olá moça
recebi sua mensagem, e vou responder de forma micro e macro, assim como a sua existência. (a nossa existência, temos uma artéria escondida unindo as nossas lágrimas)
sua vitrine é admirável. preciso dizer que parei pra olhar diversas vezes. o vidro embaçado, as cores vibrantes atrás.
você vitrine, eu, pedestre. a vida segue como tem que ser, cada qual com sua exibição, ambos passageiros, renováveis, potencialmente tristes.
imagino a graça e a dor de ser vitrine.
olhares. amargos como o fim de uma existência assustadora, mas olhares. não deixam de ser olhares, em qualquer parte do mundo, em qualquer circunstância. medo, curiosidade, admiração, quem sabe tudo junto. imagino também a delícia de alguém passar com as pontas dos dedos nos teus vidros, desenhando corações e nomes de casais. é a delicadeza espontânea em cima de um monte de possíveis cacos. sempre possíveis, sempre impecáveis, vitrine.
aqui de fora eu vejo teu lindo cabelo rosa, teus olhos fortes, tuas palavras com cheiro de tardes aleatórias, às vezes sangrentas, ás vezes não. eu sou o cara que para e olha a vitrine, sem nunca entrar. eu tenho pressa em continuar o meu caminho, a cada passo que eu dou, tenho mais chances de esbarrar com pessoas avulsas e encontrar combustível pros meus textos melancólicos e crus. eu preciso continuar, sempre. independente de quantas vitrines eu deixe passar. eu, eu mesmo, tenho necessidade de passar.
mas queria que alguém gostasse de ficar, só pra não cair nessa rotina horrível. tudo o que vejo no passado e no futuro são costas e belas vitrines pelas ruas. mas gosto do que você expõe.
gosto das suas lágrimas expostas. é como se uma vitrine, pela primeira vez, me olhasse de volta.
eu sou o cara que nunca ofereceu a cara a tapa, mas sempre recebeu tapas. de todos os lados, de todas as mãos, de todas as formas. menos no sentido literal da palavra (até porque eu, logo eu, tão bonzinho)
eu sou o cara que nunca gritou com ninguém no supermercado, mas todas as vozes me parecem gritos. talvez o silêncio esteja me deixando medroso e louco.
talvez não estejamos assim, tão protegidos. você com seu cabelo rosa, eu com meu cabelo raspado. quem amaria uma vitrine? eu sei como é, só não sei como é ser. eu sou simplesmente um cara desconhecido encarando outros caras desconhecidos ouvindo música dentro do ônibus.
ninguém sabe (só você e o resto de um planeta mudo), mas eu me apego até mesmo aos carros que andam na minha frente. eu fico triste quando eles mudam de faixa.
que tipo de pessoa a gente é?
por que a gente sente as dores um do outro?
eu só sou o cara que te faz chorar. você é só uma vitrine olhando um pedestre. eu amo todas as pessoas que passaram por você e não te olharam. claramente, é sobre esse tipo de pessoa que eu escrevo. sobre pressa, sobre medo, sobre solidão, sobre amor, sobre mim. só sobre mim, num ego autossuficiente que faz cafuné em si mesmo nos dias de terça feira.
eu consigo me enxergar nos vidros da sua vitrine. isso é lindo, e triste.
temos algo em comum. tá tudo uma merda, sim, de fato, mas tá tudo bem.
você me olha de lá, eu te olho daqui,a gente se esbarra, a gente chora, eu te entendo, você me entende, a gente se cruza no meio da rua, eu encaro o seu cabelo rosa, você me ignora e segue com seu coração em pedaços, e eu também. tá tudo bem, moça, tá tudo bem.