O Rei da TV: a história de Silvio Santos com ressalvas
Estreou a segunda temporada de O Rei da TV no Star+. Desaprovada pelas filhas do apresentador, preciso dizer logo que a série não é um documentário sobre Silvio Santos. Muito menos uma ficção biográfica. É baseada em sua vida, que pretende ser contada como se fosse real, mas em alguns momentos beira a fake news, sem que isso fique explícito.
A linha do tempo da vida do dono do Baú está lá: desde o jovem sonhador que começou a vida como camelô até sua ascensão a uma das maiores personalidades do país, tempos que são intercalados para não deixar o transcorrer monótono.
A série não deixou de fora o sequestro de sua filha "número 4" Patrícia, a tentativa de Silvio de se tornar presidente da República, os desafios de gerir seu grupo empresarial e os bastidores da TV. Sem ser muito fiel às datas dos acontecimentos. Algumas cenas clássicas da guerra pelo ibope foram lembradas, como a entrevista falsa com o PCC e a "barraca armada" do Vandame dançando com a Gretchen no Domingo Legal, e o Latininho e o sushi erótico no Faustão. Lembro que escrevia críticas de TV nessa época e assisti a tudo ao vivo.
A cenografia de O Rei da TV foi muito feita. Retratou os estúdios do SBT e objetos antigos. Os personagens, porém, um pouco caricatos. Mostrou um Gugu ganancioso. O próprio Silvio não tinha leveza de espírito. Arrumaram um bom imitador para Gil Gomes, repórter policial do extinto Aqui Agora. E o poderoso global Boni (o único que teve o nome trocado na trama), ganhou status de antagonista.
O resto é dramatização. Diálogos que podem não ter existidos, decisões tomadas e até uma suposta traição conjugal. Suposições novelescas da porta de casa para dentro, restritas à família Abravanel e a pessoas próximas de Silvio, que sempre fez questão de manter sua vida privada longe das câmeras.
É uma extrapolação na interpretação de texto de sua trajetória. Mas como obra artística, a legislação brasileira não exige autorização prévia nem prevê censura, ainda que a série seja pseudobiográfica, capaz de construir uma falsa percepção para a geração atual. Silvio Santos é gigante e produtores próximos a ele precisam correr para tentar consertar a documentação de sua história por meio da linguagem falada nos dias atuais: o formato de série.
Por outro lado, O Rei da TV não deixa de ativar memórias sensoriais do espectador que viveu a época. Programa Silvio Santos lembra família reunida, lembra casa da avó, lembra alegria dos domingos, objetivo principal do maior animador de palco que o mundo já conheceu. E "do mundo, não se leva nada; vamos sorrir e cantar", dizia a letra da abertura de seu programa.
Tem que assistir com ressalvas. E com o celular do lado para pesquisar no Google.








