“Minha mãe ganhou aquele espelho de presente de casamento do ex-noivo dela, pelo jeito ele tava traindo ela e os dois desmancharam o noivado. Quando ela se casou com o meu pai, veio esse ex-noivo e deu o espelho de presente pra ela, dizendo que era muito especial. A minha avó, que sempre foi muito sensível com essas coisas, sentiu que tinha uma coisa muito errada com o espelho desde a primeira vez que ela olhou pra ele. Ela disse que tinha alguma coisa lá dentro. Ela não sabia o que era, a gente não sabe o que é até hoje, mas que tem alguma coisa tem. O meu pai queria quebrar o espelho de uma vez, terminar com aquela confusão, mas a minha avó não deixou. Ela disse que se quebrasse o espelho a coisa ia sair e ia voar nele, ou na minha mãe, ou no meu irmão, porque ela já tava grávida na época. Como não podia quebrar, ele acabou colocando o espelho no quarto mais afastado virado pra parede, que assim a coisa não ia ver nada... A coisa não gostou. Toda noite ela quebrava o quarto, andava no corredor, até meu irmão ela fez minha mãe perder. Meu pai não aguentou mais e chamou um padre, achando que ele ia tirar a coisa do espelho. Mas o padre disse que não tinha nada de errado, ele até disse que levava o espelho se isso servisse de alguma coisa. Meu pai até queria, minha mãe que não deixou. O espelho já é perigoso pra gente, que sabe que tem alguma coisa dentro, imagina pra quem não sabe? Minha avó então chamou uma mulher que se dizia espírita, se era mesmo eu não posso confirmar, ela só deu uma olhadela no espelho e disse pra desvirar. Porque a coisa não gostava de não ver. A gente tinha que deixar ela observar, porque assim ela ficava satisfeita. A mulher também falou que a gente tinha que dar um presente pra coisa, assim ela não ia ficar quebrando tudo toda noite. Uma vez satisfeita, ela iria se comportar. Então minha mãe começou a dar leite pra ela, toda tarde ela deixava um copo de leita na frente do espelho. As vezes ela bebe, outras vezes não, mas tá sempre lá. Tirando as vezes que a minha mãe entrava pra deixar e tirar o copo de leite, ninguém podia entrar naquele quarto, pelo menos não enquanto meu pai estava vivo. Ele tinha muita birra com a coisa do espelho, mais até que a minha mãe. E a coisa não gostava dele também não. Na noite que ele morreu eu lembro que eu ouvi um eco no corredor, não era alto não, mas tava lá. Era a coisa rindo. Tava feliz que ele tinha ido embora. Por mim, eu levava esse espelho comigo, porque eu sei que ele é perigoso, mas a minha casa é tão pequena que vai ficar perigoso pra mim. Então eu disse pra moça pra quem eu tô alugando a casa, a Clara, pra não deixar ninguém entrar naquele quarto. Eu venho todo dia pra dar o leite pra coisa, mas é só pra isso. A Clara, ela fez dessa casa uma pousada, então eu imagino que ela não me escute. Mas fico tranquila, porque pelo que eu escuto, todo mundo que fica naquele quarto não fica por muito tempo. É muito frio lá e ninguém gosta. A única pessoa que ficou lá foi o noivo dela. Escute bem, ele era um moço a cidade, bem chique, parrudo, gostava dela. Eles iam casar naquela semana e mudar pra cidade, eu até tava já procurando outra pessoa pra alugar a casa. Até que na noite antes do casamento, o menino desaparece. Levou nada. As roupas, os sapatos, o dinheiro, ficou tudo aqui. Os que sabem da coisa do espelho dizem que ela não gostou de dividir o quarto, eu acho que foi o contrário. Porque me contaram que do outro lado é muito frio, é muito sozinho. E ela deve ter gostado da companhia dele, né? Ele aguentou por uma semana. Não sei que fim teve esse moço, se ele fugiu, se ele foi sequestrado, ou se a coisa levou ele. Mas que tem alguma coisa naquele quarto, naquele espelho, isso eu sei. Meus irmão já viram. Foi a única vez que desobedeceram o meu pai. Eles entraram naquele quarto, nem lembro pra que mais. E eles viram. Não falam o que. Eles têm medo de contar, porque se eles contarem a coisa pode buscar eles despois. Mas eles viram, dentro do espelho. Olhando pra eles e estendo a mão. Só não levou eles pra dentro porque a minha entrou no quarto com o leite. Eu nunca vi nada, graças a Deus, mas eu tô sempre escutando alguma coisa no andar de cima. A coisa não liga muito pra mim não. Graças a Deus.”