças (sim, estava bem de curiosa mesmo. No fim uma professora até brincou comigo perguntando se eu ia me inscrever para o Ensino Médio – pela minha cara de pirralha). Primeiro, vi trabalhos realizados pelos alunos de todos os anos:
(foto: Facebook Escuela La Semilla)
Depois, houve uma explicação de uma professora da escola de Buenos Aires com muitos anos de experiência na metodologia e as perguntas foram as mesmas que você talvez esteja se fazendo:
“Mas, o meu filho aprende?’
Na metodologia Waldorf não se usa livros de atividades pré-estabelecidas. Eles fabricam seus cadernos, cada um do seu jeito e os alunos são ensinados por épocas. Ou seja, tem a época em que aprendem história, depois tem a época de geografia, e assim sucessivamente. Não é tudo ao mesmo tempo como estamos acostumados. E também não tem provas que avaliam os alunos de 1 a 10 ou de A a E (não para os alunos, mas sim para as instituições burocráticas), senão que os alunos recebem devoluções individuais de desempenho.
A professora Ursula Vallendor contou que logo quando começou a dar aulas sobre divisão (em matemática) pela primeira vez para a escola Waldorf, ficou preocupada porque os alunos aprendem quase dois anos depois que nas escolas normais. Isso porque o conteúdo está encaixado na época de transição entre a infância e adolescência, e fisicamente eles estão sofrendo uma ruptura (crescimento instenso dos ossos e transformações consideráveis de aparência) e têm uma melhor noção do que é a divisão. A absorção dos alunos é maior.
(foto: Facebook Escuela La Semilla)
Outro ponto que achei bem interessante foi o de que a idéia não é meter conteúdo na cabeça das crianças, não é ensiná-las para que elas possam fazer uma prova ou para responder ao professor, senão causar um interesse genuíno pelo conhecimento.
Para não extender muito já que posso ficar horas aqui contando tudo o que me encantou na palestra, a contrapartida da metodologia Waldorf por parte dos pais:
“Tudo lindo e maravilhoso, mas meu filho depois vai se adaptar ao mundo dos vestibulares, provas e universidades?”
(Eu voto pela criação de universidades Waldorf. Mas ninguém falou disso :( )
Se você pára para analizar, a idéia final de tal metodologia é desenvolver um ser humano mais íntegro e capaz de se desenvolver em qualquer área. Seu filho vai se adaptar ao exaustivo mundo das provas quando ele precisar.
(foto: Facebook Escuela La Semilla)
No caso particular da La Semilla em Bariloche, a escola não é gratuita, na verdade ela foi contruída pela iniciativa de cinco famílias (começou em 2010 com 5 alunos e atualmente tem 150) e todos os gastos são compartilhados. Os pais e professores participam de todas as atividades de manutenção da escola: limpar, cozinhar, construir. A escola exige a presença dos pais na educação do filho, ainda que seja óbvia essa necessidade.
E o que tudo isso tem a ver com viajar?
Bom, quem acompanha aqui o blog talvez saiba que um dos motivos de eu ter começado a viajar foi a minha não-adaptação à universidade e ao seu método quadrado de me obrigar a decorar informações para fazer provas. Não via sentido, principalmente por eu estudar cinema que é o tipo de profissão que você não precisa exatamente de um certificado para exercer.
Desde esse momento comecei a pesquisar e descobri sobre a desescolarização. E agora viajando descubro sobre essa metodologia. Está conectado com viajar a partir do momento onde eu encontro respostas para minhas inquietudes mais profundas e quase sempre quando não estou mais procurando por elas. Esse sentimento deveria entrar na definição de viajar no dicionário.
Voltando ao sistema Waldorf, eles também ensinam as crianças a cozinhar, a construir e outras atividades básicas e práticas que sim, vão te servir como ser humano. Estamos tão acostumados com a idéia de que temos que nos especializar em algo para ser alguém na vida que não nos preocupamos em ter noções básicas de coisas que são importante para nossa sobrevivência. Ok, é só ir ali no mercado ou no restaurante por quilo que você se alimenta, não faz falta saber cozinhar, mas já parou pra pensar em como isso te torna dependente? Faz umas semanas li em um livro chamado Cozinhar, do Michael Pollan:
“A sociedade nos atribui um número muito limitado de papéis: produzimos somente uma coisa no trabalho, consumimos muitas o resto do tempo e, uma vez por ano, assumimos o papel de cidadãos e depositamos nosso voto. Praticamente delegamos todas as nossas necessidades e desejos nos especialistas de um tipo ou de outro: a comida na indústria alimentícia, a saúde nos profissionais da medicina, o entreterimento em Hollywood e mídias, a saúde mental nos psicólogos ou labaratórios médicos, a proteção da natureza nos ecologistas, o trabalho político nos políticos, e assim sucessivamente. Dentro de pouco tempo não faremos outra coisa além de nos limitar ao trabalho que desempenhamos para o "ganha pão", pois acreditamos que não estamos capacitados para nada mais, ou que alguém pode fazer melhor do que nós (recentemente descobri de que já existe uma agência que envia pessoas agradáveis para que visite seus pais anciãos se você não tiver tempo para isso). É como se já não pudessemos imaginar a ninguém, além de um profissional, uma instituição ou um produto para nos proporcionar as necessidades diárias ou resolver nossos problemas. Essa impotência adquirida beneficia muito as corporações que sempre estão desejosos de se adiantar e trabalhar por nós.”
Mais que defender as escolas Waldorf ou fazer propaganda delas, minha intenção com esse texto é mostrar que existem sim alternativas. Pra tudo existem alternativas. Não precisa de muito pra saber que nosso método de educação está falido, e sim, precisamos de uma reforma geral, mas eu sou dessas pessoas que acreditam que se começa por pequenos passos, como este. Há todo um mundo de coisas que a gente não sabe e que estão aí para serem descobertas e exploradas, basta se abrir para que elas possam aparecer no seu caminho. E que viajar é encontrar esses caminhos, que não são feitos só de lugares físicos.
Extra:
Alguns materiais interessantes que encontrei sobre o tema:
- O desafio de Rudolph Steiner (documentário).
- História y actualidad de la pedagogía Waldorf
- Why Waldorf works (uma database de informações sobre a pedagogia Waldorf)
Depois de 64 dias trabalhando todos os dias e dormindo nos intervalos que ficavam, eu estava com muita vontade de passar o dia na estrada outra vez. É cansativo, as vezes dá medo, as vezes dá raiva, mas existe algo de libertador em ficar esperando carros na beira da estrada, esperando que a sorte te encontre.
E ela sempre vem.
Tinha dado uma olhada por cima do mapa e o caminho até Osorno era bem fácil. Fui sentido Dina Huapi, peguei o ônibus 81 (6 pesos, R$1,50) e assim que começou a estrada pulei do ônibus. Uma atitude bem aleatória, devia ter descido mais pra frente. Mas para os que forem pegar carona desde Bariloche para Osorno ou qualquer outro lugar no lado Norte, existe uma bifurcação perfeita:
Percebi como eu estava enferrujada. Não consegui conversar bem nas duas primeiras caronas curtinhas. Não sabia explicar bem o que eu estava fazendo ali. Deu branco. De qualquer jeito um senhor simpático que me levou por 5km me deixou na bifurcação acima. Estava chovendo, mas mesmo assim estava bonito. Desse lado de Bariloche, as coisas ficam mais áridas, mais argentinas. Estava tirando o celular para tirar uma foto, veio um carro.
Levantei o dedo, o carro parou.
Era um casal super buena onda de Buenos Aires que também estavam indo para o Chile. Iam para Puerto Montt. Ou seja, eles me levaram por quase 200 km em uma viagem de 245 km. Gratidão ao Universo. Eu queria chegar cedo e ia conseguir.
Fomos conversando um montão, eles se interessaram por tudo o que eu ia contando, e estavam tão assombrados com a cordilheira andina, mesmo que chuvosa, como eu. Na fronteira, passei com eles (das outras duas vezes tive que descer e cruzar “a pé”) e sendo a Isabela que eu sou, esqueci minha touca em cima de uma mesa e eles voltaram para buscar. Trocamos contatos e nos separamos um pouco depois do lago Puyehue. Chovia e fazia frio. Me faltavam um pouco mais de 30 km e terminei pegando um ônibus local (1200 pesos chilenos, R$ 6) pra não perder tempo e não terminar empapada, já que a idéia era chegar em Osorno, comprar coisas que eu precisava, procurar um lugar para dormir e voltar no outro dia pela manhã.
E assim foi. Não gosto de comprar coisas. Assim que terminei tudo o mais rápido que pude e fui atrás de um lugar para dormir. A chuva não parou um segundo sequer e mesmo tendo que fazer compras na chuva eu estava sentindo uma alegriazinha de ter ido até o Chile pra fazer tudo isso. Porque pensando bem, são meus planos sendo continuados: tudo o que eu estive comprando é em prol da minha viagem.
Encontrei um alojamento na casa de uma senhorinha. Casa de madeira bem estilo sul do Chile, com cheirinho de mofo misturado com fumaça de chaminé. Meu quarto não tinha janelas e era o cenário perfeito para um filme do Tim Burton.
Lunes chuvoso no Chile
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 24 de Ago de 2015 a la(s) 4:52 PDT
Dormi como uma pedrinha com o som da chuva interminável no telhado e as nove do dia seguinte já estava arrumando minhas coisas.
Sopaipillas com queijo e café instantâneo. Tão Chile.
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 27 de Ago de 2015 a la(s) 4:29 PDT
Resolvi comer algo para café da manhã, já que na noite anterior eu dormi com um pouco de fome. Comi uma sopaipilla e um café - um pequeno adendo para quem é amante do café aqui: no Chile se consome comumente café intantâneo. É de querer morrer. - observei a chuva um pouco mais e comecei o caminho de volta. Peguei o mesmo ônibus que me levou, desci na cidade de Entre Lagos, e chuva e mais chuva.
Bus a la #Chile
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 27 de Ago de 2015 a la(s) 4:16 PDT
Na estrada de novo, por 20 km me levaram dois chilenos de Temuco que eram campesinos. Me deixaram bem ao léu da estrada e eu preferi caminhar pedindo carona do que esperar na chuva. Fui andando e andando…
🐏
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 25 de Ago de 2015 a la(s) 8:38 PDT
Não era nenhum problema, já que aquela estrada estava dentro do Parque Nacional de Puyehue:
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 26 de Ago de 2015 a la(s) 4:48 PDT
Logo parou um caminhão que me levou por 2km: “pelo menos você não tem que subir!” comentou ele porque eu estava começando uma subida quando ele parou. Desde aí esperei aproximadamente três minutos e parou um carro. Era um casal de senhores que voltavam de deixar a filha na escola. Ele era guarda-parques, e todo dia dirige 50 km para deixar a filha na escola e 50 km pra voltar. Ele foi super buena onda e me deixou na fronteira, passando 5 km da própria casa para não me deixar tomando chuva.
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 26 de Ago de 2015 a la(s) 7:35 PDT
Mal desci do carro e um caminhoneiro me viu e perguntou se eu estava indo a pé. Disse que estava pedindo carona e ele se ofereceu para me levar depois dos trâmites. O Walter levava mais de 10 toneladas de madeira no caminhão e mesmo que tenha sido um caminho curto, era cheio de curva e ele foi bem devagar. Deu pra tirar bastante foto e ele ainda parou o caminhão no limite pra eu fotografar a placa da fronteira. A neve passava os dois metros do outro lado da estrada e estavamos a 1321 mts da altura do mar.
Fui ali no #Chile e voltei! Tinha que ir até Osorno para comprar uns equipamentos que me faltavam para ir pra Ushuaia, e obviamente a parte mais legal do bate e volta foram as caronas, que envolve desde um hippie com colchão no carro a um secretário privado da presidenta! #bariloche #argentina #carona #ruta #chile #osorno
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 25 de Ago de 2015 a la(s) 4:34 PDT
Desci na fronteira argentina, e outra vez, carona involuntária. Parou uma família que me deixou em Villa La Angostura. Dessa vez já tinha recuperado meu gingado caroneiro e no começo eles estavam meio quietos e eu fui falando várias coisas aleatórias para ver se eles se soltavam. Quebrar o gelo é parte do processo, algumas histórias precisam de mais cenário para poderem sair. E logo descobri que aquela moça sentada do meu lado tinha 20 anos e era casada, e o irmão e o pai me contaram a gargalhadas que ela foi criada na estrada já que eles estavam sempre viajando.
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 26 de Ago de 2015 a la(s) 12:23 PDT
Eram quatro e meia e ainda chovia. Fui caminhando bem devagar, conhecendo Villa La Angostura com os olhos, seu centrinho de arquitetura patagônica. Outra vez não quis ficar parada - isso dificulta a carona. Ainda mais em uma estrada tão sinuosa como essa, as subidas, descidas e curvas dificultam a parada dos carros. Ou seja, isso é o contrário de uma dica de carona - e caminhei até que um furgãozinho hippie (o segundo!) parou e eu saí correndo pra subir. Ele me levou por 5 km, me deixou no final de Villa e me disse pra parar de caminhar senão ninguém iria me levar.
Se não fosse pela hora, eu teria desobedecido e seguiria caminhando. Essas estradas são bonitas demais.
Una foto publicada por Isabela Kayo (@isakayo) el 27 de Ago de 2015 a la(s) 6:11 PDT
Bem, ali estou eu como a Noviça Rebelde nos campos da Áustria (qualquer dia desses lanço um musical) e para um outro carro. Dessa vez, para ser o contraste gritante do hippie, um senhor de quarenta e cinco anos mais ou menos em um carro todo frufru. Nos primeiros cinco minutos de conversa ele me solta que já deu a volta ao mundo duas vezes (esfrega na cara mesmo). Um pouco depois, começamos a falar de política, da situação econômica da Venezuela… e bem, depois de quebrar o gelo, entendo. Estava conversando com um cara que trabalhava no ramo da política. Foi depois de muito blablablá que ele soltou que era secretário da Cristina Kirschner, e eu pensei: “naaaah, esse cara tá me tirando”. Mas aí ele mostrou foto e tudo. Até foto com o papa ele tinha. Me deixou no posto de gasolina já na cidade de Bariloche, onde ele ia parar, a quatro quadras de onde eu estou.
Não sei se é pelo gosto pela narrativa que estes momentos das caronas, principalmente as curtas, me animam tanto. De repente se abre um Universo inteiro, esse lance de conhecer alguém. É como colecionar vidas de uma maneira minimalista, sei a sinopse das histórias e o resto vai ficar por conta da minha imaginação. O leque de possibilidades é tão extenso, as maneiras de viver são tão ilimitadas. Melhor que ficção, é ver essas vidas me escolhendo para compartilhar comigo quinze minutos do seu dia, e eu aí, como ouvinte, recebendo essa informação e rezando internamente para que um dia seja capaz de transformar essas histórias minimalistas nas ficções que eu quero contar para o mundo um dia, como o mundo funciona.
Quando ainda era outono, fiz meu segundo refúgio de montanha. Pra recompensar a solidão de ter ido sozinha no Cajón del Azul, dessa vez fomos em um grupo de dezoito pessoas. Subimos por caminhos separados, alguns foram embora antes, mas eramos um total de dezoito couchsurfers sedentos por aventura em pleno fim de maio, temporada mais que baixa.
Eu subi no grupo dos madrugueiros, que gostam de começar as coisas cedo, e quando chegamos no Lago Gutierrez ainda estava amanhecendo.
Eramos quatro argentinos, um colombiano, uma francesa, um mexicano, uma alemã, dois brazuca e uma italiana. Essa miscelânia de gente de todos os lados sempre me deixa contente. Sou uma pessoa que se assombra com muita facilidade, e uma das coisas que me assombra é pensar que conhecer alguém é sempre mágico de certa forma. Digo, estamos vivos no mesmo espaço-tempo, com idéias que se cruzam. Nessa tela infinita de possibilidades, aconteceu de a gente se cruzar. Não é incrível?
Montaña arriba, 11 km de caminhada nos esperavam. Fomos conversando, sem muita pressa, trocando de parceiros de charla a cada tanto, sempre fazendo pausas nas conversas multiculturais para falar "olha que bonito esse tronco!" (ok, pelo menos eu fazia essas pausas).
Murillo, o outro brasileiro, soltou um comentário: "quero ver neve!", como todo santo brasileiro chega em Bariloche.
pausa para o mate.
A verdade é que não tinhamos certeza se teria neve ou não, mas nas noites anteriores tinha feito frio e chovido o suficiente para que haja. Nas primeiras formações de gelo já se via o sorrisão na cara dele.
Mal sabiamos todos nós que na última hora da caminhada, o caminho era pura neve. Foi aqui que outra vez a vida resolveu deixar a mensagem de que não se pode brincar na neve se não está com sapatos impermeáveis. Só o que eu não sabia é que minhas botas (que tenho desde 2009, hehe) tinham perdido a impermeabilidade. Podia ter sido de uma forma menos... gelada.
Depois de quatro horas caminhando, nos encontramos com um rio. Já se via o refúgio, as pernas a cada tanto afundavam na neve (pensando bem, agora depois da temporada de inverno, tivemos muita sorte mesmo!), e meu pé já semi-congelado não estava com muita vontade de cruzar o rio. Eramos quatro sem sapatos impermeáveis e algumas pessoas que cruzaram com a gente comentaram que tinha uma espécie de ponte mais para cima. Começamos a buscar a ponte, mas por conta da neve não se podia ver a trilha. Eis que surge o Emílio, o gato negro do refúgio.
Há quem diga que cruzar com gatos negros é má sorte, mas o Emílio com toda sua sabedoria de gato de montanha (que não quer se molhar) nos guiou pelas pedras até a gente chegar no refúgio sem mergulhar os pés no rio. Não poderia haver guia de montanha mais interessante.
Chegamos eram 14h ou 15h, e animadamente comemos nossos sanduíches e comidinhas que tinhamos levado. Mais ou menos as 16h, os meninos decidiram fazer mais um dos senderos que tinha por ali até um lago.
Fui atrás, mas com a Nora, a francesa, resolvemos voltar por conta do vento, das minhas botas molhadas, e do caminho bem díficil.
Querida Sil, ensinando uma brincadeira para esquentar o corpo.
Voltamos correndo pro refúgio e daí saíram mates, galletitas, conversas com desconhecidos (é como se os viajantes e aventureiros fossem todos parte de uma mesma família, se cumprimentam quando se cruzam, compartilham comida sem rodeios, conversam sobre suas vidas e contam qualquer intimidade como se nada), jogos de carta e brincadeiras estilo polícia e ladrão até sermos obrigados a dormir.
sim, isso é um jogo de cartas
O Refúgio estava lotado porque era feriado. A noite custou 180 pesos, algo como 45 reais. Meio caro, mas bem, nesse caso faz bastante sentido. Como obviamente eu amei aquele lugar, perguntei para o encarregado se ele não precisava de ninguém pra trabalhar. Ele me disse que se eu quiser, posso levar 10 kg de comida e ele me paga 300 pesos pelo tranporte. Deve ser por isso que uma taça de chá lá saía 30 pesos... mas bem, era a pé ou era por helicóptero que a comida chegava.
De manhã, levantei como sempre antes de todo mundo, saí pra ir ao banheiro e foi uma sensação muito UAU! acordar nesse lugar. Vai além da paisagem. É um cálculo que precisa levar em conta todas as variáveis. Afinal, pra chegar ali, viajei mais de 4000 km de carona e estava a mais de 8000 km da minha cidade natal, e nisso tem mais contexto que em todos meus livros da universidade. Olhei para as pontas do Catedral e senti nada mais que gratidão.
Depois do café da manhã, começamos nosso ascenso para o topo da montanha. Eramos um grupão invejável.
Eu morro de vontade de aprender a escalar, mas não sabia que ali teria que fazer de qualquer jeito. Ainda na neve. Estava sempre no grupo dos últimos, não que isso seja uma competição, mas a habilidade de alguns me surpreendeu. Quanta confiança nessas pedras tão soltas e nesses tecos de gelo super lisos! Digo, um escorregão aqui, e não quero nem imaginar que tipo de acidente poderia acontecer... e pra alguém me socorrer aqui, como faz? Não, espera.
Foi aí que eu percebi que estava fazendo tudo errado. Eu não ia cair. É uma questão de saber onde pisar. Eu não precisava me torturar com pensamentos de acidentes a 1700m de altura. A prova de que existe uma conexão entre como você pensa e como as coisas acontecem de acordo com o que você pensa veio logo depois. Cheguei no topo junto com o primeiro grupo. E juro que não quis ultrapassar ninguém (estava muito concentrada em agarrar as pedras certas para querer ultrapassar pessoas).
tem foto clichê sim!
Chegamos no mais alto do mais alto umas duas horas depois.
Pra descrever melhor o que se sente, um grupo que não estava com a gente chegou um pouco depois e eu escutei uma menina gritando: ¡Vale la pena estar vivo, loco!
Eureka! Vale muito a pena.
(No fim de semana do ocorrido, postei a história dessa menina no Instagram e a encontrei depois. Gosto de ser mochileira em 2015).
Acordei um pouco depois do sol nascer - 9h da manhã mais ou menos - e nem bem tomei um chá, marchei para encontrar o tal do Cajón. Eu tenho um dom de acordar de bom humor, e adicionando com caminhar por um bosque autêntico em uma natureza tão selvagem, me proporcionou uma emoção única e inesquecível. Sua percepção de mundo muda muito nessas situações. De repente tudo fica mágico e aquelas coisas que sempre estiveram ali - árvores de vinte metros de altura, folhinhas secas no chão, orvalhos em cada esquina de cada tronco - te proporcionam uma alegria da qual vale a pena existir para sentir. É algo como estar muito feliz por estar vivo.
Cheguei tão rápido no meu destino final que desejei secretamente ter me perdido outra vez. Tive a confirmação de que o destino final não importa muito. O seu aprendizado vai estar no caminho. O passo final só é mais uma parte da caminhada.
Apesar de não estar tão frio - devia estar uns 6° - fiquei imaginando que de fato deve ser incrível estar ali no verão e poder se jogar nessas águas tão tão transparentes. Ir no outono me permitiu ver laranjas e verdes de todos os tons e muito tempo para pensar sozinha, uma viagem completamente diferente do que poderia ser no verão, onde esse lugar explode de pessoas, um dos destinos mais buscados da patagônia. Queria me desdobrar em muitas vidas para poder conhecer cada lugar em cada estação do ano e ver como mudam.
Depois de um tempo disfrutando da paisagem só minha, comecei a voltar já fazendo planos para voltar (pro Cajón). Nem tinha saído dali ainda e já estava com nostalgia.
Perdão pela ausência de fotos decentes. Não estava muito a fim de ficar fotografando - algumas imagens simplesmente não conseguem traduzir o que é um lugar, é completamente diferente a experiência de estar ali.
Peguei minha mochila no refúgio e comecei o caminho de volta. Percebi que conhecer um caminho faz dele muito mais fácil. Saber onde ele vai dar é outra coisa. Os passos no escuro parecem longos e te deixam mais atenta, em câmbio os passos em um caminho já conhecido faz sua cabeça ter claramente que tudo sairá bem. Fui ouvindo música e cheguei incrivelmente rápido no fim.
Dessa vez cruzei com um grupo que me perguntou em inglês como era o cajón. Me saiu um par de adjetivos rápidos, eles seguiram o caminho deles e eu segui o meu, mas a pergunta deles ficou ecoando comigo até o fim. Uma descrição imagética não vale. Uma descrição da minha experiência, muito menos. Como responder esse tipo de pergunta? Só aumentou em mim a noção de como tudo isso é subjeitvo e que o que para alguns pode ser maravilhoso, para outros é sem graça. Um misto de ponto de vista, gosto e como você trata a própria vida seria uma resposta adecuada. Deveria ter sentado, e ocupado duas horas da vida deles para dar uma resposta mais ou menos ao alcance. Mas bem, eles provavelmente sabia disso e perguntaram só por perguntar.
Cruzei a ponte sinistra e vitoriosamente sentei nessa mesinha para almoçar. Nada de pressa, nada de preocupações, era uma segunda ou terça-feira? Não importa. Em uma outra vida, seria mais um dia normal e lá estava eu armando um picnic comigo mesma na beira do rio.
Um cavalinho comendo rosa mosqueta alegrou mais ainda meu dia, bem como crianças voltando da escola. Que realidade tão diferente da minha. Como deve ser crescer nas montanhas? Ter toda essa paisagem como quintal? Viver todos os dias em contato com cavalinhos comendo rosa mosqueta? Posso me inscrever para experienciar tal coisa em uma próxima vida?
Cheguei na fazenda Warthon, voltei a ver carros, e pequenos pedaços de civilização. Tudo parece tão seguro desse lado da montanha... estacionei minha mochila na estrada e passou dois carros ao mesmo tempo que não pararam para mim. De um outro lado do cruzamento, vi uma mochileira subindo. Eram duas ou três da tarde. Ela me perguntou do caminho, trocamos contato, era uma americana que também estava para entrar na experiência do caminhar-onze-quilômetros-com-uma-mochila-pesada-sozinha e admirei ela por isso, um pouco admirando a mim mesma por ter acabado de sair dali. Quase um mês depois, eu voltei a cruzar a com ela em outro refúgio de montanha, o Refúgio Frey aqui em Bariloche. Ela me contou que tinha ficado também no La Playita e que comeu minhas lentilhas que eu eu deixei lá. Quais são as chances? Somos ou não somos todos parte de uma mesma coisa? Essa sensação de karma tem sido latente nos últimos meses, logo escreverei sobre!
Ela tinha me dito que na outra estrada que descia até a cidade tinha mais movimento, e como eu ainda estava com vontade de caminhar, andei mais alguns quilômetros até essa estrada. Uma das minhas caronas-sonho me esperava: uma kombi hippie! Dentro da kombi: um casal, a irmã de um deles, a sobrinha e um cachorro enorme! Entrei e viajei por sete quilômetros com eles, sentada em uma cama! O casal estava viajando a três anos e estavam ali visitando a irmã dela, que no momento estava levando a filha pra aula de artesanato. Gente simpática, alegre e livre de rugas foi o que eu vi. Contei para eles rapidamente o que estava fazendo e nenhum tipo de assombro ocorreu, só vivas e alegrias por eu estar descobrindo que lindo é se jogar. Eles me deixaram um pouco mais perto da ruta 40, e caminhei um pouco mais feliz (dá pra caber mais felicidade?) por ter cruzado com eles.
Dois homens me levaram até a 40 que estava pertinho, e nem bem saltei do carro deles, já parou um senhor para me levar. Eu devo passar muita confiança para os motoristas, porque sempre me convidam para um chá, um almoço ou nesse caso, esse senhor me contou que a irmã dele tinha uma pousada em Río Villegas e que ela fazia workaway lá. Estou convidada a ir quando quiser e ficar com eles uns dias. Me contou que desde lá existe uma passagem para o Chile que só pode ser feito caminhando ou de bicicleta. Deveras tentador. Mas desci na entrada de Río Villegas, afinal já tinha um workaway me esperando aqui em Bariloche.
De Río Villegas até Bariloche foi uma carona rápida com um portenho que não gostava nada das cidades grandes. Quando passamos pelo Lago Gutierrez e ele me mostrou o teléferico do Catedral, me senti em casa de novo... e assim é, estava voltando para mais um dos meus tantos lugares que chamo de casa. Quando cheguei na hostería, guardei a mochila e desarmei a posição de caroneira-mochileira-viajante, já não era a mesma que tinha saído três dias atrás daquele mesmo porto.
Esse caminho entre Bariloche e El Bolsón, descobri recentemente, pode ser feito em seis dias caminhando no verão. As cordilheiras patagônicas são tão encantadoras que várias formas de explorá-las estão disponíveis. Todas essas ramificações de possibilidades me deixam maluca, quero fazer cada caminhada, conhecer e cruzar cada caminho que seja possível. Poderia passar anos explorando cada esquina que tem por aqui. Mas como faz com tanto sul, tanta Ásia e tanto mundo ainda por conhecer? Cada vez mais acho que São Bernardo do Campo não vai me ver tão cedo.
Três dias em El Bolsón - dia dois, meu primeiro refúgio de montanha ou Isa perdida nas montanhas.
Na manhã seguinte, eu e o José tomamos mate e comemos algo, ele me presenteou com três maçãs pra caminhada.
Me deixou na estrada, comecei a pedir carona, e vi que atrás de mim tinha uma outra menina fazendo o mesmo. Um carro parou pra ela, e 500m depois parou pra mim. Era um desses carros de dois lugares e uma caçamba atrás, e eu e a outra menina nos apertamos no banco de passageiro. Era uma menina voltando da escola. Já tinha visto todo tipo de gente pedindo carona ali desde ontem, parece um "transporte" popular no Bolsón :)
Da cidade peguei um ônibus que me custou 12 pesos e me deixava em Warthon. Daí começava o caminho até o Cajón. Eis que chegando lá, uma plaquinha:
Ah mano. Foda-se, vou mesmo assim. Na verdade eu não tinha muito claro na cabeça o que era um refúgio de montanha, mas sabia que haviam outros no caminho e que eu poderia ficar em um deles se fosse o caso de pernoitar.
13h30, comecei o caminho. 11km. Plaquinhas diziam para não começar se fosse mais de 16h. Era bem antes de 16h, e eu sabia que o caminho até o refúgio do Cajón eram de 4 horas mais ou menos.
Montanha acima, montanha abaixo, eis uma ponte enorme. Pra chegar até a ponte, uma descida. Vou indo quando percebo que o chão está totalmente barroso e escorregadio. Uma descida, de uma ponte, que se eu cair e perder o controle, caio no rio. A mochila fazia eu ter pouco controle. Merda.Pensei em voltar. Mas logo pensei "não, não vim até aqui pra voltar por causa de um pouco de barro". Ainda bem que eu tava sozinha porque foi bem patético como eu atravessei.
Já pela metade do caminho, estava pensando em parar para comer algo quando escutei um motor (escutar sons como motor no meio de uma floresta onde você nem vê sinal de humanos é meio assustador), e logo percebi que era um bug que vinha vindo (o único tipo de veículo autorizado nesse trajeto). Era o dono de um dos refúgios. Perguntei pra ele se faltava muito e se tinha algum refúgio aberto. Ele disse que o dele estava, e os outros também, só o do cajón que não. Agradeci a informação, e ele seguiu caminho, mas 20 metros depois parou e perguntou se eu precisava de alguma coisa. Nem pensei duas vezes e deixei minha mochila com ele, ficando só com uma garrafinha de água. Entendi porque alguns mochileiros economizam tanto espaço na mochila. Caminhar entre subidas e descidas com uma mochila de 20 kg não é o mesmo que com uma de 15 kg ou uma de 10 kg.
Segui com muito mais ânimo, e em dado momento me deparei com uma cerca e uma placa que dizia "La Playita". Era esse o refúgio onde estavam minhas coisas, então fui pra checar se estava tudo bem. Abri o portão da cerca e caminhei por mais 30 minutos até chegar no refúgio.
Eram 16h. O senhor com quem cruzei estava lá, cortando lenha. O lugar era bastante agradável e percebi que não seria nenhum problema passar a noite ali. Mas ainda era cedo e eu não queria parar. Ainda tinha 3 horas de luz. Perguntei para ele se para ir para o cajón tinha que voltar na cerca e ele disse que sim. Lá na cerca tinha a impressão que haviam 3 caminhos, e fui voltando o caminho, pensei que tinha pegado outra curva, e vejam bem, um caminho de um lado é uma coisa e do outro lado é outra. Demorei uns 40 minutos para perceber que estava voltando tudo! Quando percebi já devia ter voltado uns 4 ou 5 km. Não pode ser. Olhei o relógio, quase 17h. Se eu demorasse esse mesmo tanto pra voltar, não iria chegar ao cajón nesse mesmo dia. Voltei correndo. Até então eu não tinha percebido que não era que eu tinha errado a curva, senão que o cara que não tinha entedido minha pergunta. Voltei correndo (fiz o caminho na metade do tempo correndo), e quando cheguei na bifuracação da cerca, olhei pra todos os lados em busca do caminho.
Nem quero descrever a sensação de estar perdida nas montanhas. É engraçado, porque pensando direitinho, não tinha nada de mais, mas o fato de eu ter que lidar com aquilo completamente sozinha fazia parecer muito pior. Foi esse o desafio que o Bolsón me deu: lidar comigo mesma, sem saber que caminho seguir para chegar em um determinado lugar. Por alguns minutos eu sofri o derrotismo de que nunca acharia o cajón. Outros minutos, estava pensando que "beeem, whatever, é só um cajón com água azul e o que importa mesmo é o caminho", que eu de fato tinha aproveitado bem e tinha feito uma caminhada bastante agradável. Minhas crises existênciais da vida toda expostas ali naquele trechinho da trilha. Sempre encontro lados negativos e positivos, e diante da dúvida, fico estática. Sentei numa pedra e respirei, pensei, tentei entender o que estava acontecendo.
Resolvi voltar para o refúgio da Playita, tomar um chá com o único outro ser humano que habitava aquelas montanhas, e tentar desvendar o mistério de onde raios foi parar a trilha até o Cajón, e no caminho me cruzo com um terceiro ser humano. Pergunto pra ele do caminho, e só apontando o braço pra uma direção, ele mudou totalmente a minha expressão facial. Fico pensando como deve ter sido cômico pra ele ver a minha reação de "agora entendi tudo". De qualquer forma era muito tarde pra ir pra lá e resolvi deixar para ir pela manhã. Voltei para o La Playita e fiquei horas conversando com o dono. Me intrigava muito a idéia de viver num refúgio. Ele tinha família em El Bolsón, mas passava a maioria dos dias ali, e naquela época do ano, sozinho. Mas o que você fica fazendo? Você não se sente sozinho? E o frio? Bichos? Como você conseguiu esse terreno? Posso trabalhar com você? E de fato, ele me convidou pra voltar no verão. Depois dos interrogatórios, eu fui cozinhar minhas lentilhas, mas ele me deu empanadas. Eu disse que não queria mas ele insistiu. Disse que senão iam estragar. Depois, meio que confessando, me mostrou uma revista sobre a Ásia e disse que queria ir pra lá. Percebi aí que do mesmo jeito que eu admirava ele por viver refugiado nas montanhas, ele me admirava por estar viajando desse jeito, ou seja, de qualquer jeito.A estadia no Refúgio é de 180 pesos e não sei quanto é para ficar acampado. Doendo um pouco resolvi pagar, porque de certa forma era a maneira dele de sobreviver. O frio também ajudou na minha decisão, e de noite caiu outra chuva de horas e eu fiquei contente de estar em baixo de um teto.
Um dia conversando com a Flavia, minha host do #workaway aqui em #bariloche , ela lembrou que tinha o livro da @anikovillalba e disse: "como eu näo pensei em te emprestar antes!". Eu já conhecia o blog dela e morria de vontade de ler o livro. Fazem duas semanas, estive viajando com Aniko sem sair de Bariloche. Ela me levou ao Perú, China, Barcelona e com ela até vi uma aurora boreal. A sinceridade da Aniko nos seus relatos provoca isso que os bons livros tem o dom: viajar sem sair do lugar. Gracias Aniko! Que sigas viajando para siempre y puedas compartir más historias lindas con nosotros!