A Bicicleta Branca
Eu baforava alto e fora de ritmo, o coração estava acelerado. Era um dia chuvoso e frio, muito frio, fazendo com que cada respiração ficasse mais difícil do que a anterior depois de tanto esforço empregado. Eu adoro o cheiro da chuva quando molha o asfalto e depois que seca, não sei porque me traz um sentimento nostálgico, mas não era o que trazia naquele dia. Caminhando meio na calçada e meio na rua, desviando de buracos ao esticar das pernas, diante de uma garoa fina que mais servia para esfriar o ambiente do que para molhar as plantas, cheiro de relva úmida, era lá que eu estava, caminhando sem perspectiva de novo. Vendo um mundo sem ângulo, um mundo que me deixava totalmente desacreditado de tudo e bastou sair de casa para que o dia me provasse. Ah como eu odeio acertar as vezes. Havia um corpo caído no chão, um carro quebrado e a alguns metros uma bicicleta toda amassada. Provavelmente era um adolescente, eu passei enquanto escutava gritos desesperados de socorro. Mais um dia comum, então eu só passei, como habitualmente. Só que não deu pra mim, eu havia esquecido que os dias não deixam-me esquecer dos dias. Eu já estava contaminado com o desespero que as coisas me proporcionam, meu problema é que não sabia diferenciar se eu é quem era meu próprio inimigo ou se eu estava mesmo diante uma batalha eterna contra todos os dias do resto da minha vida. Nem sempre é exagero meu, vai por mim meu chapa. Hora eu dramatizo, hora é desespero do âmago. Eu não consegui fazer mais nada naquele momento, apenas meu corpo continuou porque minha mente havia sumido. Semanas se passaram e eu estava caminhando novamente, dessa vez com alguma coisa em perspectiva na minha cabeça, era uma noite quente que me fazia querer correr e ouvir música. O cheiro úmido já não existia mais e dava lugar para damas da noite mostrarem sua beleza sem se mostrar, afinal elas gostam apenas de se exuberarem a noite, denotando meus hábitos. Sua beleza era atrativa apenas para o meu nariz, já não havia mais ninguém na rua e eu estava confortável eu diria. Foi ai que vi aquela bicicleta branca, bem amarrada a um poste que ficava na esquina de uma rua bem larga, a rua que eu havia passado outro dia, fiquei apático. A tinta branca era quase reluzente, qualquer pessoa que passasse com os faróis do carro altos iriam avistar esta peça amarrada ao poste. Cheguei mais perto pra observar o artefato urbano, notei que a tinta que sobrava da bicicleta para o poste não era natural, a bicicleta era de outra cor e fora pintada. Nunca havia visto aquilo na vida, mas depois fiquei sabendo que haviam vários porquês. E foi depois que descobri que minha vida fez total sentido. Não há o que explicar. Sente-se em uma pedra gigante no meio de uma planície sobre o efeito de chá de cogumelo no meio de uma virada, no meio de um por do sol. Não há o que explicar. Eu vencia a batalha dos dias, eu sabia como vencer, o tempo todo algo me dizia que há jeito para coisas escrotas da vida e que a própria vida é um instante, o agora, e cada instante faz toda diferença. Escroto mesmo era minha ignorância e meu egoísmo exacerbado, mas aquilo já havia ido embora. Essa é minha virada, minha vida, meu por do sol, meu chá, isso mudou meu rosto como aquelas damas me faziam feliz e criou uma reviravolta intensa e simbólica. Foi essa simbologia que rompeu a guerra que eu havia travado comigo mesmo. Era eu que estava travado, bastava uma bicicleta branca pra me libertar mas ela não deveria estar lá, assim como eu não deveria estar onde estava. Mudo de rua, pulo as calçadas, mudo de rumo. E descendo a rua eu vou simulando uma bicicleta que pedala pra bem longe. Daquele dia em diante minha alma estaria pedalando. Dedicado a todos os ghost bikers que estão pedalando agora em uma rua larga e bonita, cheia de cristais e damas da noite.




















