Era 2017, eu tinha entre 16 e 17 anos, na época. Minha vida era pacata. Eu estava concluindo o ensino médio e ainda trabalhava meio período junto com a minha mãe. Na época, eu estava no período de aceitação da minha sexualidade e queria mais do que tudo, finalmente, poder externalizar quem eu era e poder viver amores e experiencias que apenas o meu eu autentico seria capaz de me proporcionar. Pelo menos era o que eu pensava na época.
Meu melhor amigo da época era meu primo, Filipe. Ele era totalmente destemido, cheio de experiencias e, sobretudo, fiel ao que ele era e desejava. Na época, ele me ensinou a gostar de Arctic Monkeys e Lana Del Rey, e, uma certa playlist moldou toda a minha perspectiva de vida na época.
Bem, contextualizando, em meio a rotina, algo aconteceu e tirou todo o meu chão, de uma forma que eu jamais poderia imaginar nos melhores cenários. Um tremor que começava em minhas mãos e subia até o meu pescoço, e que depois descia até o meu peito. Era bom, era estranho, era vivaz!Este sentimento possuía 1,83m de altura, usava timberland, jaqueta de couro, jeans justos e camisa de botão semiaberta, era forte e mais velho, possuía um sorriso de canto capaz de me deixar completamente mudo, e, uma gentileza e magnetismo que fazia com que todos também quisessem estar perto dele, infelizmente!
Bruno (nome fictício) era o novo segurança do lugar onde eu morava. Ele também morava lá. Era uma tentação pensar que ele estava ali, diariamente, há um pátio de distância da minha casa. Aos finais de tarde, ele sempre saía para correr, e eu, para caminhar. O meu olhar não conseguia se desviar daqueles ombros largos. Era como se eu lutasse para tentar decifrar se eu queria me deitar ali, ou ser como ele. Mas acho que, no fundo, eu sabia a resposta.
Um “oi” foi o suficiente para me arrancar o maior sorriso que eu já consegui abrir até ali. Mas eu queria mais! Eu precisava de mais do que aquilo. Eu pedi a todos os anjos para que eles me emprestassem suas asas pra eu conseguir, em algum lugar no espaço tempo, levar ele às alturas junto comigo. Na realidade, eu estava constantemente buscando alguma forma de conseguir verbalizar uma frase completa enquanto estava em sua presença.
Um pequeno detalhe a ser muito considerado: ele era amigo do meu pai! Na verdade, eles foram se tornando amigos ali, diante do maior êxtase que eu estava sentindo. Era como se a droga estivesse me sendo oferecida por quem deveria me manter longe dela. A ironia era que, se meu pai imaginasse, acho que talvez poderia ser o fim de alguma coisa, dentro de todo esse embaraço que estava se formando. Isso fazia eu querer ainda mais, já que eu era o melhor em guardar os meus próprios segredos. Mas lembra que eu disse que eu estava pronto para externalizar quem eu era? A ideia de saber que uma bomba poderia estourar a qualquer momento também me deixava covardemente animado e curioso.
Apesar da constante sensação de desafio iminente, e, até então interno, eu ainda precisava de algo que sutilmente dissesse para o restante do mundo: “PAI, EU ESTOU COMPLETAMENTE OBCECADO PELO SEU AMIGO E QUERO A TODO CUSTO SER DELE!”. Era um jogo onde não poderia haver ganhadores. A cada jantar de família, eu fazia questão de presentear o meu, agora, brother, com um Talento de avelã. Ele havia comentado, em algum momento, que era seu chocolate favorito!
Aos poucos, os meus amigos mais próximos souberam. Um deles sempre dava um jeito de flagrar e espicular sobre os momentos que eu passava com ele. Tínhamos um código que usávamos sempre que íamos falar sobre ele: “sapão”. Eu me sentia uma garota básica de ensino médio vivendo o auge do seu maior amor juvenil. Seu carro era nosso santuário, e eu sempre fazia questão de me ajoelhar para rezar e pedir um pouco mais de tudo aquilo. Às vezes, eu tinha a sensação de que todos queriam ter o que eu estava tendo: ele. Isso o deixava ainda mais interessante para mim. A cada dia que passava, ele ficava ainda mais magnético. Eu implorava para que todos os dias fossem noites claras e eletrizantes com ele.
Os dias com ele foram se tornando a minha nova rotina. Larguei a Lana Del Rey pelo trap que tocava na academia onde ele começou a me levar. O fato de ele se empenhar em me transformar em uma espécie de versão mais jovem e promissora dele mesmo para me validar me soava como uma forma de ele dizer que eu era o escolhido para ser "aquele", mas do outro lado do paraíso havia um outro jardim sendo negociado, e isso poderia me arrancar uma de minhas costelas.
Era certo que eu era a validação perfeita e mais prazerosa que alguém como ele poderia ter em segredo. Mas havia algo ainda mais promissor, estável e socialmente aceitável ali: minha amiga da época. Não era como se fossemos melhores amigos, ou bons amigos. Éramos amigos de nossos melhores amigos. Foi numa publicação no Facebook que descobri, a seco, como um corte de mil facadas, que a garota com quem eu eventualmente saía, estava namorando o meu homem. Foi ali mesmo, naquele momento que eles oficializaram o que seria outro dos maiores segredos dele.
“Eu não acredito!”. Foi a única coisa que consegui dizer, só que, dessa vez, em público. Aquilo foi como um grito. Foi naquele momento em que resolvi enterrar de vez aquele desgraçado! Pedi para que cada anjo que deu asas pudesse lhe jogar da maior das alturas, e, ainda assim, tive o receio de ele poder aprender a voar em meio a queda, enquanto que eu o observasse ali, da cratera onde eu havia desmoronado. Talvez tenha sido o que aconteceu, mas, para
mim, ele agora é apenas palavras jogadas em alguma tela qualquer, já que mortos não falam e nem pertencem. Mas, na época, cheguei a pensar que nunca mais o esqueceria, e que jamais sentiria algo assim novamente. A verdade era que eu morria de medo de nunca mais ter a chance de viver um amor de filmes, desses que nos tiram da realidade. Cheguei a questionar meu primo se seria isso mesmo e ele me disse um simples “você ainda é jovem."
No fim, O Pecado Original é sobre a adrenalina da descoberta, do medo do proibido, da grandiosidade do primeiro coração partido e da realidade de um jovem gay mantido em segredo. O primeiro e terceiro texto foram frutos dos meus sentimentos frescos da época, enquanto que “O Apocalipse” se trata da minha visão atual, de um jovem adulto, sobre o que aconteceu. É mais mastigado, mas com menções que permanecem em mim até hoje, mesmo após ter digerido e superado.