Cotidiano delicadamente costurado como uma teia de aranha
Às 6h20 o alarme soaria, porém, a essa hora, ela já batia abacate e leite zero lactose no liquidificador. A melhor vitamina, sem sombra de dúvidas.
Após o seu ritual de beleza - necessário para mostrar seu rostinho aos humanos, saiu de casa. Antes, ensinou a sua gata quem é a autoridade, depois que a espertinha correu até subir no beiral. Interessante, uma voz grossa já é suficiente.
Aquela humana tão sorridente e insegura sentiu-se um general terrível, mais tarde, confessou que foi uma ótima sensação.
Desfilou pela rua de sua casa até o ponto de ônibus, com a mesma impressão de sempre - um estranho no ninho. Perdeu a pose ao notar que o querido meio de transporte já estava prestes a partir - correu desesperadamente, entrou, passou o bilhete único, sentou confortavelmente, abriu o livro do momento - Flashbacks - Timothy Leary – e a cada página, a agonia trazida pelo terrível calor aumentava.
Abandonou a leitura e passou a sonhar com o ar condicionado do Metrô.
Na plataforma, esperou por um trem, que passou direto - controlou a raiva e entrou no próximo. Sentou e sentiu como se o ar gelado entrasse em cada poro de sua pele e refrescasse sua alma. Voltou à leitura, dessa vez, ao som de Bob Dylan - um combo perfeitamente lisérgico: Dylan e Timothy Leary.
Páginas e páginas, a estranha ao lado com olhares curiosos. Uma pausa para saber a hora e em qual estação estava: 9h10 - Anhangabaú. Uma aflição percorreu a espinha, às 9h30 tinha um compromisso burocrático na Barra Funda.
Chegou ao destino - praticamente sua segunda casa. Ao todo, três longos anos de idas e vindas... Partiu plenamente feliz, encontrou pessoas queridas que não via há algum tempo.
Tarefa concluída com sucesso, almoço em boa companhia - hora de rumar até ao shopping e comprar ingressos para O Regresso.
Para sua surpresa, após comprar os tickets para a sessão naquelas maquininhas de autoatendimento, uma senhora, que aparentava ter 80 anos, se aproximou clamando por ajuda, pois não fazia ideia de como mexer naquele trambolho que transpirava tecnologia e - TODOS os guichês da rede estavam sem funcionários.
Eram 13h42, a simpática velha queria a sessão das 13h50 para O Regresso – sincronicidade.
A jovem ficou satisfeita em praticar um ato de caridade futurístico e saiu em busca de uma tomada para carregar seu terceiro braço - o smartphone.
A brilhante ideia de ir ao banheiro rendeu-lhe a descoberta de um lugar mágico. Assim que abriu a porta do sanitário feminino, encontrou uma área bicolor: pink e branca.
Espelhos tomavam todas as paredes, alguns com formato de coração, pias, um confortável sofá - abraçando uma vendedora hipnotizada por Morpheus, e bancos.
Uma TV e a estrela do local: uma tomada. Obviamente, moça sentou, conectou o terceiro braço e pegou o livro.
Páginas e páginas, Timothy Leary traçando um plano de fuga de uma penitenciária americana. A fuga e agonia!
Enquanto o psicólogo corria pela floresta e respirava os ares da liberdade, a leitora virou alvo das mulheres que chegavam sedentas por uma tomada. Mas a imaginação que a fez experimentar a aflição de um fugitivo alvo da CIA também criou uma bolha ao seu redor.
Brinquedinho carregado... chegara a hora de imergir para dentro da telona.
O dia terminou com Glass, o personagem de Leonardo DiCaprio, passando por situações inimagináveis em uma luta feroz pela sobrevivência, inclusive, enfrentando um urso, enquanto a telespectadora sentia na pele cada dor e agonizava com falta de ar na poltrona.