Todos nós somos donos de uma enorme coleção de obras de arte que nascem, vivem e morrem no nosso interior. De algumas das quais nos apropriamos e de muitas que fazemos ressuscitar, revisitando-as de forma ruminante constantemente. Um blog por João M. Pereirinha
O dia 1 de Abril não nos impede de dizer verdades, da mesma forma que nada nos impede de mentir o resto do ano. Às vezes abro o meu caderno de apontamentos e escrevo umas quantas mentiras, na forma de poemas. Outras vezes, escrevo umas quantas verdades, ao pensar na ilusão do dia-a-dia. Nos últimos anos, como muitas pessoas, perdi a vontade genuína de comprar e ler jornais, ou de assistir televisão. Prefiro o cinema, as séries, a ficção, enfim, sítios onde a mentira é assumida e onde, muitas vezes, são reveladas grandes verdades.
Quando era miúdo, havia dias em que era levado à escola pelo meu padrinho. Logo pela manhã ele colocava a música do rádio do carro bem alta. Foi lá que ouvi, creio que pela primeira vez, Guns N’ Roses, Robbie Williams, Bryan Adams e João Pedro Pais. Não vamos julgar os gostos musicais do meu tio, e não sei dizer até que ponto podem ou não ter influenciado muito os meus. É verdade que ainda hoje ouço Guns, da mesma forma que muitas vezes me lembro de uma das músicas de João Pedro Pais mais badaladas de sempre, quando leio, vejo e ouço algumas notícias: “mas é mentira, mentira, mentira, mentira, mentira…”.
Aquela música retrata a desilusão do autor perante o ideal do amor, a dor da perda e separação de quem ama, e o sofrimento que muito desse amor pode causar. Afinal, não passa tudo de uma grande ilusão, uma bestial mentira. Não é essa a sensação que muitas vezes temos, em relação a tudo?
Desde as notícias, da política à economia, passando pelos mexericos de bairro, a mesquinhice de certos amigos e colegas, passando pelas desilusões amorosas e o pretensiosismo ou falsidade de alguns artistas que veneramos, às vezes fica difícil encontrar alguma coisa verdadeira. Sobram-nos as sombras de alguns momentos genuínos da nossa infância, aquele abraço das pessoas que nos amam incondicionalmente, e uns quantos beijos trocados de arrebato. Sobra-nos o suor dos dias difíceis, e o gosto amargo do café, que muitas vezes disfarçamos com o doce do açúcar. Eu, há muito que larguei o açúcar da chávena do expresso, prefiro beber a amargura da verdade toda de uma só vez…
Não nos faltam momentos em que o absurdo roubou a graça de muitos conteúdos humorísticos. Desde as mais rocambolescas mentiras políticas e envolvimentos duvidosos, ao mais estapafúrdio título de notícias alarmistas, escandalosas ou terroríficas. O mundo a gritar de dor, sufoco e muita incerteza. Incerteza daquilo que serão os dias de amanhã, e os passos de ontem. O facto é que é mais fácil acreditar numa boa mentira, que começa sempre com a promessa, passando pela inversão e a fuga (o twist ou swap) e que termina no grande espetáculo que aplaudimos perante a surpresa, do que encarar ou aceitar a verdade. Até porque, não há nada mais subjetivo do que os ângulos incalculáveis de uma verdade. Ao fim do dia, antes de sararmos as feridas durante a noite, à procura da chuva que nos lave a alma, apenas procuramos a liberdade de um poema, como os de Manoel de Barros, que tentam fotografar o cheiro de um perfume… haverá algo mais verdadeiro do que a poesia?
Os escritores têm um problema. Se aquilo que um escritor escreveu foi publicado e vendeu imensos exemplares, o escritor acha-se excelente. Se aquilo que um escritor escreveu foi publicado e vendeu um número médio de exemplares, o escritor acha-se excelente.Se aquilo que um escritor escreveu foi publicado e vendeu pouquíssimos exemplares, o escritor acha-se excelente. Se aquilo que um escritor escreveu nunca foi publicado e ele não tinha dinheiro para se publicar a si mesmo, nesse caso acha-se verdadeiramente excelente. A verdade, porém, é que a excelência é escassíssima. É quase inexistente, invisível. Mas podemos ter a certeza de que os piores escritores são os que têm mais confiança, os que menos duvidam de si próprios. Seja como for, já que evitar os escritores, e eu tentava evitá-los, mas era quase impossível. Eles aspiravam uma espécie de fraternidade, uma espécie de união. Que nada tinha a ver com a escrita, não ajudava nada a máquina de escrever.
Charles Bukowski, "Mulheres", 1978 | ed. Alfaguara, 1ª edição, 2015. Lisboa. p. 181.
Olho a solidão pelas costas
E sinto o peso de
Um castiçal de tristeza,
Que vai queimando
O oxigénio do nosso Amor.
Onde estás, no escuro,
Mal iluminado desta dor,
Sombria, fria, tardia…?
Cai um pingo de tempo
No ponteiro dos segundos,
Depois isto, a seguir aquilo,
Tranquilo, na sua monotonia.
Não há tempo mais inquieto,
Que o de um relógio parado.
Puxo o lençol da melancolia,
Mais um dia que adormeço
Sem ti a meu lado.
Invejo as gotas de orvalho,
Nos pingos da madrugada
De outono.
Sabem elas o caminho guardado
Para voltar a cada ano.
Fecho os olhos, e os ouvidos
Aguçados ouvem os teus
Passos,
Nos pingos de chuva que
Batem na janela do quarto.
Que sítio inusitado de caminhar,
Quando me molho de lágrimas
Por não te ter.
Tu imundas as ruas em passos
Largos, com a raiva de não me ver.
Uma boa parte do sentido da vida talvez seja uma corrida, para não deixarmos morrer a criança que há em nós. Não (apenas) no sentido infantil, talvez um pouco só, mas sobretudo uma corrida para não perder de vista a nossa capacidade de imaginar e, até, uma certa ingenuidade para acreditarmos em determinadas coisas. Tudo o que nos permita brincar, aprender e compreender os outros. Ser-se criança é parte do propósito da vida, de certeza.
Entre outras coisas, é por isso que continuo a ver desenhos animados ao pequeno-almoço, todos os dias pela manhã. Normalmente deito-me além das horas consideráveis razoáveis e, também por isso, saturado do fanatismo e peso da atualidade noticiosa, da qual me quero evadir através dos sonhos. Só durmo umas seis horas por dia, normalmente. Quando acordo, chego à cozinha e ligo a tv, enquanto as torradass aquecem. São super-heróis a lutar pela justiça, lutadores a querer um mundo melhor, princesas, bruxas e príncipes numa errante cavalgada por um livro mágico, são treinadores de animais, enfim, ou simplesmente as aventuras de dois amigos, que preenchem esses minutos de sossego e despertar, entre uma torrada, uma taça de cereais e um café.
Nos primeiros instantes, ainda à procura das fatias de pão, da manteiga, do leite na porta do frigorífico, não tomo sequer atenção ao que se está a passar naquele reino animado das imagens. Vou abrindo os olhos à medida que a mente vai despertando e, admito, por vezes dou um pulo, faço um zapping rápido, pelos canais informativos ainda antes de chegar ao café… não resisto. A irreverência, até connosco mesmos, é um ato de rebeldia de quem nunca cresceu e permanece uma criança… E hoje, no exato momento em que bebericava o expresso e pensava no inferno em que a sociedade se tem tornado, cada vez mais polarizada e hostil, as personagens dizem entre si, sem qualquer tipo de maniqueísmo: “trocar de lugar com o outro, ajuda-te a compreender esse outro alguém”. Quantas vezes e quantas pessoas não precisamos que troquem de lugar? No meio de tanto ruído e competição, precisamos de aprender a colocar-nos na pele, no sofrimento e na perspetiva e ponto de partida do outro. Quer seja para o compreender a ele, a nós ou ao mundo. E são os desenhos animados que ensinam isso, não os debates políticos.
Inicialmente publicado como Conto no jornal TribunaAlentejo.pt, a história "Arquivados" continua a ganhar forma enquanto romance, e as primeiras 4 partes dão lugar ao primeiro capítulo do livro de estreia que estou a publicar no WATTPAD: "ARQUIVADOS - Ouro Branco de Sangue Azul".
Sinopse:
"Uma investigação contada pelo testemunho de um dos seus protagonistas, que se passa num verão quente do Alentejo português. Uma história de um inspetor frio, reformado, que relembra quando foi chamado para resolver o misterioso e macabro desaparecimento de uma criança em 2004, em pleno mês de Agosto e no coração de uma das zonas mais remotas de Portugal. Dez anos depois, algo continua por resolver..."
Capítulos:
A cada duas semanas (15 dias) sairá um novo capítulo que continuará a história, que conta com 7 capítulos. Cada tem ainda várias partes, para quem quiser fasear ainda mais a leitura.
Conto com a vossa ajuda para continuar a desvendar este caso e a melhorar, capítulo a capítulo, o enredo, o envolvimento e a imersão de cada um nas vivências das personagens.
Sonho contigo, imensas vezes. Hoje sonhei contigo. Antes de te tocar, já tinha sonhado contigo. Em todos esses sonhos há apenas uma coincidência, eu sou, com todo o gosto, teu escravo. Por isso, se tu gostas do meu cheiro eu não faço outra coisa se não abraçar-te. Se queres um beijo meu, eu percorro toda a superfície do teu corpo numa maratona de beijos suaves, firmes e ligeiramente húmidos para que permaneça a sua presença. Se queres cansar-te eu esforço-me ao máximo para que tenhas as faces rosadas, o sangue a correr por todas as veias do teu corpo suado, quente e ardente sobre o meu… cansados mas extasiadamente realizados. Se queres perder o ar eu tiro-to, com um beijo ofegante, com o meu amor intenso, com uma luta de corpo a corpo na busca de mais prazer, tiro-to como tento fazer agora. Por fim, como exigente que és, procuras e anseias a perfeição, e eu dou-ta, através da união do meu corpo dentro do teu, os meus braços envolvendo-o, com as tuas mãos arranhando as minhas costas e as tuas pernas enganchadas na minha anca. E assim o mundo acaba e renasce uma e outra vez, sempre que nos acocoramos e explodimos em magnitude.
"Amor sem sexo é amizade, Sexo sem amor é vontade" *
Eram quatro da tarde e quinze minutos quando tudo começa. Quando, sem quê nem porquê, naesplanada daquele café situado no alto da praça se cruzam dois olhares, abrilhar intensa e profundamente um para o outro. É então que se cruzam os nossos protagonistas. Ela, jovem, de seu nome Carla, morena de cabelo comprido, traços bem definidos, corpo tonificado, roupa já a acusar os trinta graus que se faziam sentir, bem decotada, a esconder só o que é bom de esconder para despertar curiosidade e desejo. Pernas cruzadas, pouco ou nada escondidas por baixo daquela minissaia. Ele, de seu nome Eduardo, atlético, de calções azuis a mostrar as pernas depiladas, camisa branca semiaberta, peito musculado e tonificado, barba feita, sem acne, cabelo encaracolado nem curto nem grande. Os seus olhos verdes não largavam os olhos castanhos dela!
Ela lia a revista, ele fingia beber um café, enquanto a mirava desde os seus delicados pés, passando pelas pernas esbeltas, espreitando pelo meio os seus majestosos seios, até se fixar novamente nos seus olhos, grandes, onde caberia o mundo e muito mais. Ela retribui com um sorriso.
Depois de muito vai e não vai, ele paga-lhe uma bebida, ela toma e anui com a cabeça, e começa a provocar, desapertando mais um botão da sua camisa, evidenciando mais ainda o decote. Ele gosta, gosta e perde o medo e mete conversa com ela. Depois das apresentações preliminares, ela toca-lhe, sentindo-se calorosamente atraída por ele. Só lhe apetece tirar-lhe a camisa, mas não. Ele apercebe-se, e no meio de tanto atracão surge ali mesmo um beijo. Depois outro, e outro ainda mais intenso… não se conquistaram só pela conversa, mas sim e sobretudo pelas suas características físicas! Ele diz que mora perto e ela nem pensa duas vezes antes de se levantar da cadeira.
Chegam a sua casa, abrem a porta aos beijos, caiem literalmente no sofá, ela tira-lhe a camisa, ele mete-lhe a mão por debaixo da saia, ela gosta e não para de o beijar. Ele tira-lhe a camisa e o soutien e começa a beijar-lhe as mamas suavemente. Um e outro beijo, acompanhado de carícias, sem lhe tocar nos mamilos, o que a deixa excitadíssima. Ao mesmo tempo as suas mãos percorrem as costas dela, enquanto ela, sentada ao seu colo, tranca as pernas à sua cintura. Ele sobe nos beijos, beija-lhe o pescoço, morde-lhe a orelha e sussurra-lhe pequenos segredos no ouvido. Levanta-se, pegando-a ao colo e leva-a para o quarto.
Deitados na cama, tiram apressadamente a roupa um ao outro atirando-a, e com tanta roupa espalhada o quarto parece mais a feira da ladra que outra coisa. Ela e ele ficam apenas com o fio dental e com os boxers, respetivamente. Ele beija-a novamente, nos lábios; no queixo; nas mamas; no umbigo; nas ancas. Morde o fio dental e puxa-lho ajudando com as mãos, passa com a língua pelas ancas e continua novamente a beijar as pernas… suavemente, desce até aos joelhos, até ao tornozelo. Beija-lhe os pés e troca de perna. Começa a subir, mais depressa, mais rápido, pela parte interior da perna, chega á vagina e passa ao lado, deixando-a a tremer de sensações, mas contínua, até chegar novamente á sua boca.
Num beijo enrolado, dão uma volta na cama, ela fica por cima e tira-lhe os boxers. O pénis De excitação chega-lhe ao umbigo Ela agarra-se a Eduardo beija-o e junta o seu corpo ao dele. Os preliminares parecem estar a chegar ao fim, ela coloca-lhe o preservativo. Em seguida ele agarra-lhe na cabeça e invertem novamente de posições na cama. Há uma penetração! Ela morde os lábios de prazer e agarra-o nas costas e ancas, prendendo-o com as pernas. Ele debruça-se completamente sobre ela, metendo uma mão por baixo da sua nuca, agarrando os longos e lisos cabelos morenos e com a outra mão agarrando o seu rabo. Uma e outra investida. Gemidos prolongados que se ouvem em todo o quarteirão, a respiração fica cada vez mais ofegante, os dois corpos sobem de temperatura e libertam suor, agarram-se cada vez mais um ao outro, o ritmo é cada vez mais intenso. Ele dentro dela, os dois corpos num só. Êxtase naquele quarto. Prazer, sexo puro e duro, não conseguem parar. Ela grita cada vez mais alto, ele começa também a gemer, trocam de posições sem nunca parar com as penetrações cada vez mais vigorosas, ela arranha-lhe as costas, ele agarra-a com firmeza, ela morde-lhe o pescoço, grita, beija, grita de prazer, tem um orgasmo, outro seguido, ele delicia-se com as suas mamas, beija-as, morde-lhe os mamilos ao mesmo tempo que a penetra com toda a sua força e a agarra pelas costas.
O ritmo é muito rápido, os corpos tremem já de prazer, os olhos estão revirados, o mundo parou: eles subiram ao céu, tiveram os dois o orgasmo mais prolongado das suas vidas e desceram à Terra, àquela cama remexida e suada dos dois corpos mortos de prazer descansaram por segundos… algum tempo depois e com um sorriso nos lábios… o que acham que aconteceu?
«Mataram as dúvidas»! Esta última frase deveria ser uma dúvida… mas morreu, já não há dúvida, e por isso, esta é uma frase de erros.
Num daqueles dias após a criação de todas as coisas, do mundo binominal, com dia e noite, homem e mulher, enfim, nessa altura, em que Deus já estava um pouco farto de tudo isto, quando já não sabia mais o que fazer, nessa altura, deve ter nascido a dúvida. Mais a dúvida do que as questões. Nem sempre uma dúvida leva a uma questão concisa.
Se Deus morreu, nada mais natural que, em breve, venha a morrer a dúvida, essa pequena bagagem de roupa que veste o pensamento. Quanto mais, poderemos falar às vezes com um fantasma dela.
Já nada enfim nos aguarda a não ser um definhamento coletivo no abismo da certeza. Não sei… Toda a gente já sabe de tudo: a criação é uma coisa furtuita e a ciência não tem segredos. Não terá?!
Ouço a conversa no café. Estou cercado de gurus de autoajuda, de alguns críticos de arte, e vários gestores de sucesso. Todos artistas, pintores, escritores, músicos, galãs conhecedores das mulheres. Todos uns falantes da oralidade fluída dos antigos filósofos. Mesmo que não digam mais do que um vernáculo simples e denunciador do ócio, da falta de escolaridade, ou de pouca experiência, evidenciando apenas uma velha falta de bom senso.
Sobretudo uma certeza infinita de tudo, sem duvidar de nada. Rodeado de tantos sábios, chego a questionar-me se sei alguma coisa. Afinal de contas, as suas certezas, as suas afirmações, os seus risos da desgraça alheia, a sua troça dos que não partilham das verdades óbvias que os unem, só me enchem de mais dúvidas a cerca de mim, de incertezas de nada.
Talvez isso seja positivo. Pois foi a dúvida do saber dos teus lábios que me levou a beijar-te, e a apaixonar-me de ti, assim como a dizer-te que te amo! Ainda hoje, alimento essa dúvida diariamente.
Ele está por lá diariamente. Ele é o ambiente que pauta a dança daquela rua que desemboca à beira-rio. Ele é a forma do som do seu saxofone dourado. Ele é a melancolia que decora os passeios lentos dos turistas encontrados, no seu adagio, e o passo largo das saltitantes pessoas atrasadas para qualquer coisa, em allegro. Ele é a vida, um improviso de jazz. E naquele dia, que o comecei a ouvir numa das pontas da rua, os meus olhos, ao contrário dos demais, não o procuraram. Passeei com ele pelas memórias da minha cidade, guiado de mão dada com a suavidade dos tons que enquadravam o sol melancólico que as nuvens insistiam esconder. A par dos prédios em honrosa formatura e orgulho, que pareciam também deleitar-se na margem de um rio de música que corria de par em par até ao fim da calçada.
Ser pobre num deserto de terra tão rica não tem nada de romântico. O romance está destinado aos abastados, que nunca caem em miséria, no máximo em desgraça ou descrédito, o que não é bem a mesma coisa.
Aqui, não sendo ninguém como lá, o jazz parece-me aprazível, e cai bem com a humidade tórrida que faz os aromas das notas musicais flutuar no âmago do meu peito. Que baila sem ritmo, na ânsia dos passos de dança conduzidos pela vontade do teu coração.
Aqui nasceram os santos amados e os amores eternos, onde a música é vadia, lá não, apenas na velhice por lá ficaram, para morrer em paz.
muito mais do que nas aulas das universidades e nas bibliotecas, o historiador de arte forma-se nos museus, nas galerias, nas igrejas, onde quer que existam obras de arte
ARGAN, Giulio Carlo, FAGIOLO, Maurizio, Guia de História da Arte, Lisboa, Estampa, 1992. – p.22
Uma irmã, uma alma gémea que multiplica no tempo o eco da nossa alma, da qual nós somos também um espelho e uma cópia do seu espírito, é uma experiência indissociável da nossa existência.
A autora do My Blackberry Nights, autora das ilustrações do Museu Interior, e minha irmã, faz hoje anos e completa mais um ciclo.
Parabéns por seres como és, quem és e por sonhares, como sonhas!
Não sei a qual de nós pertence mais a rua. Eu comprei o apartamento com paisagem a perder de vista, no alto de um prédio mesmo no centro da rua: de um lado vizinhos, do outro mais vizinhos, em frente o estacionamento e uma praça arborizada. Por todo o lado, a urbe ululante, os pássaros pela madrugada fora. Os dias e o tempo indiferentes, a quem passa ou a quem está. E ele está lá todos os dias.
Foi a primeira pessoa que conheci quando vim morar para cá, e é talvez aquela de quem menos sei. Se tem família, ou amigos, o que o leva a vir para a rua arrumar veículos que, numa travessa de um só sentido e sem parquímetro, bem que podem ignorar os seus bracejos, gritos, pressa, conselhos, assim como o fazem normalmente. Não sei nada sobre isso. Sei os horários dos cafés, conheço a cara e família dos donos, o modelo de automóvel ou motorizada que conduzem. Sei o nome, naturalidade e viuvez da empregada doméstica da minha vizinha, com quem já conversei.
Sei os preços e a qualidade de serviço da ourivesaria no rés-do-chão. Mas ele, não tem tabela de preços, não tem livro de reclamações, e não sei nada mais além da cara, das calças escuras de todo o ano, da antipatia que algumas vezes distribuímos reciprocamente, de um garrafão vazio que um dia me pediu, não sei mais nada. Fala sozinho, mas também não sei com quem. Com o tédio dos dias, talvez.
Tenho a certeza que não tem licença da câmara, como os lojistas, que pagam impostos também, e que abrem muitas vezes depois de ele já estar de guarda à quietude do lugar. No entanto, acho que é mais dele a rua, que nada possuí, e nem identidade apresenta, do que de qualquer um de nós. Do pouco que tem, pode conservar a amizade e ajuda de muitos dos nós.
Hoje a rua estava deserta, como o meu coração quando não te vejo. Ele chegou atrasado. Assim é com todas as máquinas a quem costuma faltar uma peça.
Será que sabe ler? Um dia mostro-lhe este texto, quem sabe?! Passou por mim na esplanada enquanto te escrevo, olhava para mim sorrindo e quando levantei a cabeça:
- Bom dia... – Disse quase em surdina e eu mal entendi que me tivesse dito algo.
- Bom dia! – Devolvi-lhe num tom alentejano, meio cantado, e com um sorriso. Ele retribui-me com o seu, e entrou no café.
A engrenagem da rua está completa. Só a mim me faltas tu, mas eu defino-me pela tua necessidade, mesmo quando estás presente. Em breve, a teu lado, espero estar vivo de novo, e esquecer este tanto que vejo.
Estamos todos presos a qualquer coisa?! Nascemos presos a esta forma de viver da qual não nos queremos libertar! Há outras formas de viver? Não sei! Sabemos lá, a morte é uma parede fechada com a qual chocamos de surpresa, sem aviso. E o resto é uma pobreza, aquela pobreza de que fugimos de olhos fechados sem olhar atrás. Aquela miséria que dissociamos da felicidade e do nosso mundo sempre que possível, aquela que condiciona a vida que temos em troca da miserável pobreza de espírito de outros tantos.
Vivemos presos às idiotices que não resistimos em fazer todos os dias. Gritamos, pedimos, pedinchamos, temos vícios, alimentamos pragas, enfim, enchamos o espírito de dejetos e quanto mais palermas somos, melhor parece que nos sentimos. Vivemos num pequeno refúgio de egoísmo onde nos convencemos que somos melhor que qualquer outra coisa. Vivemos na mentira. Mas isso pouco importa.
Assim é. Umas quantas palavras aprendidas para nos lançarmos ao mundo no frágil equilíbrio das pernas e na sólida certeza da ignorância do mundo. Lutamos por não morrer, e amamos coisas que nem compreendemos, sem compreender o que é o amor, de forma desesperada. Tiramos a vida uns aos outros, na certa afirmação de que a nossa é mais importante que a de qualquer outro.
Eu vivo nessas prisões, vagueando de cela em cela. Os lençóis do teu abraço, no frio da noite gélida, confortam-me da distância qua me separa das estrelas, que tudo viram, que já morreram, e que cujo frágil relâmpago da sua vida ainda podemos observar nos nossos céus.
“Passam-se as horas na confortável molenga do café”
Passam-se as horas na confortável molenga do café. Bebemos café, não sabemos bem porquê. Além do vício que o químico que o compõe, essa aceleradora cafeína, deve haver qualquer outra razão que nos coloca a beber algo tão desagradavelmente prazenteiro. A vida não é tão amarga depois de gastar umas horas perdidas no horrível sabor do café numa esplanada que serve de montra ao quotidiano dos outros.
É nesse tempo perdido que ganhamos muitas vezes tempo para aqueles que nunca conseguimos encontrar. A vida é tão atarefada, mas guarda sempre tempo para um cafezinho.
Quando vou beber café sozinho não tenho tendência para me demorar, para ter o privilégio da atenção do rapaz que serve e tira as ‘Bicas’ e que para o fisco é um gerente, para o governo um empreendedor, para boa parte dos clientes um psicólogo ouvinte, e para outras alguém de condição inferior, por servir e não ser servido (imbecis, esses que para nada servem mesmo). Para mim é uma pessoa, que vejo muito atarefada nuns dias, descontraída noutros, empenhada na maioria e competente, dependendo do local onde vá, da sua responsabilidade e da educação que tenha. Por vezes, e apesar de tudo, quando reparam em mim, são ainda simpáticos e acolhedores. Nem todos o são, mas prefiro lembrar dos que o são.
Mas quando vou sozinho, sem livro nem caderno, e ainda me demoro, na burburinha da confusão que contemplo do mundo, fico perdido num devaneio de procura por ti. Onde estarás agora? Como te posso encontrar? Fico assim perdido, até te sentir no peito, entre duas vizinhas, a saudade e a felicidade, foste escolher um belo bairro para morar, meu amor! Logo vemo-nos, numa pausa do café.
“Em todas as coisas que escrevo, acabo por falar de Amor”
Em todas as coisas que escrevo, acabo por falar de Amor. Acabo sempre por resvalar nesse estranho acaso da vida que acontece. Nessa intrínseca auto-dependência do amor pelo amor do outro. Nem sei se isso faz algum sentido. Mas se fosse para fazer sentido seria física, engenharia, química, qualquer coisa de útil ao mundo, qualquer coisa apreciada pelo fundamento da razão. O Amor, ao contrário de tudo isso, é puramente inútil.
A física, a engenharia, enfim, as chamadas “ciências exatas” ou “aplicadas” sim são úteis. Constroem coisas e ajudam a construir coisas que ajudam a construir outras coisas. Previsivelmente, ajudam a erguer prédios nas cidades, cada vez maiores e robustos, e automóveis com motores de explosão cada vez mais potentes para circular de e para ou entre eles. Abrigo, alimento, sustento, distração, enfim, as outras ciências, melhor, as ciências, são úteis à vida.
Enquanto o Amor, por si mesmo, é indiferente para com toda essa utilidade, a qual pode surgir ou não por haver ou não algum amor por isso. O Amor pode tornar qualquer um desses prédios, tanto na mais maravilhosa experiência de vida e de realização pessoal, como na mais sufocante e devastadora depressão e melancolia. O Amor tanto pode utilizar o topo íngreme de um prédio criado pela engenharia para por fim a um qualquer desgosto, como pode servir de travão a uma vida que se precipite pelo abismo.
Enfim, seja como for, hoje utilizei a tua toalha velha. Primeiro sem qualquer motivo aos olhos da ciência ou da razão. Primeiro porque não é a melhor toalha que há, ou que eu tenha, é apenas competente, ainda, e segundo porque, sendo velha ou usada, deveria estar no lixo. No entanto, o meu amor por ti impede-me de me desfazer dela, onde projeto as nossas memórias desde a primeira vez em que lhe limpei o meu rosto, e assim, mesmo longe de ti, é como se um pedaço teu estivesse aqui para me massajar o corpo dorido de tanto aperto em saudade.
É isto que o amor faz, que a ciência não compreende.
São perto das nove horas da noite, o sol já se escondeu por detrás das colinas, além dos prédios mais altos da cidade, deixando um rasto perfumado de luz em tons de rosa espalhado pelo céu, suave e sonolento. É um daqueles dias compridos e um pouco sufocantes, a que estamos acostumados no verão. E esta brisa que invade a janela à beira da minha secretária sabe a tons de fruta tropical, é refrescante e acaricia os poros à superfície da minha pele. Olho através da janela, e dela consigo deslumbrar o neto da minha vizinha no quintal da casa. O puto, ou como diriam os meus amigos brasileiros, o putinho, deve adorar futebol. Ouço-o a tarde toda a jogar matraquilhos com os primos, e leva vestido um equipamento com o número dez nas costas. Vai regar as plantas enquanto brinca com o regador que carrega.
Em casa da minha avó, no Alentejo, entre as muralhas de um castelo, também reguei muitas vezes as suas adoradas plantas, que partilham canteiro com a hortelã, os jarros, onde morava um chorão, e tantas outras que não me recordo o nome, interrompendo temporariamente os meus sonhos de melhor guarda-redes do mundo, ou, melhor ainda, de super-herói.
Quando era um putinho eu queria ser o Zorro! Todos os dias, à hora do almoço, corria da escola para casa da minha avó, tomando atalhos por entre as árvores, cortando caminho pela relva até à entrada do castelo pela torre de menagem onde fica o pelourinho, e seguia apressado para não perder um único episódio dos desenhos animados do Zorro. Era o meu herói favorito, pois lutava para defender o povo, ridicularizando o exército do governador opressor, nunca revelava a sua identidade, Don Diego De La Veja, e além de generoso era o melhor espadachim que alguma vez existiu. Contando ainda que usava capa, vestia de preto e montava o tornado, da mesma cor. E no final, conquistava o coração da donzela, sua amada.
Quando terminava, e já almoçado, eu fazia o meu papel de Dom Quixote, presumindo ser o Zorro, e com um trapo ao pescoço e um pau à cintura, ia para a rua lutar com os soldados imaginários que queriam extorquir impostos em nome do governador. Umas vezes ficava ferido, e só a custo vencia a batalha. Noutras, era muito fácil e bastava aplicar os golpes de meia-lua que vira ainda há pouco. Na maioria delas, o final ficava para dali a pouco, quando voltasse da escola ao fim do dia, ou para o dia seguinte, depois que a minha avó gritasse o meu nome para ir com ela a qualquer lugar. Mas nem sempre tudo se resumia a uma espada. Por vezes trazia comigo a bola de baixo do braço e, estando sozinho, treinava os remates e as defesas, de uma só vez, enquanto chutava contra a antiga muralha e me esgueirava para apanhar os ricochetes, imaginando que era o ponta-de-lança e guarda-redes do Benfica simultaneamente, numa final da Liga dos Campeões.
A luz já se escondeu, atrás do sol. O céu, que é pequeno, ficou coberto pela mesma cor que vestia o homem misterioso de máscara e capa, de negro. A última vez que fui ao Alentejo, fiquei fascinado com o céu. No meio daquelas casas em miniatura, quase nunca superiores a quatro andares, o céu é maior, abre-se para e sobre nós. Talvez seja a compensação por tanto isolamento, e pela falta de um zorro no dia-a-dia. O céu deu-nos assim a hipótese de sonhar.