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o perigo é achar que dá pra me decifrar.
Não quero que minha vida seja um ciclo constante de recuperação de algo ou de alguém. Não quero que a recuperação seja a principal coisa que me define.
[...] meu coração abraçou permanentemente nossa história. Você nunca vai sair de mim.
Mais de mim
o céu ficou nublado depois da chuva e tudo parece mais devagar por dentro é nesse tipo de silêncio que eu me encontro de novo.
Tua voz - e principalmente o som da tua risada - sempre vão estão guardados na minha mente, na pasta de "melhores canções".
D.
Tem um excesso aqui dentro que não cabe em nada que eu saiba medir. Não é que me faltem palavras, é que elas sobram… e nenhuma delas sustenta o que eu sinto sem que no meio do caminho, algo se perca.
Falar é um exercício de perda. Escolher uma frase é, automaticamente, apagar todas as outras versões que também seriam verdade. E talvez eu não diga nada justamente por esse apego a tudo que eu queria que ficasse.
Porque dizer exige uma escolha. E escolher já é perder alguma parte.
E tem tanta palavra amontoada que já não cabe no momento, que não conversa com a vida como ela é agora, mas que eu mantenho. Não como uma proibição ou que eu esteja escondendo o que já tem forma em mim, é só que não encaixa. De repente, fica algo na minha mão.
Uma palavra. E algumas das minhas verdades.
O que eu faço com isso? Onde é que eu enfio uma verdade que já não tem pra onde ir?
É carregar algo inteiro sem ter onde colocar.
Sem um discurso bonito ensaiado no banho. Só algo bagunçado, atravessado, com pedaços que fariam sentido se conseguissem sair juntos, mas não saem. Porque na hora de transformar em frase, parece que tudo empobrece. Fica menor do que é.
E eu sei que parece medo. Às vezes é, eu não vou negar. Mas também é a sensação de saber demais pra conseguir fingir que não vai dar em nada. Porque eu sei o que vira quando deixa de ser só meu. O clima muda, o chão se desloca, a relação ganha uma cor que não sai mais na lavagem. Aos poucos, a gente entende que nem tudo o que é verdadeiro precisa ganhar o mundo. Algumas verdades são mais bonitas, ou pelo menos mais seguras quando não saem daqui.
Só que entender tudo isso não resolve o que fica. E fica.
Aparece no meio de uma conversa banal sobre o preço do café, no silêncio que estica um segundo a mais do que o socialmente aceitável, em coisas minúsculas que encostam na gente e trazem todo esse entulho de volta sem o menor esforço. É uma vida inteira que já aconteceu na minha cabeça, com começo, meio e fim, mas que nunca teve a permissão de existir aqui fora.
É estranho demais viver cercada de coisas que quase foram, sem nunca terem tido a chance real de ser.
Sobra só o excesso, sem destino.
E o pior não é a impossibilidade. O pior é entender que, agora, dizer chega tarde.
se a pessoa está bem sem você, fique bem sem ela também.
—MarcosFontes