Investi um puto algum no aluguel desse vazio. Foi um sítio nativo que alugaram pra eu ser sem me pedir escolha em troca. O ter-lugar na linguagem faz com que eu me adapte pra deixar caber minha miséria imaginada na experiência-fronteira da palavra. Só que nunca para por aí. Para transbordá-la vou ter de morrer na praia de overdoses. Porque a fala não acaba, as palavras vão tecendo redes venosas em véus que se eu me penduro me esborracho todo, e no raso do sonho mesmo. Se a trama é tensa subir ao complexo fica foda. A linha arqueada do tesão, por lassidez intensa, custa a se agregar a outros tremores que lançariam o desejo pro alto detonar. Ou seja, é tombo incerto na certa. É preciso se forjar de armaduras, envolvimentos sutis, desgrenhar a linha tênue que trunca palavras em nós fáceis. Não tem boca, o papel do poeta é o chão. Suas asas estão farpadas. Se caso eu queira disfarçar beleza ou charme com a queda, tudo bem, mas não adianta. Vai ser só pra mim, a gente se acha mais foda e feio do que é. Pode crer. Para destruir a linguagem é preciso elaborá-la em bolos de quase merda imaterial, advindos de alimentos reais, que de tão leves viram pássaros vegetais, tapetes de barro voadores modelando viagens. Pros outros, o rasgar do frágil véu não passa de um bem-feito seguido por uma visão de um risinho cínico-chorão. Por dentro nosso charme parece o que não é. A esteira da linguagem não para de maquinar aparelhos que desenham o risco, e assim uma hora outra a gente bamba e morre nessa neura e a esteira espiral continua. Agonizando em êxtase e estilo. Será que assim o lugar do vazio tá pago? Nesse tecer, rasgar, subir se envolvendo e descer até a morte? Vazio que cobra por cada curvada de página, por cada vômito de cerveja, por cada capotamento nas estradas do impulso, um ardor nas costas de ter o tempo a toda obra invertendo as asas pra dentro. Ele força um pouco até entra mas o resto sai rasgando feito faca cega da própria serra. O tempo é indiferente, relaxa. O vexame é o trabalho do poeta. Sou a flecha cujo alvo é o arco. Sou a decomposição referenciada em tempo-corpo. Mas a linguagem tá fora disso. A tagarela mental não para de curvar a si mesma. Ela continua perecendo e ressuscitando vícios e cristos ao infinito. Infinito arco vazio, sítio silente-luminoso das formas disparadas que se agregam, armam, saltam, giram em torno de símbolos para dar voz de estrela ao vazio. Enquanto formigas retrabalham o pensamento em pústulas cristalinas, labirintos coagulados de sangue, carniças coloridas vestindo vontades matriarcas cobrindo minotauros sonolentos. Ali onde todo ponto é o centro, cego de si mesmo me sento, além. Deito iludido pelos símbolos na cruz de giz do palco íntimo, exposto às narrativas que me enterram tensões diante dos outros, assistindo tudo de dentro de suas escuridões: o lugar vazio onde acontecendo eu me desaconchego. Cantando o que vai me constituir. Anuncio ao porvir um descontexto prévio. Infiltro a falta de rumo no fazer. Verto hipnóticos debaixo da língua pra vertigem me engolir à garganta acesa de uma caneta fugitiva. À espera de uma terceira mão-vagabunda que leia minhas mais profundas pupilas e camadas de pele e página-limpa e traga às outras duas um naufrágio-vivo. À espera de uma pessoa fantasma inquilina de uma camada minha lá embaixo onde o ritmo flui e eu posso verter no corpo todo a fome de escorrer do rio. Escrever aproxima alegria ao terreno. Escrever espuma a epilepsia das ondas emocionais nas costas da indiferença. Ondas que sinto e não dizem respeito a mim, mas à capacidade de vibrar que o vazio tem quando espelhado em formas. Lugar vazio de intermináveis possibilidades que me alugaram sem me avisar. Onde tudo é centro. Porém, ainda sim sou obrigado a pagar e partir. Do jeito que der, ir a outro ponto sem saída, que seja com olheiras oriundas de poesia. De tanto contemplar as grades? De tanto tocar no assunto com as pedras do corredor? E viciar no inconsolável? Esse tráfego de palavras que espero um dia serem líricas minam antigos esquemas de representação. Pago o vazio retrabalhando inútil a rutilância dos halos sombrios que os forma. Pagar não me serve de nada. Só sirvo ao vazio como moenda de troca entre a vida e a morte, o dia e a noite. De dia o sol se põe no copo e um monge em chamas se embebeda e pronto, vai trabalhar a noite. De madrugada o vazio toma a voz de um sussurro truncado em remédio e ninguém dorme. Escrever inclui no esforço o imprescindível fracasso da harmonia do controle.