axjames:
A vermelhidão indiscreta do rosto da James deu o ar da graça em puro constrangimento ao receber a resposta simplória de Jonathan onde criticava sua postura como parceira de dança. O mais alto conseguia ser ridiculamente cordial e devastador ao mesmo, como o cavalheiro que era, e sabia bem como atingir um ser humano faminto por perfeição, como April claramente também era. Ainda assim, a estudante de direito deveria agradecê-lo pelo comentário, em sua totalidade; isso fazia com que a vergonha por seu julgamento fosse maior que a sensação quente dos dedos compridos e curiosamente frios do Altman em suas costas parcialmente desnudas, que lhe traziam uma sensação tão bem vinda quanto não deveria ser. Não conseguira nem mesmo respondê-lo – pelo menos não verbalmente, pois discretamente ajeitara a própria postura durante a dança, como uma aluna seguiria os conselhos e as ordens de um professor. Da mesma forma que a conduzia, Jonathan tinha a destreza de um falcão em tirá-la da zona de conforto. Não sabia como se sentir sobre o comentário seguinte, afinal, era difícil, muitas vezes, identificar suas intenções mesmo com as palavras tão bem colocadas. Era difícil também não irritar-se com o veterano ao escutá-lo rebaixar Christopher à uma passagem, reduzindo-o à uma existência banal. E era difícil, também, ler o texto do Altman e uni-lo com o tom tranquilo e cru, de uma forma sincera da qual April tinha muitas dúvidas. Era complicado para a James enxergar a total boa vontade e intenção de Jonathan, porque isso queria dizer que ele realmente se importava com ela. E Jonathan importar-se era um mundo completamente novo para uma mulher que sempre o intitulava como concorrência e que começava a ter dúvidas sobre não estar jogando um jogo apenas para uma pessoa. Como se pudesse enxergá-lo totalmente de um outro modo, um modo que o humanizava mais e a fazia sentir-se de outro jeito. “Você sabe que é prepotente da sua parte pensar que poderia mudar as coisas pra mim dessa forma, não sabe?” Indagou. Sem sarcasmo, sem ironia, sem menções sobre Kit – porque falar sobre ele com Jonathan era uma partida perdida, e porque de qualquer forma, estaria certo. Ele saberia como criticá-lo, e ela perderia a razão em defendê-lo com falácias. Agora era apenas sobre April James. April James e a peculiar curiosidade sobre como Jonathan P. Altman poderia tê-la feito menos miserável naquela noite, como não quisera deixar ninguém perceber que estava.
A atenção às palavras de Jonathan tomaram o controle de seus olhos, buscando a figura do homem mais velho com agilidade pelo salão tão bem decorado. Olhou, da forma que pode, pela lateral, próxima ao ombro do Altman, como se o mesmo pudesse protegê-la da descoberta de uma encarada indiscreta a qual ela exageradamente tomava conta para que não fosse percebida. Ainda que com as orbes claras grudadas na figura bem humorada do juiz, os ouvidos estavam bem atentos nas palavras de seu veterano. De forma alguma April duvidada das habilidades de J.A, afinal, se não reconhecesse, não havia motivo para buscar superá-lo e respeitá-lo ao mesmo tempo. Os olhos esverdeados encontraram os também claros do mais alto na primeira menção de movimento. Era a primeira vez que April via-se tentando decifrar a cor e as nuances das verdades nos belos olhos de um Jonathan que as esfregava em sua cara naquele momento, e lhe deixava sem palavras para respondê-lo. E isso raramente acontecia. “Jonathan, eu-…” O afastamento dele e o seguimento de seus planos fizeram com que a James calasse a boca. Recompondo-se rapidamente, sorriu para o homem respeitável em um belo terno, saudando-o com um de seus mais finos sorrisos e a partir dali, dando início a uma conversa agradável. Olhando por cima do ombro de McAbbot, April acompanhou as costas de Jonathan como se ele fosse alguém que nunca vira na vida, mas que repentinamente, e à contragosto, lhe fizera falta.
O contato que Jonathan diretamente lhe proporcionara gerara um fruto interessante para April, que com sucesso fora convidada para um segundo jantar após o juiz mencionar o nome de seu pai. Todavia, sentiu-se um fracasso imediatamente, levando em consideração o que o Altman havia feito por ela. Jonathan conseguira aquele contato por si só, em meio às suas centenas de qualidades, enquanto ela se resumira a filha de juiz sem habilidade até mesmo para se apresentar sem a ajuda de alguém mais especial do que ela. Após despedir-se de McAbbot, inconscientemente seu olhar buscou a figura do veterano pelo salão. Encontrando-o próximo às grandes janelas de vidro do jardim, traiu a si mesma e viu-se caminhando até a figura altiva e delicada ao mesmo tempo, que a olhava de uma forma que não sabia o que significava. Mas estava cansada e sentindo-se um lixo. Queria ir embora dali, mesmo conseguindo o que queria (embora não do jeito que esperava). Tomou a frente antes que ele comentasse qualquer coisa sobre sua expressão de derrota. “Trégua. Por hoje. Você já provou mais do que eu precisava comprovar em menos de quarenta minutos.” E, daquela forma, Jonathan com certeza deveria saber que aquela era a forma que April James tinha de expressar-se e dizer que estava lhe dando razão. Sobre aquilo e sobre tudo.
Observador como era, Jonathan poderia ter passado a noite colecionado todos os pequenos tiques de cada um dos convidados daquele jantar. Entretanto, ao entregar April James aos passos do juiz McAbbot, acabou entregando possivelmente a única coisa que, de fato, achava interessante naquele local. Não que discussões sobre o futuro da humanidade e direito criminal, especialmente ligado a critérios de imputabilidade não chamassem sua atenção, era só… Bem, era só - e não admitiria isso se fosse perguntado - que a presença da colega de curso acabou por mexer no ponto qualitativo de suas faculdades mentais, tornando-o hipertenaz mas, hipovigil. Ou, distraído, como poderiam simplificar. Mantendo a postura e o cinismo em perfeito estado, após alguns sorrisos simpáticos para figuras no local, tratou de sair para um local aberto, onde pudesse ter o cigarro, seu velho companheiro, como companhia única. Não fosse o velho hábito de fumar em festas e a presença de desconhecidos (ou recém conhecidos) Jonathan Altman teria sigo pego no flagra enquanto estava - quase que nitidamente - inquieto pelo momento em que teria April James perto de si novamente.
Antes mesmo de processar a frase, a voz conhecida lhe soou como paz de neurotransmissores, fazendo sua cabeça parar de imaginar que frutos teriam gerado a conversa entre a zeta e o juiz, ou se ela havia se incomodado com a pequena intromissão do inglês. “Trégua”, fora o que Jonathan escutou primeiro, o que era quase uma ironia. Em sua percepção, a relação de rivalidade construída entre ele e April tinha motivações distintas entre ele e a garota. Apesar de ridiculamente competitivo, Jonathan nem sempre tinha como objetivo principal ganhar da James, mas sim, vê-la tentando não perder. April era motivada em tentar ser melhor que Alt, Alt por sua vez, se motivam em ver o empenho da outra. Em sua cabeça, viviam em uma guerra “saudável”, se é que isso poderia existir. Os lábios prensaram um contra o outro e o rosto virou para a mais nova sem pressa, movimento praticamente ensaiado já que há segundos atrás encontrava nervoso para fitar novamente a James. - Trégua, James. - Concordou. - Por favor não me diga que está chateada por eu ter apresentado vocês, digo...é a única explicação óbvia já que, é claro que você conseguiu o que precisava.
O corpo do inglês virou para o lado por alguns segundos, apenas para conseguir apagar e descartar o cigarro em um cinzeiro próximo, voltando novamente a atenção a colega. As feições da mulher denunciavam um certo desconforto, que ainda não havia entendido muito bem do que se tratava. A incógnita fez o cérebro de Altman se revirar novamente, pego em uma nova sensação pela segunda vez aquela noite, a de não saber o que esperar de April James. April que sempre tinha uma resposta bem formulada ou irritadiça para qualquer que fosse a frase lançada pelo estudante, agora parecia condescendente com ele e até...disposta? O cenho franziu, e o olhar direcionado foi de certa preocupação. - Você quer ir para casa?











