Porque decidi não usar mais aplicativos de encontro
Quando o Tinder surgiu, parecia um sonho proibido realizado. Todo o caminho cibernético feito por chats e redes sociais desembocou num aplicativo que, de tão simples e objetivo, chegava a ser perverso. De tão perverso, chegava a ser um desperdício: quem nunca deixou passar uma pessoa “interessante” pela rapidez dos cliques? Aliás, quem nunca desejou o Tinder, ainda que só um pouquinho?
Demorei a me entregar. Ajudei várias amigas a criar seus perfis porque percebi o caráter de entretenimento do app e do caráter narrativo das fotos. Histórias entremeadas por breves descrições constituíam uma poética mais refinada pra quem se atrevesse. Até que chegou a minha vez de, geminiana e curiosa, experimentar o mundo dos aplicativos...
O Tinder me cansou muito rápido. Seu custo-benefício era baixo. Servia mais como distração na hora de ir ao banheiro do que busca. O índice de respostas era baixo, o índice de conversas interessantes mais ainda e conheci poucas pessoas pelo aplicativo. Das que conheci, a maioria se tornou amiga - ótimos amigos, por sinal. Então, fui colher mais fundo: OkCupid e Kickoff, cada um no seu perfil. OkCupid, segundo o próprio Grupo Match, atendia um público mais escolarizado por ter um perfil extenso como o saudoso Orkut. O Kickoff, cujo símbolo era uma aliança, atendia um público que procurava um relacionamento “sério” e, como pude observar, atendia um público assalariado com renda mais estável. (Vale ressaltar que o Grupo Match atende a todas essas demandas e detém o monopólio de todos esses aplicativos).
Acreditando na energia da sincronicidade presente no mundo virtual, me entreguei a essas descobertas quase como uma pesquisa de autoconhecimento pelo conhecimento do Outro. Conheci parceiros de vida pra música, pra bike, pra poesia, pra militância e até mesmo pra um date. Pelo OkCupid, me apaixonei e não fui correspondida, e agradeci à vida que me lembrasse dessa sensação. Pelo Tinder, marquei encontro, me arrependi e fui embora. Pelo Tinder também já garanti companhia turística em mochilão com direito à carona e tour pela cidade. Se me arrependo? Claro que não. Se incentivo as pessoas a usarem? Bom, cada um tem seus objetivos...
O mais curioso da média de 20 encontros que tive em dois anos (pouco, tem gente que usa semanalmente) era perceber que, em sua maioria, as pessoas se sentiam constrangidas pela forma que chegamos até o outro, ainda que depois desse momento inicial já houvesse muitos interesse e papo. É como se o encontro estivesse amaldiçoado, ou como se elas sentissem que “havia algo de errado” com esse Outro que precisava de um aplicativo. Um auto-flagelo, é claro, pela vergonha de usar o mundo virtual. E, por conta dessa vergonha, perdi grandes amigos na linha do tempo, porque naturalmente em algum momento eles gostariam de esquecer esse momento, principalmente quando assumiam um compromisso com alguém. Era como fazer parte de um passado negro. Pra mim, os aplicativos eram tão legítimos como qualquer outro contato e eu era tão “seletiva” e presente neles quanto seria na vida real.
No entanto, alguns encontros ótimos e divertidos nem tinham a chance de se verticalizar porque em menos de uma semana já tínhamos nos perdido um do outro. Pessoas que beijei, queria continuar vendo, era mútuo, era lindo e interessante, mas... quando você usa aplicativos, mesmo se conhece alguém legal, também fica curioso pra conhecer aquele outro alguém também legal que decidiu te responder, ou pra procurar só mais um pouquinho, ou pra cansar demais e voltar pra concha, ou perceber que tem que voltar pro trabalho...
A rotatividade óbvia dos aplicativos caiu, então, como uma marreta em minha cabeça aberta e livre. Percebi, de repente, que eu também estava imersa nesse jogo. Em 2015, fiz uma escolha consciente quando decidi entrar no mundo dos aplicativos; pesquisando, entendendo, experimentando e descobrindo meu modo de amar. Agora, no entanto, percebo que essa escolha trazia aspectos sombrios que eu não tinha me dado conta: a estigma do não-esforço que fica inconscientemente gravada quando conhecemos uma pessoa por aplicativo.
Explico: conheci as pessoas mais marcantes da minha vida da forma mais inusitada. O primeiro namorado foi me metendo em um programa de índio da minha irmã mais nova. O segundo foi fazendo aula de violão. O terceiro foi na festa de 15 anos da minha outra irmã. Um dos meus grandes amores entrou pelo auditório da faculdade e era, na verdade, o palestrante. Um ficante e correspondente argentino conheci ajudando a fugir de uma chuva no Rio... isso sem contar com as viagens. Ah, as viagens... momento em que estamos abertos, deslumbrados e declaradamente vulneráveis. O momento do Imperioso Desconhecido, dos amores de porto. Todas essas situações em que nos expomos, em que estamos de corpo inteiro, ficam marcadas valorosamente em nossa memória física, em nosso corpo emocional. Associamos a lembrança daquela pessoa a um momento de abertura em nosso campo de visão.
Já os aplicativos não guardam essa memória. O clique é tão rápido que não dá tempo de reter as sensações. É claro, há o depois, e quem sou eu para criticar os enlaces feitos por aplicativos... mas é só na presença física e energética que eles se concretizam, a depender de cada um. É preciso, portanto, fazer uma ESCOLHA, e há pessoas que entram em aplicativos já tendo feito essa escolha de querer viver uma história, ou que fazem, naturalmente, no decorrer dos encontros. Ao entrar no aplicativo, será que pensamos na escolha que estamos fazendo, e nas consequências, que podem estar além do que previmos? O fato de se habituar a ter conversas picantes e trocar “nudes” com pessoas que você nem conhece pessoalmente, por exemplo, pode condicionar um padrão sexual difícil de reverter a longo prazo. Seu cérebro se acostuma e compreende aquilo como um padrão. As consequências coletivas desses padrões aglutinados, no entanto, só saberemos no futuro...
Escolher estar em aplicativos, como eu disse, foi uma escolha consciente da minha parte. Queria experimentar e descobrir como eu vivenciaria encontros com pessoas que não conheceria de outra forma, não com o mesmo conforto e rapidez. Conheci gente de todo tipo, troquei muitas informações e tenho pelo menos umas trinta pessoas no facebook, e estou feliz e grata por essas trocas. Aprendi sobre assuntos que não teria aprendido e usei os aplicativos da melhor forma, de acordo com o meu entendimento da minha caminhada espiritual e pessoal. No entanto, agora decido por viver o momento da vulnerabilidade do meu corpo emocional. Assim como já senti meu coração acelerar só por ver uma foto no Tinder, escolho reagir na vida real quando eu vir alguém que me desperte essa mesma reação física, seja no ônibus, na faculdade ou em Aldeia Velha (confesso que aí fica mais fácil). Como diz Deleuze, o charme de alguém reside em seu ponto de demência, e em fotos de stand-up, Machus Picchus e mergulhos fica mais difícil ver esse ponto lindo, humano e crucial.
Para quem quiser entender um pouco mais sobre o poder da vulnerabilidade que tanto tememos, a especialista Brené Brown: https://www.youtube.com/watch?v=n7tql5Oxol4








