O encontro dos dois era basicamente um choque de dois mundos diferentes. Havia sido assim com sua ex-namorada, também membro da realeza, mas os dois tinham seus pontos parecidos. Pensavam da mesma forma em muitos momentos e dividiam opiniões parecidas, além dos gostos, o jeito de agir e as ambições para a vida. Afinal, mesmo membro da realeza, a garota ainda era uma filha de vilão. Mas com a filha de Ariel as coisas eram completamente diferentes. Eram perfeitos opostos, e ele não conseguia sequer enxergar algo em que os dois teriam em comum. —— É normal pra mim. Sentir raiva, mágoa, rancor, esse tipo de coisa… Acho que é comum para a maioria de nós. —— Filhos de vilões, ele disse implicitamente. Ela possivelmente não compreenderia, por vir de uma realidade diferente, mas parecia ter empatia o suficiente para tentar entender. Ele não entendia como era aquilo de se compadecer com a dor do outro, por isso era difícil para ele entender porque ela estava tão magoada, sendo que ele mesmo já havia escutado coisas muito piores no decorrer de sua vida. —— Usou sim. Pejorativo… Que merda é essa? —— Dizia em tom levemente divertido, mas logo percebendo que a ruiva estava mais focada em seu daemon. Instantaneamente, preocupou-se, porque apesar da fofura aparente, o Niffler poderia ser muito difícil de lidar. Sorriu ao vê-la tão adoravelmente falar sobre Cygnus, e então franziu o cenho quando percebeu o tom dela mudar para um muito conhecido por ele. Aquele momento em que ela se irritava com alguma grosseria dele, e o pirata só fazia rir das expressões dela, e da forma como ela rapidamente perdia a pose de princesa boazinha e se estressava verdadeiramente com ele. Mas naquele momento havia sido diferente. Ele não havia sido irônico, como ela o acusava, e realmente havia sido sincero até aquele momento. —— Ei, calma aí! Eu falei sério sobre não te incomodar mais. Não estava sendo grosseiro, e nem fiz ironia. Você diz quando te chamei de princesa? Olha, juro que dessa vez não foi ironia. Não estava te provocando, e se quer saber o motivo pelo qual ele é o meu daemon, é o mesmo motivo pelo qual pedi que ficasse afastado de você. O que sabe sobre Nifflers? —— Perguntou, quase retoricamente, e no mesmo minuto começou ele mesmo a explicar, enquanto se aproximava. —— São realmente criaturas adoráveis, bem diferentes de mim. Quer saber o que temos em comum? Adoramos ouro. —— E então puxou Cygnus do colo dela, e o virou de cabeça para baixo. No instante seguinte, o colar de ouro da princesa caiu ao chão. —— E eles roubam. De qualquer pessoa. Assim como nós, os piratas. Na hora que meus olhos viram o seu cordão, eu sabia que ele iria roubar. E você nem percebeu, tenho certeza. —— Colocou o daemon de cabeça para cima, ainda segurando-o, e abaixou-se para pegar o colar. Esticou na direção da sereia. —— E é por isso, princesa, que não devemos julgar as pessoas pela aparência. —— Respondeu, agora sim com certo grau de ironia, ignorando a fala dela sobre não querer que ele a tocasse. Irônico pensar que na festa ela parecia querer justamente o contrário.
Por mais que lamentasse a realidade dele de que era comum sentir raiva, mágoa e outros sentimentos ruins, deixou de lado qualquer comentário porque estava simplesmente muito irritada pela atitude dele. “ Você precisa aprender a usar um dicionário. ” Disse, provocativa, com os braços cruzados, após ele mencionar a palavra pejorativo, indicando que não conhecia o seu significado. A sobrancelha erguida enquanto o encarava, até percebê-lo se aproximar aos poucos e a pose ir murchando. Sentia medo do homem, porque já o havia visto em um momento ruim e agressivo, e não sabia até que ponto ele tinha princípios de bater ou não em uma mulher. Mas então, suas bochechas coraram ao perceber que havia se precipitado ao julgá-lo. Bom, não poderia culpar a si mesma por pensar algo ruim de alguém que sempre lhe tratou mal sem motivo algum, mas realmente sentia-se mal por ter sido grosseira sem antes dar uma chance de que ele se explicasse. Justo ela, que sempre fala sobre segundas chances e sobre acreditar que há bondade dentro de todos. Entretanto, era difícil pensar assim quando se tratava de Jaxon. Seus olhos arregalaram e seu queixo caiu quando percebeu o colar ir ao chão. Havia sido roubada pela adorável criatura, e nem havia se dado conta. Sua reação estática durou alguns minutos, tempo o suficiente para que o pirata precisasse buscar a joia e lhe entregar. Sacudiu a cabeça, engolindo em seco e pegando o colar de ouro em formato da concha rapidamente da mão dele, e segurando contra seu próprio peito. “ Obrigada. ” Foi só o que conseguiu dizer, inicialmente. “ Agora consigo claramente entender porque ele é seu daemon. ” Sabia das histórias dos piratas e de como eles brutalmente assassinavam e saqueavam cidades. Haviam boatos, inclusive, de que os homens do Capitão Gancho tinham acesso ao mundo dos humanos. “ Eu não conheço muito sobre Nifflers. Nunca havia visto um, na verdade. Não ao vivo, e tão de perto. Mal te conheço e você já vem roubar o meu colar, Cygnus? Ele é especial para mim. ” Lamentou, os olhos claros umedecidos e um sorriso triste no rosto. Costumava se dar bem com animais, e detestava a sensação de quando um a rejeitava ou não gostava dela por qualquer que fosse o motivo. “ Desculpe-me sobre minha grosseria. É difícil imaginar que você diz algo para mim sem ironia ou deboche. Sempre me tratou dessa forma. Mas, no fim das contas, eu não estava tão errada. Já está você com ironias novamente, não é, Hook? ” Provocou, segurando firmemente o cordão contra o próprio peito, com medo de perdê-lo novamente.