gambito
calça meu tênis. traz água.
há bichos assim, que despertam já inclinados para a necessidade alheia.
aceito. é instintivo, como a água que me lava e atravessa encontrando o declive até minha garganta.
guardei o gesto junto de outros espécimes que ainda não sei a qual família pertencem.
ele sorri. eu também.
a musculatura armazena memórias daquilo que a experiência apagou.
às vezes imagino que todo afeto seja isso, um comportamento preservado de uma lei desconhecida, mais antiga que o nome das coisas.
penso em encomendar um tabuleiro
digo que é pela lógica. a dele.
não mencionei que toda lógica, observada por tempo suficiente, acaba adquirindo hábitos religiosos.
no xadrez não existem coringas
já bastam os que movem peças sem perceber que estão sendo movidos.
os que descobrem viram o tabuleiro. depois a madeira. depois as casas. depois a distância entre uma casa e outra. depois o acordo silencioso.
o cavalo conhece a água, vê primeiro o que ela faz com as casas
quando as margens cedem, já não distinguem
a peça da regra, a regra da crença, a crença da necessidade.
não pergunto que peça ele acha que é
algumas respostas estragam o jogo.
estou limpa há meses
a água invadiu os pulmões
o problema é que agora consigo ver.
dou mais um gole
e levanto.
Junho 11, 2026









