A fantástica fábrica da Modernidade
Na frente — a sacada a vista — lá do alto, avisto o Senhorio:
bem feito; rosto bonito e com boas afeições, mesmo
com aquela genérica cara carcomida e de alguns bons séculos.
Junto-me a todos, o trenzinho de pequenas mentes e reveladoras
pessoas — quiçá grandes artistas do futuro — vão marchando
em fileirinhas, comportadas. Seguindo um capataz mais velho e experiente.
O capataz, a frente, diz em alto e bom som…
Ah, desculpe-me, estava muito atrás e nem pude ouvi-lo
(talvez sem as lufadas quentes das máquinas seria fácil entendê-lo).
Não importa! Inútil sua mensagem!
(Quem realmente liga para ordens de mais experientes naquela idade?)
Marcharam um pouco, seguindo os caminhos de rato
pintados em amarelo com pequenas bolhas e nódulos ao chão.
Os da calçada — mais novos — havia grandes divisórias no caminho
das peças renovadas no mês passado(?).
Aqueles barulhos obscenos — vozes e gritos de patentes altas
e de alguns de patentes baixas — direcionado aos preguiçosos
ou os menos ativos, ou simplesmente àqueles que não seguiam o takt certo.
Lufadas!
Fuuuussssssssssshhhh
Correias guinchando.
Iiiiiinnnnnnkrrrrr
Gritavam!!
Iiinn-Iiinn-Iiinn-Iiinn-Iiinnkkrr
Mas tudo isso era deslocado pelas mãos gesticulando do tutor a frente.
Avisava da grande algazarra que havia ali e que — com tom sarcástico —
dizia-nos para acostumarmo-nos (não havia graça nenhuma).
Não dava. Nem pedindo, nem mandando era muit-...
Pá-Pá-Pá-Pá!
Fusssh-Fussh
Um fluxo contínuo de valores passando por nós,
que, ao pouco que saibamos, eram apenas caixas
Sendo transportadas a um lado a outro por homens uniformizados.
Mais passos, mais andados. mais tudo!
Pois em fábrica dos sonhos — como ali —
tudo se produz e se faz, então, por consequência,
barulhos acontecem, né? completamente inútil
essas reclamações, um senhor de quarenta e tantos anos
diria-me caso eu tivesse tido a louca ideia de abrir minha boca ali mesmo.
Além do repúdio dos outros, amigos e colegas de marcha, seria logo cortado,
sem falar no miasma desgraçado e pútrido, poderia me matar fácil sem máscara.
Eles diziam que de mal nada havia naquela espessa nuvem visível aos olhos,
apenas “dejetos nada nocivos”. Idiotas, então porquê estamos usando máscaras?
Mais caminhada, mais estalos, mais correias sendo torturadas em um plano fundo,
sombrio e talvez lúgubre de anos e anos. Ohh, tais correias, tenho penas delas,
estão lá apenas para servirem como uma peça simples de uso descartável.
Quem dera fosse simples e descartável. Aquelas correias torturadas e loucas
eram tão caras, mais tão caras, que era melhor destruir completamente a mente
e a coluna de um senhor de quarenta do que pensar em trazer um técnico para consertá-la.
Nem falamos o preço dela. Nem falamos dos custos de reposição por uma peça nova!
Aiii, os custos logísticos. Os custos com a fábrica-mãe, mais mãe que essa —
pois aqui era a fábrica dos sonhos dos sonhos de senhores que hoje só restam pó,
ainda bem que os sonhos deles continuam sendo produzidos mesmo em forma póstuma —
são exorbitantes e de quantificação de zeros das quais faltam
uma convenção no português para como dizê-los na forma por extenso.
E nem falamos do plano de saúde caro, estrangeiro, vindo lá-do-não-sei-aonde-mas-é-de-qualidade
feita por uma empresa — sim, outra empresa! não aprendes? o mundo gira em torno desses nomes —
com mais senhores de quarenta anos com dores nas costas,
não por ter que cuidar de correias, mas sim por ter que aturar os outros senhores de quarenta anos
que tem reais motivos para estarem raivosos. Isso dói as colunas!
Faziam-se ali sonhos, dos mais higiênicos possíveis!
(Não era uma fábrica de papel higiênico, caso o senhor (a) pergunte).
Talvez a palavra correta seja higienista para captar melhor o entendimento.
Uma fábrica maravilhosa que faz sonhos — não os de padaria.
aqueles são sonhos maravilhosos mesmo! —
para um sonhador que não existe.
Pois é assim que a modernidade funciona, infelizmente, criança.
Mas o pior de tudo é o fator de limpeza que elas têm.
Esse é o pior: para se fazer sonho,
para si, para defuntos fundadores controladores de massas de senhores de quarenta anos,
é preciso extrair sonhos.
Pois máquinas, mesmo que caras e feitas em países orientais de baixo custo —
mesmo que não sejam mais de baixo custo de acordo com a mídia, ainda é sim
de baixo custo! — e projetado por designers de narizes empinados
que falam o bom e escrupuloso inglês, não geram sonhos do éter,
do vazio obstante e preenchido de artistas futuros embebidos em crises existenciais,
do nulicípio, do void, ou do caralho alado de longe pra porra que nem existe.
Fabricam sonho por que fazem, a partir da extração dos sonhos dos seus funcionários —
já não bastava arrancar e sugar completamente a alma e alguns trinta anos
de expectativa de vida deles —, os seus próprios e empacotados sonhos.
Captam e roubam também seus sonhos.
No fim: tivemos que fazer um relatório sobre o que achamos do local.
Eu!, você pergunta, o que eu fiz?
Eu disse que estava suja de poeira.
E nem tava.
Eles realmente limpam, deixam bem limpim.