Saudade
Um dia, eu disse a um amigo que sentia a falta dele. A resposta foi a mais inesperada possível:
-Eu não sinto a sua falta. -Ele disse deliberadamente. -A gente só sente falta daquilo que é presença. Quando a presença não existe mais, fica a falta, preenchida por vazio. Mas nós não temos presença há anos, então não há nada que precise ser preenchido. Não há nenhum espaço vazio.
Li a mensagem duas vezes depois de me sentir ofendida, mas me permiti entender. E aceitar que, na verdade, eu não sentia a falta dele, porque tudo na minha vida estava certo. Ou relativamente. Faculdade, família, trabalho, relacionamento...
Não era a falta dele que eu sentia. Era só um imenso carinho pelas lembranças de tantos anos atrás que não podiam mais ser vividas da mesma maneira, porque a vida não é mais a mesma.
Mas depois aprendi sobre a falta. Eu senti falta quando meu relacionamento - apesar de ruim - acabou. Eu senti falta quando tranquei a faculdade de um curso que adorava porque meu trabalho - que, diga-se de passagem, também era péssimo - não estava permitindo que o meu estudo existisse. Senti falta quando meu pai se tornou uma pessoa completamente diferente da que eu havia conhecido e, consequentemente, nos afastamos. Senti falta dos meus colegas de empresa que faziam os meus dias possíveis de viver, fazendo minha barriga doer de tanto rir. Tudo isso era uma presença absoluta que ficou preenchida por vazios.
Mas há um tempo tão longo que não consigo contar, passei a sentir falta de algo que ainda não entendo: de mim. Como é que posso sentir falta de mim mesma?
Dizem que isso acontece quando você se perde. Então vamos à terapia e fazemos uma retrospectiva da nossa vida: nossa infância, o trauma que quase todo mundo carrega (cada um à sua maneira), a adolescência, a vida adulta... Analisamos cada pedaço de tudo, para entender em que lugar ficamos. Em que lugar o meu eu ficou e o resto seguiu, sendo tudo que não sou. Mas foi mesmo em um lugar? Às vezes, sinto que não.
Sinto que o meu eu, o meu eu verdadeiro, se perdeu em vários lugares diferentes. Cada um deles com um pedacinho de mim. Um lá na infância, outro na pré adolescência, outro na adolescência propriamente dita e outro na vida adulta. Mas a gente não nota as pequenas faltas até não sobrar completamente nada. É só quando paramos para nos olhar, nos olhar de verdade, que não entendemos mais o que estamos vendo. Que há um estranho bem ali, no reflexo do espelho.
Daí a falta. Quando isso acontece, abro a minha galeria de fotos e olho tudo que tenho de anos anteriores. E me lembro de como me sentia, dos sonhos, da vida dentro de mim e ao meu redor. E que nada disso existe agora. Só que a vida não nos dá um mapa com o caminho de volta. Fica por nossa própria conta e risco, e às vezes - muitas delas -, não conseguimos encontrar a direção.
A gente procura e procura e procura e parece que é um maldito labirinto. Um labirinto cansativo, que nos faz querer desistir.
Mas quando eu achar a saída - e aposto, você também vai -, esse texto não vai mais ser sobre falta. Vai ser sobre o quanto amei me ver de novo, me encontrar outra vez, viver comigo para sempre.
Porque perder a qualquer um ou qualquer coisa é inevitável.
Mas perder a si mesmo... É fatal.













