Que encanto o seu canto <3
Muito obrigada c: Fico feliz que goste daqui!

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Que encanto o seu canto <3
Muito obrigada c: Fico feliz que goste daqui!
Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um benquerer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim. Rubem Braga
Cada um está só sôbre o coração da terra transfixado por um raio de sol: e de súbito anoitece.
Salvatore Quasimodo
In memoriam
I
Seus poemas desenham seu fino hastil suas corolas vibrantes como pequeninas violas (ou era a vibração incessante dos grilos?) seus poemas floriam na tapeçaria ondulante dos prados onde os colhia a mão das eternamente amadas (as que morreram jovens são eternamente amadas...) II
Seus poemas, dentre as páginas de um seu livro, apareciam sempre de surpresa, e era como se a gente descobrisse uma folha seca um bilhete de outrora uma dor esquecida que têm agora o lento e evanescente odor do tempo... III E seus poemas eram, de repente, como uma prece jamais ouvida que nossos lábios recitavam --- ó temerosa delícia! como se, numa língua desconhecida, sem querer, falassem da brevidade e da eternidade da vida... IV Ah, aquela a quem seguiam os versos ondulantes como dóceis panteras e deixava por todas as coisas o misterioso reflexo do seu sorriso; e que na concha de suas mãos, encantada e aflita, recebia a prata das estrelas perdidas... V
Nem tudo estará perdido enquanto nossos lábios não esquecerem teu nome: Cecília...
Mário Quintana.
Perfeito este cantinho.
Muito obrigada! Seja bem-vinda :D
Uma palavra escrita é uma palavra não dita é uma palavra maldita é uma palavra gravada como gravata que é uma palavra gaiata como goiaba que é uma palavra gostosa.
Chacal.
Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nome, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia. Alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus, eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram mais bonitos como a pessoa que sonhava… Fez-se cor de pitanga.
Machado de Assis, Dom Casmurro.
Há uma hora certa, no meio da noite, uma hora morta, em que a água dorme. Todas as águas dormem: no rio, na lagoa, no açude, no brejão, nos olhos d’água, nos grotões fundos. E quem ficar acordado, na barranca, a noite inteira, há de ouvir a cachoeira parar a queda e o choro, que a água foi dormir... Águas claras, barrentas, sonolentas, todas vão cochilar. Dormem gotas, caudais, seivas das plantas, fios brancos, torrentes. O orvalho sonha nas placas da folhagem. E adormece até a água fervida, nos copos de cabeceira dos agonizantes... Mas nem todas dormem, nessa hora de torpor líquido e inocente. Muitos hão de estar vigiando, e chorando, a noite toda, porque a água dos olhos nunca tem sono.
Guimarães Rosa
Adorei o seu tumblr :D
Obrigada <33 Fico feliz que goste daqui, muito mesmo. Seja bem-vinda!
você escreve MUITO bem! seguindo...
Os textos que posto aqui não são meus, mas muito obrigada <3 E seja bem-vinda, fique à vontade!
Chego, às vezes, a suspeitar que os poetas, os verdadeiros poetas, são uma espécie de erro de programação genética. Aquele produto que saiu com falha, entre dez mil, um sapato saiu meio torto. O poeta é aquele sapato que tem consciência de linguagem, porque somente o torto sabe o que é direito. Então o poeta seria um ser dotado de erro, donde essa tradição romântica de marginalidade, do poeta como bandido, banido, perseguido.
Paulo Leminski: "O poeta é um sapato meio torto".
aqui nesta pedra alguém sentou olhando o mar o mar não parou para ser olhado foi mar pra tudo quanto é lado
Paulo Leminski
Poética
Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente [protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o [cunho vernáculo de um vocábulo Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante [exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de [agradar às mulheres etc. Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbdos O lirismo dos clowns de Shakespeare - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira.
Canção do vento e da minha vida
O vento varria as folhas, O vento varria os frutos, O vento varria as flores… E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes, O vento varria as músicas, O vento varria os aromas… E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos E as amizades… O vento varria as mulheres… E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses E varria os teus sorrisos… O vento varria tudo! E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De tudo.
Manuel Bandeira.
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teu ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade em "Sentimento do Mundo".