flashback.
Alain inclinou a cabeça levemente na direção de Margot ao sentir a mordida na orelha. Foi um gesto quase involuntário. Os olhos se fecharam por um segundo e, como tantas vezes na noite, ele se permitiu sorrir. Um sorriso pequeno, contido, mas real. Aquilo não era parte do jogo. "Já, já podemos ir…", murmurou, a voz mais baixa agora, quase rouca pelo impacto daquela mordida inesperada. "Na verdade, a gente vai em instantes. Eu só preciso...", ele não sabia o que precisava. Recomeçou: "A gente vai em instantes, até porque… eu nem sei quem você é". Se fosse acontecer algo, primeiro que ele não queria que fosse encostado em uma porta com diversos estranhos passando a todo tempo pela festa. Segundo que não queria fazer nada de muito íntimo com uma desconhecida. Ainda que, em tempos antigos, uma cena como aquela tivesse acontecido de forma repetida, Alain sentia que agora já sabia apreciar mais uma boa dose de privacidade e conexão. Mesmo assim, porque não conseguia se despedir de uma vez daquele momento, permitiu que a mão subisse devagar pela lateral do corpo dela, deixando os dedos escorregarem com gentileza até alcançar a nuca. Ali, Alain afastou alguns fios de cabelo, tocando a pele com um cuidado inesperado. Ele voltou a sorrir, mais suave desta vez, os olhos nos dela por trás da máscara. Não disse mais nada. Só se aproximou.
O beijo veio como uma pausa no tempo — nem rápido, nem intenso demais. Um beijo silencioso, como se ele estivesse pedindo desculpa por querer tanto aquilo, mesmo sem saber seu nome. Mas queria. Muito. Não era romântico, nem lascivo. Apenas um daqueles beijos que deseja provar sua materialidade no mundo: eu existi. Infelizmente, Aaron queria mais. Queria prensar a desconhecida com força contra aquela porta, colocar os dedos entre suas pernas e fazê-la gemer seu nome. Ele queria mais do beijo e culpou, em grande parte, a bebida. Precisou respirar fundo, tentando recuperar o fôlego. Mas foi aí que o som seco da batida na porta o arrancou de tudo. Alain se afastou um passo, o coração ainda acelerado. Soltou um suspiro baixo, subitamente acordando de um sonho em que não queria sair. "Um segundo!", gritou para a pessoa do lado de fora. Ele precisou de alguns poucos minutos para se recompor. Passou as mãos pelo cabelo, respirou, ajustou a própria roupa, respirou, ajudou Margot na tentativa de disfarçar o amassado da saia, respirou mais uma vez. "Você está perfeita", murmurou. E, porque não pôde resistir, deu um último beijo em sua boca antes de entrelaçar os dedos nos dela. Com um gesto decidido, quase protetor, sorriu de lado. "Estamos numa festa, lembra? E eu não posso terminar a noite sem te ver dançar". Sem esperar resposta, puxou Margot com ele. De volta à multidão mascarada. Ao barulho. À superfície. Era o mais seguro a se fazer.
closed.
Margot sentiu o leve inclinar da cabeça de Alain como se fosse uma resposta corporal ao convite que ela sussurrara — um sim não dito. O sorriso pequeno que surgiu no rosto dele a pegou de surpresa. Tinha algo ali que não era encenação, e Margot era boa em perceber essas coisas. Ainda que de um desconhecido com uma máscara cobrindo suas expressões. Havia algo na energia dele que parecia familiar, como se ela conseguisse decifrar sem esforço. Quando ele respondeu, com a voz rouca e mais baixa, os olhos dela se acenderam. — Já? Que pena… — sussurrou de volta, fincando de leve as unhas em seus ombros, como um rastro de provocação que não escondia certa decepção. Mas então ele hesitou. Margot percebeu. Ele tentou completar a frase e travou, e isso a fez inclinar a cabeça de leve, intrigada. — Você só precisa…? — repetiu baixinho, incentivando, como quem cutuca a ferida com delicadeza. Mas ele recomeçou. Disse que nem sabia quem ela era. Margot arqueou as sobrancelhas, depois riu com suavidade, jogando o peso do corpo para a outra perna. — Ninguém sabe quem é ninguém hoje. Esse é o ponto das máscaras e codinomes, não é? — Puxou-o para mais perto, voltando a sussurrar em seu ouvido. — E isso é excitante, não acha? — Ela ergueu os olhos para ele com firmeza. — Mas se quer saber meu nome antes de me tocar de verdade... bem, isso já diz bastante sobre você. — E ela dizia isso como um ponto positivo.
Margot queria parecer no controle, mas a mão dele subindo devagar pela lateral de seu corpo a desmontou de dentro para fora. Um arrepio traiçoeiro percorreu sua pele quando os dedos dele chegaram à sua nuca, afastando seus cabelos como se fosse um gesto íntimo, antigo. O toque era quase reverente. Ela segurou o ar, mordendo o canto da boca. Quando os olhos dele encontraram os dela por trás da máscara, Margot não conseguiu sustentar a superioridade por muito tempo. — Você tem esse jeito de fazer parecer que é só um toque… só um gesto. Mas não é. — A voz dela saiu mais baixa, mais honesta do que gostaria. O beijo veio antes que ela pudesse se proteger da própria transparência. Margot não fechou os olhos de imediato. Queria ver. Sentir cada segundo de como ele a tocava. E, por um instante, sentiu como se ele estivesse tentando memorizar seu gosto — e isso, ironicamente, fez com que ela se esquecesse de tudo. De onde estavam, de quem eram. Só existia aquele beijo.
Mas foi breve. E por mais que fosse leve, calmo, havia algo profundo ali que a deixou vulnerável. Margot desejou não gostar tanto. Mas gostou. Ele se afastou, e ela já ia dizer alguma coisa quando a batida seca na porta os puxou de volta à realidade. Margot piscou, ainda sob efeito. Observou Alain dar um passo para trás, respirar, se recompor. E ficou ali, parada, quase zonza de si mesma, tentando ajeitar a saia amassada. Quando ele murmurou o "Você está perfeita", ela apenas sorriu, sendo pega de surpresa por um elogio tão honesto e repentino. O sorriso veio mais doce do que se costumava ver no rosto dela, e isso a irritou um pouco. Estava suave demais. O beijo seguinte, mais rápido, mais decidido, selou algo que ela não soube nomear. Quando ele entrelaçou os dedos nos dela, Margot não resistiu. Segurou firme. Não era só o calor da pele — era o jeito dele conduzi-la, como se dissesse "confia em mim" sem palavras. — A pista de dança nos espera, mon prince. — O apelido já soava muito natural aos seus lábios, e queria aproveitá-lo enquanto podia dizê-lo. Não sabia quando o veria de novo, se é que o veria mais uma vez. Deixou que ele a puxasse para fora da sala, e seguiu para o andar debaixo, no meio da multidão da pista, enquanto o corpo se mexia com o ritmo da música, mas sem perder o contato com ele. Pelo menos por mais alguns minutos.
THREAD FINALIZADA.
@khdpontos



















