Mudanças de perspectivas e finalização do blog
Deixo aqui meu comunicado sobre eu ter ficado afastada do blog nesses últimos meses e minha decisão de encerrá-lo.
Continuo tendo muitas das visões do feminismo radical e sou muito grata por tudo que pude enxergar e por quem conheci. Minhas mudanças de perspectivas atuais se dão a respeito dos movimentos feministas em si e brigas geradas exatamente a partir dessa divisão de “tipos” de feminismo e outros detalhes.
Minha intenção com o texto é ser clara sobre os questionamentos que tem passado pela minha cabeça, mas acho que os parênteses abertos ou qualquer conclusão que eu possa ter não necessariamente deve fazer sentido para quem está lendo e teve outras experiências, e eu respeito isso.
Obviamente cada grupo discute com posicionamentos diferentes até porque tem pensamentos muito diferentes. O que eu tenho pensado é que a insistência de sempre mostrar o quanto as outras estão erradas, ou é isso ou aquilo, ou reforçar cada vez mais nossas diferenças, às vezes pode acabar nos tirando a razão e até mesmo esquecermos (irracionalmente) de que nós somos mulheres.
Feministas liberais até dizem certas coisas que podem nos parecer não fazer sentido, mas por incrível que pareça, na cabeça delas, as motivações que as levam estarem ali são por “boas” causas (mesmo que nem todas sejam tão boas). Elas acreditam que dizer e fazer tais coisas é o certo a se fazer. E o mesmo acontece conosco. O julgamento que tantas radicais fazem de liberais - não estou dizendo que essas são livres de análise ou que não fazem o mesmo - parte de não se colocarem no mesmo lugar e com falta de empatia, ou até quando talvez não tomam alguma atitude da mesma intensidade para defenderem o que acreditam. Será que nós estamos criticando a ideia de rivalidade feminina, mas ao mesmo tempo criando mais rivalidade feminina?! É para se pensar.
Falo isso porque apesar do feminismo ter feito grande diferença em minha vida, em vários momentos me trouxe muita raiva, tristeza e desesperança; e tenho certeza que isso não é pra ser assim. Podemos ter consciência de muitas coisas mas às vezes a maneira que expressamos e lidamos com isso não é produtiva. Ainda mais se nos envolvermos continuamente com a ideia de que o mundo inteiro está errado e só nós estamos certas. Porque afinal: de que vale estar certa com informações paralisadas só em nosso círculo de amizades? Ou até mesmo acreditando em algumas coisas que podem limitar nosso desenvolvimento enquanto conjunto, ou até mesmo, humanidade? E se o mundo está errado, como estamos revertendo isso? Ou que atitudes positivas estamos tomando para tirar mulheres de situações miseráveis?
Tenho pensado cada vez mais em encontrar o ponto de intersecção entre cada uma de nós e não nossa separação. É claro que pessoas que acreditam em gênero como identidade, prostituição como escolha, ignorando as construções e condições sociais impostas a cada sexo, podem não estar abertas a outras ideias. A coisa é que: se estudamos e entendemos o processo sociológico de como uma coisa leva a outra; alimentar rixas de internet e gastar horas respondendo textões passivo-agressivos não vai mudar as crenças de quem não está disposto a conversar, nem mesmo a realidade dos protagonistas dessas histórias.
Junto a tudo isso, também me chegaram outros questionamentos sobre a teoria e a prática. Como fazer essa grande diferença que tanto queremos ver? Mas afinal, também, o que nós realmente queremos ver? O que eu quero ver é o mesmo que você que está lendo quer ver? O que estamos fazendo para chegar aos nossos objetivos? O comportamento e a linguagem que estamos usando nos afasta ou nos aproxima do lugar que queremos chegar?
Eu concordo que as palavras inventadas pela teoria queer são complicadas para serem inseridas no contexto atual, mas o “academês” do feminismo radical também é tão complicado quanto. Quem são as mulheres que estão lendo esses textos? Que mulheres estão compreendendo o que está sendo escrito? Qual é o alcance desses feminismos? Também me pergunto: assim como milhões de pessoas não sabem definir exatamente o que é gênero, como vão ter acesso às causas das complicações que estão por trás dele? Os pais dominados pela ideia do que meninos e meninas “tem que usar ou fazer” influenciam enormemente nas causas de disforia e não identificação da criança. Mas quem está falando sobre isso? Quem está falando sobre a influência e o lucro capitalista das indústrias de beleza, farmacêuticas, midiáticas e hospitalares em torno de algo tão delicado que agora vem se tornando somente questão de saúde com justificativas simplistas? Em que lugares estamos discutindo esses assuntos com seriedade? Ou sendo compreensivos que em algumas situações, para a fuga de episódios misóginos e homofóbicos, a solução menos dolorosa que algumas pessoas tomam é de tentar combinar sua própria personalidade com aquilo que a sociedade acharia mais adequado?
Representatividade também é um assunto extremamente importante, e que tem total conexão com esse ponto. Porque se não existem histórias como as nossas, a gente pode buscar se encaixar em outras só porque aquilo que existe em nós não é mostrado como uma possibilidade de sucesso. Quanto mais a gente vê algo, mais a gente acha possível, tanto coisas positivas quanto negativas. Podemos pensar em exemplos do que vemos em nosso dia a dia em pessoas, livros, propagandas, programas de tv, redes sociais (os valores que essas coisas passam) e como a gente encara várias coisas como verdade só porque estamos constantemente nos deparando com aquelas informações. Precisamos observar mais se os meios que têm nos mostrado representações realmente condizem com o que a gente acredita, quer acreditar e com a realidade que a gente vive. Nós temos que materializar nossas próprias representações, visões de mundo e criar conteúdos que tenham tanto êxito quanto os que estão sendo criados. Assim, seria possível atingir tantas pessoas que estão desistindo ou mudando suas histórias só porque não acham que elas seriam dignas de existirem.
Ter consciência de que somos condicionadas a milhões de coisas, e que podemos tomar nossas próprias decisões foi uma grande chacoalhada que o feminismo me deu e eu sou grata por estar vivendo da maneira que me convém através dele. Umas das coisas que hoje eu acredito é que a conscientização deve ir se espalhando se soubermos nos comunicar melhor, não como a feminista tal ta tal, mas como uma mulher que sabe o que outra mulher está passando ou que tem compaixão o bastante pra apoiá-la e instruí-la, direta ou indiretamente, mesmo sem nunca ter vivido aquela situação específica. -💖












