Estou no fim de um curso de licenciatura. Para uma matéria de metodologia, precisei fazer 7 observações de aulas.
Para a última resolvi escolher 1 lugar atípico para essas observações: EJA noturno em uma escola pública na periferia do DF.
Chego na escola e não tem ninguém para me receber. Abri o portão eu mesma, entrei e não tinha ninguém na sala da direção, que eu via apenas por uma janelinha. Grades e trancas por todo o lugar.
Depois de uns 10 minutos esperando, uma senhora me pergunta o que quero. Digo que quero falar com a diretora. Ela me responde que a diretora não tinha chegado ainda e me pediu par esperar. E lá se vão mais 10 minutos em pé, de frente para todas as grades. Aproveito o tempo para observar o lugar... chão de concreto, algumas partes rachadas por causa das raízes das poucas árvores que haviam. O mato crescia pelas frestas que se abriam no chão, no lugar onde seria um pátio.
Um segurança saiu de uma casinha isolada me perguntar com ele poderia me ajudar. Digo que quero falar com a diretora. Ele entra na escola e, depois dalguns minutos, volta com um supervisor. - Quero observar uma aula de inglês. - tem uma aula agora, 19:15. Já são 19:15, mas não se preocupe porque a professora sempre atrasa. Aguarda sentada aqui nessa sala uns minutos.
Depois de 15 a 20 minutos a professora chega. - Essa é a professora. Até breve!
Eu de frente para a professora. Não sei se me via ou se via o oposto de mim...
- Pode vir, fica a vontade. Os alunos são difíceis, 'cê sabe... EJA. Pra você ter uma ideia a nossa última aula tem mais de um mês. Gincana, competições de esporte, e agora por último teve a semana da consciência negra. Essas coisas dificultam. Eu discordo da metodologia que a gente usa no EJA, não funciona... assim, poderia ser melhor... vou ver o que a gente pode passar de conteúdo hoje. Vai ser com base no simulado que eles vão fazer.
A primeira imagem que vi foi de uma mesa de madeira dessas de estudante mesmo, rabiscada, arranhada, com as madeiras soltando. Por cima, um baralho. 4 cadeiras em volta, com 4 meninos sentados. Bermudão, boné, chiclete, cordão de prata. Bigode nascendo, pele negra e aqueles sorrisões incríveis.
- alunos, essa é uma estudante da universidade. Ela veio observar a gente por hoje.
Sorrisos, comentários... o de sempre, quando uma pessoa estranha entra em sala. O que sempre acontece em todas as minhas observações.
5 minutos na chamada – a maioria dos estudantes ausentes.
5 minutos explicando a situação e entregando o resultado de uma prova – 1 mês sem aula. A maioria dos estudantes não atingem a média.
10 minutos em uma tentativa de passar uma matéria – e o grande choque: quando a professora começou a falar, silêncio absoluto. Nenhum riso, comentário, pergunta. Parecia que não tinha respiração, nem piscar. Total atenção (Será?) na explicação: o ING é no verbo e não no substantivo.
Copiem o exercício do quadro, vamos resolver.
Observo a conversa de uns meninos - ei, toma. Tu que gosta de roubar umas paradas.
E risos. E conversavam muito sobre futebol.
Do outro lado da sala, uma menina falava do quanto estava cansada. Tinha começado no trabalho novo naquele dia. Não tinha nenhum material. Nem livro, nem caderno, nem lápis. Aliás, nenhum deles tinham livro didático.
As carteiras se desfaziam. As paredes escritas, pichadas. Nenhum aparelho eletrônico que auxiliasse na aula. Nem TV, nem som, nem computador. Nada. Só o quadro e a pessoa do professor.
E o exercício passado, a explicação dada, a conversa nas frestas. Nenhum exercício resolvido com acerto (e suspeito que esse seja o motivo do silêncio na explicação... não entendiam. Não entendiam nada. E a explicação passava como uma carreta...)
- e aí, meninos. Qual faculdade vocês querem fazer?
- ah, eu quero gastronomia.
- mas você precisa fazer uma coisa que dê dinheiro!
- eu acho que eu queria fazer direito, talvez...
Eis que a professora diz: - menina, eu te achava a menina mais inteligente da sala. Ah, você aí também é inteligente.
Um grande silêncio. Acho que todos entenderam o que ficou implícito... e ela tenta se remendar – ah, gente! Vocês são todos inteligentes!
E o sinal toca. E, num piscar de olhos, os meninos estavam fora da sala.
Recolho os papeis que preciso, vou atrás do supervisor. Vejo que ele está conversando com um grupo de rapazes no refeitório, vou até lá.
Chegando perto vejo que o clima é de esporro. Dedo em riste, rostos vermelhos. E sinto o cheiro. Maconha. Fumada em meio aos estudantes, sem pretensão de esconder.
Boa parte dos estudantes nesse horário estão em liberdade assistida. Precisam ir para a aula para que não fiquem 24h encarcerados.
Um dia a mais, um incômodo a mais...