Conseguirá a religião formar a identidade nacional?
A morte de Maria Tudor em 1558 marcou de forma indelével as últimas décadas do século XVI Inglês e não só. A sua morte, descrita por alguns como o seu maior erro, acaba por transformar em larga escala a estratégia política, económica mas acima de tudo religiosa do país. Sendo uma confessa católica, ao contrário do seu pai Henrique VIII ou dos seus irmãos Eduardo e Isabel, Inglaterra tinha conhecido durante os seus cinco anos de reinado um retrocesso no que diz respeito às ambições protestantes. A ascensão ao trono da sua irmã, Isabel, irá mudar o panorama de vez. Isabel ainda que não demonstrasse praticamente nenhuma fervor religioso decide adoptar novamente as políticas protestantes do irmão, repondo o Livro da Oração Comum. A aprovação do acto de Supremacia em 1559, que definia o monarca como chefe da igreja inglesa, não é alcançado sem alguma polémica à mistura, como não permitir que os bispos católicos tenham direito a votar, conseguindo aprovar os seus ditames por apenas três votos. Com a Uniformidade e Supremacia aprovadas no parlamento, Inglaterra volta a ser um país protestante, pelo menos no papel. Os anos que se seguiram ficaram marcados por uma política de mudança forçada e consequentes alterações nas paróquias. Ainda assim não se pode afirmar perentoriamente que as populações na sua maioria se sentiam protestantes. Os tempos que se seguem demonstram um país empenhado numa tarefa titânica para conseguir alterar crenças. Com as várias ameaças oriundas dos países católicos, como a Armada espanhola em 1588, criando-se mitos, dos mais variados tendo como finalidade levar a que as pessoas acreditassem numa verdadeira conspiração católica, liderada pelo próprio Papa. É sabido hoje que no caso da Armada, o Papa não teve nada a ver com o assunto. Ainda assim os homens que rodeavam a rainha, como Walsingham ou Cecil, acompanhados pelos seus homens de confiança, a que a historiografia apelidou de “homens de negócios”, empenharam-se em publicações várias expondo uma série de teorias acerca dos papistas e do próprio Papa, sendo este mesmo considerado a encarnação do Anti-Cristo. No fundo a visão destes homens, autênticos e ferranhos protestantes, era que o fim estava próximo e Inglaterra teria um lugar na batalha final. Não se sabendo ao certo qual terá nascido primeiro, se o anti-catolicismo se o sentimento nacional, a verdade é que estas teorias, hoje vistas como mirabolantes, tiveram um papel fundamental em unir a nação para combater um inimigo externo.
Não é despiciendo notar que o sentimento moderno de nacionalidade inglesa nasce com os acontecimentos do final do século XVI e início do seguinte. Religião teve um papel fundamental, no sentido que agregou as populações numa guerra contra o inimigo externo que não tinha cara nem nacionalidade mas tinha algo em comum, o catolicismo. Inglaterra é um caso, outras nações nasceram com pilares fundamentais como o militar e o religioso. A reconquista cristão do século XII é um exemplo disso mesmo, o aproveitamento do catolicismo para guerrear o inimigo muçulmano e a partir daí criar uma identidade nacional apoiada na religião comum. Será que nos dias que correm a religião ainda continua a ser um facto agregador e indentificador de uma nação, especialmente de uma recém-criada?










