Um pedido de desculpas específico
Hoje, encarei-me por um tempo a mais no espelho. Primeira pausa absoluta em frente ao reflexo, depois de tantos anos. Vieram-me milhares de coisas, menos eu. Fui buscar-me ali, e justamente eu não apareci. Vieram as distorções; o olhar apurou-se nos defeitos, mas eu não desviei nem abaixei. Fixei. Prestei atenção. Eu, simplesmente, fiquei, observei e pensei. Pensei tudo o que havia de ruim para pensar sobre mim. Até que, no meio do caminho, achei algumas coisas boas – poucas, mas as encontrei. Depois, calei-me. Calei os pensamentos. Somente o som do chuveiro desmantelado servia de trilha sonora para aquele embate dramático. Ainda assim, que silêncio carregado. E, pela primeira vez depois de tantos anos, eu disse: “Desculpa”. Soou estranho aos meus ouvidos, saiu esquisito dos meus lábios. Mas, de alguma forma, me pareceu certo dizê-lo, pois, naquele momento, eu precisava ouvir, e não podia ser de outra pessoa: tinha que vir de mim.
















