“Eu sou cheio de problemas: abandono, raiva, traumas. Perdas por suicídio, acidente e doenças, vi meu avô morrer em meus braços, sem poder salva-lo. Cercado de mentiras, traições. Pessoas usando as outras como se fossem lixo. Eu fui esmagado, espancado por essa vida. Não tem como me amar, e eu entendo, como amar alguém tão ferrado, que tentou ter sucesso no trabalho, num amor, num curso e só se ferrou, e sempre, sempre quando tudo parecia dar certo? Mas vou me cuidar, mais uma vez. O que aconteceu com a gente me quebrou, de uma maneira fodida, tão fodida que acho que abriu todas as feridas. Estou zonzo, enjoado, enojado, dividido. Lapsos e mais lapsos, se existo ou não, se te amo ou se te odeio, se te quero ou se você não me merece nem que eu fizesse parte um segundo sequer da sua existência. Pra alguém que nunca se achou presente na minha vida, você fez um estrago. No trabalho, na minha mente, nas musicas que ouço, nos filmes que assisto, qualquer lastro bom do meu dia, tinha um pouco de você. Isso fodeu tudo. O roteiro eu conheço, mas não estarei aqui pra ver, eu não aguentaria, sei que terá outras pessoas pra você se divertir agora. Eu sei que não será mais calmantes, eu sei que o bicho pegou de vez. Eu sinto que minha sanidade está no limite, e eu não sei mais o que é certo ou errado. Eu nem sei o que sou. Eu acho que morri aos 16, e tudo isso é uma farsa, talvez eu esteja no inferno. Talvez você seja mais uma versão de Lúcifer me dando um castigo. Só pode ser. O mesmo roteiro, as mesmas torturas, mas eu fraquejei. Você me teve na sua mão, e eu não sei se foi o seu olhar, ou o cheiro de dunhill, mas eu fiz o que eu nunca tinha feito, apenas fui. Mesmo mil vozes na minha cabeça implorando, a cada sinal, a cada maldito sinal, pra fugir de você, como se cada neurônio soubesse que muitos deles morreriam um tempo depois. Você é dopamina pura, e estar com você é a definição da serotonina. A ocitocina fodeu minha cabeça. Não foi a nossa relação que me destruiu, ela só acabou de concretizar o que já estava ferrado. Você lembra, talvez, se realmente estivesse me dando ouvidos no inicio da relação, o quanto eu estava mal, e quebrado, você me deu a sensação de que alguém me amava como eu era, mesmo quebrado. Você me preencheu, me deu a sensação que me aceitou, me deu esperança e me fez me sentir vivo. Soube dizer tudo o que eu quis ouvir, mas isso mudou quando você me escolheu de fato, quando eu me tornei o seu brinquedo favorito. Desde então você fez o que você soube fazer a vida toda: ir e voltar. Como se eu não fosse nada além de um cachorro adestrado que te aceitasse sempre, sem escolhas, com o único sentimento de te amar. Um cachorro que não se importa com o que o dono faz na ausência, e só se importa com a chegada, e o tempo que está ali. E dói colocar as coisas nos devidos lugares, e perceber que eu sou só um personagem na sua história, que logo vai passar, enquanto você era a minha salvação de ser alguém de verdade. Alguém aceito, com falhas, defeito, como eu realmente sou, sem mascaras, sem precisar fingir sorrisos. Eu pude conversar sobre literalmente tudo com você, e isso era especial pra mim. Você foi a parceira perfeita. Até eu perceber a realidade. Você lembra de quantas vezes você disse que não me queria mais? Você lembra das vezes que destruiu meu coração? Você sentia algum remorso? Sentia prazer no poder em me destruir? Eu sempre quis saber. A terapia vai começar, e vou me colocar nos eixos, e até lá, eu realmente espero não enlouquecer, e não perder o pouco que levei 30 anos pra conseguir por causa de alguém que brincou de me amar. E se você, que está lendo isso, se pergunta como alguém pôde ser destruído assim, eu te digo: Não ignore os sinais, nem sua intuição, e na primeira vez que alguém falar que não te quer mais, fuja. Não volte. Jamais.”