para draco, era cruel que o resto de hogwarts continuasse vivendo normalmente enquanto a sua vida parecia apodrecer aos poucos. quer dizer, normalmente na medida do possível, considerando que estavam presos num suposto lapso temporal... mas os corredores continuavam cheios, e os alunos ainda tinham deveres escolares para reclamar. agora que podiam pisar fora das pedras de mármore, voavam pelo centro de treinamento. e, veja só, até mesmo se apaixonavam nos corredores entre uma aula e outra. enquanto isso, draco tinha sido bem sucedido em fingir junto deles que poderia ser mais um aluno em sua rotina ridiculamente normal. o que seria mais fácil do que agir como se existisse apenas festas idiotas, astoria greengrass e o eterno desejo de esmurrar harry potter? os últimos acontecimentos, embora ligeiramente catastróficos, ainda eram muito mais plausíveis e palpáveis do que a marca sob a sua manga esquerda. sem contato com o exterior, sem profeta diário, sem notícias do ministério, sem a sombra de lucius malfoy ou a expectativa do lorde das trevas, draco conseguiu se convencer de que podia existir separado daquilo tudo, por uns dias. até que lily, a garota do futuro, apareceu—e draco foi obrigado a encarar o fato de que havia chances, sim, de existir uma vida após sua história recente. por que soava tão errado? qualquer possibilidade parecia aterrorizante, fosse viver fingindo nunca ter se afiliado aos comensais ou ser julgado tal qual seu pai. atravessando os corredores naquela noite, os dedos apertavam tanto as unhas contra as palmas que as articulações chegavam a doer. caminhava rápido, desesperado em encontrar um refúgio para que pudesse ser estúpido, ridículo, sozinho. draco tinha medo de morrer, mas por qual motivo parecia tão aterrorizado com a possibilidade de viver após tudo aquilo? especialmente se descobrissem a natureza de sua missão. ninguém perdoaria um inimigo de dumbledore. o ar lhe faltou, parecendo rarefeito de repente, e sua a garganta fechou antes mesmo dele perceber. draco apoiou uma mão na parede fria de pedra enquanto a visão vacilava. então, o castelo pareceu abafado, turvo, como se estivesse debaixo d’água. puta merda. era péssima hora para aquilo começar, mas nunca haveria um momento ideal para ter uma crise. draco tentou puxar o ar com mais força, o que apenas piorou a sensação de sufoco, e o peito apertou gravemente. a sensação era como se algo estivesse esmagando suas costelas de dentro para fora, e draco fechou os olhos com força, tentando se recuperar e imaginando o quão idiota seria ser flagrado daquele jeito humilhante e patético. ele era draco malfoy, afinal. mas as mãos tremiam, e a respiração não voltava ao que deveria, e seus olhos pareciam lacrimejar com uma velocidade anormal. as lembranças de lucius, bellatrix, voldemort... todos invadiam sua cabeça sem dó algum, como se draco nunca tivesse aprendido o conceito de oclumência. até mesmo potter e astoria surgiam, caçoando de sua cara—potter tendo a absoluta certeza de que ele era uma pessoa terrível, e astoria quase o convencendo de que, na verdade, ele poderia ser bom se quisesse. o seu estômago se revirou. ele empurrou a primeira porta vazia que encontrou sem nem olhar onde estava entrando, e felizmente a sala estava vazia. draco quase tropeçou ao fechar a porta atrás de si. pretendia apoiar as duas mãos sobre a borda de uma mesa, mas acabou caindo no chão e encostando as costas na parede, ainda trêmulo. "pathetic," murmurou rouco, abaixando a cabeça e tampando os próprios ouvidos, que ouviam ecos distantes de memórias que nem haviam acontecido, ainda. até que, bem... a porta se abriu, novamente, em uma nova dose de sua tortura. draco levantou o olhar, assustado. haviam algumas lágrimas que ele não percebeu terem escapado, e elas escorreram silenciosas por suas bochechas. não havia coragem alguma nem ao menos de ofender a grifinória, como seria de costume—draco apenas desejava desaparecer.